{"id":17790,"date":"2019-11-13T10:54:49","date_gmt":"2019-11-13T13:54:49","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17790"},"modified":"2019-11-13T10:54:49","modified_gmt":"2019-11-13T13:54:49","slug":"lamento-e-arrependimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17790","title":{"rendered":"LAMENTO E ARREPENDIMENTO"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Em outra ocasi\u00e3o, aqui neste mesmo espa\u00e7o, tive a oportunidade de dizer que acho uma desprez\u00edvel arrog\u00e2ncia algu\u00e9m n\u00e3o se permitir o arrependimento ou concluir que, se tivesse que voltar ao passado, faria tudo outra vez, como se fosse infal\u00edvel.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 incomum ouvir as pessoas dizerem, com excessiva soberba: n\u00e3o me arrependo de nada do que fiz at\u00e9 agora. Ou, noutro giro, mas com igual arrog\u00e2ncia: se tivesse que come\u00e7ar de novo, faria tudo outra vez.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Dito de uma forma ou de outra, o que se infere mesmo das afirma\u00e7\u00f5es acima lan\u00e7adas \u00e9 que h\u00e1 pessoas que n\u00e3o se permitem admitir o erro, e por isso n\u00e3o aceitam mudar alguma atitude equivocada que tenha protagonizado no passado.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Pessoas que pensam assim tendem a pagar um pre\u00e7o elevado pela arrog\u00e2ncia, pois n\u00e3o existe quem, tendo passado pela vida, n\u00e3o tenha motivos para o arrependimento, para o qual, importa consignar, s\u00f3 h\u00e1 um momento: o momento certo.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Se n\u00e3o formos capazes de perceber o momento certo do arrependimento, da\u00ed em diante, a destempo, portanto, s\u00f3 pode ocorrer o lamento, aqui entendido como a express\u00e3o de uma dor. \u00c9 que, fora de hora, o arrependimento \u00e9 lamento, autoflagelo, autopuni\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">A verdade \u00e9 que h\u00e1 pessoas, todos n\u00f3s testemunhamos, que s\u00f3 demonstram algum arrependimento depois do caldo derramado, diante, muitas vezes, da finitude, quando mais nada pode ser feito para reparar os erros cometidos.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Um c\u00e2ncer devastador em face do cigarro, uma cirrose hep\u00e1tica em face do consumo imoderado de \u00e1lcool, um enfarto em face de uma vida desregrada n\u00e3o permitem, \u00e9 bom que se diga, um arrependimento eficaz, sen\u00e3o o lamento tardio.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Por isso, tenho dito, fruto da minha experi\u00eancia de vida, que h\u00e1 tempo para o arrependimento, como h\u00e1 tempo para plantar e para colher.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Arrepender-se a tempo e tentar minimizar as consequ\u00eancias dos erros cometidos tem que ser, ademais, decorrente de uma a\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. Nessa perspectiva, n\u00e3o vale o arrependimento imposto, incutido por circunst\u00e2ncias externas, decorrentes, portanto, de press\u00f5es ex\u00f3genas, premido pelas circunst\u00e2ncias, pelas adversidades, porque a\u00ed, \u00e9 necess\u00e1rio redizer, n\u00e3o se trata de arrependimento, mas de lamento, quando n\u00e3o mero oportunismo. O arrependimento tardio \u00e9, repito, um n\u00e3o arrependimento, um lamento oportunista.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">H\u00e1 quem pense que basta amar as pessoas. E n\u00e3o s\u00e3o poucos os que n\u00e3o percebem, portanto, que n\u00e3o vale apenas amar. \u00c9 preciso cuidar, ademais. E quem ama verdadeiramente, cuida, pois amar sem cuidar \u00e9 como se n\u00e3o fosse amor; se \u00e9 amor \u00e9 amor internalizado, ego\u00edstico, inconsequente, descuidado, sem efeito pr\u00e1tico. Logo, \u00e9 a qualidade das rela\u00e7\u00f5es, os sentimentos que cultivamos, o amor que dedicamos aos entes queridos que determinam a qualidade e profundidade das rela\u00e7\u00f5es que estabelecemos.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Contudo, \u00e9 for\u00e7oso admitir, n\u00e3o s\u00e3o poucos os que, em face da fam\u00edlia, n\u00e3o amam e n\u00e3o cuidam, para, no final, j\u00e1 nos estertores da vida, quando n\u00e3o h\u00e1 mais tempo para o arrependimento, cobrarem aten\u00e7\u00e3o, amor e afeto daqueles para os quais negaram os mesmos sentimentos.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Quem n\u00e3o valoriza o amor filial, quem abandonou a quem deveria cuidar, pode ter certeza de que, muito provavelmente, se n\u00e3o for capaz de se arrepender a tempo e hora, receber\u00e1 em contrapartida, nos momentos mais angustiantes de solid\u00e3o, as migalhas que restaram do relacionamento que nunca valorizou, pois, se na vida somos um po\u00e7o vazio de sentimentos, se pensarmos apenas em n\u00f3s mesmos, vazios tamb\u00e9m ser\u00e3o os momentos que antecedem a finitude.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">A verdade \u00e9 que o que passou passou, e sobre isso n\u00e3o h\u00e1 o que discutir e nem o que fazer, raz\u00e3o por que, quando muito, o que podemos \u00e9 especular, convindo trazer \u00e0 cola\u00e7\u00e3o, para ilustrar e para reafirmar a imutabilidade do passado, uma passagem da hist\u00f3ria protagonizada pelo l\u00edder chin\u00eas Deng Xiaoping, o qual, indagado sobre como teria sido escrito a hist\u00f3ria se Kennedy n\u00e3o tivesse sido assassinado, respondeu, irritado, na lata: &#8220;A senhora Kennedy n\u00e3o teria casado com Onassis&#8221;. Com isso ele apenas pretendeu reafirmar o \u00f3bvio: n\u00e3o d\u00e1 pra ficar perscrutando em face de situa\u00e7\u00f5es consolidadas, pois n\u00e3o se muda a hist\u00f3ria \u00e0 luz de um ju\u00edzo de especula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Passados os anos, aquele que n\u00e3o foi capaz de amar, de valorizar os seus entes queridos, que s\u00f3 pensou em seus pr\u00f3prios interesses, que n\u00e3o soube compartilhar, se solidarizar, enfim, n\u00e3o ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es, por falta de tempo, de, aproximando-se o fim, reconstruir a rela\u00e7\u00e3o que solapou, quando devia cultivar. Ademais, os que n\u00e3o cultivam carinho, amizade, considera\u00e7\u00e3o e respeito dos seus, na finitude tender\u00e1 a sentir uma dor t\u00e3o lancinante que nenhuma morfina ser\u00e1 capaz de fazer cessar, porque \u00e9 muito mais que dor f\u00edsica.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Por tudo isso, \u00e9 que devemos amar, nos dedicar, nos solidarizar, nos entregar e viver para as pessoas que verdadeiramente nos amam, pois, creiam, diante dos infort\u00fanios, das dificuldades pelas quais todos haveremos de passar um dia, se n\u00e3o formos capazes de amar e nos dedicar verdadeiramente a quem nos ama, tenderemos, quando mais necessitarmos, apenas lamentar pelas nossas atitudes. Da\u00ed porque, como diz o roqueiro, \u00e9 preciso amar as pessoas como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3, porque se voc\u00ea parar para pensar, na verdade n\u00e3o h\u00e1 mesmo.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">\u00c9 isso.<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em outra ocasi\u00e3o, aqui neste mesmo espa\u00e7o, tive a oportunidade de dizer que acho uma desprez\u00edvel arrog\u00e2ncia algu\u00e9m n\u00e3o se permitir o arrependimento ou concluir que, se tivesse que voltar ao passado, faria tudo outra vez, como se fosse infal\u00edvel. 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