{"id":14158,"date":"2012-12-27T19:52:02","date_gmt":"2012-12-27T22:52:02","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=14158"},"modified":"2012-12-27T20:19:32","modified_gmt":"2012-12-27T23:19:32","slug":"calcanhar-de-aquiles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=14158","title":{"rendered":"Calcanhar de Aquiles*"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/images.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-14170\" title=\"images\" src=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/images.jpg\" alt=\"\" width=\"239\" height=\"211\" \/><\/a>A dosimetria das penas tem sido o calcanhar de Aquiles dos magistrados, pelo menos aqui no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o raro, e nesse sentido invoco o testemunho de todos os magistrados de 2\u00ba grau que atuam nas C\u00e2maras Criminais, nas apela\u00e7\u00f5es &#8211; em quase todas, registro &#8211; tem-se que redimensionar as penas, por absoluto equ\u00edvoco na sua dosimetria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora mesmo, examinando \u00a0um voto, em face da apela\u00e7\u00e3o de n\u00ba 03414\/2001, constato que o magistrado fixou, injustificadamente, as penas-base aqu\u00e9m do m\u00ednimo legal, e, conquanto tenha fixado a pena \u00a0aqu\u00e9m do m\u00ednimo legal, por entender que todas as circunst\u00e2ncias judiciais eram \u00a0favor\u00e1veis ao acusado, decidiu-se pelo regime fechado, para in\u00edcio de cumprimento de pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses equ\u00edvocos, quando favorecem os acusados, relevam-se, por \u00f3bvio, sobretudo porque, lamentavelmente, o Minist\u00e9rio P\u00fablico ainda n\u00e3o adquiriu o h\u00e1bito de recorrer &#8211; pelo menos embargar! &#8211; quando ocorrem esses graveserros, ficando os recursos, quase sempre, a cargo do acusado, que, por isso, se beneficia do ne reformatio in pejus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando as decis\u00f5es, ao reverso, s\u00e3o prejudiciais ao acusado e n\u00e3o recorre a defesa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que fazer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed s\u00f3 resta a revisional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas para revisional, o r\u00e9u preciso advogado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando \u00a0o acusado n\u00e3o pode pagar advogado e nem h\u00e1 defensor p\u00fablico para cuidar de sua defesa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed, meu amigo, s\u00f3 apelando para um ser superior. A tend\u00eancia \u00e9 que o r\u00e9u prejudicado pague pelos erros e omiss\u00f5es do Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que importa reafirmar, diante de situa\u00e7\u00f5es desse matiz, \u00e9 que ao Estado-Juiz \u00e9 defeso afrontar o direito dos cidad\u00e3os, ainda que denunciado pela pr\u00e1tica de crimes hediondos, mesmo porque, apesar disso, n\u00e3o deixa de ter dignidade, n\u00e3o deixar de ser um sujeito de direitos, que devem- ou, pelo menos, deveria &#8211; proteg\u00ea-lo das interfer\u00eancias ileg\u00edtimas dos agentes do Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pode, muito menos um magistrado, afrontar a dignidade de um cidad\u00e3o, ainda que a este cidad\u00e3o se impute a pr\u00e1tica de um crime abjeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio da dignidade da pessoa humana, todos sabemos, \u00e9 valor-guia que deve irradiar os seus efeitos sobre todo ordenamento jur\u00eddico, devendo, por isso, ser sopesado quando nos decidimos por um decreto de preceito sancionat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O magistrado deve ter presente que a dignidade n\u00e3o pode ser renunciada e nem vilipendiada, de modo que n\u00e3o se pode sequer elucubrar que reconhece-la \u00e9 um favor, posto que, repito, \u00e9 atributo inerente a cada pessoa, dada a sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devo relembrar que o juiz tem, \u00a0dentro do Estado de Direito, assume uma posi\u00e7\u00e3o garantista e que a legitimidade de sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica, mas constitucional, e que a ele \u00e9 defeso tangenciar os direitos fundamentais do cidad\u00e3o, inscritos em nossa Carta Magna, que, segundo Ana Paula de Barcellos, \u00e9 um reposit\u00f3rio de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cidad\u00e3o quando decidiu se submeter ao Estado e \u00e0s suas leis ( cf. teorias contratualistas) o fez na certeza de que o Estado, em rela\u00e7\u00e3o a ele, se absteria de violar os seus direitos e nem permitiria que fossem violados por outrem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O juiz deve, sempre, interpretar a lei \u00e0s luz de determinados valores morais, dentre eles a dignidade da pessoa humana, que n\u00e3o \u00e9 somente uma valor pessoal, mas um patrim\u00f4nio social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O direito, diferente do que se fez sob o fascismo e sob o nazismo, n\u00e3o \u00e9 instrumento a servi\u00e7o da barb\u00e1rie, da domina\u00e7\u00e3o e da iniquidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as vezes que um magistrado se decida pela condena\u00e7\u00e3o de um acusado, deve se esmerar, mais e mais, para que a lei seja aplicada com corre\u00e7\u00e3o; se necess\u00e1rio, se afronta a dignidade da pessoa, pode at\u00e9 deixar de aplic\u00e1-la, sabido que o direito, muitas vezes, n\u00e3o se circunscreve apenas \u00e0 literalidade formal da lei, da\u00ed que sua interpreta\u00e7\u00e3o deve ser temperada pela filosofia moral.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">*\u00c9 uma das mais populares met\u00e1foras sobre a fragilidade humana. T\u00e9tis segurou seu filho Aquiles pelo calcanhar para mergulha-lo num rio eg\u00edpcio que o tornaria invenc\u00edvel. Queria contrariar um or\u00e1culo que dizia que seu filho morreria na guerra de Tr\u00f3ia. Durante uma batalha, no entanto, Aquiles tomou uma flechada em seu \u00fanico ponto vulner\u00e1vel: o calcanhar, que n\u00e3o havia sido banhado no rio por sua m\u00e3e. A partir da\u00ed, a express\u00e3o calcanhar-de-aquiles indica um ponto franco de uma pessoa.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dosimetria das penas tem sido o calcanhar de Aquiles dos magistrados, pelo menos aqui no Maranh\u00e3o. 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