{"id":17240,"date":"2015-04-12T19:41:30","date_gmt":"2015-04-12T22:41:30","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17240"},"modified":"2015-04-12T19:41:30","modified_gmt":"2015-04-12T22:41:30","slug":"eu-ca-do-meu-lado-com-as-minhas-otarices","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17240","title":{"rendered":"Eu, c\u00e1 do meu lado, com as minhas &#8220;otarices&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em face de tudo o que tem sido noticiado sobre o aparelhamento do estado e desvio de verbas p\u00fablicas, essa cr\u00f4nica \u00e9 mais que oportuna. N\u00e3o pretendo com ela, no entanto, nada mais que refletir, \u00e0 minha maneira, sem a pretens\u00e3o descabida de assumir o papel de paladino da moralidade, o que n\u00e3o sou, tendo em vista que, como qualquer homem p\u00fablico, devo me equivocar, de vez em quando, nas minhas escolhas morais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito isto, menciono, agora, para ilustrar essas reflex\u00f5es, dois exemplos \u2013 um da vida real e outro, da fic\u00e7\u00e3o &#8211; que bem demonstram a vis\u00e3o de mundo das pessoas, a partir dos valores morais de cada um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, da vida real. Escutava eu um programa policial, quando o rep\u00f3rter indagou ao meliante se ele n\u00e3o tinha escr\u00fapulos em roubar uma aposentada, que j\u00e1 percebia t\u00e3o pouco, que j\u00e1 dera a sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade, e que, por viver de uma pequena aposentadoria, decerto sobrevivia com muita dificuldade. O meliante, vaidoso, respondeu indagando ao rep\u00f3rter, mais ou menos nesses termos: \u201c<strong>E voc\u00ea pensa que a minha vida \u00e9 moleza. Assaltar n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, meu amigo. Se a vida da v\u00edtima \u00e9 dif\u00edcil, as minhas dificuldades n\u00e3o s\u00e3o menores<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, o exemplo da fic\u00e7\u00e3o, por mim j\u00e1 referida em outra oportunidade. O meliante <strong>Lambreta<\/strong>, na cr\u00f4nica de <strong>Rubem Fonseca<\/strong>, intitulada <strong>Feliz Ano Novo<\/strong>, era, como o meliante antes referido, al\u00e9m de arrogante, um cara vaidoso; e sua vaidade decorria das suas a\u00e7\u00f5es criminosas, tanto que um dos seus pares, em determinado passagem da extraordin\u00e1ria cr\u00f4nica, lhe faz a seguinte men\u00e7\u00e3o: \u201c<strong>O Lambreta quer fazer o primeiro gol do ano. Ele \u00e9 um cara vaidoso, disse Zequinha. \u00c9 vaidoso, mas merece. J\u00e1 trabalhou em S. Paulo, Curitiba, Florian\u00f3polis, Porto Alegre, Vit\u00f3ria, Niter\u00f3i, para n\u00e3o falar aqui no Rio. Mais de trinta bancos\u201d.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui mesmo neste mesmo espa\u00e7o, j\u00e1 refleti em outras ocasi\u00f5es sobre a vaidade malfazeja, aquela que \u00e9 capaz de cegar, de s\u00f3 permitir que o homem veja a sua pr\u00f3pria imagem refletida, o que o faz pensar que o seu umbigo \u00e9 o centro do universo, como \u00e9 o caso dos personagens mencionados \u00e0 guisa de exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui pretendo refletir, mais uma vez, com mais \u00eanfase, sobre a vaidade, nas suas duas vertentes, a forma como se apresenta aos meus olhos: a benfazeja, ou seja, aquela que, de rigor, todos temos, e que \u00e9 at\u00e9 certo ponto necess\u00e1ria, j\u00e1 que todas as pessoas gostam de ser reconhecidas, elogiadas, respeitadas; e a dita malfazeja, aquela que leva os homens a fazerem loucuras, a perderem a no\u00e7\u00e3o do rid\u00edculo, a se comportarem como se as rela\u00e7\u00f5es pessoais exigissem uma grife para fazer sentido, que t\u00eam sede de poder e de dinheiro, pouco se importando com a sujeira que deixam pelo caminho e os reflexos de suas condutas junto \u00e0s pr\u00f3prias fam\u00edlias, como temos visto no caso do \u201cpetrol\u00e3o\u201d e, antes, do \u201cmensal\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a vaidade benfazeja nos imp\u00f5e a obriga\u00e7\u00e3o de fazer sempre o melhor, para corresponder \u00e0s expectativas do semelhante e \u00e0s nossas pr\u00f3prias expectativas, a malfazeja, de seu lado, \u00e9 cruel, daninha, esquizofr\u00eanica, perversa, corrosiva, destruidora, danosa, esnobe, rid\u00edcula, digna de reproche, podendo, em face de todos esses predicados, levar \u00e0 perda do sentido do que seja imoral ou inescrupuloso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reafirmar as nossas eternas contradi\u00e7\u00f5es, a exigir de todos uma intensa reflex\u00e3o, todos n\u00f3s testemunhamos, nos dias presentes, com a dimens\u00e3o que o mais pessimista n\u00e3o seria capaz de imaginar, a sedimenta\u00e7\u00e3o, a carnavaliza\u00e7\u00e3o, a prolifera\u00e7\u00e3o, em escala industrial, do malfeito, como se fosse uma regra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grave \u00e9 que, para o meu, para o nosso desalento, h\u00e1 os que se orgulham, que se ufanam, sem disfarce, do mal que fazem \u00e0s pessoas, quando, por exemplo, subtraem o dinheiro p\u00fablico. Esses, apesar do mal que fazem a todos n\u00f3s, por vaidade (malfazeja, como mencionei acima), pelo apego danoso ao dinheiro, ainda se sentem no direito de esnobar, de promover festas grandiosas \u00e0 custa do meu, do nosso dinheiro, como se fosse algo absolutamente natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como cada um \u00e9 cada um, cada um se orgulha ou se envaidece de acordo com os seus valores morais. Uns preferem se manter nos estreitos limites da \u00e9tica, da honradez e da dec\u00eancia; outros, sem escr\u00fapulos, se vendem por pouco, fazem qualquer neg\u00f3cio, se orgulham de, num mundo de ot\u00e1rios, se destacarem por n\u00e3o s\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu, c\u00e1 com os meus bot\u00f5es, vou levando a vida com as minhas \u201cotarices\u201d, na certeza de ter optado, diante de um leque de escolhas morais, pelas mais condizentes com a minha condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o, magistrado e pai de fam\u00edlia, conquanto admita, com humildade, que possa, sim, em algum momento da minha vida e com consider\u00e1vel grau de certeza, n\u00e3o ter feito a melhor escolha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em face de tudo o que tem sido noticiado sobre o aparelhamento do estado e desvio de verbas p\u00fablicas, essa cr\u00f4nica \u00e9 mais que oportuna. 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