{"id":17808,"date":"2020-01-21T16:25:25","date_gmt":"2020-01-21T19:25:25","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17808"},"modified":"2020-01-21T16:25:25","modified_gmt":"2020-01-21T19:25:25","slug":"abusos-na-travessia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17808","title":{"rendered":"ABUSOS NA TRAVESSIA"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Dou in\u00edcio a estas reflex\u00f5es, como sempre fa\u00e7o, com a narrativa de um fato hist\u00f3rico, a partir do qual passo a esgrimir as minhas compreens\u00f5es sobre determinados fatos da vida, um dos quais protagonizei no \u00faltimo final de semana, na travessia Cujupe-Ponta da Espera.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Os fragmentos abaixo foram apanhados na biografia de Tiradentes, magistralmente escrita por Lucas Figueiredo, na passagem que cuida da cobran\u00e7a de impostos em face da produ\u00e7\u00e3o do ouro em Minas Gerais. Os excertos s\u00e3o uma oportuna advert\u00eancia quanto aos abusos a que todos n\u00f3s somos submetidos, nas mais diversas esferas de atividades, nos mais diversos ambientes, em face dos mais diversos atores.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Aspas para o autor, na parte que interessa \u00e0s reflex\u00f5es:<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">&#8220;Um burocrata zeloso e astuto observador da cena mineira, o desembargador portugu\u00eas Jos\u00e9 Jo\u00e3o Teixeira Coelho, tinha matado a charada: A falta do quinto do ouro [imposto sobre a produ\u00e7\u00e3o do metal precioso] n\u00e3o procede dos extravios, como se entende; procede, sim, da decad\u00eancia das minas, e esta decad\u00eancia tem suas origens f\u00edsicas. O magistrado ia adiante: fazer o diagn\u00f3stico errado, ou seja, insistir na repress\u00e3o como forma de aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o, traria consequ\u00eancias as mais perigosas e as mais funestas. Prof\u00e9tico, Teixeira Coelho avisava: Os naturais de Minas e de toda a Am\u00e9rica s\u00e3o homens de esp\u00edrito, e se a humanidade os pode fazer honestos e d\u00f3ceis, o abuso do poder somente os far\u00e1 criminosos&#8221;. (from &#8220;<\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\"><b>O Tiradentes: Uma biografia de Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier&#8221; by Lucas Figueiredo<\/b><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">).<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Repito com o desembargador Teixeira Coelho, na parte que importa para o desenvolvimento do meu racioc\u00ednio: o abuso do poder pode perturbar o esp\u00edrito, mesmo do homem mais d\u00f3cil e honesto. Da\u00ed que, diante de um abuso, \u00e9 preciso prud\u00eancia e equil\u00edbrio.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Agora, um fato protagonizado por mim, que justifica a \u00eanfase que dou ao excerto.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Dia 12 de janeiro pr\u00f3ximo passado eu retornava, com a minha fam\u00edlia, de Cururupu, no ferry-boat das 14:30, operado pela Internacional Mar\u00edtima. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">No interior da embarca\u00e7\u00e3o, estacionei o ve\u00edculo no local determinado pelos funcion\u00e1rios da referida empresa. Percebi, no entanto, que, estacionado o ve\u00edculo, eu n\u00e3o tinha como abrir a porta para descer. Cuidei, ent\u00e3o, de afast\u00e1-lo da lateral do Ferry, mas fui instado, pelo marinheiro, a n\u00e3o retirar o ve\u00edculo do local que ele havia determinado, pois, se assim o fizesse, comprometeria o espa\u00e7o destinado aos outros ve\u00edculos.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Fiz ver a ele que somente afastando o ve\u00edculo da lateral eu poderia abrir a porta e sair, mas ele me disse que o ve\u00edculo tinha que ficar no local que ele determinou. E aduziu: o senhor teu direito \u00e0 travessia porque comprou a passagem, mas o seu carro vai no local que eu determinar.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Eu insisti que, para sair do interior, tinha que deslocar o ve\u00edculo. Come\u00e7ou um natural bate-boca: ele determinando que eu fizesse o que ele mandava, e eu insistindo para que respeitasse um espa\u00e7o m\u00ednimo para eu sair do interior o ve\u00edculo.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Nesse momento apareceram mais dois marinheiros, j\u00e1 exaltados e arrogantes. Um deles foi claro: tinha que ser como determinado. Um outro, menos exaltado, prop\u00f4s que eu mudasse de lugar. Pensei em n\u00e3o faz\u00ea-lo, por\u00e9m, constrangido com a arrog\u00e2ncia dos marinheiros, aquiesci.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Senti medo. Eu estava com a minha fam\u00edlia. N\u00e3o queria causar-lhes sofrimento. Calei, olhei em volta e vi que n\u00e3o tinha a quem apelar. Decidi, ent\u00e3o, obedecer \u00e0 alternativa mais razo\u00e1vel: mudei de lugar, calado, sem dizer uma palavra. Mas o abuso, a arrog\u00e2ncia e a prepot\u00eancia com que fui tratado, claro, me agastaram.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Como o desembargador Teixeira Coelho, posso dizer: sou homem de esp\u00edrito, sou honesto e sou d\u00f3cil. Mas \u00e9 certo tamb\u00e9m, como conclui o eminente magistrado, que o abuso de poder pode, sim, fazer nascer um criminoso, se ele n\u00e3o for capaz de se controlar.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Sei que se eu tivesse insistido para que respeitassem o meu direito de ter acesso ao exterior pela porta do motorista, como deve ser, eu poderia ser v\u00edtima de agress\u00f5es &#8211; pelo menos verbais -, as quais, por \u00f3bvio, me fariam reagir. Mas preferi a prud\u00eancia e recuei, pura e simplesmente.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Fiz o que eles determinaram os arrogantes marinheiros. Todavia, senti-me espezinhado, vilipendiado, desrespeitado. E, por isso, interiormente, me revoltei. Mas me contive, repito. \u00c9 que, nessas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o h\u00e1 muito o que fazer. N\u00e3o h\u00e1 a quem recorrer.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Acho que fiz bem em n\u00e3o protagonizar uma rea\u00e7\u00e3o que pudesse depois ser mal interpretada.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Tivesse eu reagido com a mesma arrog\u00e2ncia, provavelmente seria manchete em jornais e blogs.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Os marinheiros? Bem, eles t\u00eam muito poder. E poder intimidat\u00f3rio, pois, confesso, senti pavor quando tr\u00eas deles partiram para cima do meu carro. Nessa hora, depois de contar at\u00e9 cem, fiz o que era prudente fazer: obedeci. O culpado de tudo, afinal, fui eu. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">E por que assumo a culpa? Porque ousei reivindicar um elementar direito que ningu\u00e9m respeita e que ningu\u00e9m reclama, qual seja, entrar e sair do ve\u00edculo com o m\u00ednimo de comodidade, direito que nos sonegam por pura gan\u00e2ncia, pois para a empresa \u00e9 mais lucrativo o espa\u00e7o destinado aos ve\u00edculos que o m\u00ednimo de comodidade aos passageiros, ainda que esse passageiro seja o condutor do ve\u00edculo.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">Logo, reivindicar um direito elementar, sob a \u00f3tica de quem se acostumou a impor a sua autoridade sem ser contrariado, \u00e9 sempre uma afronta, a reclamar uma rea\u00e7\u00e3o abusiva.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial Narrow, serif;\">\u00c9 isso.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><a name=\"_GoBack\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dou in\u00edcio a estas reflex\u00f5es, como sempre fa\u00e7o, com a narrativa de um fato hist\u00f3rico, a partir do qual passo a esgrimir as minhas compreens\u00f5es sobre determinados fatos da vida, um dos quais protagonizei no \u00faltimo final de semana, na travessia Cujupe-Ponta da Espera. 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