{"id":17497,"date":"2017-01-20T09:58:22","date_gmt":"2017-01-20T12:58:22","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17497"},"modified":"2017-01-20T09:58:22","modified_gmt":"2017-01-20T12:58:22","slug":"o-cuidado-que-devemos-ter-com-as-expectativas-que-criamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17497","title":{"rendered":"O CUIDADO QUE DEVEMOS TER COM AS EXPECTATIVAS QUE CRIAMOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Desembargador Jos\u00e9 Luiz Oliveira de Almeida<\/strong><\/p>\n<p><strong>Membro do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Maranh\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s, admitamos ou n\u00e3o, vivemos, aqui e acol\u00e1, momentos de pura elucubra\u00e7\u00e3o, de muita imagina\u00e7\u00e3o, de fantasias e de sonhos. Nos nossos sonhos e fantasias, elucubra\u00e7\u00f5es e imagina\u00e7\u00e3o, muitas vezes, pontificam personalidades do mundo real, com as quais n\u00e3o temos o menor contato, mas sobre as quais fazemos as mais diversas e esquisitas especula\u00e7\u00f5es, os mais esquisitos ju\u00edzos, imaginando-as assim ou assado, at\u00e9 o dia em somos instados a confrontar a realidade e, nesse passo, compelidos a reavaliar, positiva ou negativamente, os ju\u00edzos pr\u00e9-concebidos que formulamos.<\/p>\n<p>O primeiro encontro de Stalin com L\u00eanin se deu na Finl\u00e2ndia, em dezembro de 1905, numa confer\u00eancia semiclandestina da qual Stalin participaria como delegado do partido georgiano. Consta que a primeira impress\u00e3o de Stalin em face de L\u00eanin foi de pura decep\u00e7\u00e3o; muito distante, com efeito, daquilo que havia imaginado e idealizado sobre o l\u00edder.<\/p>\n<p>Consta, nesse sentido, que Stalin, depois do primeiro encontro, teria dito: \u201cEu esperava ver a \u00e1guia do nosso partido, o grande homem, grande n\u00e3o s\u00f3 politicamente, mas, por assim dizer, tamb\u00e9m fisicamente, porque L\u00eanin se apresentava \u00e0 minha imagina\u00e7\u00e3o como um gigante de bela figura, com um ar imponente. Qual n\u00e3o foi, por\u00e9m, a minha desilus\u00e3o, prosseguiu, quando vi um homem dos mais comuns, de estatura inferior \u00e0 m\u00e9dia, que n\u00e3o se distinguia em nada, em absolutamente nada, dos simples mortais\u201d.<\/p>\n<p>L\u00eanin, da mesma forma, n\u00e3o deve ter se impressionado com o que viu, afinal, segundo uma ficha de dados compilada pela policia czarista depois de sua primeira pris\u00e3o, Stalin era, da mesma forma, um tipo comum, atarracado, de estatura m\u00e9dia, com cerca de 1.62, barba e bigode escuros, a fisionomia marcada pela var\u00edola e uma singular particularidade: tinha o segundo e o terceiro dedos do p\u00e9 esquerdo unidos.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 de Alencar subiu \u00e0 tribuna para o seu primeiro discurso como deputado, sob enorme expectativa, em face da sua reputa\u00e7\u00e3o como literato. Todos esperavam um excelente orador, com boa din\u00e2mica de fala, convincente, capaz de galvanizar as aten\u00e7\u00f5es. Foi uma enorme decep\u00e7\u00e3o. Trope\u00e7ou nas palavras, n\u00e3o foi convincente, n\u00e3o mereceu aplausos. Foi o oposto de tudo que se imaginou, que se criou, enfim, em face da sua fama de literato. \u00c9 que as pessoas n\u00e3o foram capazes de, ao alimentarem a sua imagina\u00e7\u00e3o, perceber que um literato n\u00e3o \u00e9, necessariamente, um grande orador, da\u00ed o equivoco de se elucubrar, de se imaginar, de se sonhar descurando que, acima disso, al\u00e9m dos nossos preconceitos, h\u00e1 uma realidade que n\u00e3o pode ser desconsiderada.<\/p>\n<p>O que revelam esses epis\u00f3dios \u00e9 o obvio: devemos ter cuidado com as expectativas que criamos em torna nas pessoas, da mesma forma que temos que ter cuidado redobrado com a primeira impress\u00e3o, pois nem sempre o que parece \u00e9. Essas s\u00e3o li\u00e7\u00f5es comezinhas, mas que, pela que testemunhamos todos os dias, poucos a aprenderam. Eu pr\u00f3prio, muitas vezes, sou tomado de desalento, ao fazer um julgamento precipitado do que vi no primeiro momento ou em face das expectativas que criei em torno de determinadas pessoas; como ocorreu, por exemplo, com Euclides da Cunha que trazia consigo uma falsa impress\u00e3o sobre Canudos, que s\u00f3 se dissipou quando se defrontou com a realidade.<\/p>\n<p>Pelo fato de ser muito f\u00e3 de um determinado cantor popular, de ter sido embalado na minha juventude \u2013 e at\u00e9 hoje, j\u00e1 na terceira idade &#8211; pelas suas can\u00e7\u00f5es, sempre guardei em mim a esperan\u00e7a de um dia poder estar com ele. Descobri, j\u00e1 maduro, que o melhor mesmo \u00e9 que esse dia nunca chegue, pois, para mim, tendo-o como um mito, tendo-o idealizado como um quase deus, seria muito dif\u00edcil concluir que ele \u00e9 uma pessoa igual a mim. \u00c9 prefer\u00edvel, pois, que eu guarde dele apenas a imagem que criei, pois, para mim, seria um desalento se, conhecendo-o de perto, descobrisse que ele \u00e9 gente igual a gente; e um \u00eddolo, um mito como ele, n\u00e3o pode ser igualzinho a mim, simples mortal.<\/p>\n<p>Eu guardei na minha lembran\u00e7a, por muitos anos, a imagem da casa que morava com a minha fam\u00edlia em Vitorino Freire. Na minha retina ficou guardado, por muitos anos, o campo de futebol, em frente a uma usina de beneficiamento de arroz, onde jog\u00e1vamos futebol. Eu sonhava muito em voltar um dia para rever a casa e o campo mencionados, pois eles, como tantas outras coisas de l\u00e1, n\u00e3o habitavam, de forma inclemente, as minhas mais l\u00fadicas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Determinado dia, muitos anos passados, voltei na esperan\u00e7a de matar a saudade dos momentos vividos na minha inf\u00e2ncia. Criei expectativas v\u00e1rias. Meus p\u00e9s e as minhas m\u00e3os gelaram ao entrar na cidade. Mas foi enorme a decep\u00e7\u00e3o: nem o campo de futebol e nem a casa em que mor\u00e1vamos existiam mais. Frustrado, decepcionado, triste, voltei para S\u00e3o Luis, prometendo a mim mesmo que tudo faria, doravante, para n\u00e3o destruir os meus sonhos, as minhas fantasias, a imagem guardada, pois o que vi diante dos meus olhos pode ser medido, em propor\u00e7\u00e3o, \u00e0 decep\u00e7\u00e3o de Stalin ao deparar-se com a figura min\u00fascula e inexpressiva de L\u00eanin, ou de Euclides da Cunha, ao testemunhar os seus equ\u00edvocos em torno de Canudos.<\/p>\n<p>N\u00e3o custa nada guardar as boas lembran\u00e7as no aconchego da alma. N\u00e3o faz mal sonhar, imaginar e elucubrar. Faz parte da vida. Melhor sonhar, viver das boas lembran\u00e7as que pura e simplesmente se decepcionar ao confrontar a realidade; pelo menos at\u00e9 aonde \u00e9 poss\u00edvel sonhar, afinal, como diz o poeta, \u201csonhar n\u00e3o custa nada, n\u00e3o se paga pra sonhar\u201d. Mas, do mesmo modo, \u00e9 preciso muito cuidado com as ideias pr\u00e9-concebidas, para n\u00e3o ter se decepcionar, como se decepcionaram os que confundiram Jos\u00e9 de Alencar escritor com o Jos\u00e9 de Alencar orador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desembargador Jos\u00e9 Luiz Oliveira de Almeida Membro do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Maranh\u00e3o &nbsp; Todos n\u00f3s, admitamos ou n\u00e3o, vivemos, aqui e acol\u00e1, momentos de pura elucubra\u00e7\u00e3o, de muita imagina\u00e7\u00e3o, de fantasias e de sonhos. Nos nossos sonhos e fantasias, elucubra\u00e7\u00f5es e imagina\u00e7\u00e3o, muitas vezes, pontificam personalidades do mundo real, com as quais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-17497","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pokay-4yd","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17497"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17497\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18097,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17497\/revisions\/18097"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}