{"id":17559,"date":"2017-03-16T18:29:19","date_gmt":"2017-03-16T21:29:19","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17559"},"modified":"2017-03-16T18:31:31","modified_gmt":"2017-03-16T21:31:31","slug":"poder-e-afetos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17559","title":{"rendered":"PODER E AFETOS"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;[&#8230;]O desapre\u00e7o, a falta de afeto do Imperador pela pacata, exemplar, dedicada e sofrida princesa Leopoldina, foi decisivo para nas dificuldades que ele teve para encontrar na Europa uma nova consorte, pois a sua p\u00e9ssima reputa\u00e7\u00e3o cruzou o oceano, e as princesas no velho continente fugiram apavoradas s\u00f3 em se imaginarem reviver na pr\u00f3pria carne o calv\u00e1rio de Leopoldina, triste e desprezada pelo homem a quem dedicou a sua vida e a quem o poder apenas estimulou a ser cruel e, \u00e0s vezes, desumano, da\u00ed fazer por merecer a fama de sult\u00e3o sul-americano, assassino da pr\u00f3pria esposa, que transformou a corte brasileira em um bordel de luxo[&#8230;]&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tenho refletido muito sobre as consequ\u00eancias que decorrem do exerc\u00edcio do poder &#8211; seja absoluto ou moderado &#8211; \u00a0para o afeto nas rela\u00e7\u00f5es pessoais, com destaque para as rela\u00e7\u00f5es familiares. \u00c9 que tenho testemunhado, pessoalmente ou na literatura, o mal que pode fazer o exerc\u00edcio do poder para as rela\u00e7\u00f5es afetivas, muitas das quais, n\u00e3o se pode negar, sucumbem diante da falta de equil\u00edbrio no exerc\u00edcio de um cargo relevante. Isso porque \u00e9 a partir do poder que muitos revelam o seu car\u00e1ter, as suas tend\u00eancias \u2013 para o bem ou para o mal, mais para o mal do que para o bem -, a sua propens\u00e3o para desprezar os afetos, mesmo os familiares, se necess\u00e1rio for, para se preservar no poder.<\/p>\n<p>A vida do Imperador D. Pedro I, quer na vis\u00e3o de Isabel Lustosa (Ed. Companhia das Letras), quer na vis\u00e3o romanceada, de Javier Moro (Imp\u00e9rio \u00e9 voc\u00ea: A fascinante saga do homem que mudou a hist\u00f3ria do Brasil, \u00a0Ed. Planeta, iBooks), e as barbaridades do Rei Henrique VIII (The Tudors, s\u00e9rie exibida no Netflix), obras sobre as quais me detive mais recentemente, me levam, definitivamente, a essa constata\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel, ou seja, de que o poder \u2013 seja absoluto ou n\u00e3o \u2013 tem, sim, o cond\u00e3o de, quando conveniente ao detentor, romper os afetos familiares, tornar descart\u00e1veis as amizades e estimular as arbitrariedades.<\/p>\n<p>Em face da miopia que povoa a mente de quem exerce o poder &#8211; que pode ser exemplificado, ademais, com as conflituosas rela\u00e7\u00f5es de D. Jo\u00e3o VI e D. Carlota Joaquina, com a guerra fratricida entre D. Miguel e D. Pedro I, e a forma desumana e desrespeitosa com que D. Pedro I tratava D. Leopoldina, a quem s\u00f3 deu valor depois de morta, j\u00e1 que vivia embriagado e cego pelo prazer que desfrutava nos bra\u00e7os de Domitila -, aos afetos restam, muitas vezes, apenas as sobras, as migalhas das rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os exemplos hist\u00f3ricos \u2013 e atuais &#8211; dos rompimentos dos afetos em face do poder s\u00e3o incont\u00e1veis. Lembro, ademais, \u00e0 guisa de ilustra\u00e7\u00e3o, que Pedro, \u201co Grande\u201d, por exemplo &#8211; como fez Henrique VIII com Ana Bolena -, mandou decapitar a amante e depois segurou a cabe\u00e7a dela, usando-a numa aula de anatomia, despedindo-se dela, macabramente, com um beijo na boca; Ivan, o terr\u00edvel, conhecido pela crueldade, matou o pr\u00f3prio filho.<\/p>\n<p>As correspond\u00eancias er\u00f3ticas entre Alexandre II e sua amante e de Pedro I e Domitila, a famosa Marquesa de Santos, a qual acima me reportei, s\u00e3o mais dois exemplos da falta de afeto familiar que o exerc\u00edcio do poder proporciona, que se torna incontrol\u00e1vel quando aliado \u00e0 falta de car\u00e1ter dos que n\u00e3o t\u00eam pudor e nem limites morais para o seu exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>O desapre\u00e7o, a falta de afeto do Imperador pela pacata, exemplar, dedicada e sofrida princesa Leopoldina, foi decisivo para nas dificuldades que ele teve para encontrar na Europa uma nova consorte, pois a sua p\u00e9ssima reputa\u00e7\u00e3o cruzou o oceano, e as princesas no velho continente fugiram apavoradas s\u00f3 em se imaginarem reviver na pr\u00f3pria carne o calv\u00e1rio de Leopoldina, triste e desprezada pelo homem a quem dedicou a sua vida e a quem o poder apenas estimulou a ser cruel e, \u00e0s vezes, desumano, da\u00ed fazer por merecer a fama de sult\u00e3o sul-americano, assassino da pr\u00f3pria esposa, que transformou a corte brasileira em um bordel de luxo.<\/p>\n<p>As pessoas embriagadas com o poder absoluto &#8211; que nem precisa ser t\u00e3o absoluto assim, como anotei acima &#8211; sequer t\u00eam ouvidos pra ouvir conselhos dos que lhes prezam, mesmo porque os ac\u00f3litos,\u00a0 os que est\u00e3o em volta do poderoso, \u00e0s vezes s\u00f3 mesmo por interesse e por conveni\u00eancia \u2013 como o Chala\u00e7a, o Sancho Pan\u00e7a de D. Pedro I -, \u00a0s\u00f3 costumam dizer aquilo que a eles conv\u00e9m, sendo, nesse cen\u00e1rio, uma louv\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o posi\u00e7\u00f5es como a de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio que, certa feita, quando do seu retorno \u00e0 corte, tempos depois de ter se afastado em face das posi\u00e7\u00f5es intempestivas do imperador, recusou os cargos que este lhe ofereceu, dizendo que n\u00e3o almejava nenhum deles, pois o que desejava mesmo era servir de advogado do diabo, sem posi\u00e7\u00e3o e sem remunera\u00e7\u00e3o, pretendendo, nessa condi\u00e7\u00e3o, \u201cser livre para falar da maneira mais franca poss\u00edvel, e se me permitir mostrar os erros e falhas que vier a cometer, porque isso \u00e9 de interesse de vossa majestade, de seus filhos e de todos n\u00f3s.(Javier Moro, <em>ob. cit<\/em>. iBooks).<\/p>\n<p>Para encerrar, devo dizer, convicto, que n\u00e3o permito que o poder interfira no afeto das pessoas que amo. Por isso, nada em mim mudou. Posso ser, sim, arrogante e prepotente como muitos pregam, por maldade ou com raz\u00e3o. Contudo, sou rigorosamente o mesmo de sempre. Frequento os mesmos lugares. Os amigos s\u00e3o os mesmos. A rotina \u00e9 a mesma. As tert\u00falias continuam restritas \u00e0 fam\u00edlia e aos poucos, sinceros e leais amigos.<\/p>\n<p>Decerto que o meu afeto e o meu carinho pelas pessoas que amo permanecem inalterados. Mas sei que n\u00e3o \u00e9 o que ocorre com os que se embriagam com o poder, ainda que apenas uma fatia dele, pois esses costumam pensar que s\u00e3o muito mais do que efetivamente s\u00e3o. Por isso, s\u00e3o mais do que comuns, nos ambientes em que se sublima o poder, as disputas familiares, as desaven\u00e7as entre parentes e amigos, as quais terminam por corromper os pr\u00f3prios afetos. Da\u00ed porque, em campo ant\u00edpoda, tenho dito que, entre o poder e os meus afetos, n\u00e3o hesito em optar por estes.<\/p>\n<p>E-mail: jose.luiz.almeida@globo.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &#8220;[&#8230;]O desapre\u00e7o, a falta de afeto do Imperador pela pacata, exemplar, dedicada e sofrida princesa Leopoldina, foi decisivo para nas dificuldades que ele teve para encontrar na Europa uma nova consorte, pois a sua p\u00e9ssima reputa\u00e7\u00e3o cruzou o oceano, e as princesas no velho continente fugiram apavoradas s\u00f3 em se imaginarem reviver na pr\u00f3pria [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-17559","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pokay-4zd","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17559","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17559"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17559\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18091,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17559\/revisions\/18091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17559"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17559"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17559"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}