{"id":17780,"date":"2019-08-23T11:56:09","date_gmt":"2019-08-23T14:56:09","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17780"},"modified":"2019-08-23T11:56:09","modified_gmt":"2019-08-23T14:56:09","slug":"sic-transit-gloria-mundi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17780","title":{"rendered":"SIC TRANSIT GLORIA MUNDI"},"content":{"rendered":"<p>A gl\u00f3ria do mundo \u00e9 passageira, como diz o brocardo latino que tomei de empr\u00e9stimo para o t\u00edtulo desse artigo. Nesse sentido, s\u00f3 um tolo &#8211; que n\u00e3o \u00e9 meu caso &#8211; se ilude com o poder, pois o que se vive nele \u00e9 absolutamente ef\u00eamero. Tenho dito isso, repetidas vezes, a reafirmar a minha convic\u00e7\u00e3o de que a salva\u00e7\u00e3o da alma est\u00e1 fora do poder.<br \/>\nOu, noutro giro, a salva\u00e7\u00e3o da alma n\u00e3o est\u00e1 no exerc\u00edcio do poder, conquanto admita que haja os que, embevecidos em face do poder, imaginam que o seu exerc\u00edcio salvar\u00e1 a sua alma; e nessa perspectiva, perdem a no\u00e7\u00e3o e os limites de sua a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA verdade \u00e9 que a vida acelera, e o tempo passa com uma rapidez que s\u00f3 n\u00e3o impressiona os que, por qualquer raz\u00e3o, perderam o rumo, a dire\u00e7\u00e3o, o discernimento. A vida acelera, repito, e n\u00f3s vamos juntos \u2013 sem op\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o termos o poder de impedir a passagem inevit\u00e1vel do tempo. E assim, a vida se esvai, levada pelo tempo, inapelavelmente.<br \/>\n\u00c9 preciso, pois, estar preparado para, inevitavelmente, deixar a ribalta para os novos atores; e que sejamos capazes de agir, nesse sentido, por vontade pr\u00f3pria, antes que o fa\u00e7amos vergastados pelas leis da natureza, as quais, conforme sabemos, n\u00e3o fazem nenhuma concess\u00e3o acerca dessa quest\u00e3o.<br \/>\nLogo, \u00e9 preciso estar atentos e preparados para os efeitos que o tempo nos imp\u00f5e a todos, pois aquele que n\u00e3o se preparar para essa realidade ser\u00e1 surpreendido com a constata\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 lhe restou, para ser curada, a ressaca que decorre do tempo que passou sem que se desse conta de que tudo passa, embriagado pelo exerc\u00edcio do poder.<br \/>\nO tempo, indomado, a(quase) tudo destr\u00f3i; s\u00f3 n\u00e3o destr\u00f3i a nossa hist\u00f3ria, o que edificamos \u2013 de bom ou de ruim. Logo, a \u00fanica certeza que tenho \u00e9 a de que, ao fim e ao cabo, s\u00f3 restar\u00e1 mesmo aquilo que constru\u00edmos, que deixamos para as gera\u00e7\u00f5es futuras: o bom exemplo, a boa conduta, a retid\u00e3o e o car\u00e1ter.<br \/>\nE assim, a cada dia, a cada momento, aqueles que exercem o poder com aptid\u00e3o, com abnega\u00e7\u00e3o, com devo\u00e7\u00e3o, com os olhos voltados apenas para as suas finalidades prec\u00edpuas, v\u00e3o construindo a sua hist\u00f3ria, sedimentando o seu legado para as gera\u00e7\u00f5es futuras.<br \/>\nNesse sentido, a hist\u00f3ria que cada um de n\u00f3s escreve pode ser uma boa ou m\u00e1 hist\u00f3ria. Tudo depende da maneira como exercemos o poder e se, nesse sentido, formos capazes de deixar bons exemplos nos quais as futuras gera\u00e7\u00f5es possam buscar inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuero, sim, ser lembrado, no futuro, como um magistrado que pelos menos tentou ousar, romper os paradigmas, que abriu m\u00e3o de nacos do poder, que a tantos fascinam, em defesa de suas convic\u00e7\u00f5es, na firme compreens\u00e3o de que n\u00e3o vale o poder a qualquer custo.<br \/>\nEu n\u00e3o quero ser lembrado como um magistrado capaz de qualquer a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o para angariar simpatias que possam ser usadas como moedas de troca para alcan\u00e7ar cargos relevantes.<br \/>\nEu fa\u00e7o a minha hist\u00f3ria. E cada um, por \u00f3bvio, faz a sua. Umas mais e outras menos relevantes; algumas mais ou menos dignas. Mas, ainda assim, hist\u00f3ria, em raz\u00e3o da qual todos n\u00f3s um dia seremos lembrados.<br \/>\nTriste daquele que passa pelo poder e n\u00e3o constr\u00f3i uma hist\u00f3ria digna. Triste dos que pensam que o poder \u00e9 apenas um instrumento de satisfa\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o pessoais.<br \/>\nO poder passa; a nossa hist\u00f3ria fica. Mesmo os ditadores, ainda que n\u00e3o creiam na finitude, um dia deixam o poder \u2013 ou pela morte ou pelo golpe.<br \/>\nPor tudo que acima expus \u00e9 que reafirmo que o poder \u00e9 a ilus\u00e3o dos tolos, motivo pelo qual tenho d\u00f3 dos que exercem o poder com os p\u00e9s na cabe\u00e7a, cultivando apenas o seu ego ou para dele se servir, sem esp\u00edrito p\u00fablico e sem a dimens\u00e3o do m\u00fanus.<br \/>\nQuem assim pensa e age, tende a, no futuro, quando o poder lhe escapar das m\u00e3os, ficar sozinho, num ostracismo que j\u00e1 matou de t\u00e9dio muitos daqueles que, no poder, imaginavam-se super-homens, com superpoderes, acima do bem e do mal.<br \/>\nQuando digo que o poder n\u00e3o deve ser exercido a qualquer custo e que as pessoas encarapitadas nele devem ter a exata dimens\u00e3o de at\u00e9 aonde podem ir, lembro de uma passagem interessante da hist\u00f3ria que vale a pena ser lembrada, \u00e0 guisa de ilustra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPois bem. Graciliano Ramos, prefeito de Palmeira dos \u00cdndios, mandou recolher os animais que ficavam soltos na rua. O funcion\u00e1rio destacado para cumprir a ordem, depois de um dia exaustivo de trabalho, retornou para fazer um balan\u00e7o de suas atividades.<br \/>\nGraciliano Ramos o indagou, ent\u00e3o`:<br \/>\n-E ai, recolheu todos os cachorros?<br \/>\nAo que respondeu, em tom bajulat\u00f3rio, o funcion\u00e1rio:<br \/>\n-Sim, excel\u00eancia.<br \/>\nE observou, em seguida:<br \/>\n-Menos o do seu pai.<br \/>\nGraciliano o repreendeu, seca e duramente, traduzindo o que para ele representava o m\u00fanus p\u00fablico:<br \/>\n&#8211; Prefeito n\u00e3o tem pai.<br \/>\n\u00c9 isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gl\u00f3ria do mundo \u00e9 passageira, como diz o brocardo latino que tomei de empr\u00e9stimo para o t\u00edtulo desse artigo. 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