{"id":14897,"date":"2013-03-11T14:42:59","date_gmt":"2013-03-11T17:42:59","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=14897"},"modified":"2013-03-11T14:42:59","modified_gmt":"2013-03-11T17:42:59","slug":"espaco-livre-27","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=14897","title":{"rendered":"Espa\u00e7o livre"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><a href=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/S\u00f4nia-Amaral.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-14581\" alt=\"S\u00f4nia-Amaral\" src=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/S\u00f4nia-Amaral.jpg\" width=\"213\" height=\"267\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\">NEM FRACA, NEM FORTE!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(*) S\u00f4nia Maria Amaral Fernandes Ribeiro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historicamente, o exerc\u00edcio do poder em sociedade foi desempenhado pelo sexo masculino. No Brasil, como de resto, do Per\u00edodo Colonial, passando pelo Reino Unido, Imp\u00e9rio e chegando \u00e0 Rep\u00fablica, a hist\u00f3ria permaneceu sem grandes varia\u00e7\u00f5es, tendo iniciado a mudan\u00e7a em tempos mais recentes, com maior participa\u00e7\u00e3o feminina em v\u00e1rias frentes, avan\u00e7ando em \u00e1reas antes exclusivas dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde as Ordena\u00e7\u00f5es Portuguesas at\u00e9 a d\u00e9cada de 1930, j\u00e1 na Rep\u00fablica, \u00e0s mulheres era destinado o espa\u00e7o privado, sem direito de votar e de gerir qualquer coisa que n\u00e3o fosse o fog\u00e3o, com a justificativa de que seriam fracas, por natureza, de sorte que as limita\u00e7\u00f5es impostas eram para a pr\u00f3pria prote\u00e7\u00e3o do dito sexo fr\u00e1gil. Nesse sentido, as Ordena\u00e7\u00f5es dispunham, logo em seu in\u00edcio, que os direitos eram subtra\u00eddos \u201c&#8230;<i>em respeito a fraqueza do entendimento das mulheres\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Noutras palavras, al\u00e9m de fr\u00e1geis fisicamente, \u00e9ramos consideradas parvas, sem capacidade intelectual de entender quase nada. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que at\u00e9 outro dia, antes do Estatuto da Mulher Casada, \u00e9ramos consideradas pelo C\u00f3digo Civil de 1916 como relativamente incapazes, a exemplo das crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1891, com a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, essa concep\u00e7\u00e3o de fraqueza mental persistiu e diante da proposta de algumas poucas de inserir no texto o direito de voto das mulheres, a Assembl\u00e9ia Constituinte, formada exclusivamente por homens, por meio das palavras do pintor, intelectual e deputado paraibano Pedro Am\u00e9rico, assim justificou a recusa de um pedido \u201ct\u00e3o absurdo\u201d: \u201c<i>a miss\u00e3o da mulher \u00e9 mais dom\u00e9stica do que p\u00fablica, mas moral do que pol\u00edtica. Demais, a mulher, n\u00e3o direi ideal e perfeita, mas simplesmente normal e t\u00edpica, n\u00e3o \u00e9 a que vai ao foro nem \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica, nem \u00e0s assembl\u00e9ias pol\u00edticas defender os interesses da coletividade; mas a que fica no lar dom\u00e9stico, exercendo as virtudes feminis, base da tranq\u00fcilidade da fam\u00edlia e, por conseq\u00fc\u00eancia, da felicidade social<\/i>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhamos, caminhamos, caminhamos e conseguimos, em 1932, conquistar o direito de votar e ser votada. A par disso, em face da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, das duas grandes guerras mundiais e outros tantos eventos hist\u00f3ricos, a mulher ingressou no mercado de trabalho e isso foi determinante para dar in\u00edcio \u00e0 segunda fase: de luta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed, lutamos, lutamos, lutamos e chegamos ao est\u00e1gio atual, em que, apesar de n\u00e3o superada a quest\u00e3o de g\u00eanero de forma plena, n\u00e3o existem mais d\u00favidas quanto \u00e0 capacidade da mulher, sendo o balan\u00e7o positivo: as mulheres j\u00e1 s\u00e3o maioria nas Universidades; muitas faculdades e profiss\u00f5es quase que exclusivas de homens em tempos passados, como engenharia e motorista de caminh\u00e3o, por exemplo, j\u00e1 fazem parte do portf\u00f3lio do g\u00eanero feminino; disputamos o mercado em p\u00e9 de igualdade, em termos de compet\u00eancia; a chefe do Executivo Nacional \u00e9 uma mulher, a presidenta Dilma; temos diversas governadoras e parlamentares dignas do cargo que exercem e outros tantos etceteras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, comprovado que t\u00ednhamos e temos condi\u00e7\u00f5es de exercer qualquer atividade ou profiss\u00e3o, agora o discurso mudou radicalmente, pois foi de 8 (fr\u00e1geis totais) a 8000 (fortes totais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00eas j\u00e1 viram uma propaganda de um determinado produto de higiene pessoal? N\u00e3o? Prestem aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais ou menos assim: aparecem mulheres de v\u00e1rias ra\u00e7as, classes sociais e profiss\u00f5es, todas muito s\u00e9rias, encarando o telespectador e, ao final, diz o narrador, \u201cas mulheres s\u00e3o fortes\u201d e por ai vai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, por todas as conquistas e realiza\u00e7\u00f5es das mulheres, come\u00e7am a dizer que somos fortes e, de algum tempo, pregam que a diferen\u00e7a de g\u00eaneros est\u00e1 em outras duas caracter\u00edsticas, eminentemente femininas: sensibilidade e complexidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, os homens, a despeito de se comportarem nos espa\u00e7os p\u00fablico e privado como os \u201cTodo Poderosos\u201d, agora s\u00e3o considerados como mais objetivos e, portanto, simples de entender. Quanto \u00e0 \u201cmenor sensibilidade\u201d, a resposta estaria tanto na objetividade, que os impedem de perceber detalhes, e numa adjetiva\u00e7\u00e3o pouco explicada de que \u201chomem \u00e9 assim mesmo\u201d, mas \u201cn\u00e3o faz por mal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resumo da \u00f3pera: como n\u00f3s, mulheres, ser\u00edamos mais sens\u00edveis, devemos ser mais compreensivas, perdoar tudo, pois, l\u00e1 no fundo, ele n\u00e3o fez por mal; e como somos mais complexas, a culpa por alguns desentendimentos entre os g\u00eaneros \u00e9 da mulher, que n\u00e3o sabe expressar com exatid\u00e3o o que deseja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, para as mulheres, culpa, culpa e mais culpa; para os homens, perd\u00e3o, perd\u00e3o e mais perd\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, apesar de comprovado que a mulher possui igual capacidade intelectual, pretexto de outrora para nos limitar ao espa\u00e7o privado e aceitar tudo conformadamente, agora a desculpa para mantermos o conformismo e a culpa b\u00edblica \u00e9 o fato de sermos mais fortes que o pobre coitado do homem, como se essas fossem caracter\u00edsticas inatas, desde o in\u00edcio dos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o discurso nesse sentido, promovido pelos atores de sempre (fam\u00edlia, escola e religi\u00e3o) somado ao refor\u00e7o, na atualidade, de todo tipo de m\u00eddia, \u00e9 t\u00e3o forte e convincente, que a dominada (mulher) incorpora-o e naturaliza-o, como ensina Pierre Bourdieu.\u00a0 N\u00e3o raramente, escuto muitas mulheres afirmarem que, de fato, \u201cas mulheres s\u00e3o mais sens\u00edveis\u201d, como se isso fosse uma grande vantagem em rela\u00e7\u00e3o ao homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A meu ju\u00edzo, n\u00e3o acredito que sejamos mais ou menos sens\u00edveis. O fato \u00e9 que, ao longo dos tempos, tem se pregado que \u201chomem n\u00e3o chora\u201d, mesmo quando sente vontade. Isso acaba por justificar o tal do \u201chomem \u00e9 assim mesmo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 dita complexidade, tamb\u00e9m n\u00e3o vejo motivo para afirmar que sejamos mais ou menos. Na verdade, penso que o ser humano, independente do sexo, \u00e9 um ser complexo, de tal forma que somos chamados de \u201cindiv\u00edduos\u201d, em face de n\u00e3o existir nenhum igual ao outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em conclus\u00e3o, ontem, hoje e sempre, as mulheres n\u00e3o s\u00e3o mais fracas ou mais fortes; as mulheres, a exemplo dos homens, s\u00e3o fortes e fracas, a depender do momento, da situa\u00e7\u00e3o, das circunst\u00e2ncias, enfim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, como eles, por vezes podemos ser ex\u00edmios cozinheiros ou cozinheiras, mas incapazes de resolver uma equa\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica; podemos ser excelentes profissionais e p\u00e9ssimos pais e m\u00e3es, ou vice-versa; podemos ser membros respeitados e competentes da magistratura e do parlamento e, por outro lado, n\u00e3o saber prender um bot\u00e3o na camisa, independente do sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o homem e a sociedade como um todo entenderem isso, ver\u00e3o qu\u00e3o mais f\u00e1cil ser\u00e1 a vida, pois n\u00e3o seremos mais somente pai e filha, namorado e namorada, marido e mulher: somos s\u00f3 e somente s\u00f3 pessoas. Com os mesmos desejos, sonhos, complexidades e imperfei\u00e7\u00f5es, que merecem, indiscriminadamente, compreens\u00e3o, carinho e companheirismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">(*) Ju\u00edza de Direito, <a href=\"mailto:sonia.amaral@globo.com\">sonia.amaral@globo.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NEM FRACA, NEM FORTE! (*) S\u00f4nia Maria Amaral Fernandes Ribeiro Historicamente, o exerc\u00edcio do poder em sociedade foi desempenhado pelo sexo masculino. 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