{"id":15006,"date":"2013-03-25T22:21:14","date_gmt":"2013-03-26T01:21:14","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=15006"},"modified":"2013-03-25T22:21:37","modified_gmt":"2013-03-26T01:21:37","slug":"o-carrasco-carrasco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=15006","title":{"rendered":"O carrasco que \u00e9 um carrasco"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/240px-Figueiredo-MHN-Tiradentes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-15011\" alt=\"240px-Figueiredo-MHN-Tiradentes\" src=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/240px-Figueiredo-MHN-Tiradentes.jpg\" width=\"240\" height=\"364\" srcset=\"https:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/240px-Figueiredo-MHN-Tiradentes.jpg 240w, https:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/240px-Figueiredo-MHN-Tiradentes-197x300.jpg 197w\" sizes=\"auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a>Dias desses escrevi um artigo com o t\u00edtulo &#8220;Macaco \u00e9 sempre macaco&#8221;, querendo dizer que o macaco n\u00e3o deixa de ser macaco apenas porque, por exemplo, lhes colocam uma roupa. Na mesma balada, quis dizer que magistrado, quando \u00e9 magistrado mesmo, n\u00e3o deixa de s\u00ea-lo porque deixou a toga esquecida numa cadeira do seu gabinete. A sua conduta deve ser sempre retil\u00ednea, e deve sempre decidir com equidade, interpretando a lei \u00e0 luz filosofia moral, emprestando, ademais, uma grande carga axiol\u00f3gica \u00e0 dignidade da pessoa humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo dessas reflex\u00f5es vem a prop\u00f3sito de uma p\u00e1gina negra da nossa hist\u00f3ria, que est\u00e1 prestes a se relembrada, que foi o enforcamento de Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier, condenado que &#8220;pelo horroroso crime de rebeli\u00e3o e alta \u00a0trai\u00e7\u00e3o&#8221;, segundo o teor do mandado lido pelo escriv\u00e3o, num s\u00e1bado, dia 21 de abril de 1792.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O enforcamento de Tiradentes teve uma passagem que ilustra bem o sentimento do \u00e9poca, convindo anotar, a guisa de ilustra\u00e7\u00e3o, que a condena\u00e7\u00e3o n\u00e3o se completava com o enforcamento: o corpo deveria ser esquartejado, pendurados na via p\u00fablica*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem. Segundo os manuais de hist\u00f3ria, Tiradentes, \u00e0 sombra da forca, pediu ao carrasco para que &#8220;acabasse logo com aquilo&#8221;. Ocorre que ainda faltavam os serm\u00f5es. Assim \u00e9 que, quando o povo e o padecente rezavam o credo, de s\u00fabito, em meio a uma frase, ouviu-se um baque surdo e em seguida os presentes depararam-se com o corpo de Tiradentes, que balan\u00e7ava no ar. Para apressar a morte, o carrasco pulou sobre os ombros do enforcado, dan\u00e7ando com a v\u00edtima a dan\u00e7a dos horrores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se pode ver, o carrasco era mesmo um carrasco. Mas ele n\u00e3o difere muito da conduta de determinados agentes do Estado, os quais dispensam aos presos de Justi\u00e7a tratamento aviltante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos dias presentes, \u00e9 verdade, n\u00e3o existe, como regra, pena de morte e, por consequ\u00eancia, a figura do temido carrasco. Nos dias presentes, todavia, os presos de justi\u00e7a ainda recebem do Estado, por meio dos seus agentes, tratamento degradante e, por isso mesmo, ofensivo \u00e0 sua dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo passa e a coisas n\u00e3o mudam. E se h\u00e1 uma algo que n\u00e3o muda no Brasil \u00e9 a nossa capacidade de tratar os ergastulados como se fossem uma sub-ra\u00e7a, a merecer do Estado apenas o seu desprezo, a sua indiferen\u00e7a.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">*Os livros registram que o corpo de Tiradentes foi dividido em quatro peda\u00e7os, bem salgados e postos dentro de grandes sacos. O quarto superior esquerdo \u00a0foi pendurado num posto em Para\u00edba do Sul, Rio de Janeiro. O quarto superior direito foi amarrado numa encruzilhada na sa\u00edda de Barbacena, em Minas Gerais. O quarto inferior direito ficou na frente da estalagem de Varginha &#8211; MG; o \u00faltimo foi espetado perto de Vila Rica, cidade \u00e0 qual a cabe\u00e7a de Tiradentes chegou em 20 de maio de 1792. Ficou enfiada num poste, defronte da sede do governo.<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aten\u00e7\u00e3o: todas as informa\u00e7\u00f5es contidas nessas reflex\u00f5es foram capturadas no Brasil, Um Hist\u00f3ria, de Eduardo Bueno, Leya, 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias desses escrevi um artigo com o t\u00edtulo &#8220;Macaco \u00e9 sempre macaco&#8221;, querendo dizer que o macaco n\u00e3o deixa de ser macaco apenas porque, por exemplo, lhes colocam uma roupa. Na mesma balada, quis dizer que magistrado, quando \u00e9 magistrado mesmo, n\u00e3o deixa de s\u00ea-lo porque deixou a toga esquecida numa cadeira do seu gabinete. 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