{"id":17526,"date":"2017-03-09T16:14:11","date_gmt":"2017-03-09T19:14:11","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17526"},"modified":"2017-03-09T16:19:19","modified_gmt":"2017-03-09T19:19:19","slug":"o-acoite-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17526","title":{"rendered":"O A\u00c7OITE DAS PALAVRAS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">_________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>&#8220;[&#8230;]As palavras, reafirmo, s\u00e3o poderosas; mesmo quando se trata de uma gafe, ou seja, quando as palavras s\u00e3o pronunciadas por descuido, de forma inconveniente, o autor quase nunca \u00e9 perdoado, mesmo porque, todos haver\u00e3o de concordar, vivemos momentos de intoler\u00e2ncia, exacerbada em face das disputas pol\u00edticas e por prega\u00e7\u00f5es irrespons\u00e1veis que acabaram por dividir o pais entre \u201ccoxinhas\u201d e \u201cmortadelas\u201d, \u201cn\u00f3s e \u201celes\u201d, \u201cesquerda e direita\u201d, \u201cprogressistas e conservadores\u201d[&#8230;]&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">________________________________<\/p>\n<p>As palavras t\u00eam poder. Ouvi essa advert\u00eancia muitas vezes. Atrevo-me a dizer, agora, em virtude da minha maturidade, que as palavras, quando mal produzidas &#8211; ou mal interpretadas\u00a0&#8211; s\u00e3o como um relho: a\u00e7oitam, maltratam, e podem colocar o autor delas em situa\u00e7\u00e3o de verdadeiro constrangimento p\u00fablico, como se deu ontem com o nosso presidente, que, ao que parece, como a sua antecessora, n\u00e3o tem muita habilidade para falar de improviso.<\/p>\n<p>Na vida, convivendo com o semelhante, descobri que eles t\u00eam muito mais poder que se possa imaginar, tanto que n\u00e3o s\u00e3o poucas as personalidades \u2013 contempor\u00e2neas ou do passado &#8211; que ficaram marcadas pelas palavras que disseram, e, muito mais grave ainda, at\u00e9 mesmo pelo que nunca disseram, mas que, ainda assim, viram seus nomes vinculados a frases ou palavras que lhes marcaram a vida para sempre, quer positiva, quer negativamente.<\/p>\n<p>Exemplos dessa constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o faltam. Voltaire, por exemplo, nunca disse a frase \u201c<strong>Eu discordo do que voc\u00ea diz, mas defenderei at\u00e9 a morte o seu direito de diz\u00ea-lo<\/strong><strong>&#8220;, conquanto seja uma frase simp\u00e1tica de democr\u00e1tica e em raz\u00e3o do que nunca sofreu nenhum censura. \u00a0Quem a pronunciou, em verdade, foi uma bi\u00f3grafa sua, segundo consta das anota\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que se tem.<\/strong><\/p>\n<p>Da mesma forma, consta que a frase atribu\u00edda a Benjamim Franklin (uns dizem que pronunciada por E\u00e7a de Queiroz) &#8211;<strong> \u201c<\/strong><strong>Pol\u00edticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos, pelo mesmo motivo<\/strong><strong>&#8221; \u2013<\/strong>\u00a0n\u00e3o teria sido pronunciada por ele, mas entrou para hist\u00f3ria como se tivesse sido dita\u00a0 pelo presidente americano.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que, para bem ou para o mal, todo cuidado \u00e9 pouco com as palavras, na certeza de que pode ocorrer, sim, at\u00e9 mesmo de atribu\u00edrem a n\u00f3s aquilo que nunca dissemos, como ocorreu comigo certa feita, quando, numa audi\u00eancia, pedi ao acusado que jogasse a goma de marcar fora porque estava atrapalhando a sua dic\u00e7\u00e3o, tendo chegado ao Tribunal e informa\u00e7\u00e3o de que eu havia proibido &#8211; assim mesmo, arrogantemente, ditatorialmente &#8211; \u00a0o uso, por qualquer pessoa \u2013 funcion\u00e1rio, inclusive \u2013 de goma de mascar no meu gabinete e na salas das audi\u00eancias.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que pessoas impetuosas, veementes \u2013 como eu \u2013 devem ter muito mais cuidado ainda com o que dizem. Elas, as palavras, ditas em momentos inoportunos, impensadamente, s\u00e3o um a\u00e7oite que deve \u2013 ou deveria \u2013 ser evitado, conquanto nem sempre isso ocorra, pelos mais variados motivos.<\/p>\n<p>As palavras, reafirmo, s\u00e3o poderosas; mesmo quando se trata de uma gafe, ou seja, quando as palavras s\u00e3o pronunciadas por descuido, de forma inconveniente, o autor quase nunca \u00e9 perdoado, mesmo porque, todos haver\u00e3o de concordar, vivemos momentos de intoler\u00e2ncia, exacerbada em face das disputas pol\u00edticas e por prega\u00e7\u00f5es irrespons\u00e1veis que acabaram por dividir o pais entre \u201ccoxinhas\u201d e \u201cmortadelas\u201d, \u201cn\u00f3s e \u201celes\u201d, \u201cesquerda e direita\u201d, \u201cprogressistas e conservadores\u201d.<\/p>\n<p>Dois exemplos recentes que reafirmam n\u00e3o s\u00f3 o poder das palavras como o clima de intoler\u00e2ncia que vivemos. A presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmem L\u00facia, sempre muito prudente com as palavras, deu uma entrevista \u00e0 Globo News, em cuja oportunidade fez um coment\u00e1rio pejorativo e um pouco desconexo comparando Ministros a autistas. Pronto! O mundo desabou sobre a sua cabe\u00e7a. Todos testemunharam as rea\u00e7\u00f5es belicosas, mesmo que todos saibam, pela sua hist\u00f3rica prud\u00eancia com as palavras, que \u00a0ela n\u00e3o pretendeu ofender ningu\u00e9m. Mas, ainda assim, foi atacada veementemente, em face dos a\u00e7oites produzidos pelas palavras proferidas.<\/p>\n<p>O prefeito eleito de S\u00e3o Paulo, \u00a0Jo\u00e3o Doria (PSDB), sempre muito loquaz, \u00a0durante visita ao bairro de Perus, na Zona Oeste de S\u00e3o Paulo, durante uma entrevista, referiu-se AACD, chamando-a, inadvertidamente, de &#8220;Associa\u00e7\u00e3o para Crian\u00e7a Defeituosa&#8221; (o nome correto da entidade \u00e9 Associa\u00e7\u00e3o de Assist\u00eancia \u00e0 Crian\u00e7a Deficiente). Doria dizia, na oportunidade, \u00a0que iria doar seu primeiro sal\u00e1rio como prefeito \u00e0 entidade. Doria citou o nome antigo da funda\u00e7\u00e3o, que por 50 anos (de 1950 a 2000) era chamada de Associa\u00e7\u00e3o de Assist\u00eancia \u00e0 Crian\u00e7a Defeituosa. Pronto! Por isso tamb\u00e9m o mundo desabou sobre a cabe\u00e7a do prefeito. Teve que se desculpar, mesmo sabendo-se que n\u00e3o falou de m\u00e1-f\u00e9, que n\u00e3o teve a inten\u00e7\u00e3o de ofender.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que tenho dito, sem nenhuma originalidade, que se deve ter cuidado com as palavras. Mas nem sempre nos comportamos como recomendado, nem sempre somos compreendidos pelos que dissemos, sobretudo em face da abertura sem\u00e2ntica de alguns termos, que imp\u00f5e a todos n\u00f3s, sobretudo homens p\u00fablicos, maior desvelo ainda para com as palavras.<\/p>\n<p>Nas sess\u00f5es do TJ, como s\u00f3i ocorrer, eu costumo fazer interven\u00e7\u00f5es para expor os meus pontos de vista. Nem sempre sou compreendido em face da veem\u00eancia com que falo. E mesmo tendo muito cuidado com as palavras, sei que corro riscos de ser incompreendido, como, de resto, acontece com que tem a coragem de se expor dizendo o que pensa e defendendo os seus pontos de vista.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, ademais, quando tivermos que repercutir uma afirma\u00e7\u00e3o, ter muito cuidado em contextualizar a frase, pois que, fora do contexto em que foi proferida, ela pode n\u00e3o retratar exatamente aquilo que se pretendeu dizer.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias que decorrem de um descuido com as palavras podem ser irrepar\u00e1veis. Podem gerar at\u00e9 a\u00e7\u00f5es por danos morais. Por isso, repito, \u00e9 preciso ter cuidado com as palavras, cuidado que muitos n\u00e3o t\u00eam e que, pelo descuido, pagam um pre\u00e7o elevado, como se deu com o presidente FHC que, certo dia, pediu que esquecessem o que tinha escrito. Essa frase, tirada do contexto, lhe deu \u2013 e continua dando \u2013 muitas dores de cabe\u00e7a. Ou, noutro exemplo, como se deu com Nietzsche que disse uma frase \u2013 \u201c<strong>Deus est\u00e1 morto<\/strong>\u201d \u2013 que, retirada o contexto, pois o real sentido da frase \u00e9 que a \u00e9 que a figura do &#8220;Deus cl\u00e1ssico&#8221; perdeu valor entre os homens, e n\u00e3o uma simples nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de Deus, at\u00e9 hoje \u00e9 mal compreendida.<\/p>\n<p>Mais grave ainda \u00e9 quando a palavra ou frase sequer foi pronunciada, como se deu com Maria Antonieta, que, ao que se saiba, nunca mandou o povo franc\u00eas, que n\u00e3o tinha p\u00e3o para se alimentar, que se alimentasse de brioche. Ou com Maquiavel que, por uma distor\u00e7\u00e3o do seu pensamento, teria dito a famosa frase &#8211; \u201c<strong>os fins justificam os meios<\/strong>\u201d \u2013 que nunca pronunciou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>_________________________________ &#8220;[&#8230;]As palavras, reafirmo, s\u00e3o poderosas; mesmo quando se trata de uma gafe, ou seja, quando as palavras s\u00e3o pronunciadas por descuido, de forma inconveniente, o autor quase nunca \u00e9 perdoado, mesmo porque, todos haver\u00e3o de concordar, vivemos momentos de intoler\u00e2ncia, exacerbada em face das disputas pol\u00edticas e por prega\u00e7\u00f5es irrespons\u00e1veis que acabaram por dividir [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-17526","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pokay-4yG","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17526"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17526\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18092,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17526\/revisions\/18092"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}