{"id":16570,"date":"2013-11-03T21:02:00","date_gmt":"2013-11-04T00:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=16570"},"modified":"2013-11-04T15:23:11","modified_gmt":"2013-11-04T18:23:11","slug":"povo-cansado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=16570","title":{"rendered":"Povo cansado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que as manifesta\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ocorrendo no Brasil n\u00e3o t\u00eam a mesma dimens\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es em raz\u00e3o das quais a Bastilha caiu na Fran\u00e7a, mesmo porque a conjuntura em que se deu aquela \u00e9 diametralmente oposta \u00e0 conjuntura atual. Seria uma insanidade, pois, a compara\u00e7\u00e3o pura e simples desses dois momentos hist\u00f3ricos, sem atentar para as suas particularidades e consequ\u00eancias para o conjunto da sociedade. Mas se nos detivermos a alguns detalhes que a hist\u00f3ria nos legou, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber algumas semelhan\u00e7as entre as manifesta\u00e7\u00f5es que ocorrem no Brasil e as que culminaram com o fim do absolutismo na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 s\u00f3 olhar diante dos olhos para enxergar as semelhan\u00e7as. Por exemplo, \u00e0 \u00e9poca da revolu\u00e7\u00e3o, no s\u00e9culo XVIII, a Fran\u00e7a tinha 25 milh\u00f5es de habitantes. Dessa popula\u00e7\u00e3o, 1,5% eram nobres, representados por cerca de 350 mil indiv\u00edduos. O clero tinha 120 mil membros, dos quais 110 mil pertenciam ao baixo clero, isto \u00e9, eram padres comuns, geralmente de origem pleb\u00e9ia. Os altos dirigentes da Igreja \u2013 bispos, abades e c\u00f4negos \u2013 eram recrutados exclusivamente entre os nobres, que se beneficiavam das rendas da igreja. A maior parte da popula\u00e7\u00e3o, de mais de 24 milh\u00f5es de pessoas, constitu\u00edam o terceiro estado e os camponeses, cujo n\u00famero era de 20 milh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Fran\u00e7a revolucion\u00e1ria, os nobres possu\u00edam muitos direitos, e os plebeus muitos deveres, isto \u00e9, os nobres detinham todos os privil\u00e9gios, do tipo portar espada, lugares reservados nas igrejas &#8211; onde nenhum plebeu podia sentar -, altos cargos administrativos no governo e no ex\u00e9rcito, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es e respeitada a relev\u00e2ncia hist\u00f3rica da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, indago: \u00e9 o n\u00e3o \u00e9 o que ocorre no Brasil, excetuado o fato de que o poder central n\u00e3o goza da antipatia exacerbada que gozavam o monarca Luis XVI e, especialmente, Maria Antonieta? No Brasil h\u00e1 ou n\u00e3o h\u00e1, como havia na Fran\u00e7a revolucion\u00e1ria, uma elite que det\u00e9m todos os privil\u00e9gios, que usa e abusa da coisa p\u00fablica, que n\u00e3o tem limites, que resta quase sempre impune e que submete a absoluta maioria dos brasileiros a um sistema discriminat\u00f3rio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um olho na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e outro no Brasil dos dias atuais, indago, outra vez: para quem as portas se abrem no Brasil? Quem det\u00e9m todo poder de barganha no Brasil? Quem pode sonegar impostos impunemente no Brasil? Quem, no Brasil, pode desviar dinheiro p\u00fablico ciente da impunidade? A quem serve o sistema penal? Quais s\u00e3o os destinat\u00e1rios priorit\u00e1rios das inst\u00e2ncias persecut\u00f3rias? Que respeita o cidad\u00e3o da periferia merece das for\u00e7as de seguran\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou al\u00e9m. Depois do bolo rateado em benef\u00edcio de uma minoria, o que sobra, no Brasil, para a esmagadora maioria de brasileiros? Quantos dos que desviaram o dinheiro p\u00fablico est\u00e3o presos no Brasil e quanto dessa mesma verba voltou ao er\u00e1rio p\u00fablico? Que classe \u00e9 detentora de todos os privil\u00e9gios no Brasil? Para quem se legislam no Brasil? Quantos prefeitos j\u00e1 enriqueceram no cargo, sem que nada lhes acontecesse? \u00c9 que pa\u00eds prepondera a m\u00e1xima \u201crouba, mas faz\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou adiante. E para o restante do povo brasileiro, o que sobra? Respondo eu: a conta. Por isso pagamos tantos impostos. Por isso, tamb\u00e9m, o povo se revolta. Por isso, as manifesta\u00e7\u00f5es de rua. Por tudo isso \u2013 e muito mais \u2013 \u00e9 que o povo, cansado de esperar por Justi\u00e7a, resolveu, agora, que s\u00f3 vai na marra, no grito, pisando nos calos, pois que, todos conclu\u00edmos, que as coisas s\u00f3 acontecem quando o povo vai \u00e0s ruas; quando o povo se dispersa, tudo volta a ser como antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta para todas essas indaga\u00e7\u00f5es \u00e9 s\u00f3 uma: todos os privil\u00e9gios, todas as garantias, inclusive da impunidade, no Brasil, \u00e9 para uma minoria de privilegiados, que, na maioria das vezes, vive do que subtrai do povo, convindo anotar que aqui n\u00e3o me refiro a quem ascendeu socialmente por conta de seu labor e de sua intelig\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dessas constata\u00e7\u00f5es, resta indagar: tem ou n\u00e3o tem raz\u00e3o o povo quando, ao protestar nas ruas, o faz contra tudo que est\u00e1 a\u00ed, abdicando de uma pauta espec\u00edfica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que haver\u00e1 os que argumentar\u00e3o, a prop\u00f3sito dessas reflex\u00f5es, que s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es ant\u00edpodas \u2013 a da Fran\u00e7a revolucion\u00e1rio e a do Brasil de uma minoria voraz -, pois vivemos numa democracia e temos at\u00e9 uma Constitui\u00e7\u00e3o das mais avan\u00e7adas do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade, a prop\u00f3sito da Carta Pol\u00edtica em vigor, \u00e9 que, como proclama Inoc\u00eancio M\u00e1rtires Coelho, se n\u00e3o temos uma Constitui\u00e7\u00e3o dos nossos sonhos, temos uma Constitui\u00e7\u00e3o nos permite sonhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E eu, c\u00e1 de meu lado, assim como diria a esmagadora maioria de brasileiros e brasileiras,consigno, em adi\u00e7\u00e3o, que o povo cansou de sonhar. Estamos todos cansados. e sonhar, de esperar, de fazer planos, de pensar no porvir, na expectativa de que as coisas mudem para melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que quero, o que todos queremos, sem mais demora, \u00e9, dentre outras coisas, justi\u00e7a social, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, e, se poss\u00edvel, pris\u00e3o para os que se apropriam da coisa p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveito o ensejo para reafirmar a minha convic\u00e7\u00e3o de que o povo, unido, pode, sim, proporcionar a necess\u00e1ria assepsia dos costumes pol\u00edticos no Brasil. \u00c9 que o povo, e somente o povo, com a for\u00e7a que tem, pode mudar o que a\u00ed estar. Pode, at\u00e9, se for o caso, defenestrar do poder os que dele se apropriam para defesa dos seus pr\u00f3prios interesses, sem que seja necess\u00e1rio que se pratique um s\u00f3 ato de viol\u00eancia, que deve ser por todos n\u00f3s refutado, em nome mesmo das nossas conquistas democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E digo mais. O povo, se esse for o seu desejo, pode, at\u00e9, fazer funcionar a contento as nossas ag\u00eancias de controle, para que essa repugnante sensa\u00e7\u00e3o de impunidade n\u00e3o acabe por minimizar as conquistas democr\u00e1ticas dos \u00faltimos anos, depois da submiss\u00e3o do povo brasileiro a um longo e abomin\u00e1vel regime de for\u00e7a, que solapou muitas das nossas conquistas que somente h\u00e1 pouco foram novamente incorporadas \u00e0 nossa cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O povo, pode, sim, unido e pacificamente \u2013 sem guilhotina ou instrumento similar, portanto -, fazer uma revolu\u00e7\u00e3o. O que n\u00e3o podemos, sob qualquer pretexto, \u00e9 dar guarida aos v\u00e2ndalos que acabaram por se apropriar das manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, tirando delas a espontaneidade que assombrou a nossa classe pol\u00edtica, e que compeliu os nossos dirigentes e representantes a sa\u00edrem em busca de uma \u201cagenda positiva\u201d, da qual n\u00e3o se ouve mais falar, desde que as manifesta\u00e7\u00f5es, como foram concebidas em junho, deixaram de existir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 claro que as manifesta\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ocorrendo no Brasil n\u00e3o t\u00eam a mesma dimens\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es em raz\u00e3o das quais a Bastilha caiu na Fran\u00e7a, mesmo porque a conjuntura em que se deu aquela \u00e9 diametralmente oposta \u00e0 conjuntura atual. 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