{"id":12518,"date":"2012-05-09T08:21:13","date_gmt":"2012-05-09T11:21:13","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=12518"},"modified":"2012-05-09T09:16:37","modified_gmt":"2012-05-09T12:16:37","slug":"acucar-e-cafe-para-o-velorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=12518","title":{"rendered":"A\u00e7ucar e caf\u00e9 para o vel\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/justi\u00e7a_0.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-12527\" title=\"justi\u00e7a_0\" src=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/justi\u00e7a_0-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Fui juiz criminal por mais de vinte anos, em Imperatriz e S\u00e3o Luis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao assumir\u00a0 a\u00a0 segunda inst\u00e2ncia, passei a integrar uma C\u00e2mara Criminal, h\u00e1 mais de dois anos, portanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00ea-se, assim, que pelo menos experi\u00eancia tenho bastante para fazer as reflex\u00f5es que fa\u00e7o a seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a experi\u00eancia acumulada durante tanto tempo\u00a0 em face das quest\u00f5es criminais, posso afirmar, sem hesita\u00e7\u00e3o, que uma das causas da criminalidade \u00e9, sim, a quase certeza da impunidade, nos que se refere aos, digamos, pequenos meliantes,\u00a0 e a convic\u00e7\u00e3o dela, em face da, digamos, grande criminalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 por outra raz\u00e3o que os assaltos se multiplicam, muitos dos quais \u00e0 luz do dia, sem mais surpreender. N\u00e3o \u00e9 por outra raz\u00e3o, outrossim, que os meliantes das classes mais favorecidas continuam &#8220;assaltando&#8221; os cofres p\u00fablicos, a inviabilizar programas essenciais de interesse da coletividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos sabem &#8211; do pequeno ao grande meliante &#8211; que puni\u00e7\u00e3o \u00e9 uma loteria e que s\u00f3 mesmo por falta de sorte responder\u00e3o pelos crimes que eventualmente cometam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o adiante exacerbar as reprimendas penais. Da mesma forma, n\u00e3o adiante criar novas figuras penais, se elas n\u00e3o saem, em face da maioria dos crimes, de sua abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ideal mesmo seria que todos que cometessem crimes tivessem a certeza de que em face deles seriam punidos. N\u00e3o \u00e9 o que ocorre, entrementes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade \u00e9 que, como est\u00e1, de nada valer\u00e1 a reforma penal que se limitar a criar novas figuras t\u00edpicas ou que exasperem as penas.em face, repito, do sentimento, da sensa\u00e7\u00e3o da impunidade; sensa\u00e7\u00e3o que, n\u00e3o raro, desestimula a noticia dos fatos criminosos pelas pr\u00f3prias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordo que, ao tempo em que atuava na 7\u00aa Vara Criminal, condenei um assaltante que havia roubado,\u00a0 v\u00e1rias vezes &#8211;\u00a0 por cinco ou sete vezes vezes , n\u00e3o me recordo bem &#8211;\u00a0 a mesma v\u00edtima, no mesmo lugar, nas mesmas condi\u00e7\u00f5es &#8211; \u00e0 luz do dia, \u00e0 vista de todos, sem enleio, sem receio, descaradamente, sem sequer se preocupar em esconder o rosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro de ter ouvido da dona do com\u00e9rcio que quando avistava o meliante \u00e0 dist\u00e2ncia, dirigindo-se ao seu com\u00e9rcio, se limitava a pedir a Deus que ele se decidisse apenas pela subtra\u00e7\u00e3o dos bens materiais e que\u00a0 n\u00e3o lhe fizesse nenhum mal, pois tinha uma fam\u00edlia que precisa dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intrigado com a petul\u00e2ncia do assaltante, indaguei-lhe, no interrogat\u00f3rio, por que assaltar a mesma v\u00edtima tantas vezes, ao que me respondeu, candidamente, que o fazia porque, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o tinha sido punido, mas que, doravante, pretendia mudar de vida, em face da informa\u00e7\u00e3o que tivera, ainda na Delegacia, de que, estando em minhas m\u00e3os, seguramente seria punido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dono do com\u00e9rcio reconheceu o meliante, que, claro, foi condenado. S\u00f3 que, infelizmente, ela n\u00e3o teve mais condi\u00e7\u00f5es de trabalhar, abalada psicologicamente em face dos crimes que a vitimaram durante tanto tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse fato serve para reafirmar a minha convic\u00e7\u00e3o de que a criminalidade n\u00e3o refluir\u00e1 se os criminosos n\u00e3o tiverem a certeza de que ser\u00e3o punidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os prefeitos municipais, da mesma forma,\u00a0 enquanto tiverem a certeza de que podem usar o dinheiro p\u00fablico como bem lhes aprouver, tamb\u00e9m n\u00e3o refluir\u00e3o. A certeza que eles t\u00eam\u00a0 de que nada lhes acontecer\u00e1 \u00e9 o est\u00edmulo que precisam para continuar promovendo desvio de verbas p\u00fablicas, convindo anotar que desse desvio se benefecia todaa &#8211; ou parte relevante &#8211;\u00a0 a sua entourage.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso dos prefeitos municipais, o que \u00e9 mais lament\u00e1vel, \u00e9 que, culturalmente, a popula\u00e7\u00e3o acha normal que ele &#8211; e\u00a0 grande parte dos ac\u00f3litos &#8211;\u00a0 enrique\u00e7a no exerc\u00edcio do cargo, ainda que, em face dos desvios de verbas, receba apenas as migalhas, traduzidas numa garrafa de cacha\u00e7a, num passagem de \u00f4nibus, no caf\u00e9 e no a\u00e7ucar para um vel\u00f3rio ou no\u00a0 aviamento de uma receita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS. Reconhe\u00e7o que, especialmente no que se refere ao prefeitos municipais, aqui mencionados a guisa de exemplo,\u00a0 h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es &#8211; e muitas. Refiro-me, pois, aos maus administradores, no sentido amplo da palavra, pois que, fosse diferente, estaria sendo leviano; e leviandade, definitivamente,\u00a0 \u00e9 incompat\u00edvel com o exerc\u00edcio da magistratura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui juiz criminal por mais de vinte anos, em Imperatriz e S\u00e3o Luis. Ao assumir\u00a0 a\u00a0 segunda inst\u00e2ncia, passei a integrar uma C\u00e2mara Criminal, h\u00e1 mais de dois anos, portanto. V\u00ea-se, assim, que pelo menos experi\u00eancia tenho bastante para fazer as reflex\u00f5es que fa\u00e7o a seguir. 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