{"id":17186,"date":"2015-01-06T17:58:31","date_gmt":"2015-01-06T20:58:31","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17186"},"modified":"2015-01-06T17:58:31","modified_gmt":"2015-01-06T20:58:31","slug":"nos-momentos-dificeis-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17186","title":{"rendered":"Nos momentos dif\u00edceis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nos momentos dif\u00edceis da vida, somos obrigados a testar a nossa for\u00e7a, placidez e equil\u00edbrio, para enfrentar as adversidades. Todavia, imagino que poucos conseguem, diante de uma grande adversidade, manter o equil\u00edbrio, a sensatez e o bom senso. Ningu\u00e9m pode, de rigor, dizer como agiria diante de uma intemp\u00e9rie, pois tudo vai depender do estado emocional, do preparo psicol\u00f3gico, da intensidade do momento adverso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ilustrar essa realidade, vou me reportar ao seguinte fato: Lu\u00eds XVI, segundo registros hist\u00f3ricos, ouviu, com raro sangue-frio, a leitura da sua senten\u00e7a de morte. Consta que ouviu o veredicto com un\u00e7\u00e3o, dignidade, nobreza \u2013 e com postura, como se fosse um homem sobrenatural, sem que se saiba onde o rei encontrou for\u00e7as para se manter equilibrado num momento t\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dados hist\u00f3ricos d\u00e3o-nos conta, ademais, que Luiz XVI, dias antes de ser decapitado, ainda apelou para que o deixassem ver a sua fam\u00edlia por tr\u00eas dias, sem vigil\u00e2ncia, prazo que lhe teria sido negado, como uma esp\u00e9cie de prova\u00e7\u00e3o, no intuito de testar os seus limites. Segundo o abade de\u00a0<strong>Firmont<\/strong>, o rei, mesmo diante da negativa,\u00a0 permaneceu calmo, gracioso e at\u00e9 tranquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para corroborar a placidez do rei, diante de uma situa\u00e7\u00e3o em tudo adversa, est\u00e1 nos manuais que pouco depois, ao lhe serviram o \u00faltimo jantar de sua vida, como n\u00e3o lhe haviam levado nem faca e nem garfo, ele n\u00e3o conseguiu conter a irrita\u00e7\u00e3o, pelo que teria dito: \u201c<strong>Consideram-me covarde o suficiente para atentar contra a minha pr\u00f3pria vida<\/strong>?\u201d. E teria acrescentado, para estupefa\u00e7\u00e3o dos presentes: \u201c<strong>Eu morrerei sem medo. Gostaria que a minha morte fizesse a alegria dos franceses e pudesse afastar as desgra\u00e7as que prevejo: o povo entregue \u00e0 anarquia, v\u00edtima de todas as fac\u00e7\u00f5es, crimes se sucedendo, grandes dissens\u00f5es dilacerando a Fran\u00e7a<\/strong>\u201d. (Luis XVI,\u00a0<strong>Bernard Vicent<\/strong>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei quantos de n\u00f3s, em circunst\u00e2ncias semelhantes, sobretudo afastados da fam\u00edlia, teriam equil\u00edbrio para enfrentar, com tanto garbo e altivez, uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o desalentadora, t\u00e3o desesperadora. Quanto a mim, de rigor, posso dizer que nunca passei por uma experi\u00eancia que me exigisse tanto, nem precisei testar, verdadeiramente, a minha capacidade de enfrentar uma grande adversidade, pois tenho a ventura de, quase sempre, estar em paz e com pouqu\u00edssimos problemas s\u00e9rios para\u00a0suplantar, o que n\u00e3o deixa de ser uma d\u00e1diva, raz\u00e3o pela qual s\u00f3 saberei se terei for\u00e7as para enfrentar uma adversidade s\u00e9ria quando me vir diante dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes, pensando sobre o quanto tenho sido bafejado pela sorte, agrade\u00e7o pelo pouco que tenho, o que para mim \u00e9 tudo, porque o fato de eu ter um bom emprego, sa\u00fade e uma fam\u00edlia j\u00e1 \u00e9 o suficiente. Meu n\u00edvel de ambi\u00e7\u00e3o, portanto, esbarra a\u00ed, raz\u00e3o pela qual, tamb\u00e9m sob esse aspecto, n\u00e3o enfrento nenhuma dificuldade capaz de testar a minha paci\u00eancia, a minha sobriedade, o meu permanente estado de felicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, sou dos poucos que n\u00e3o t\u00eam do que reclamar da vida, j\u00e1 que ela n\u00e3o tem exigido muito de mim. Al\u00e9m disso, sou feliz, e tenho procurado fazer a felicidade dos que est\u00e3o \u00e0 minha volta, pois fazer a felicidade dos que me amam \u00e9 a minha meta mais ambiciosa, \u00e9 o meu primeiro e \u00fanico objetivo. Da\u00ed por que, podendo faz\u00ea-lo \u2013 e fazendo -, recebo em contrapartida a d\u00e1diva de ser feliz, de viver em estado permanente de felicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivendo num mundo t\u00e3o controvertido e cada vez mais dif\u00edcil de ser tolerado, de ser feliz, tenho tido essa ventura, talvez porque a minha ambi\u00e7\u00e3o tem limite, por n\u00e3o ser do tipo insaci\u00e1vel, do tipo que quer mais, sempre mais, sejam quais forem as barreiras que precisem ser superadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Problemas? Tenho-os, mas eu os encaro, assimilo-os, absorvo-os como algo indissoci\u00e1vel da vida, porque n\u00e3o sou do tipo que infla os problemas para se vitimizar, para tirar proveito da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder? N\u00e3o sei sequer a sua dimens\u00e3o. Nesse sentido, sou um babaca. N\u00e3o sei us\u00e1-lo em proveito pr\u00f3prio. N\u00e3o sei exerc\u00ea-lo plenamente, no sentido dos que dele fazem uso para fins inconfess\u00e1veis.\u00a0 Nesse particular, sou um dileto representante da classe dos ot\u00e1rios. O poder que a muitos fascina, para mim s\u00f3 serve para os seus pr\u00f3prios fins, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o me vejo diante de nenhum desafio, a testar a minha toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dinheiro? Dele n\u00e3o cuido. N\u00e3o raro, o que coloco em minhas m\u00e3os decorrem de mera liberalidade de quem o controla. Enalte\u00e7o-o apenas no exato limite do que seja suficiente para viver bem. N\u00e3o sou capaz de qualquer coisa para amealhar al\u00e9m do que consta no meu holerite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bens materiais? Quero-os apenas para ter o m\u00ednimo de conforto. N\u00e3o tenho nenhuma vol\u00fapia materialista. N\u00e3o almejo amealhar nenhuma fortuna. Tudo que tenho \u00e9, para mim, suficiente, mais que suficiente. N\u00e3o sou movido pelo quanto mais, melhor. O necess\u00e1rio me satisfaz. Sou um homem sem muita ambi\u00e7\u00e3o material; tenho-a dentro dos limites da razoabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Realiza\u00e7\u00e3o profissional? Sim, sou realizado. N\u00e3o posso querer mais do que tenho. Sou um privilegiado, pois sou pago para fazer o que gosto. E, no exerc\u00edcio do meu mister, tenho procurado servir \u00e0 sociedade, com a necess\u00e1ria retid\u00e3o, nos limites da minha compet\u00eancia, sem excessos, com os \u00edmpetos controlados para n\u00e3o abusar do poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, tenho a clareza necess\u00e1ria de que chegar\u00e1 o dia em que terei que enfrentar uma grande adversidade, daquelas que testar\u00e3o os meus limites, o meu equil\u00edbrio, a minha sensatez, pois que delas nenhum de n\u00f3s escapar\u00e1. Nesse dia, espero ter for\u00e7as para sobrepuj\u00e1-la, com a necess\u00e1ria altivez, sem me autoflagelar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos momentos dif\u00edceis da vida, somos obrigados a testar a nossa for\u00e7a, placidez e equil\u00edbrio, para enfrentar as adversidades. Todavia, imagino que poucos conseguem, diante de uma grande adversidade, manter o equil\u00edbrio, a sensatez e o bom senso. 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