{"id":17663,"date":"2018-01-14T16:28:31","date_gmt":"2018-01-14T19:28:31","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17663"},"modified":"2018-01-14T16:32:08","modified_gmt":"2018-01-14T19:32:08","slug":"ferula-a-espreita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17663","title":{"rendered":"F\u00c9RULA \u00c0 ESPREITA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&#8220;<strong>Para os nossos pais, era compreens\u00edvel a rispidez com que nos tratavam; eles, at\u00e9, recomendavam que n\u00e3o passassem as m\u00e3os nas cabe\u00e7as dos filhos, autorizando que, sendo o caso, dobrassem os castigos, o rigor do tratamento, na ilus\u00e3o, fruto da ignor\u00e2ncia, de que somente o tratamento r\u00edspido teria o poder de formar a personalidade do homem de bem&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A inf\u00e2ncia e a minha adolesc\u00eancia fixaram, definitivamente, os contornos da minha personalidade. Tudo que fa\u00e7o nos dias presentes, para o bem ou para o mal, decorrem do que vivenciei na minha juventude, que, claro, foi igual a de muitas outras pessoas, mas que, em mim, em face mesmo da minha extrema sensibilidade, deve ter repercutido muito mais que noutros viventes.<br \/>\nSou, sim, um pouco Am\u00e2ncio (Casa de Pens\u00e3o, de Alu\u00edsio de Azevedo). Vivi, sim, muito do que viveu Am\u00e2ncio, exceto as inconsequ\u00eancias que o levaram a ter a vida que teve. N\u00e3o guardei, no entanto, o mesmo rancor que ele demonstrou ter guardado em face de determinadas circunst\u00e2ncias da vida.<br \/>\nA verdade \u00e9 que, para o meu conforto pessoal, n\u00e3o consigo ser rancoroso. Estou sempre disposto a perdoar \u2013 e perdoo mesmo. E o perd\u00e3o, para mim, equivale a uma liberta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o guardo m\u00e1goas, definitivamente. J\u00e1 perdoei at\u00e9 quem n\u00e3o merecia, conquanto, em alguns casos, tenha preferido, por prud\u00eancia, manter dist\u00e2ncia.<br \/>\nNunca me arrependi de ser assim, mesmo diante de algumas ingratid\u00f5es. Eu sou assim e vou morrer assim. N\u00e3o sou do tipo que exige algo em troca. Fa\u00e7o o que devo fazer e ponto.<br \/>\nMas como anotei acima, vivi muito das paix\u00f5es, das experi\u00eancias, dos tormentos que Am\u00e2ncio viveu. Posso reafirmar, incursionando no lugar comum, que, no meu caso, a vida imita a arte, ainda que apenas imita\u00e7\u00e3o parcial, por raz\u00f5es que sabem bem os que leram o romance e que me conhecem.<br \/>\nComo Am\u00e2ncio, tamb\u00e9m deixei a cidade pequena \u2013 minha inesquec\u00edvel Vitorino Freire -, por decis\u00e3o de minha m\u00e3e que foi, afinal, quem, verdadeiramente &#8211; diferente do provedor da fam\u00edlia -, sempre se preocupou com o futuro dos filhos, contando, sempre, com a abnega\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o de uma irm\u00e3 (minha tia), que soube, na aus\u00eancia da minha m\u00e3e, substitu\u00ed-la a contento.<br \/>\nNa cidade grande (grande, claro, se comparada a Vitorino Freire), onde cresci, orientei-me muito mais pelos meus instintos que por conselhos, sem saber mesmo aonde pretendia chegar, pois n\u00e3o tinha a percep\u00e7\u00e3o clara do caminho a seguir &#8211; a n\u00e3o ser, claro, que ele deveria ser digno -, afinal, a dist\u00e2ncia, especialmente da minha m\u00e3e, que mesmo muito nova era, para mim, o meu guia, a minha b\u00fassola, me tirou, de certa forma o prumo, o rumo, a dire\u00e7\u00e3o; rumo e dire\u00e7\u00e3o que a vida terminou por me mostrar.<br \/>\nTal qual o personagem de Alu\u00edsio de Azevedo, eu tamb\u00e9m vivi o desconforto de n\u00e3o receber tratamento acolhedor e fraterno do provedor da casa, com quem os filhos \u2013 eu e mais sete irm\u00e3os &#8211; n\u00e3o mantinham o mais singelo di\u00e1logo e do qual s\u00f3 receb\u00edamos indiferen\u00e7a e algumas poucas imposi\u00e7\u00f5es, determina\u00e7\u00f5es que deveriam ser cumpridas cegamente, sem discuss\u00e3o, incutindo em todos n\u00f3s uma p\u00e9ssima e perigosa sensa\u00e7\u00e3o \u2013 quando n\u00e3o convic\u00e7\u00e3o &#8211; de que ordens, erradas ou certas, justas ou injustas, eram para ser cumpridas.<br \/>\nEu, tamb\u00e9m &#8211; como o personagem da fic\u00e7\u00e3o -, convive com professores carrascos, verdadeiros tiranos; o inimigo, n\u00e3o o mestre. Na escola, eu tamb\u00e9m recebi palmatoadas, sempre que me mostrava a incapaz de responder corretamente a uma indaga\u00e7\u00e3o formulada pela professora; a f\u00e9rula, ao tempo da argui\u00e7\u00e3o, ficava, sempre, muito pr\u00f3ximo do \u201cmestre\u201d, \u00e0 espreita &#8211; encarando, intimidando -, para ser usada quando se fizesse necess\u00e1rio, dificultando sobremodo a aprendizagem, afinal, o medo da f\u00e9rula, sob seu olhar soturno, minha alma ficava atormentada, assim como indel\u00e9veis eram as marcas deixadas pelo ind\u00f3cil instrumento de intimida\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO mais grave era que, por mais que tent\u00e1ssemos, atormentados por esse modelo equivocado de ensino, n\u00f3s nunca nunca t\u00ednhamos raz\u00e3o. Aprendi, nesse cen\u00e1rio, a viver sem ter raz\u00e3o, achando que estava errado &#8211; sempre. Me sentia, por isso, sempre culpado, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o ousava enfrentar o \u201cmestre\u201d.<br \/>\n\u00c0 \u00e9poca em que a f\u00e9rula me amea\u00e7ava \u2013 a mim e colegas de infort\u00fanio -, uma den\u00fancia feita por um professor aos pais, em face da m\u00e1 conduta de um aluno, al\u00e9m do castigo na sala de aula, tinha como consequ\u00eancia um novo castigo em casa, quando n\u00e3o uma surra exemplar.<br \/>\nPara fugir dessa realidade que me atormentava, como atormentava a outros alunos, sempre fui do tipo circunspecto, acanhado, calado, aterrorizado, macamb\u00fazio, mas esfor\u00e7ado. Para mim, acostumado a conviver com o terror imposto pelo provedor, era excessivo ter que conviver, ademais, com as agruras que decorriam da insensibilidade dos mestres, tendo sempre a f\u00e9rula a me vigiar.<br \/>\nO sofrimento de Am\u00e2ncio transformou-se, posso inferir do romance, em m\u00e1goas; o meu, em li\u00e7\u00e3o de vida. Aprendi a respeitar meus filhos, a dar-lhes tratamento digno, e, quando lecionava, apenas me fazia respeitar. Nunca senti necessidade de me vingar dos meus alunos. No meu cora\u00e7\u00e3o, semeei apenas conc\u00f3rdia, o amor ao pr\u00f3ximo.<br \/>\nPara os nossos pais, era compreens\u00edvel a rispidez com que nos tratavam; eles, at\u00e9, recomendavam que n\u00e3o passassem as m\u00e3os nas cabe\u00e7as dos filhos, autorizando que, sendo o caso, dobrassem os castigos, o rigor do tratamento, na ilus\u00e3o, fruto da ignor\u00e2ncia, de que somente o tratamento r\u00edspido teria o poder de formar a personalidade do homem de bem.<br \/>\nTudo isso marcou muito a minha vida, e a de muitos que, como eu, viveram nesses tempos, digamos, sombrios. Felizmente, formei a minha personalidade adotando postura diametralmente oposta \u00e0 postura dos que nos infligiram esse tipo equivocado de tratamento &#8211; que, admito foi de boa f\u00e9 -, cujas marcas todos carregamos para sempre, ainda que n\u00e3o restem vest\u00edgios f\u00edsicos, ainda que estejam alojadas apenas no rec\u00f4ndito da alma de cada um de n\u00f3s, mas que, de toda sorte, moldaram a nossa personalidade: para o bem ou para o mal, dependendo de como cada um assimilou as li\u00e7\u00f5es ministradas sob os olhares atentos da f\u00e9rula enraivecida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212; &#8220;Para os nossos pais, era compreens\u00edvel a rispidez com que nos tratavam; eles, at\u00e9, recomendavam que n\u00e3o passassem as m\u00e3os nas cabe\u00e7as dos filhos, autorizando que, sendo o caso, dobrassem os castigos, o rigor do tratamento, na ilus\u00e3o, fruto da ignor\u00e2ncia, de que somente o tratamento r\u00edspido teria o poder de formar a personalidade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-17663","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pokay-4AT","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17663","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17663"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17663\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17665,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17663\/revisions\/17665"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17663"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17663"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17663"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}