{"id":17787,"date":"2019-09-16T12:51:02","date_gmt":"2019-09-16T15:51:02","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17787"},"modified":"2019-09-16T12:51:02","modified_gmt":"2019-09-16T15:51:02","slug":"sobre-impostos-fundo-eleitoral-e-protese","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17787","title":{"rendered":"SOBRE IMPOSTOS, FUNDO ELEITORAL E PR\u00d3TESE"},"content":{"rendered":"<p>O Estado, para se manter, precisa dos impostos que pagamos. Sem impostos n\u00e3o se constroem hospitais e estradas, por exemplo.<br \/>\nSem o dinheiro dos impostos, ademais, a m\u00e1quina do Estado simplesmente n\u00e3o funciona; n\u00e3o se compra sequer gaze para um simples curativo.<br \/>\nPor isso, \u00e9 justo, \u00e9 racional que nos cobrem e que paguemos os nossos impostos.<br \/>\nNesse sentido, e objetivando o bem comum, \u00e9 natural que a cobran\u00e7a se fa\u00e7a mediante imposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe \u00e9 verdade que o Estado n\u00e3o funciona sem os impostos que pagamos, por que ent\u00e3o os pagamos com alguma m\u00e1 vontade?<br \/>\nVou tentar responder a essa quest\u00e3o com apenas dois exemplos do mau uso do dinheiro coletado junto ao cidad\u00e3o pagador de impostos, os quais, somados a outros tantos, nos levam a um agastamento natural quando somos compelidos a pag\u00e1-los.<br \/>\nMas, antes, retrocedo no tempo, para ilustrar essas reflex\u00f5es.<br \/>\nHerodes Antipas, o quinto filho de Herodes, o Grande, vinha fazendo tudo para brutalizar e despojar o povo da Galileia de tudo que tinha.<br \/>\nJudas de Gamala se insurgiu contra a cobran\u00e7a excessiva de impostos, porque, ele sabia, todos sabiam, enfim, serviam mais ao esbanjamento e menos ao interesse p\u00fablico.<br \/>\nOs soldados de Antipas capturaram Judas de Gamala e o crucificaram, tendo antes sido torturado publicamente para que a multid\u00e3o pudesse testemunhar o seu mart\u00edrio, presentes ao supl\u00edcio os seus filhos Jac\u00f3 e Sim\u00e3o.<br \/>\nAs torturas infligidas a Judas de Gamala tinham um claro objetivo, qual seja, lembrar a todos que, gostassem ou n\u00e3o, os impostos tinham que ser recolhidos.<br \/>\nJudas de Gamala foi amarrado nu com as m\u00e3os sobre a cabe\u00e7a e foi a\u00e7oitado por dois soldados com seus chicotes de cabo curto, cujas tr\u00eas tiras de couro possu\u00edam bolas de chumbo e lascas de osso de carneiro nas pontas, para potencializar o sofrimento.<br \/>\nA cada chicotada, as tiras de couro rasgavam a pele do m\u00fasculo de Judas de Gamala, enquanto o chumbo e as lascas de osso deixavam feridas profundas, causando hemorragia interna.<br \/>\nO desnudamento e as chibatadas, que antecediam a crucifica\u00e7\u00e3o, eram uma forma de humilha\u00e7\u00e3o, e, de certa forma, mais um exemplo para que as pessoas n\u00e3o se insurgissem contra o pagamento de impostos.<br \/>\nA lei judaica diz que um homem s\u00f3 pode ser a\u00e7oitado 39 vezes, conforme est\u00e1 escrito: \u201cquarenta menos um\u201d. Mas com os romanos n\u00e3o tinha dessas. A v\u00edtima, com efeito, podia ser a\u00e7oitada incont\u00e1veis vezes, at\u00e9 partir para a crucifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJudas buscara libertar o povo da Judeia da tributa\u00e7\u00e3o injusta aplicada por Roma e Herodes, tendo conclamado seus conterr\u00e2neos judeus a se erguerem contra os seus opressores, inconformado com a cobran\u00e7a abusiva e com o mal uso do dinheiro p\u00fablico.<br \/>\nA crucifica\u00e7\u00e3o, no Imp\u00e9rio Romano, era, com efeito, a maneira mais dolorida de execu\u00e7\u00e3o; t\u00e3o dolorosa que era proibida a pr\u00e1tica contra cidad\u00e3os romanos.<br \/>\nDecerto que Judas de Gamala n\u00e3o foi o \u00fanico a se insurgir contra a opress\u00e3o romana. Como ele muitos lutaram pela liberdade e pagaram com a vida pela aud\u00e1cia; mas foram, tamb\u00e9m como ele, esquecidos.<br \/>\nDestacado o sofrimento infligido a Judas de Gamala, apenas para registrar que n\u00e3o \u00e9 de hoje que as pessoas lutam contra o mau uso do dinheiro p\u00fablico arrecadado, retomo \u00e0 pergunta que fiz no in\u00edcio dessa cr\u00f4nica: se os impostos s\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1rios, por que ent\u00e3o os pagamos com tanta m\u00e1 vontade?<br \/>\nExplico a minha compreens\u00e3o, formulando novas indaga\u00e7\u00f5es.<br \/>\nComo Judas de Gamala reagiria com a destina\u00e7\u00e3o de 3,7 bilh\u00f5es de reais, dos impostos que pagamos, para o chamado Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Jornal o Globo de 12\/09), sobretudo ante a ci\u00eancia de que sobre essa verba, que poderia ser destinada a obras em benef\u00edcio do cidad\u00e3o &#8211; escolas, hospitais, estradas etc -, o controle e fiscaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o meramente formais?<br \/>\nNum pa\u00eds com tantas car\u00eancias, com as pessoas mais humildes morrendo nas filas dos hospitais ou jogadas nos corredores desses mesmos hospitais, para ficar apenas no exemplo mais candente, como n\u00e3o se indignar com a destina\u00e7\u00e3o dessa verba para o famigerado Fundo Eleitoral, j\u00e1 para as elei\u00e7\u00f5es municipais vindouras?<br \/>\nE o tratamento odontol\u00f3gico do Deputado Pastor Feliciano, ao custo de R$157.000,00 (cento e cinquenta e sete mil reais), pago com o dinheiro dos impostos que recolhemos?<br \/>\nComo n\u00e3o reagir?<br \/>\nComo n\u00e3o se revoltar?<br \/>\nConvenhamos, n\u00e3o \u00e9 para alimentar as extravag\u00e2ncias das campanhas eleitorais, nem para pagar a pr\u00f3tese do deputado Pastor Marco Feliciano, para ficar apenas nos dois exemplos que escolhi para essas reflex\u00f5es, que nos sacrificamos para pagar os impostos que pagamos.<br \/>\nNesse cen\u00e1rio, \u00e9 mais que justa a minha, a sua, a nossa indigna\u00e7\u00e3o em face do mau uso do dinheiro p\u00fablico amealhado com o pagamento de impostos.<br \/>\nDiante desse panorama, mais grave que a destina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas bilh\u00f5es e setecentos milh\u00f5es para o Fundo Eleitoral e os R$157.000,00 (Cento e cinquenta e sete mil reais) destinados ao pagamento do tratamento dent\u00e1rio do Deputado Marco Feliciano, \u00e9 a passividade com que a popula\u00e7\u00e3o recebe not\u00edcias desse jaez, muitas vezes veiculadas sem grande destaque na imprensa, como se fosse algo natural, para, em seguida, cair no esquecimento.<br \/>\n\u00c9 claro que todos temos consci\u00eancia c\u00edvica de que devemos pagar os nossos impostos. Mas \u00e9 justa, da mesma forma, na mesma medida e com essa mesma consci\u00eancia c\u00edvica, a nossa indigna\u00e7\u00e3o com descalabros dessa ordem, que, c\u00e1 do meu canto, recebo como uma afronta, por isso mesmo digna de registro, ainda que sem nenhuma consequ\u00eancia pr\u00e1tica.<br \/>\n\u00c9 isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Estado, para se manter, precisa dos impostos que pagamos. Sem impostos n\u00e3o se constroem hospitais e estradas, por exemplo. Sem o dinheiro dos impostos, ademais, a m\u00e1quina do Estado simplesmente n\u00e3o funciona; n\u00e3o se compra sequer gaze para um simples curativo. 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