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O viés patológico da emulação
Nas sessões dos Tribunais e das Casas Legislativas os desentendimentos vão além do campo das idéias.
Muitas vezes, importa dizer, são divergências pessoais mesmo, que regam e fazem vicejar inimizades hepáticas, encarniçadas, daquelas que não permitem uma reaproximação, um bom dia, um até logo, uma convivência pacífica e cordial, enfim.
Nos dias atuais, em face da transmissão das sessões dos Tribunais e das Casas Legislativas pelos veículos de comunicação, todos nós temos acesso a esses desentendimentos, alguns dos quais repugnantes.
Importa refletir que se essas discordâncias frutificassem apenas no campo das idéias, nada seria mais natural. Todavia, não é o que ocorre, muitas vezes - infelizmente.
O lamentável nisso tudo é termos que admitir, porque a olhos vistos, que muitas dessas divergências são de cunho pessoal, de ego, de pura vaidade – de arrogância, de prepotência, muitas vezes.
É necessário que se compreenda que se essas divergências afloram especificamente nas casas judiciais, se alcançam o paroxismo, se chegam à intensidade de um vulcão em erupção, delas decorrem, inelutavelmente, graves e, muitas vezes, irreparáveis prejuízos aos litigantes e à própria coletividade - dependendo, claro, do grau de interesse colocado em jogo.
Há, sim, não se pode negar, confrades que divergem por espírito de emulação e são capazes, até, de votar em desacordo com o desafeiçoado, só para não dar a ele o gostinho de estar na balada certa, ainda que terceiros sejam prejudicados em face dessa ou daquela deliberação. Isso se chama falta de espírito público, falta de humildade; insolência, coisa vã, prepotência - também.
Na política, costuma-se ver, com certa frequência, o poderoso de plantão desconstruir a obra do adversário, por pura sacanagem, por vendeta, por vingança, objetivando, enfim, amealhar dividendos políticos, pouco se importando com as conseqüências do agir para o conjunto da sociedade.
Nas corporações, não é diferente e, sejam elas quais forem elas, também vicejam as mesmas condutas equivocadas, em face das idiossincrasias de alguns dos seus membros, despreparados para decidir coletivamente e para reconhecer o êxito de um colega, como se fosse pecado acertar, como se fosse leviano ser bem avaliado, sem respeitado e acreditado.
Lembro ter lido, num desses sítios que fazem menção às chamadas pérolas jurídicas, que, numa determinada Comarca, com duas varas, vários processos foram chamados à ordem, desnecessariamente, por um magistrado que substituiu o colega que estava em gozo de férias. A notícia dava conta de que os dois magistrados tinham sérias divergências pessoais; divergências, portanto, que iam muito além do campo das idéias, da interpretação dos textos legais. Por isso, sempre que um podia, tentava macular a imagem do outro, razão pela qual, nesse caso específico, o magistrado substituto danou-se a chamar os feitos do magistrado substituído à ordem, sem nenhuma mácula a contaminá-los, só para demonstrar, a quem pudesse interessar que, diferente do que parecia, o magistrado substituído não era tão esmerado assim, não era tão competente como fazia questão de apregoar nas rodas de bate-papos.
Claro que essa atitude se traduziu em perdas para a população – e para o erário – vez que foram refeitos, reproduzidos atos que, de rigor, não precisavam ser refeitos; e, depois, outra vez refeitos, com o retorno do titular.
É que, ao retornar das férias, o juiz titular da vara, sem pensar duas vezes, tornou sem efeito todos os despachos esquisitos do colega que o substituiu – sem perder a oportunidade de consignar nos autos o erro do colega, objetivando, da mesma forma, menoscabar, depreciar a sua imagem.
Essas divergências, que encontram terreno fértil nas corporações, beneficiam, no caso específico do Poder Judiciário, os infratores, os malfeitores, os litigantes de má-fé, os que fazem apologia da alicantina, quase sempre em detrimento do interesse público.
Juiz que diverge de promotor por questões menores, promotores que discrepam de juízes em benefício do próprio ego, integrantes de uma Corte de Justiça que se digladiam por questões de somenos, contribuem, sem dúvidas, para o descrédito das instituições e fazem a festa dos calhordas, dos que não querem que as instituições se fortaleçam, que funcionem a contento. Para esses, quanto mais as autoridades divergem, quanto mais os egos se inflamem, mais pavimentado fica o caminho para que passem à ilharga das dos órgãos persecutórios.
Compreender e ser compreendido
As pessoas não conseguem, definitivamente, compreender as outras – por má-fé, maldade ou incapacidade mesmo.
Essa incapacidade das pessoas de compreenderem o semelhante é mais exacerbada nas corporações.
Ao lado da incompreensão, nas corporações viceja o mais deletério e nefasto de todos os sentimentos: a inveja.
A incompreensão, muitas vezes, decorre da cegueira de algumas pessoas, exatamente porque estão impregnadas desse sentimento menor e danoso chamado inveja.
Sobre inveja já refleti. Já mostrei, em artigo publicado na imprensa e neste blog, o quão deletéria ela pode ser – e quase sempre é – numa corporação.
Mas eu dizia que as pessoas têm uma proverbial “incapacidade” de compreender o semelhante.
Vejamos alguns exemplos de incompreensão, em face das minhas posições; exemplos, anoto, tirados ao acaso, apenas para dar ênfase aos meus argumentos.
Quando vou à imprensa – ou ao meu blog – e digo que o Poder Judiciário tem uma imensurável dívida com a sociedade, acham que estou depondo contra o próprio Poder. Não compreendem que apenas constato um fato. Trata-se, nesse caso, de pura cegueira, de não querer ver o óbvio. Essa cegueira, por óbvio, se potencializa em nossa corporação, porque, nós, juízes, temos, no mínimo, que saber discernir.
Muitos não conseguem vislumbrar, ademais, que, quando dou esse testemunho, a propósito da nossa dívida para com a sociedade, estou apenas clamando, apelando, enfim, para que redirecionemos as nossas ações, reavaliemos os nossos conceitos, assumamos a nossa falibilidade e a nossa incapacidade de atender às expectativas da sociedade.
Entendo que, exercendo uma função pública, podemos – e devemos – discutir essas questões publicamente e não entre quatro paredes, como se não tivéssemos a quem dar satisfação.
Vou adiante nas minhas reflexões.
Quando, obstinadamente, tratei, com o necessário rigor, na primeira instância, os meliantes violentos, houve quem argumentasse que, com isso, eu pretendia agir como justiceiro, que eu pregava o “Tolerância Zero”, o “Direito Penal do Inimigo”, ou que era caudatário do Movimento Lei e Ordem. Muitos não se deram conta que, quando assim procedi, o fiz prestando um tributo ao Estado de Direito e às pessoas de bem, e que, ademais, conquanto rigoroso, nunca fui arbitrário, pois que sempre fui um obstinado defensor da observância das franquias constitucionais dos acusados.
Agora, em segunda instância, quando redimensiono as penas infligidas e condeno a exacerbação punitiva, sou criticado por acharem (alguns, claro ) que, aqui, assumi uma postura diametralmente oposta a que tinha quando juiz de primeiro grau, o que é uma inverdade. Esquecem os críticos, quiçá por maldade, que, enquanto julgador do primeiro grau, tive sempre o cuidado de motivar as minhas decisões, especialmente quando majorei a resposta penal além do mínimo legal, o que, infelizmente, não tenho constatado no segundo grau, em face das matérias devolvidas pela via recursal.
Vou adiante.
Quando me predispus a fazer audiências pela manhã e à tarde, na judicatura do primeiro grau, sobretudo na (antiga) quarta entrância, quebrando o paradigma que vigorava, concluíam os maldosos que o fazia almejando uma promoção para o segundo grau, o que cuidei de desmistificar, quando renunciei, publicamente, à promoção por merecimento.
Os críticos nunca foram capazes de compreender que sou apenas – ou tento, pelo menos – um tenaz prestador de serviço público, que nada mais fez – e faz – que cumprir a sua obrigação.
Agora, estando no segundo grau, continuo agindo da mesma forma, ou seja, continuo dando expediente pela manhã e pela tarde.
A propósito, o que dirão, agora, os “especialistas”, diante da constatação de que, passados mais de 26 anos de judicatura, continuo exatamente o mesmo?
Os exemplos que acima mencionei, tirados ao acaso, visam, tão somente, dar sustentação ao que antecipei acima, ou seja, que o ser humano, podendo, prefere não compreender o outro, e que essa incompreensão se potencializa, sim, dentro das corporações.
Compreender e ser compreendido, eis a questão
Eu (não) faria tudo outra vez
Há vários anos escrevi, neste blog, uma crônica com o mesmo título.
Nela pretendi consignar que, diferente dos arrogantes, por diversas vezes me vi diante da seguinte constatação: se a mim me fosse dada outra oportunidade, eu não faria tudo que fiz outra vez.
É que, olhando pelo retrovisor, vejo que muitos equívocos foram cometidos na minha trajetória; de relevo anotar, nada obstante, que, dentre os erros que cometi, não está o da corrupção.
Eu não enriqueci – nem lícita e nem ilicitamente.
Eu nunca negociei uma decisão.
Mas, devo confessar, algumas vezes me deixei levar pela emoção e pelos meus preconceitos.
Todos nós, não se há de negar, somos levados por ideias preconcebidas, decorrentes, muitas vezes, de uma equivocada pré-compreensão das coisas que estão em torno de nós.
Apesar dos meus equívocos – que foram muitos, importar consignar – quando os constatei, algumas vezes a destempo, cuidei de mudar a direção.
Não é despiciendo consignar, com Luis Barroso, que os juízes não são seres sem memória, não estão libertos do seu inconsciente, razão pela qual, em suas decisões haverá, sempre, uma dose de subjetivismo.
O importante, pois, é corrigir a direção, aceitar que errou e que, por isso, merece ser punido, ainda que o seja só pela sua própria consciência.
E por que faço essas reflexões?
O faço apenas para deixar claro que, como os meus colegas, eu também protagonizei ações das quais não me ufano.
É que sou igualzinho a todo mundo; todavia, parafraseando Kant, a minha moral é autônoma; a minha moral, portanto, não é igual a do meu congênere.
O que me constrange , pois, pode não ser o mesmo que constranja um congênere.
Nessa linha de reflexão, importa anotar que o que me faz refluir pode não ser capaz de fazer recuar um colega.
Luis Roberto Barroso, no artigo Direito e Paixão, disse que a paixão que o move, na academia e no mundo universitário, é a paixão intelectual, a paixão pelo conhecimento, para, no mesmo artigo, citando Mangabeira Unger, consignar que a tarefa do pensamento é confortar os aflitos e afligir os confortados.
As linhas que agora produzo – quase incompreensivas, parecendo sem rumo e sem direção – não têm outro objetivo que não seja confortar o meu coração aflito, em face de tudo que se tem noticiado, nos últimos dias, acerca do Poder Judiciário.
Confesso a minha incapacidade de não me indignar quando leio notícias que levam ao descrédito o Poder Judiciário.
Não posso crer que haja quem, no âmbito do Poder Judiciário, não se sinta contristado com os últimos acontecimentos protagonizados por alguns dos seus mais destacados membros.
Dissimulação
Há pessoas peritas, experts, na arte da dissimulação; outras, nem tanto. Algumas pessoas, todos percebemos, são tontas. Essas são incapazes de disfarçar. São babacas, tolas. Denunciam-se ao primeiro flagra. Todavia, ainda assim, dissimulam – ou tentam, pelo menos.
Confesso que, apesar dos meus cinquenta e oito anos de experiência, sou facilmente flagrado quando minto ou quando faço uma bobagem. Se minto ou faço uma travessura, não tenho dificuldades em me “entregar”. Mas, também, como qualquer pessoa, dissimulo, conquanto o faço sem muita convicção. É que sou um dos muitos tolos, semelhante àqueles aos quais fiz referência acima.
A verdade é que sou inábil, incompetente na arte de mentir, de dissimular, conquanto admita que, algumas vezes, me saí até melhor do que esperava. É dizer: fui além da minha capacidade. Contudo, não me ufano por isso.
O meu sucesso nessa “arte”, registre-se, dá-se , apenas, em face da mentira boba, da dissimulação sem resultado danoso, daquelas que não produzem consequências relevantes, das que se mostram necessárias para garantir uma relação, uma amizade, a coabitação, o conviver, o compartilhar.
A vida nos ensina – e nos compele, no mesmo passo – a, diante de determinadas circunstâncias, dissimular. Essa é a mais luminosa verdade. Todos dissimulamos, em determinadas circunstâncias.
Contudo, ter-se-á de convir, dissimula-se para o bem e para o mal.
Exemplo: o roubador, quando pretende assaltar, dissimula. O fingimento do assaltante, não obstante, é para o mal, para pegar a presa desprevenida.
Nós, outros, quando tencionamos nos livrar de um aborrecimento, também dissimulamos; a dissimulação, nesse caso, é necessária e aceitável. Dissimula-se, nessas circunstâncias, sem a perspectiva, sem a pretensão, enfim, de fazer o mal.
O certo é que, para o bem ou para o mal, vivemos dissimulando. Dissimular, muitas vezes, é uma necessidade que flui das relações entre pessoas.
Eu dissimulo, tu dissimulas, ele dissimula – nós dissimulamos, enfim. Essa é a conjugação do verbo.
Nessa linha de pensar, importa consignar que, em razão do conviver, há exemplos vários de dissimulação, utilizadas em nome da elegância, da cordialidade, para preservar uma relação ou, pura e simplesmente, para uma satisfação interior.
Desse tipo de dissimulação, todos nós, em determinado momento, somos protagonistas. Eu sou, tu és, ele é. Somos nós. Uns com arte; outros, nem tanto.
Por ocasião de uma visita, daquelas sem hora para encerrar, não é incomum fingir-se “lamentar” a decisão da visita incômoda de ir embora e pôr termo ao desconforto, quando, em verdade, gostaríamos mesmo era de dizer: já vai tarde.
Nesse caso, dissimulamos para o bem da relação. Não faz mal. Não ofende. Não magoa. Preserva a amizade e espanca os incômodos, próprios de uma visita sem limite de tempo.
Da mesma forma, quando se ouve uma pessoa dizer, sem a menor convicção, que não está nem aí para o que dizem dela, pode ter certeza que ela está muito aí, sim; está mais aí do que se imagina. Mas ela prefere dissimular, numa vã tentativa de se enganar.
Não é incomum ouvir um interlocutor dizer, depois de uma acirrada discussão, que não retira uma só palavra do que disse, quando, em verdade, está profundamente arrependido de, sem pensar, ter dito o que não diria em condições emocionais normais.
Nessa ordem de ideias, pode ocorrer, ao reverso, de, depois de uma alfinetada num desafeto, o contendor, com ares de arrependimento, desculpar-se dizendo que não pretendia ofender, muito embora a sua verdadeira intenção tenha sido mesmo de ofender. Contudo, diante do desconforto, propiciado pelo que disse, prefere dissimular, ainda que o faça sem a mínima convicção.
Quantas vezes, numa discussão entre casais, ouvem-se um dizer para o outro: “Tu morrestes para mim”. Essa afirmação, no entanto, pode não retratar o verdadeiro sentimento do autor da frase. Pode ser puro mimetismo, pura dissimulação. Pode ocorrer que, verdadeiramente, o autor da afirmação continue amando profundamente a quem finge não amar, a quem finge querer esquecer, a quem finge desejar a morte. Se ele(a) fosse humilde, diria: “Não me deixes, eu não vivo sem você. Prefiro a morte a perdê-la(o)”. Mas prefere dissimular , ainda que o faça com evidente desconforto, propiciado pelas ofensas assacadas contra a pessoa amada.
E, assim, seguimos todos nós: disfarçando, fingindo, dissimulando.
É a vida, dirão. É a vida, direi.
Revisitando as minhas inquiteações
Como acontece todos os dias, amanheci pensando, perscrutando… Refletindo sobre a vida e o porvir, indaguei-me, aparentemente sem motivo, se nós, seres humanos, que vivemos os prazeres do mundo material, saberemos o tempo certo de nos apartarmos das coisas terrenas para nos preocuparmos com a salvação da alma.
Claro que essa indagação, que me incomoda – que me aflige, às vezes -, não faço a ninguém. Faço-a a mim mesmo, tão-somente. Não gosto de proselitismo, não suporto tutelar o semelhante. Não me apraz dizer como deve se comportar o meu igual; nem aos meus filhos eu digo como devem se comportar. Eu apenas ajo, dou exemplo, me conduzo, abro a vereda, abro o caminho, a trilha, o norte, o rumo – o prumo. Se quiserem me seguir, estou aceitando companhia.
Mas no meu caminho tem muita renúncia, tem muito esmero, pouco luxo e muita dedicação.
Todavia, nessa vereda, eu quero, sim, precipuamente, a companhia dos meus filhos.
Que fique claro, pois, que faço a mim mesmo a indagação decorrente dessa inquietação, pois tenho consciência de que estou entregue muito mais aos prazeres do mundo material do que à salvação da minha alma.
Detalhe: o que chamo de prazeres do mundo material, não são nada mais que o desfrute da boa convivência com a minha família, o privilégio de poder me abastecer intelectualmente para o exercício do meu trabalho, a leitura de um bom livro, uma viagem de férias, um bom filme e uma boa mesa. Nada mais que isso!
Não sei, sinceramente, o que significam os outros prazeres. Até o contato com os poucos amigos que tinha eu perdi. Entreguei-me por inteiro à família, ao trabalho e a esses pequenos prazeres que, para mim, são tudo.
Hoje, aos cinqüenta e oito, já tenho a mais empedernida convicção de que tudo que estiver fora do aqui listado não está entre os prazeres que me aprazem.
Sou do tipo caseiro. Nesse sentido, sou quase inflexível.
Sou, posso afirmar, um quase ermitão. Um, digamos, eremita diferente, daqueles que sublimam a companhia da família e, secundariamente – mas não tão secundariamente assim -, o trabalho, um bom filme e um bom livro.
Noutro giro, posso afirmar que estou dentre aqueles que abominam, no mesmo passo e com a mesma intensidade, as solenidades, as festas, as visitas, a aglomeração de pessoas – a muvuca, o burburinho e coisas do gênero.
Sendo como sou, tenho medo, sinceramente, de, um dia, diante de uma adversidade, dar-me conta de que não fui capaz de me preparar para outra vida, pois não tenho tido a capacidade de refletir sobre as coisas do mundo espiritual, muito embora procure me conduzir dentro dos mais rigorosos princípios morais – muito mais, imagino, do que muitos que vivem fazendo doutrinação com a palavra de Deus.
Fazendo essa introspecção, me vêm à lembrança, agora, excertos do livro que acabo de ler – Amantes e Rainhas, o Poder das Mulheres -, no qual a autora (Benedetta Craveri, professora de língua e literatura francesa na Universitá degli Studi Suor Orsola Benincasa, em Nápoles) descreve, dentre outras passagens curiosas acerca da vida das Rainhas e das Amantes – que vai de Catarina de Médicis, princesa italiana que chegou à França no século XVI e reinou por trinta anos, até Maria Antonieta, executada pelo novo regime -, a forma trágica como morreu a regente Ana da Áustria e como ela, pouco antes de falecer, se retirou de cena e foi passar os seus últimos momentos no convento Val-de-Grace, para se dedicar à salvação da alma.
Narra a autora que a rainha confidenciou a sua dama de companhia (Madame de Motteville), já padecendo de intenso sofrimento em face da gangrena que lhe consumia, que não havia um só ponto do seu corpo em que não sentia dores terríveis. Todavia, mostrando-se conformada, disse à mesma dama de companhia, erguendo os olhos para o céu:
“Deus assim quer. Sim, meu Deus, assim quereis, e eu também quero, de todo o meu coração. Sim, meu Deus, de todo o meu coração”.
Quando a gangrena se manifestou, e os médicos começaram a retirar, com bisturi, a carne doente, a rainha lamentou dizendo que nunca imaginou ter um destino tão diferente do das outras criaturas: todas apodreciam depois da morte, enquanto ela era condenada por Deus a apodrecer viva.
Nessa hora de intenso sofrimento, Ana da Áustria sentiu necessidade de cuidar da alma, vez que, ao que se saiba, cuidou muito mais de usufruir daquilo que a sua condição de mulher de Luis XIII – e, depois, de regente, até que seu filho alcançasse a maioridade – tinha a oferecer, registrando a história, inclusive, casos de traição ao marido, com quem casara aos 14 anos.
Depois do que li sobre Ana da Áustria e outros tantos que tiveram fim igualmente trágico, fico indagando:
Será que as pessoas que vivem pelo poder e para o poder, que são vaidosas ao extremo, que nutrem inveja doentia pelo semelhante, que não hesitam em atropelar um congênere para se dar bem, que não honram pai e mãe, que sublimam os prazeres que só o poder e o dinheiro podem proporcionar, que vivem das traquinagens que o poder facilita, que valorizam muito mais o poder que o semelhante, que açoitam os direitos alheios, que matam, que roubam, que estupram, que são capazes de qualquer coisa para ascender, que não têm escrúpulos, que são egocêntricas, que vivem apenas os prazeres da carne, terão que passar pelas provações de Ana da Áustria para reavaliar os seus conceitos, para valorizar o semelhante, para cuidar, enfim, da própria alma?
Que fique claro: eu nem de longe me pareço com esse tipo de gente que descrevi no parágrafo anterior. Mas, ainda assim, me permito questionar por que, até hoje, ainda não procurei tempo para cuidar da alma se, de todas as certezas, a única sobre a qual ninguém tem dúvidas é a morte.
Direito não é filho dos céus
Conquanto admita que muitas das minhas posições no Poder Judiciário do Maranhão não sejam simpáticas para alguns, eu quero, sim, ter uma convivência pacífica com os meus pares, dos quais só espero que respeitem as minhas posições e as minhas crenças.
O que mais desejo nos dias presentes é me relacionar civilizadamente com os meus colegas, muito embora, democraticamente, discrepe de suas posições, convindo anotar que não o faço por arrogância, mas, sim, por convicção.
Quero deixar claro, mais uma vez, que não faço nenhuma intervenção – nas sessões de julgamento – que não seja voltada para o interesse do jurisdicionado.
Como a esmagadora maioria dos magistrados brasileiros, eu nunca decido pensando em mim ou na obtenção de aplausos; aliás, eu sou até muito avesso a esse tipo de manifestação, que, muitas vezes, são apenas oportunistas.
Não me apraz o confronto, importa reafirmar.
Eu não gosto da pugna, sobretudo quando ela descamba para a deselegância!
Em todas as corporações é assim mesmo que as coisas funcionam, ou seja, não somos obrigados a concordar com os pontos de vista de um colega.
Somos julgadores, tenho dito, mas não somos máquimas; por isso que, algumas vezes, nos incomodam as posições de alguns colegas.
Mas as coisas devem funcionar assim mesmo.
Nenhum magistrado, por mais que sua arrogância lhe perturbe a visão, pode se imaginar liberto de suas memórias, dos seus desejos, do seu próprio inconsciente, de sua ideologia, enfim.
Disso resulta que, nas nossas relações e nos nossos julgamentos, haverá sempre uma dose relevante da nossa subjetividade, a, muitas vezes, confrontar com a subjetividade e idissincrasia de outro colega.
Todavia, deve-se compreender que não se trata de uma questão pessoal-pelo menos da minha parte.
O que o juiz não pode, desde a minha visão, é ser populista; e populista não sou, conquanto tenha convicção que as minhas posições, nas diversas crônicas por mim publicadas, encontrem ressonância na população, sobretudo junto aos mais descrentes com as nossas instituições.
O julgador deve estar consciente que, assim como ele, há colegas que decidem, por vezes – ou quase sempre -, contramajoritariamente; e, assim decidindo, por certo que desagradarão a muitos, mas não à sua consciência.
Tobias Barreto dizia que o Direito não é um filho dos céus, mas produto cultural da humanidade, ou seja, é algo socialmente construído.
Aury Lopes lembra, com a costumeira propriedade, que o juiz não tem que ser um sujeito representativo, posto que nenhum interesse ou vontade que não seja a tutela dos direitos subjetivos lesados deve condicionar seu juízo, nem sequer o interesse da maioria, ou, inclusive, à totalidade dos lesados.
Encerro dizendo, forte na melhor doutrina, que a atuação do juiz não é política, mas constitucional, consubstanciada na fução de proteção dos direitos fundamentais, ainda que para isso tenha qie adotar posição contráriaà opinião da maiora.
Pesadelo
O fato que vou narrar a seguir aconteceu há algum tempo.
Só, agora, entrementes, resolvi contar, porque, para mim, pelo que ele contém de pitoresco, merece detida reflexão.
Pois bem.
Não costumo sair da minha rotina. A rotina, diferente de muitos, me faz um grande bem. Se vou a um evento qualquer que me imponha deitar fora da minha hora habitual, costumo perder o sono; algumas vezes, até pesadelo tenho. Não raro, quando isso acontece, acordo indisposto.
Por isso e por muito mais, gosto da minha rotina. Ela me proporciona qualidade de vida.
Deitando e levantando na hora habitual, fazendo as refeições na hora certa, trabalhando nos horários habituais, vivo mais feliz.
Também por isso, detesto solenidade.
Também por isso, deixei de lecionar, para não ter que me impor uma quebra de rotina.
Também por isso, quase me isolei do mundo, me afastei dos meus amigos, criei um mundo quase só meu – quase impenetrável, quase imperturbável – quase esquizofrênico, preciso admitir.
Todavia, é neste mundo que me realizo, que enfrento o estresse, que recarrego as baterias, que me preparo para enfrentar as intempéries – onde, enfim, vivo feliz.
Ainda recentemente, quando me impus, irrefletidamente, uma quebra de rotina, vi-me assombrado, à noite, por um pesadelo; de tamanha intensidade, que, ao acordar, estava trêmulo e quase em estado de aflição.
Sonhei que o Tribunal havia decidido subtrair do meu contracheque a importância de R$ 5.000,00(cinco mil reais) que, segundo argumentaram, tinho sido depositada em minha conta, no mês anterior, por descuido.
Entrei em desespero!
Imaginei os jornais noticiando o fato.
Pensei: como vai ficar a minha reputação, se souberem que fui capaz de me apropriar de cinco mil reais que não me pertenciam?
Pensei, ademais: como foi possível que a minha mulher, tão zelosa das nossas finanças, sempre tão cautelosa com os nossos gastos, tudo anotado na ponta do lápis, com uma calculadora a ajudar, tenha aceitado a inclusão, em nosso orçamento, de um dinheiro que não nos pertencia?
Entrei em desespero.
Uma profusão de pensamentos negativos se apossou de mim e da minha alma.
Em estado de descontrole emocional, acordei.
Ufa! Não era verdade! Era tudo sonho! Ainda bem!
Era madrugada, ainda.
Depois de algum tempo que permaneci com os olhos bem abertos, para ter a certeza que tudo não passara mesmo de um sonho, voltei a dormir, reconciliado com a minha alma e com a minha reputação.
Para meu desespero, o sonho voltou; e voltou exatamente de onde estava quando acordei.
Foi como que se eu tivesse apenas dado uma pausa com um controle remoto.
Passei a viver a mesma inquietação.
Eu estava, outra vez, desesperado, em busca de uma explicação para o fato de não ter-nos dado conta de que gastamos, sem nos pertencer, cinco mil reais.
Sentei com a minha mulher e passamos a refazer contas. E nada!
Nada de encontrar o dinheiro!
Nada estava a indicar que esse dinheiro tivesse entrado na minha conta.
Mas havia a “acusação”.
Havia o desconto.
Havia a dúvida em mim,
Maldito dinheiro, dizia a mim mesmo!
Pensava com meu botões: o que meus filhos vão pensar de mim?
E normas de conduta que os tinha obrigado a assimilar?
E a minha retidão, que os fiz acreditar?
E quando o povo soubesse que eu era capaz de me apropriar do que não me pertencia?
Como conviver com essa nódoa na minha vida?
A cada nova operação que eu fazia com a minha mulher, mas me convencia que não eu não tinha me apropriado da referida importância.
Tudo me levava a crer que o erro era do Tribunal.
Mas como convencer o Tribunal?
Como convencer o cidadão comum a quem fosse dado ciência desse meu descuido?
Como convencer as pessoas que confiavam em mim que eu não tinha me apropriado do que não me pertencia?
Eu tinha certeza, convicção mesmo – e por isso me desesperava – de não ter gastado esse dinheiro.
E me desesperava, ainda mais, diante da iminência de descontarem a importância do meu holerite, afinal, cinco mil reais a menos me faria muita falta, significava desorganizar as minhas finanças, tão zelosamente cuidadas.
Como pagar as minhas contas, com cinco mil reais a menos, era a indagação que me atormentava.
Atordoava-me saber que as minhas contas, com esse valor subtraído dos meus vencimentos, não fechariam e que eu teria que, inevitavelmente, lançar mãos do meu cheque especial.
Depois de muito sofrer, em busca de uma solução, atormentado pela “acusação” de ter lançado mãos do que não me pertencia, o setor de recursos humanos do Tribunal me informou que, em verdade, o dinheiro havia sido depositado na conta de outro magistrado.
Ufa! Que alivio!
Acordei, finalmente, sem dever os cinco mil reais.
Graças a Deus, eles não foram depositados em minha conta, mesmo porque, com o rígido controle que tenho sobre os meus gastos, seria muito pouco provável que cinco mil a mais entrassem na minha conta, sem que eu e minha mulher percebêssemos.
Pela manhã, ainda zonzo, em face do pesadelo, abro os jornais, como de hábito, e vejo a noticia de que uma deputada federal, filha do ex-senador Joaquim Roriz, havia sido flagrada recebendo R$ 50.000,00 de proprina.
Estranho isso!
Enquanto eu me desespero em sonho ante a acusação de ter gastado cinco mil reais que teria sido depositado a mais, por equívoco, em minha conta, a deputada em questão, sem nenhuma cerimônia, recebe cinquenta mil reais, com a maior naturalidade do mundo, e ainda expede uma nota enaltecendo o seu espírito público.
Não me perguntem por que, no sonho, não descobriram, logo, que os cinco mil reais não tinham sido depositados em minha conta, e nem como, depois, apareceram na conta de um outro colega.
Os sonhos são assim mesmo!
Eles não têm lógica.
Se lógica tivessem, bastava que eu apresentasse o meu contracheque, para provar que não havia recebido os cinco mil reais a mais.
Mas o que importa mesmo para essas reflexões é a convicção de que há os que se desesperam ante uma acusação, ainda que em sonho, de ter se apossado do alheio, e há os que não estão nem aí.
Os homens são assim mesmo, dirão.
Os homens são assim mesmo, direi.
Viciados em trapaças. Releitura
O ser humano tem vícios para o bem ou para o mal.
Se é viciado em trabalho, não sabe viver sem laborar.
E se, por alguma razão, fica impossibilitado de desenvolver o seu mister profissional, adoece.
O viciado em trabalho não sabe ser diferente.
É por isso que muitas pessoas, ao se aposentarem, caem em depressão, perdem a qualidade de vida e abreviam a morte. Para essas pessoas, viver sem trabalhar é um calvário.
Noutra vertente, há pessoas que só sabem viver na folgança.
Para essas pessoas o trabalho é sua via-crúcis. O trabalho, para elas, se traduz em sofrimento, irritação, angústia.
Essas pessoas gostam mesmo é da pachorra, da lassidão, do folguedo.
Assim como entre os humanos há, num extremo, os indolentes e, noutro extremo, os desvelados e diligentes, há, também, os viciados em retidão e os viciados em falcatrua, em bandalheira.
Se o ser humano recebe, diariamente, doses de retidão e probidade, tende a, em adulto, ser, também, reto e probo; se, ao reverso, assiti imperar em sua volta a falcatrua, a bandalheira, a corrupção, tende a, também, seguir velejando nas mesmas águas.
Me parece que é a ordem natural das coisas.
Claro que haverá, sim, exceções. Mas essas só servem para confirmar a regra.
Nessa linha de pensar, não deveria surpreender que as pessoas de personalidade mal formada vivessem à margem da lei.
É que essas pessoas são viciadas em improbidade, em falcatrua.
Para essas pessoas, a retidão, o desvelo no trato da coisa pública não importa, é irrelevante.
Essas pessoas são viciadas e formaram a sua personalidade transgredindo, profanando a ordem, sem remorso, sem dor na consciência.
Aquele que recebe doses diárias de retidão, tende a refutar o mal proceder, a farsa o embuste.
Mas aquele que durante toda a sua formação moral acostumou-se à pantomima, ao ardil e à fraude, navega nessas mesmas águas, sem remorso, sem padecimento. As vezes, de tão viciado na impostura, sequer se dá conta de que vive à margem da moralidade e da lei.
Para essas pessoas a trapaça e a velhacaria são uma rotina, estão sedimentadas em sua formação moral.
Para exemplificar, anoto que aquele que, todos os anos, frauda o fisco, de tanto repetir a pantomina, já procede com naturalidade.
Para esses, fraudar ou não fraudar é irrelevante.
É que elas são viciados na prática d empulhação e supõeM que jamais cairõ na malha fina, até que, um dia… bem, um dia a casa cai.
Da mesma forma, quem se acostumou, deste de cedo, a usar o cargo que ocupa em benefício pessoal e dos amigos, vai agir sempre assim, pois que não tem a dimensão da importância do cargo que exerce.
Para um profissional da saúde, uma morte a mais ou a menos, uma fratura exposta aqui e acolá, não mexe, significativamente, nas suas emoções, porque está acostumado a conviver com esse tipo de tragédia. É que ele, de tanto conviver com essas excrescências, acostumou-se e age, até, com indiferença.
Da mesma forma que o autor de uma maracutaia, se viciado nessa prática, não tem receio de praticar outras ilicitudes, os cidadãos, de tanto verem prosperar a impunidade, a roubalheira de agentes do poder público, a violência e a corrupção, tendem a não mais se indignarem.
Não é por outra razão que no mundo da política há quem faça apologia do apotegma “rouba, mas faz”.
No mundo em que vivemos, acostumados com a falta de probidade de agentes públicos, às vezes – ou quase sempre – não nos indignamos quando se noticia um enriquecimento ilícito.
O agente público, vê-se no dia a dia, ascende ao poder, para, pouco tempo depois, ostentar uma vida de gastos desregrados, sem que as pessoas, anestesiadas, manifestem qualquer inconformação diante dessa profusão de iniquidades.
Tenho dito, nas minhas pregações diárias, que nós, vítimas dessas tapeações, não podemos perder a capacidade de indignação.
Se ficarmos apenas estupefatos diante de tantas ilicitudes, de tantas imoralidades que se praticam no exercício do poder, não tenho dúvidas de que não evoluiremos.
Nós, cidadãos, não podemos nos quedar inertes diante de tanta roubalheira, de tanta lassidão, de tanta esnobação com o dinheiro público.
Nós precisamos dizer aos assaltantes do erário, que não aceitamos essa prática e que estamos atentos e vigilantes.
Nós temos que demonstrar que, se eles viciaram em falcatrua e nada mais temem, nós, do lado oposto da trapaça, do ludibrio, não nos comprazemos com a impunidade.
Nós não podemos assistir impassíveis a tanta licenciosidade, a tanta falta de escrúpulo de alguns – quiçá, a maioria – dos nossos representantes.
É preciso sair desse estado de letargia.
Os cargos públicos não foram concebidos para atender os interesses pessoais de quem eventualmente o exerça.
Nós não devemos sentir vergonha de ser honesto.
Mas, para isso, é necessário, também, que, demonstremos que não somos viciados em pantomima, que somos capazes de, no exercício do nosso mister, agir com retidão.
Não se pode apontar os erros do semelhante com o dedo envolto em sacanagem.
Reafirmo que, nas nossas relações diárias, até mesmo em face da nossa condição de seres humanos, cometemos erros – alguns mais; outros menos graves.
Mas há gritante diferença entre os que cometem erros no seu labor diário e aqueles fazem apologia do embuste.
É que os primeiros agem de boa-fé e quando se dão conta do erro cometido, reavaliam os seus conceitos e mudam o curso de suas ações; o que fazem apologia do embuste, do ardil e da maquinação, viciados que são, não são capazes de mudar a direção. Esses persistem navegando em águas turvas: roubando, maquinando, empulhando, ulltrajando a ordem, malferindo a lei, traindo, enganando, sem peso na consciência. É que esses, diferente da maioria das pessoas, são viciados em falcatrua. Esses não são de retroceder. Esses, de tanto maquinarem, de tanto embustear e empulhar, perderam, definitivamente, a sensibilidade. Esses ilaqueadores da ordem, muito provavelmente, estão contribuindo para deformação do caráter dos que estão em sua volta. Essas pessoas, vítimas do embuste, abastecidos diariamente com doses cavalares de tapeação, passam a agir da mesma forma que os seus pais, porque não têm outro paradigma.
