{"id":15385,"date":"2013-05-10T16:23:42","date_gmt":"2013-05-10T19:23:42","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=15385"},"modified":"2013-05-10T16:43:16","modified_gmt":"2013-05-10T19:43:16","slug":"cronica-para-publicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=15385","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica para publica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Abaixo, a cr\u00f4nica que enviei ao Jornal Pequeno para publica\u00e7\u00e3o, na qual fa\u00e7o algumas reflex\u00f5es sobre discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Refletindo sobre discrimina\u00e7\u00e3o<\/b><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luiz Oliveira de Almeida*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ser humano, tenho testemunhado, \u00e9 assim: em vez de sublimar, de valorizar, de elevar e enaltecer as virtudes das pessoas (colegas de confraria, por exemplo), prefere apontar-lhes os defeitos para, a partir deles, discrimin\u00e1-las, movido por sentimentos menores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em face das discrimina\u00e7\u00f5es que se verificam nas confrarias, se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel o alijamento do confrade, tenta-se, noutro giro, pelos meios sempre conden\u00e1veis, diminu\u00ed-lo, reduzir a sua import\u00e2ncia, numa abomin\u00e1vel, febril e equivocada percep\u00e7\u00e3o de mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa confraria, essas tentativas de menosprezar o colega, pelo que as pessoas (ou desafetos) imaginam (ou almejam) que tenha de negativo, \u00e9 uma evid\u00eancia atroz, daquelas que, algumas vezes, at\u00e9 desestimulam, tendo em vista que h\u00e1 algozes que, nesse desiderato, v\u00e3o ao extremo,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que n\u00e3o estou inventando a roda. Eu apenas constato o \u00f3bvio. Mas o \u00f3bvio, algumas vezes, tamb\u00e9m precisa ser destacado. Por isso reafirmo a obviedade: todas sabem que \u00e9 assim mesmo a vida nas corpora\u00e7\u00f5es. Todos percebem que tem sido assim, que sempre foi assim, e que assim sempre ser\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o custa reafirmar, pelo menos para que saibam que sabemos, que todos percebemos, enfim, a discrimina\u00e7\u00e3o que se faz em face dos defeitos que o discriminado muitas vezes n\u00e3o tem, e que, no mesmo passo, s\u00e3o relegadas as suas virtudes a plano secund\u00e1rio, por matreirice, esperteza ou m\u00e1-f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas corpora\u00e7\u00f5es, constatamos que o cong\u00eanere pode ser discriminado pelas mais diversas raz\u00f5es, menos pela sua bondade, pelo seu car\u00e1ter, pela sua dedica\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia. Esses bons predicados, infelizmente, ficam, quase sempre, como anotei acima, relegados a plano secund\u00e1rio. \u00c9 mais ou menos como ocorre no mundo da pol\u00edtica, segundo vetusta m\u00e1xima popular, em rela\u00e7\u00e3o ao inimigo: se n\u00e3o tem defeito, arruma-se um \u2013 ou uns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que importa mesmo, nessa linha reflexiva, \u00e9 discriminar, criticar, diminuir as virtudes das pessoas, pois que, assim agindo, imaginam os algozes que as trazem para a plan\u00edcie, \u201cfabricando-as\u201d \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a (dele, algoz). \u00c9 como se dissessem: posso n\u00e3o ser virtuoso, mas ele, que pensa ser virtuoso, que age como um virtuoso, que as pessoas pensam ser virtuoso, \u00e9 igualzinho a mim, somos em tudo iguais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa corpora\u00e7\u00e3o, sobretudo nas corpora\u00e7\u00f5es de poder, \u00e9 um pecado ser diferente, sair do centro, transitar pelo incomum, fugir dos clich\u00eas, seguir noutra dire\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a \u00f3bvia, ou seja, a que todos esperam e almejam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, sejamos realistas, n\u00e3o \u00e9 preciso fazer parte de uma corpora\u00e7\u00e3o para ser discriminado. N\u00f3s todos vivemos discriminando as pessoas. \u00c9 pr\u00f3prio do ser humano discriminar, diminuir, vilipendiar, escarnecer, ridicularizar, zombar do semelhante, sobretudo se vislumbra nele um competidor; competidor na imagina\u00e7\u00e3o do zombeteiro, claro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Discriminam-se as pessoas pela beleza, pela fei\u00fara, pela intelig\u00eancia, pela falta dela, pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, pelo andar, pelas roupas que veste, pelo tom da voz, pela timidez, pelo exibicionismo, pela posi\u00e7\u00e3o social etc. O que importa mesmo \u00e9 discriminar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do que vejo e sinto, o que menos importam s\u00e3o as realiza\u00e7\u00f5es daqueles que discriminam, a sua capacidade de discernir, seu bom-senso, sua bondade, o respeito que t\u00eam pelo ser humano, a forma cort\u00eas com que tratam \u00e0s pessoas, o sentimento de solidariedade, as relevantes realiza\u00e7\u00f5es etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 mais c\u00f4modo discriminar, apontar os defeitos. \u00c9 como se fosse um b\u00e1lsamo para alma de quem discrimina. Se posso discriminar e, de consequ\u00eancia, diminuir os feitos do confrade, por \u00a0que raz\u00e3o deveria elogi\u00e1-lo, encher a sua bola?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo capturado na hist\u00f3ria do Brasil: D. Jo\u00e3o VI, todos sabemos, era destacado mais pela sua fei\u00fara que em face de suas realiza\u00e7\u00f5es, convindo anotar que, pelo mesmo motivo, e outros mais picantes,tamb\u00e9m era discriminada \u00a0D. Carlota Joaquina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da pouca,ou nenhuma, atra\u00e7\u00e3o f\u00edsica, D. Jo\u00e3o VI tamb\u00e9m era discriminado pelo descuido com a higiene pessoal e pela fama de glut\u00e3o sem escr\u00fapulos e sem limites.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os destaques aos defeitos de D. Jo\u00e3o \u00a0s\u00e3o um contraponto muito relevante \u2013 e muito sublimado, tamb\u00e9m &#8211; \u00e0s suas realiza\u00e7\u00f5es: abertura dos portos, remodela\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, permiss\u00e3o para instala\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias, aparelhamento das for\u00e7as armadas, cria\u00e7\u00e3o das Academias da Marinha e Militar, constru\u00e7\u00e3o do Jardim Bot\u00e2nico, de um observat\u00f3rio astron\u00f4mico e um museu mineral\u00f3gico, al\u00e9m da biblioteca p\u00fablica e da tipografia real, cuja primeira publica\u00e7\u00e3o foi <b>A Riqueza das Na\u00e7\u00f5es<\/b>, de Adam Smith.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00c9 desembargador do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Maranh\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E-mail: <a href=\"mailto:jose.luiz.almeida@globo.com\">jose.luiz.almeida@globo.com<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Blog: <a href=\"http:\/\/www.joseluizalmeida.com\/\">www.joseluizalmeida.com<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abaixo, a cr\u00f4nica que enviei ao Jornal Pequeno para publica\u00e7\u00e3o, na qual fa\u00e7o algumas reflex\u00f5es sobre discrimina\u00e7\u00e3o. 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