{"id":17133,"date":"2014-10-06T09:49:04","date_gmt":"2014-10-06T12:49:04","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17133"},"modified":"2014-10-22T17:53:22","modified_gmt":"2014-10-22T20:53:22","slug":"doses-diarias-de-eugenio-raul-zaffaroni","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17133","title":{"rendered":"Doses di\u00e1rias de Eugenio Ra\u00fal Zaffaroni"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span>No per\u00edodo de 26 a 29 de agosto pr\u00f3ximo passado, participei, na condi\u00e7\u00e3o de espectador, do 20\u00ba Semin\u00e1rio Internacional de Ci\u00eancias Criminais, promovido pelo Instituto Brasileiro de Ci\u00eancias Criminais &#8211; IBCCRIM, realizado na cidade de S\u00e3o Paulo. Desnecess\u00e1rio dizer da relev\u00e2ncia de participar de um evento dessa envergadura, sobretudo em face da excel\u00eancia dos temas apresentados, desenvolvidos por criminalistas da mais elevada estirpe, reconhecidos mundialmente em face das teorias e teses por eles desenvolvidas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Na oportunidade, fomos contemplados com palestras de juristas da envergadura de<span>\u00a0 <\/span><b><strong>Claus Roxin <\/strong><\/b>(O Significado da Pol\u00edtica Criminal para os Fundamentos do Direito Penal), <span>\u00a0<\/span><span>\u00a0<\/span><b><strong>Eugenio Ra\u00fal Zaffaroni<\/strong><\/b> (Dogm\u00e1tica Penal e Liberalismo), <b><strong>Guilherme de Souza Nucci <span>\u00a0<\/span>e Gilmar Ferreira Mendes<\/strong><\/b>( Habeas Corpus: Fun\u00e7\u00e3o e Papel no Processo Penal Brasileiro), <b><strong>C\u00e9sar Roberto Claro Bittencourt<\/strong><\/b> (Aplica\u00e7\u00e3o da Pena e sua Dosimetria), <b><strong>Jorge Figueiredo Dias<\/strong><\/b> (Problemas Dogm\u00e1ticos-Sistem\u00e1tico Fundamentais da Doutrina do Crime), dentre outros.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Em eventos desse jaez, para al\u00e9m dos temas em debate,<span>\u00a0 <\/span>exacerbando a minha veia de cronista, procuro observar o comportamento do ser humano, seja de um an\u00f4nimo, seja de um pop star. Isso decorre da minha quase obsess\u00e3o de perscrutar, de tentar conhecer o ser humano, esp\u00e9cime, desde os meus olhos, quase sempre enigm\u00e1tico, a estimular, por isso, as mais variadas interroga\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>O comportamento do homem tem sido, desde sempre, objeto da minha aten\u00e7\u00e3o, sobretudo em face da minha voca\u00e7\u00e3o para a ci\u00eancia criminal. <span>\u00a0<\/span>Admito ser quase obsessivo nessa quest\u00e3o, pois, dependendo do contexto, quase nada passa ao largo da minha percep\u00e7\u00e3o. Fico a dist\u00e2ncia, \u00e0 socapa, de soslaio, quase como um animal farejando a ca\u00e7a, colhendo os detalhes da conduta do ser humano que, por isso, tem sido objeto de muitas cr\u00f4nicas da minha autoria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Em eventos desse jaez, quase sempre falo pouco, mas ou\u00e7o muito e observo sempre, para que possa fazer as minhas reflex\u00f5es e tirar as minhas conclus\u00f5es, muitas deles, claro, precipitadas, equivocadas, como \u00e0s vezes costuma ocorrer. <span>\u00a0<\/span>E por que procedo dessa forma? \u00c9 que sempre acho que do ser humano se pode esperar algum comportamento exc\u00eantrico, algo inusitado, digno de nota; seja um olhar malicioso, um sorriso maroto, uma atitude irrefletida, um ato de exibi\u00e7\u00e3o, uma conduta ex\u00f3tica ou uma atitude esquizofr\u00eanica. Por isso, fico atento, sem descuidar de mim, sem esquecer que, como ser humano, sou igualzinho \u00e0queles que elejo como objeto das minhas observa\u00e7\u00f5es. Ademais, \u00e9 bem prov\u00e1vel que eu tamb\u00e9m possa estar sendo alvo de observa\u00e7\u00e3o e,<span>\u00a0 <\/span>quem sabe?, de censura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Nesse af\u00e3, no \u00faltimo dia do evento, deparei-me com um fato inusitado, sobretudo porque o protagonista foi, ningu\u00e9m mais, ningu\u00e9m menos, que Eug\u00eanio Ra\u00fal Zaffaroni, jurista argentino, festejado como um dos mais importantes juristas da sua \u00e9poca, que, ao terminar de proferir a sua palestra, protagonizou uma situa\u00e7\u00e3o exc\u00eantrica, pr\u00f3pria, assim penso, de pessoas inteligentes e humildes, como descrevo a seguir.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Pois bem. <span>\u00a0<\/span>Ao deixar a sala de confer\u00eancia, Zaffaroni foi seguido, como um \u00eddolo popular, por mais de cinquenta participantes do evento, tendo \u00e0s m\u00e3os, cada um, um exemplar de um livro de sua autoria, em busca de um aut\u00f3grafo. <span>\u00a0<\/span>Zaffaroni, sem surpresa, vez que, por onde anda, \u00e9 recebido com o mesmo entusiasmo e ass\u00e9dio, vendo aquela fila de f\u00e3s em seu encal\u00e7o, todos \u00e1vidos por um aut\u00f3grafo, e sem encontrar, no primeiro momento, um lugar para sentar, n\u00e3o se fez de rogado: sentou numa almofada, no hall do hotel, e passou a distribuir aut\u00f3grafos, colocando os livros sobre as pernas, num evidente desconforto, recepcionando, com carinho, aten\u00e7\u00e3o e humildade, os f\u00e3s brasileiros.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Essa cena me remeteu a outro evento igualmente inusitado, mas pelo lado negativo. Lembrei-me de ter encontrado, certa feita, um advogado pelos corredores do Tribunal de Justi\u00e7a, j\u00e1 pr\u00f3ximo do meu gabinete, com uns memoriais \u00e0s m\u00e3os. Aproximou-se de mim, de forma humilde e respeitosa. Indagou, ent\u00e3o, se poderia me entregar os memoriais ali mesmo, no corredor onde nos encontramos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Fiquei surpreso com a pergunta e questionei o porqu\u00ea de tanto embara\u00e7o ante uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o corriqueira. <span>\u00a0<\/span>Ele me respondeu, constrangido, que h\u00e1 alguns minutos tentara fazer o mesmo em rela\u00e7\u00e3o a um(a) colega, mas que recebera em troca uma descompostura, uma reprimenda. Segundo ele, o(a) colega entendeu a abordagem no corredor como um desrespeito \u00e0 liturgia do cargo, embora, registro, n\u00e3o tivesse usado exatamente <span>\u00a0<\/span>essa express\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span><span>\u00a0<\/span>Conforme se pode observar, enquanto Eugenio Ra\u00fal Zaffaroni, reconhecido mundialmente pela excel\u00eancia de sua obra, destacado integrante da Corte Suprema da Argentina, conferencista de renome mundial, senta-se praticamente no ch\u00e3o, no hall de um hotel de luxo, de terno e t\u00eanis Nike, para brindar os seus leitores com um aut\u00f3grafo, h\u00e1 quem se julgue t\u00e3o importante, a ponto de tratar com descortesia um advogado, apenas porque ousou entregar pe\u00e7as de um memorial nos corredores de um Tribunal, certamente por entender que o advogado deveria pedir uma audi\u00eancia para essa finalidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Aos que pensam e agem assim, recomendo uma dose di\u00e1ria de Eugenio Ra\u00fal Zaffaroni, logo ao amanhecer, antes, portanto, de se deslocar ao trabalho, durante trinta dias. Persistindo os sintomas, procure um m\u00e9dico, de prefer\u00eancia um que saiba cuidar das coisas da mente.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No per\u00edodo de 26 a 29 de agosto pr\u00f3ximo passado, participei, na condi\u00e7\u00e3o de espectador, do 20\u00ba Semin\u00e1rio Internacional de Ci\u00eancias Criminais, promovido pelo Instituto Brasileiro de Ci\u00eancias Criminais &#8211; IBCCRIM, realizado na cidade de S\u00e3o Paulo. Desnecess\u00e1rio dizer da relev\u00e2ncia de participar de um evento dessa envergadura, sobretudo em face da excel\u00eancia dos temas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-17133","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pokay-4sl","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17133","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17133"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17133\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18141,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17133\/revisions\/18141"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}