{"id":17373,"date":"2016-02-15T10:07:55","date_gmt":"2016-02-15T13:07:55","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17373"},"modified":"2016-02-17T13:25:59","modified_gmt":"2016-02-17T16:25:59","slug":"eduarda-o-rabula-e-as-nossas-contradicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17373","title":{"rendered":"EDUARDA, O R\u00c1BULA E AS NOSSAS CONTRADI\u00c7\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p>Fernando Sabino, em O Encontro Marcado, narra que Eduardo, filho de Marciano e Estef\u00e2nia, certo dia, estando no quintal de sua casa, pegou uma galinha, que ele chamava Eduarda, e a colocou debaixo de uma bacia, seguindo depois para a aula, deixando-a submetida a essa situa\u00e7\u00e3o de verdadeira tortura; traquinices de menino, daquelas que todos n\u00f3s um dia praticamos, sem medir as consequ\u00eancias, por\u00e9m sem maldade.<br \/>\nEduardo foi advertido pelo pai de que aquilo era maldade. O pai, para dar \u00eanfase \u00e0 advert\u00eancia, indagou de Eduardo se ele gostaria que fizessem o mesmo com ele, lembrando, para concluir, que galinha, como o ser humano, tamb\u00e9m sofre, tentando, com advert\u00eancia, sensibilizar Eduardo.<br \/>\nNum domingo qualquer, depois dessa advert\u00eancia, surpreso, Eduardo encontrou Eduarda, a galinha, na mesa, pernas para o ar, assada, no ponto de ser degustada. Eduarda foi comida por Eduardo entre l\u00e1grimas.<br \/>\nEduardo concluiu, assim, que, definitivamente, galinha sofre mesmo, e que, para culminar o sofrimento, ainda serviam de alimenta\u00e7\u00e3o ao homem, da\u00ed ter decidido, revoltado e triste, nunca mais criar galinha.<br \/>\nEssa passagem marcante romance de Fernando Sabino, traduz, com letras fortes, as nossas contradi\u00e7\u00f5es. Conquanto possa n\u00e3o ter sido essa a verdadeira inten\u00e7\u00e3o do ficcionista, posso inferir, sob essa perspectiva, que ele deixou patenteado o perigo que representa para credibilidade de uma pessoa dizer uma coisa e fazer outra.<br \/>\nInfelizmente, nas nossas rela\u00e7\u00f5es, temos testemunhado, n\u00e3o raro, as pessoas pregarem uma coisa e fazerem outra diametralmente oposta, do que resulta, por evidente, que, com isso, fulminam a sua credibilidade, e comprometem as rela\u00e7\u00f5es, pois que, afinal, ningu\u00e9m suporta lidar com quem n\u00e3o tem palavra ou muda de opini\u00e3o e de postura de acordo com as suas conveni\u00eancias.<br \/>\nCedi\u00e7o que, em face dessas pr\u00e1ticas, muitas vezes, em nossas rela\u00e7\u00f5es, n\u00e3o acreditamos no que algumas pessoas dizem. A gente tem sempre um p\u00e9 atr\u00e1s nas promessas que elas fazem, nas coisas que pregam, nos argumentos que adotam, convindo real\u00e7ar que, muitas vezes, isso ocorre por nossa pr\u00f3pria culpa, pois, por conveni\u00eancia ou comodidade, nos aliamos aos que n\u00e3o t\u00eam nenhuma convic\u00e7\u00e3o no que fazem e dizem.<br \/>\nAnoto, nessas breves reflex\u00f5es, que assumir uma linha de coer\u00eancia entre as palavras e a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser objetivo a ser perseguido apenas pela classe pol\u00edtica, pelos homens p\u00fablicos. Isso deve ser uma pr\u00e1tica de vida de todos.<br \/>\nN\u00e3o podemos nos furtar, com efeito, de agir, na vida privada e p\u00fablica, em conformidade com o nosso discurso, pois nada mais triste para uma rela\u00e7\u00e3o se ela \u00e9 forjada na descren\u00e7a, na falta de credibilidade de atores dessa mesma rela\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara ilustrar, lembro que, assim que me formei, fui advogar no interior do Maranh\u00e3o. Numa das cidades que escolhi para iniciar a minha vida profissional havia um provisionado (r\u00e1bula) muito inteligente e perspicaz. Tinha fama de h\u00e1bil e era muito respeitado nas comarcas circunvizinhas em face dessas qualidades.<br \/>\nEsse r\u00e1bula fazia prega\u00e7\u00f5es contundentes acerca da \u00e9tica, sobre a postura profissional do advogado; era um discurso encantador, conquanto n\u00e3o fosse essa, de rigor, a sua pr\u00e1tica profissional, como vou narrar a seguir.<br \/>\nPois bem. Com escrit\u00f3rio instalado, iniciando a minha vida profissional, sem nenhuma experi\u00eancia, com a cara e a coragem e algum conhecimento jur\u00eddico, fui procurado pela fam\u00edlia de um lavrador que tinha sido preso \u201ccorreicionalmente\u201d, o que era comum \u00e0 \u00e9poca.<br \/>\nComo vislumbrei que, em face da ilegalidade da pris\u00e3o, eu n\u00e3o teria muito trabalho para restituir a liberdade do lavrador pela via do habeas corpus, cobrei, a t\u00edtulo de honor\u00e1rios, um valor pequeno, quase irris\u00f3rio, mas razo\u00e1vel, j\u00e1 que o caso era simples e exigiria muito pouco de mim.<br \/>\nOs parentes do paciente, curiosa, mas justificadamente, n\u00e3o acreditaram que por um valor t\u00e3o irris\u00f3rio eu conseguiria a restitui\u00e7\u00e3o de sua liberdade. Sa\u00edram do meu gabinete, descrentes, e foram procurar o r\u00e1bula. Esse, atilado e perspicaz, disse a eles que eu havia cobrado um valor insignificante porque, muito novo e sem experi\u00eancia, n\u00e3o daria conta do recado, e que ele, sim, com a sua vasta experi\u00eancia e conhecimento, sabia estar defronte de um caso que exigia muito conhecimento e experi\u00eancia.<br \/>\nCom essa conversa, cobrou um valor muito superior pelo trabalho e conseguiu conquistar o cliente. E, como eu j\u00e1 supunha, com um simples pedido de informa\u00e7\u00f5es do juiz, o delegado colocou em liberdade o paciente, pois que tinha ci\u00eancia da ilegalidade da pris\u00e3o.<br \/>\nA li\u00e7\u00e3o que se pode tirar dessa hist\u00f3ria \u00e9 que, muitas vezes, h\u00e1 os que, descrente de tudo, pagam caro por essa descren\u00e7a, estimulando, nesse panorama, que muitos adotem um discurso diferente de sua pr\u00e1tica de vida, como ocorreu no epis\u00f3dio envolvendo a galinha de Eduardo.<br \/>\nFoi nesse ambiente que o r\u00e1bula encontrou as portas abertas para fazer um discurso sedutor e em raz\u00e3o do qual conquistou o \u201cmeu\u201d cliente, ainda que houvesse uma enorme dist\u00e2ncia entre a realidade e o que ele pregou para essa finalidade, a evidencia, com tintas fortes, as nossas contradi\u00e7\u00f5es e a dist\u00e2ncia que muitos estabelecem entre o discurso e a pr\u00e1tica de vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Sabino, em O Encontro Marcado, narra que Eduardo, filho de Marciano e Estef\u00e2nia, certo dia, estando no quintal de sua casa, pegou uma galinha, que ele chamava Eduarda, e a colocou debaixo de uma bacia, seguindo depois para a aula, deixando-a submetida a essa situa\u00e7\u00e3o de verdadeira tortura; traquinices de menino, daquelas que todos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-17373","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pokay-4wd","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17373"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17373\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18128,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17373\/revisions\/18128"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}