{"id":15445,"date":"2013-05-16T20:11:32","date_gmt":"2013-05-16T23:11:32","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=15445"},"modified":"2013-05-16T20:14:25","modified_gmt":"2013-05-16T23:14:25","slug":"nao-conheco-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=15445","title":{"rendered":"N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pasquale Cipro Neto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecei o texto da semana passada referindo-me a mensagens de leitores, que me pedem coment\u00e1rios e explica\u00e7\u00f5es sobre os mais diversos temas ligados \u00e0 nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem. Uma das quest\u00f5es &#8220;penduradas&#8221; h\u00e1 um bocado de tempo diz respeito ao\u00a0<a id=\"_GPLITA_1\" title=\"Click to Continue &gt; by Browse to Save\" href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/pasquale\/2013\/05\/1279414-nao-conheco-ninguem.shtml#\">emprego<\/a>\u00a0do que se costuma chamar &#8220;dupla nega\u00e7\u00e3o&#8221;. Trata-se do emprego na mesma frase de &#8220;n\u00e3o&#8221; e &#8220;ningu\u00e9m&#8221; (&#8220;N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m&#8221;), &#8220;n\u00e3o&#8221; e &#8220;nada&#8221; (&#8220;N\u00e3o fiz nada&#8221;), &#8220;n\u00e3o&#8221; e &#8220;nenhum&#8221; (&#8220;N\u00e3o comprei nenhum&#8221;) etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O argumento dos que condenam essas constru\u00e7\u00f5es se baseia na suposta impossibilidade do emprego de duas negativas ou num falso conceito lingu\u00edstico, segundo o qual &#8220;duas nega\u00e7\u00f5es geram uma afirma\u00e7\u00e3o&#8221;. De acordo com essa &#8220;tese&#8221;, uma constru\u00e7\u00e3o como &#8220;N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m&#8221; equivale a &#8220;Conhe\u00e7o algu\u00e9m&#8221;. X\u00f4, bobagem! N\u00e3o \u00e9 nada disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em portugu\u00eas (e n\u00e3o s\u00f3 em portugu\u00eas), essas duplas nega\u00e7\u00f5es nem de longe equivalem a uma afirma\u00e7\u00e3o. Em italiano, por exemplo, algo como &#8220;Non conosco nessuno&#8221; equivale literalmente a &#8220;N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m&#8221;. Ocorre exatamente o mesmo com a constru\u00e7\u00e3o espanhola &#8220;No conozco a nadie&#8221; (&#8220;nadie&#8221; = &#8220;ningu\u00e9m&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed eu me ponho a pensar sobre a origem dessas &#8220;verdades&#8221;, que circulam por a\u00ed h\u00e1 muito tempo (bem antes da internet, por sinal). Depois da internet, ent\u00e3o, a coisa piorou muito. Os textos em que se apresentam essas &#8220;teses&#8221; circulam &#8220;assinados&#8221;. E as pessoas acreditam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que fique claro, caro leitor: constru\u00e7\u00f5es como as que aparecem no segundo par\u00e1grafo deste texto s\u00e3o mais do que leg\u00edtimas e t\u00eam, sim, valor negativo. Quem diz que n\u00e3o comprou nenhum livro durante a Bienal diz que saiu do evento com zero livro debaixo do bra\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m lembrar que, quando o sujeito da afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;ningu\u00e9m&#8221;, n\u00e3o se\u00a0<a id=\"_GPLITA_0\" title=\"Click to Continue &gt; by Browse to Save\" href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/pasquale\/2013\/05\/1279414-nao-conheco-ninguem.shtml#\">emprega<\/a>\u00a0&#8220;n\u00e3o&#8221; imediatamente depois de &#8220;ningu\u00e9m&#8221; (&#8220;Ningu\u00e9m compareceu&#8221;, e nunca &#8220;Ningu\u00e9m n\u00e3o compareceu&#8221;, frase dada como agramatical por in\u00fameros autores e obras, como o &#8220;ABC da L\u00edngua Culta&#8221;, de Celso Pedro Luft).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m lembrar ainda que h\u00e1 uma ordem padr\u00e3o para os termos desse tipo de declara\u00e7\u00e3o: ou se diz &#8220;Ningu\u00e9m compareceu&#8221; ou se diz &#8220;N\u00e3o compareceu ningu\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro caso interessante \u00e9 o da palavra &#8220;algum&#8221;. H\u00e1 algum tempo, a Fuvest pediu aos candidatos que escrevessem uma frase em que a palavra &#8220;algum&#8221; tivesse valor negativo. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, foram muitos os que n\u00e3o conseguiram. Basta que se posponha &#8220;algum\/a&#8221; a um substantivo para que se alcance o sentido pretendido pela Fuvest: &#8220;Professor algum tem esse direito&#8221;; &#8220;Mulher alguma deve sujeitar-se a isso&#8221;; &#8220;N\u00e3o fiz coisa alguma&#8221;; &#8220;Pessoa alguma convive com isso&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveito para lembrar que, em termos de concord\u00e2ncia, o verbo fica no singular quando o sujeito \u00e9 iniciado por &#8220;nenhum&#8221;: &#8220;Nenhum dos diretores quis dar entrevista&#8221; (e n\u00e3o &#8220;Nenhum dos diretores quiseram&#8230;&#8221;). Tome cuidado com os casos em que o sujeito \u00e9 longo e, para &#8220;piorar&#8221;, os penduricalhos da palavra &#8220;nenhum&#8221; aparecem no plural: &#8220;Nenhum dos in\u00fameros deputados oposicionistas presentes aceitou a proposta do l\u00edder do governo&#8221; (e n\u00e3o &#8220;Nenhum dos in\u00fameros deputados oposicionistas presentes aceitaram&#8230;&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale a pena citar tamb\u00e9m os casos em que a palavra &#8220;ningu\u00e9m&#8221; resume termos anteriores, como se v\u00ea neste caso: &#8220;Pais, irm\u00e3os, tios, primos: ningu\u00e9m convenceu o rapaz a desistir da empreitada&#8221; (e n\u00e3o &#8220;Pais, irm\u00e3os, tios, primos: ningu\u00e9m convenceram o rapaz a desistir da empreitada&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos dos casos que vimos aqui ainda s\u00e3o comuns em provas dos mais variados concursos p\u00fablicos. Se voc\u00ea \u00e9 ou ser\u00e1 candidato, tome cuidado com essas min\u00facias. \u00c9 isso.<\/p>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"pasquale cipro neto\" src=\"http:\/\/f.i.uol.com.br\/folha\/colunas\/images\/11133196.jpeg\" width=\"70\" height=\"70\" \/><b>Pasquale Cipro Neto<\/b>\u00a0\u00e9 professor de portugu\u00eas desde 1975. Colaborador da\u00a0<b>Folha<\/b>\u00a0desde 1989, \u00e9 o idealizador e apresentador do programa &#8220;Nossa L\u00edngua Portuguesa&#8221; e autor de v\u00e1rias obras did\u00e1ticas e paradid\u00e1ticas. Escreve \u00e0s quintas na vers\u00e3o impressa de &#8220;Cotidiano&#8221;.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pasquale Cipro Neto Comecei o texto da semana passada referindo-me a mensagens de leitores, que me pedem coment\u00e1rios e explica\u00e7\u00f5es sobre os mais diversos temas ligados \u00e0 nossa l\u00edngua. Pois bem. 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