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EU, ODIADO

 

Esse fato já aconteceu há algum tempo, mais precisamente no dia 03/02/2015, às 20:45. Contudo, só agora, depois de ter a certeza de que não me deixaria levar por um sentimento menor, resolvi tecer alguma consideração a respeito, mesmo porque esse é um período – natalino – que favorece esse tipo de reflexão, quando o fazemos sem nos deixar levar pelo ódio e pelo espírito de vingança.

Pois bem. No dia e hora acima mencionados, recebi no meu blog – joseluizalmeida.com – a manifestação de um leitor, à guisa de comentários, no mínimo deselegante e desumana, a qual resolvi hoje compartilhar com os meus amigos e com aqueles que, mesmo sem ser amigos, me conhecem e sabem – pelo menos é o que penso – que não sou do tipo descrito nos comentários, sobre os quais me deterei a seguir.

Nos comentários em referência, o leitor – ou inimigo, sei lá! -,  cujo nome não vou mencionar porque não sei se é verdadeiro ou falso, me chama, dentre outras coisas, de desumano e injusto, além de ser odiado por todo mundo, inclusive pelos funcionários do Tribunal de Justiça, o que me causou grande estupefação, pois, afinal, tendo capacidade de discernimento, não é isso o que constato no meu dia a dia.

Nos mesmos comentários, o anônimo – ou não tão anônimo assim – diz, ademais, que a sociedade me tem em conta de um tirano, um homem mau, pessoa ruim. Em seguida, insiste em afirmar que, no meu local de trabalho, sou uma unanimidade, ou seja, odiado por todos.

Noutro fragmento – e aí coloca no mesmo nível todos os julgadores da minha câmara -, diz que a 2ª Câmara Criminal, na qual atuo, é uma câmara de gás, comparando-nos, com essa qualificação, a Hitler, aduzindo, de mais a mais, que até mesmo Jesus Cristo, se fosse julgado por nós, morreria na cadeia. Não satisfeito, depois de reafirmar que não passo de um tirano, deseja para mim um bom lugar no inferno.

Tais comentários, como se vê, são uma agressão a minha pessoa, não só como magistrado, mas também como homem de família, Tais comentários, porque os entendo injustos, bem assim os adjetivos assacados contra mim, me deixaram agastado, conquanto, para amenizar, me visse tentado a fazer, em face dele, um juízo crítico de compreensão, para concluir que o agressor, seguramente, é alguém que não tenha sido beneficiado por uma decisão da minha lavra, o que lhe retira a isenção do julgamento que faz.

Anoto, todavia, que, por ser homem público e por já ter me sentido injustiçado em outras oportunidades, procuro lidar com as críticas com toda a isenção possível, tentando sorvê-las como algo inevitável, em face do exercício das minhas atividades, mesmo porque não há homem público que escape das críticas, muitas das quais graciosas.

Quero deixar consignado, no entanto, que o missivista comete um grave erro de avaliação quando generaliza, ao dizer que a sociedade me odeia, pois imagino que isso seja apenas fruto de sua mente, obliterada em face de algum interesse contrariado, afinal, ninguém lança críticas tão mordazes a alguém, senão em face de um sentimento menor.

O que me apraz, o que me conforta, o que me coloca de pé e me fortalece é a certeza de que não é essa a imagem que as pessoas que me conhecem têm de mim. Não sou santo, erro aqui e acolá, cometo injustiças, mas nunca o faço por vendeta ou por maldade, movido pela má-fé.

Importa consignar, a propósito, que tudo na vida depende dos olhos de quem vê, motivo pelo qual Protágoras dizia, com sabedoria, que o homem é a medida de todas as coisas. Também por isso, os mais renomados pensadores reafirmam que a interpretação dos fatos depende do ponto de observação do interprete, de seus valores, ideologia e idiossincrasias.

Aliás, para emprestar uma conotação literária ao tema e para ratificar que o resultado da interpretação depende do intérprete, relembro uma passagem do romance Helena, de Machado de Assis, na qual Estácio e a própria Helena refletem sobre a passagem do tempo, com visões diferentes.

Estácio – A riqueza compra até o tempo, que é o mais preciso e fugitivo bem que nos coube. Vê aquele preto que ali está? Para fazer o mesmo trajeto que nós, terá de gastar, a pé, mais uma hora ou quase.

Helena – Tem razão. Aquele homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isso simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o desperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muita coisa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto, o mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se cativo. É uma hora de pura liberdade.

Como entremostra o diálogo, tudo depende do ponto de vista de cada um. A vítima de um crime de roubo, por exemplo, decerto se sentirá feliz com uma decisão que mantenha preso o seu algoz; enquanto este, sua família e amigos, decerto se sentirão ultrajados em face da denegação de um habeas corpus, que o faria retornar ao convívio social e, quem sabe, cometer novos crimes. Numa ou noutra hipótese, alguém ficará contrariado, e o juiz, claro, é quem arca com as consequências da decisão, para o bem ou para o mal.

DOIS FATOS, DUAS REALIDADES E UMA CONCLUSÃO

Fato nº 1. Local da ocorrência: Montreal, Canadá.

Neste ano, fiz uma viagem ao Canadá com um casal de amigos dos mais queridos. Passamos por várias cidades, e cada uma nos marcou em face de alguma peculiaridade ou de alguma particularidade, decorrentes de um fato marcante, quer pelo inusitado, quer pela lição assimilada.

Em Montreal, recebi a lição mais marcante da minha vida, quando, num certo dia, no período da tarde, com o sol ainda sobre a cidade, retornávamos ao hotel, depois de uma longa caminhada a pé, como gosto de fazer quando viajo.

Éramos quatro pessoas, como disse acima; dois casais, com efeito. Todos nós, apesar do cansaço, estávamos muito descontraídos, comentando o passeio realizado, sorrindo de alguns episódios hilários e programando o que fazer mais tarde.

Estávamos os quatro do outro lado da avenida, lado oposto ao hotel. Logo, para chegarmos até lá, tínhamos que atravessar a pista que, inclusive, estava parcialmente interditada. Imaginando que isso facilitaria a travessia, mesmo porque não parecia ser uma artéria de muito movimento, não hesitamos em atravessar a avenida, tão logo percebemos que não havia fluxo na parte não interditada, cuidando em fazê-lo como se estivéssemos aqui no Brasil, sem nos preocuparmos com o semáforo. Só depois, constatamos que ele estava vermelho para os pedestres, o que para nós era apenas um detalhe, já que, repito, não havia fluxo de carros a impedir a travessia com segurança.

Corremos os quatro, ávidos por chegar, tomar um banho e sair para jantar. Contudo, fomos surpreendidos, inobstante, com o inusitado: um policial de trânsito, falando em francês, nos abordou na porta do hotel e nos obrigou a retornar ao outro lado da pista, para, de lá, aguardar que o sinal luminoso verde se acendesse, para, só então, atravessarmos.

Pelo fato de eu não falar francês, fiquei sem entender nada, no primeiro instante. Ainda bem que a nossa acompanhante, que conhecia a língua, nos informou que fomos obrigados a retornar ao ponto inicial da travessia, para que aprendêssemos que não se atravessa rua sem que o sinal autorize a fazê-lo, ainda que não venha carro.

Foto 02. Local da ocorrência: Praia do Araçagi, São José de Ribamar, Maranhão

Saí de casa, 02/11, dia de finados, por volta das 10h da manhã, para, com minha família, jogar vôlei naquele local.

Como a maré estava cheia, e os poucos espaços que ainda restavam aos banhistas estavam tomados de barracas, escolhemos um pedaço de praia, entre duas delas, ambas incrustadas nas areias, para que a rede de vôlei fosse armada.

Mal começamos a levantar a rede, fomos surpreendidos com o dono de uma barraca – de uns sessenta e poucos anos, baixo, mal-humorado e grosseiro -, o qual, aos gritos, se aproximou e determinou que saíssemos de lá, porque ele – pasmem! – havia proibido jogo de bola naquela área.

Aproximei-me dele para apresentar a única defesa que me ocorreu na hora. Indaguei se ele tinha comprado aquele pedaço de praia. Ele me olhou e disse, espumando bela boca:

-Vou ali e volto já para te mostrar quem manda aqui.

Ficamos apavorados, mas insistimos em armar a rede, embora sem clima e com receio de que ele aparecesse a qualquer momento e nos fizesse algum mal.

Enquanto uns jogavam, os outros ficavam à espreita, observando, preocupados, as reações do “dono da praia”, que ficou distante, só observando, destilando veneno pela boca e fumaça pelo nariz.

Algum tempo depois, o inevitável aconteceu: a bola resvalou e foi na direção do bar da indômita fera. Ele ameaçou cortá-la e passou a nos ameaçar.

Senti-me impotente diante daquela situação. Decerto que não havia um carro de polícia ali, mas, ainda que tivesse, eu não chamaria. É que, se o barraqueiro (no sentido de aquele que levanta uma barraca) fosse preso, eu ainda poderia ser tachado de arrogante e acusado de “carteirada”, razão pela qual preferi não me expor.

Além do mais, a “carteirada” não me apraz. Uma prova disso é que, num outro final de semana, eu já havia sido destratado por outro barraqueiro, que determinou que eu tirasse meu carro de perto da barraca dele, pois estava atrapalhando as vendas, mas nem assim reagi; contudo, não tirei o carro do local onde estava estacionado.

Não adianta reagir, nem é prudente, nesses casos, chamar a polícia, pois sei que a imagem que se tem de autoridade em nossa terra é a pior possível. Logo, mesmo que eu estivesse certo, razão eu não teria aos olhos da opinião pública e seria acusado de ter humilhado um barraqueiro, de ter feito valer a minha condição de autoridade.

Sendo assim, decidimos – eu e meus parceiros de vôlei – que o melhor seria acabar com o jogo e voltar para casa. Afinal, admitamos ou não, ele e os demais congêneres são mesmo os donos da praia, conforme já tive oportunidade de veicular nas mídias sociais em outras oportunidades.

Mas se engana quem pensa que fiquei com raiva do “dono da praia”. Aliás, na minha página, no Facebook, a propósito do episódio, eu consignei, depois de narrar a ocorrência, num artigo que intitulei “A Raiva Certa”, invocando uma passagem de um romance de Philip Roth, que, curiosamente, não fiquei com raiva do barraqueiro. Fiquei com raiva mesmo foi de quem, tendo a obrigação de fazê-lo, não disciplina o uso do espaço urbano.

Em face desses dois episódios, vivenciados por mim em dois mundos tão diferentes, fica fácil concluir por que somos um país de terceiro mundo.