{"id":13932,"date":"2012-11-13T16:05:36","date_gmt":"2012-11-13T19:05:36","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=13932"},"modified":"2012-11-13T16:05:36","modified_gmt":"2012-11-13T19:05:36","slug":"quando-a-palavra-da-vitima-nao-autoriza-a-condenacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=13932","title":{"rendered":"Quando a palavra da v\u00edtima n\u00e3o autoriza a condena\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pode, fora do contexto, sair por dizendo, como um apot\u00e9gma, que a palavra da v\u00edtima, em crimes contra o patrim\u00f4nio, \u00e9 decisivo \u00a0para defini\u00e7\u00e3o acerca da culpabilidade do acusado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00a0palavra da v\u00edtima \u00e9, sim, relevante. Mas \u00e9 s\u00f3 isso. S\u00f3 pode ir al\u00e9m disso, se provas houver nos autos a lhes dar sustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra da v\u00edtima, portanto, isolada, fora do contexto probat\u00f3rio, de nada vale, n\u00e3o autoriza a condena\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda recentemente, em face da apela\u00e7\u00e3o criminal n\u00ba 025881\/2001, tive a oportunidade de votar pela absolvi\u00e7\u00e3o de um acusado, condenado com base, exclusivamente, na palavra da ofendida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos argumentos da apela\u00e7\u00e3o foi de que, em ju\u00edzo, ou seja, sob os crivos do contradit\u00f3rio e da ampla defesa, colheu-se apenas o depoimento da ofendida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dizer: com base, t\u00e3o somente, no que disse a v\u00edtima, em sede judicial, o juiz de base entendeu devesse condenar o r\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que um decreto dessa natureza n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de prosperar, colocando por terra o argumento -adotado por alguns como se um aforismo fosse \u2013 \u00a0 acerca da palavra da ofendida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repito, flertando com o excesso, que a palavra da v\u00edtima, \u00e9, sim, relevante. Mas s\u00f3 autoriza a condena\u00e7\u00e3o de um acusado se se fizer acompanhar de outras provas, vez que, isolada, desde a minha compreens\u00e3o de nada serve \u2013 quando muito, autoriza apenas a deflagra\u00e7\u00e3o da <strong><em>persecutio<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso espec\u00edfico da apela\u00e7\u00e3o acima mencionada, o que constatei foi que, de rigor, \u00a0n\u00e3o havia \u00a0conjunto probat\u00f3rio, vez que os elementos coligidos estavam circunscritos \u00e0 palavra da ofendida, da\u00ed a inevitabilidade do desfecho absolut\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Tribunais t\u00eam decidido, \u00e0 farta, nesse sentido, como se colhe, <strong><em>ad exempli<\/em><\/strong>, da decis\u00e3o do Tribunal de Justi\u00e7a de Minas Gerais, segundo a qual \u00a0a palavra da v\u00edtima, <strong>\u201cisolada no contexto probat\u00f3rio, ausente qualquer outro elemento a refor\u00e7a-la<\/strong>\u201c, imp\u00f5e a absolvi\u00e7\u00e3o do acusado, com a observ\u00e2ncia da par\u00eamia do <strong><em>in dubio pro reo.<\/em><\/strong>(Apela\u00e7\u00e3o criminal n\u00ba 1.0629.04.017463-9\/002)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A condena\u00e7\u00e3o, nunca \u00e9 demais repetir, deve sempre resultar de prova certa, segura, tranquila, convincente, irretorqu\u00edvel, acerca do crime e de sua autoria. Assomando, pois, d\u00favidas do acervo probat\u00f3rio, seja pela sua inconsist\u00eancia ou em face de sua incongru\u00eancia, a absolvi\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em face das coloca\u00e7\u00f5es acima, \u00e9 curial compreender que essas reflex\u00f5es t\u00eam um objetivo claro: desmistificar o entendimento equivocado de que basta a palavra da v\u00edtima, para que o autor do fato seja condenado; entendimento que, registre-se, n\u00e3o tem sido incomum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decis\u00e3o condenat\u00f3ria fincada em provas fr\u00e1geis atenta contra a dignidade da pessoa humana, convindo anotar que a dignidade da pessoa humana \u00e9 o valor-guia n\u00e3o apenas dos direitos fundamentais, mas de toda ordem jur\u00eddica \u2013 constitucional e infraconstitucional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, pois, em tributo \u00e0 dignidade da pessoa, \u00a0de ineg\u00e1vel primazia no \u00e2mbito da nossa arquitetura constitucional, que reafirmo, sem temer pela exaust\u00e3o, a inviabilidade de condenar-se quando a prova da autoria se circunscreva apenas \u00e0 palavra da ofendida, ainda quando se trate dos chamados crimes clandestinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe anotar, por fim, com Luis Roberto Barroso, que a dignidade da pessoa humana n\u00e3o \u00e9 um patrim\u00f4nio individual, mas tamb\u00e9m um patrim\u00f4nio social, que deve ser protegido pelo Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assim que penso. \u00c9 assim que venho decidindo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o se pode, fora do contexto, sair por dizendo, como um apot\u00e9gma, que a palavra da v\u00edtima, em crimes contra o patrim\u00f4nio, \u00e9 decisivo \u00a0para defini\u00e7\u00e3o acerca da culpabilidade do acusado. 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