{"id":17408,"date":"2016-05-10T09:09:03","date_gmt":"2016-05-10T12:09:03","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17408"},"modified":"2016-05-10T09:09:03","modified_gmt":"2016-05-10T12:09:03","slug":"marginais-e-estatisticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17408","title":{"rendered":"MARGINAIS E ESTAT\u00cdSTICAS"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/2013\/05\/09\/bons-numeros\/tjma-2\/\" rel=\"attachment wp-att-15376\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-15376\" src=\"http:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/tjma-199x300.jpg\" alt=\"tjma\" width=\"199\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/tjma-199x300.jpg 199w, https:\/\/joseluizalmeida.com\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/tjma.jpg 296w\" sizes=\"auto, (max-width: 199px) 100vw, 199px\" \/><\/a>N\u00e3o lembro exatamente quando, mas recordo, todavia, que tendo estado em Fortaleza num desses feriados longos, vi coincidir a minha ida com a publica\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas que indicavam os \u00edndices de criminalidade naquela capital.<br \/>\nHospedado na Avenida Beira Mar, sa\u00ed com a minha mulher, num final de tarde, para caminhar no cal\u00e7ad\u00e3o, como, ali\u00e1s, costumam fazer os turistas que visitam aquela cidade.<br \/>\nAo sair do hotel, uma senhora, muito simp\u00e1tica por sinal, veio ao nosso encontro e nos aconselhou a deixar objeto de valor no hotel, advertindo-nos dos \u00edndices de viol\u00eancia e do perigo de andar pelas ruas, fazendo uso de bens materiais.<br \/>\nDespojados de bolsa, carteira porta c\u00e9dulas, celulares, cord\u00f5es, bijuterias e outras coisas mais, sa\u00edmos pelo cal\u00e7ad\u00e3o, apavorados, olhando para todos os lados, com a sensa\u00e7\u00e3o de que a qualquer momento pud\u00e9ssemos ser vitimas de um assalto.<br \/>\nCurioso e preocupado, fiquei observando o comportamento das pessoas. Vi v\u00e1rias comprando presentes na tradicional \u201cFeirinha\u201d; outras comprando sorvete, exibindo a carteira porta c\u00e9dulas, celulares&#8230;, vivendo naturalmente, como se estivessem numa cidade de primeiro mundo.<br \/>\nDecerto \u00e9 que o quadro n\u00e3o parecia t\u00e3o feio como pintaram. Contudo, encafifado com a advert\u00eancia, achei melhor procurar um lugar mais seguro. E assim, peguei um t\u00e1xi e fui ao shopping, na certeza de estar, pelo menos mais confort\u00e1vel psicologicamente, embora nem t\u00e3o seguro.<br \/>\nAo entrar no t\u00e1xi, iniciei conversa com o motorista, cearense de Sobral, morando em Fortaleza h\u00e1 vinte anos, quinze deles dedicados ao servi\u00e7o de t\u00e1xi. E como quem n\u00e3o quer nada, fui puxando assunto. Percebi logo que o \u201ccoleguinha\u201d era do tipo falante, do tipo que tem a maior facilidade para dar informa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nComecei falando de futebol e depois sobre pol\u00edtica. No futebol, fomos bem. Sem revolta, s\u00f3 alguma frustra\u00e7\u00e3o. Inobstante, quando passamos a falar de pol\u00edtica&#8230; Bem, imaginem o que ele disse dos nossos representantes. Mas eu n\u00e3o queria falar de pol\u00edtica, nem de futebol. Queria mesmo era saber da viol\u00eancia.<br \/>\nTravei com ele o seguinte di\u00e1logo, a prop\u00f3sito:<br \/>\n&#8211; Li as \u00faltimas estat\u00edsticas dando conta de que Fortaleza \u00e9 uma das capitais mais violentas do mundo. O que o amigo acha dessa informa\u00e7\u00e3o?<br \/>\nEle, sem titubeio, respondeu:<br \/>\n-Tudo mentira. Essas estat\u00edsticas n\u00e3o condizem com a realidade. Aqui n\u00e3o tem viol\u00eancia coisa nenhuma. A viol\u00eancia daqui n\u00e3o \u00e9 diferente das demais capitais.<br \/>\nPercebi que ele n\u00e3o gostou. Ficou exaltado com a minha indaga\u00e7\u00e3o. Pensei: meu Deus, esse assunto n\u00e3o \u00e9 do agrado do companheiro. Fiquei preocupado e silenciei.<br \/>\nDepois de uma pausa, ele perguntou de onde eu vinha. Respondi que era de S\u00e3o Luis do Maranh\u00e3o. Ele, galhofeiro, com um sorriso maroto, como uma vingan\u00e7a, disse:<br \/>\n-Terra de fulano, hein?<br \/>\nComo eu j\u00e1 esperava pela provoca\u00e7\u00e3o, reagi.<br \/>\n-Verdade. Mas prefiro dizer tratar-se da terra de Josu\u00e9 Montelo, Gon\u00e7alves Dias, Humberto de Campos, Aluisio de Azevedo, Agostinho Marques, Ferreira Gullar, Jo\u00e3sinho Trinta, Lourival Serejo, Milson Coutinho, Nauro Machado, Viriato Correa, Tur\u00edbio Santos e Zeca Baleiro, dentre outros maranhenses ilustres.<br \/>\nDa\u00ed em diante, ele passou a falar de pol\u00edtica, como se pretendesse fugir do tema viol\u00eancia. Disse o diabo de todos. Do Cear\u00e1 n\u00e3o escapou ningu\u00e9m. Disse horrores de Lula e Dilma. Parecia odi\u00e1-los.<br \/>\nDiante de mais essa rea\u00e7\u00e3o, dei um refresco, falei mal de alguns pol\u00edticos e elogiei outros. Fiz ver a ele que h\u00e1, sim, pessoas de bem no mundo da pol\u00edtica e que n\u00e3o \u00e9 justo a generaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDei um tempo, o shopping se aproximando, e voltei ao tema que me preocupava: viol\u00eancia.<br \/>\n-Sim, amigo, e a viol\u00eancia?! Fortaleza \u00e9 ou n\u00e3o uma cidade violenta?<br \/>\nEle me olhou com a cara de quem n\u00e3o gostou da minha insist\u00eancia, e disparou:<br \/>\n-O senhor quer saber de uma cosia? Essa viol\u00eancia de que falam tem uma explica\u00e7\u00e3o. \u00c9 que nessas estat\u00edsticas fajutas, entram as mortes de marginais. E a morte de bandido n\u00e3o conta, doutor.<br \/>\nE prosseguiu:<br \/>\n&#8211; O camarada est\u00e1 praticando um assalto ou acaba de praticar, a pol\u00edcia chega, e ele afronta a policia&#8230;tem de morrer. Agora, levar isso em conta para dizer que Fortaleza \u00e9 violenta, a\u00ed, meu amigo, j\u00e1 \u00e9 demais.<br \/>\nFoi adiante.<br \/>\n&#8211; O senhor pode observar: s\u00e3o poucas as pessoas de bem nessa hist\u00f3ria. S\u00f3 morre bandido. E bandido, repito, n\u00e3o conta. Bandido \u00e9 feito pra morrer mesmo.<br \/>\nRetruquei, mas confesso que o fiz temendo a rea\u00e7\u00e3o dele:<br \/>\n-Sem julgamento? Na marra mesmo? Sem direito \u00e0 defesa?<br \/>\nEle me deu uma olhada de esguelha, e disparou:<br \/>\n&#8211; Defesa pra bandido, doutor? E quem \u00e9 que vai esperar julgamento, doutor? Doutor, esses caras v\u00e3o presos hoje e amanh\u00e3 est\u00e3o de volta \u00e0 rua. Tem \u00e9 que morrer mesmo. E n\u00e3o tem nada que contar essas mortes para efeito de estat\u00edsticas. Estat\u00edstica \u00e9 pra gente de bem. Bandido n\u00e3o conta, doutor, disse, elevando a voz.<br \/>\n&#8211; Esses caras, doutor \u2013 prosseguiu \u2013, ou morrem em confronto com a pol\u00edcia, ou s\u00e3o eles mesmos se matando por causa de droga. E tudo isso \u00e9 coisa de periferia. Tem \u00e9 que morrer mesmo, insistiu. S\u00e3o (sic) um bando de marginal que s\u00f3 faz mal \u00e0 sociedade. Tirando esses bandidos das estat\u00edsticas, concluiu, o senhor pode crer que aqui n\u00e3o tem viol\u00eancia.<br \/>\nEstupefato, calei. Depois, pensei: Deus meu, a que ponto n\u00f3s chegamos! Em que mundo estamos vivendo?! O ser humano n\u00e3o vale mais nada mesmo.<br \/>\nSegundo o nosso \u201canalista urbano\u201d, pessoas da periferia, os pobres, os ditos bandidos, esses devem mesmo morrer, e n\u00e3o servem nem mesmo para fins de estat\u00edstica; n\u00e3o t\u00eam direito a um julgamento justo, ademais.<br \/>\nO que se deve lamentar, em face dessa vis\u00e3o enviesada, \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o poucos os que pensam da mesma forma. Nas inst\u00e2ncias de controle, o que \u00e9 lament\u00e1vel, testemunhamos, com clareza, essa discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; N\u00e3o lembro exatamente quando, mas recordo, todavia, que tendo estado em Fortaleza num desses feriados longos, vi coincidir a minha ida com a publica\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas que indicavam os \u00edndices de criminalidade naquela capital. 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