{"id":17848,"date":"2020-05-25T11:16:26","date_gmt":"2020-05-25T14:16:26","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17848"},"modified":"2020-05-25T11:16:26","modified_gmt":"2020-05-25T14:16:26","slug":"quem-pode-mais-chora-menos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=17848","title":{"rendered":"QUEM PODE MAIS CHORA MENOS"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A seletividade do Direito Penal no Brasil sempre esteve presente em nossas vidas, como uma chaga dif\u00edcil de ser expungida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes, para ilustrar, um dado hist\u00f3rico, para reafirmar a seletividade do sistema penal no Brasil, ao que tudo indica, tende, depois de um per\u00edodo de alv\u00edssaras (Lava Jato), a se perpetuar, em face de algumas posi\u00e7\u00f5es adotadas nas mais diferentes esferas de poder e sobre as quais farei men\u00e7\u00e3o adiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois bem. No Brasil col\u00f4nia, a seletividade da Justi\u00e7a n\u00e3o era apenas escancarada, mas tamb\u00e9m prevista em lei. Assim sendo, em 1731 foi criada em Vila Rica (olhem s\u00f3) uma Junta dedicada exclusivamente &#8220;aos\u201c delinquentes bastardos, carij\u00f3s, mulatos e negros\u201d. Trinta e oito anos depois, o governador de Minas Gerais baixou instru\u00e7\u00f5es determinando a pris\u00e3o imediata dos \u201cvadios e facinorosos\u201d sem qualquer formalidade anterior. J\u00e1 os \u201chomens bons\u201d, os \u201cbem reputados\u201d e as \u201cpessoas bem morigeradas\u201d, esses n\u00e3o deveriam ser incomodados com processos judiciais e muito menos com pris\u00e3o, mesmo que por algum \u201ccaso acidental\u201d tivessem cometido crimes. (from &#8220;O Tiradentes: Uma biografia de Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier&#8221; by Lucas Figueiredo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em que difere o pa\u00eds atual do Brasil de antanho? No que se refere \u00e0 seletividade do Direito Penal, estou convicto, muito pouco. \u00c9 que por aqui a igualdade penal \u00e9 mera formalidade, para ludibriar mesmo. Dessa forma, tudo est\u00e1 como sempre foi; prende-se muito e prende-se mal &#8211;&nbsp; preferencial, e prioritariamente, os miser\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos miser\u00e1veis, reconhe\u00e7amos, destinamos, quase com exclusividade e at\u00e9 com certa obsess\u00e3o, as nossas for\u00e7as, as nossas energias, sem o menor constrangimento, e com isso incutimos nos desavisados a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que estamos operando para combater a criminalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois do per\u00edodo de esperan\u00e7a sobre o qual me reportei acima, \u00e9 bom que n\u00e3o nos iludamos quanto \u00e0 expectativa que criamos de combate linear criminalidade, de destina\u00e7\u00e3o da lei penal a todos indiscriminadamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 que h\u00e1, sim, nos dias atuais, \u00e0 vista de todos, um panorama que permite entrever que, doravante, ser\u00e1 quase imposs\u00edvel &#8211; a n\u00e3o ser excepcionalmente &#8211;&nbsp; punir os tubar\u00f5es da criminalidade. E os exemplos est\u00e3o a\u00ed, \u00e0 vista de todos: fim da pris\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia; lei de abuso de autoridade; limita\u00e7\u00e3o das dele\u00e7\u00f5es premiadas; restri\u00e7\u00f5es \u00e0 pris\u00e3o preventiva; juiz de garantias etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pris\u00e3o, t\u00e3o somente depois de esgotadas as vias recursais, por exemplo &#8211;&nbsp; uma jaboticaba brasileira &#8211; inviabilizar\u00e1 inapelavelmente, a puni\u00e7\u00e3o dos criminosos do andar de cima, ainda que se considere a relev\u00e2ncia da recente decis\u00e3o do STF, num caso isolado, de interrup\u00e7\u00e3o do prazo prescricional ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante de tudo isso, \u00e9 bom encarar a realidade: nenhum criminoso que disponha de condi\u00e7\u00f5es financeiras ser\u00e1 preso no Brasil, a n\u00e3o ser, repito, excepcionalmente, a persistir &#8211; como tudo indica persistir\u00e1 &#8211;&nbsp; a necessidade de esgotamento das inst\u00e2ncias recursais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A prop\u00f3sito da pris\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia, que tanto contribuiu nos anos pret\u00e9ritos no combate aos crimes de colarinho branco, importa anotar, \u00e0 guisa de ilustra\u00e7\u00e3o, que na\u00e7\u00f5es do mundo civilizado a contempla &#8211;&nbsp; Estados Unidos, Canad\u00e1, Inglaterra, Fran\u00e7a e Espanha. Da\u00ed a minha conclus\u00e3o de que a sua implementa\u00e7\u00e3o no Brasil, antes de se constituir um abespinhamento de garantias penais, como se tenta fazer crer, se constitui, sim, num excepcional instrumento a servi\u00e7o do tratamento igualit\u00e1rio aos transgressores da ordem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Noutro giro, no que condiz com o juiz das garantias, o que se pretende, da mesma forma, \u00e9 dificultar o combate \u00e0 criminalidade gra\u00fada, pois com ele cria-se uma esdr\u00faxula inst\u00e2ncia que contribuir\u00e1 para a posterga\u00e7\u00e3o dos processos. Ademais, pondere-se que esse famigerado juiz das garantias jamais seria cogitado se as inst\u00e2ncias persecut\u00f3rias n\u00e3o tivessem ousado atingir os criminosos do andar de cima, uma vez que a sua implementa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 n\u00e3o ver quem n\u00e3o quer, n\u00e3o passa mesmo de mais um ant\u00eddoto a inviabilizar o tratamento igualit\u00e1rio de todos perante a lei penal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chamo a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a prova antes produzida pelo mesmo juiz a quem cabia julgar a causa penal, aos olhos dos mais destacados juristas, nunca tinha sido, antes da Lava Jato, alvo de preocupa\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m, at\u00e9 que, finalmente, chegou-se ao andar superior da criminalidade; e l\u00e1 chegando, descobriu-se que o juiz que produz a prova com ela se contamina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 bom que se diga, e aqui falo em face da experi\u00eancia acumulada em mais de tr\u00eas d\u00e9cadas julgando na \u00e1rea criminal, que em face do mau julgador, do julgador venal, faccioso e descomprometido, nada se pode fazer. E n\u00e3o ser\u00e1 com a figura do j\u00e1 famigerado juiz das garantias que se assegurar\u00e1 a sua imparcialidade, que j\u00e1 nasce comprometida em face do seu car\u00e1ter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O juiz das garantias, podem crer, \u00e9 apenas mais um engodo, um instrumento por meio do qual obst\u00e1culos ser\u00e3o criados \u00e0 persecu\u00e7\u00e3o penal, em face dos grandes criminosos, cumprindo lembrar, a prop\u00f3sito, o que disse o Ministro aposentado Carlos Veloso, segundo o qual tratar-se-ia de uma excresc\u00eancia surgida sabe Deus ou o diabo por qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob ataques inauditos, \u00e9 bom que se diga \u00e0 guisa de alerta, que a primeira inst\u00e2ncia, de onde ainda saem decis\u00f5es corajosas de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, nunca mais ser\u00e1 a mesma, sobretudo se for aprovada, como parece que ser\u00e1, a proibi\u00e7\u00e3o a ju\u00edzes de primeiro grau de decretarem medidas cautelares contra deputados e senadores, outra excresc\u00eancia tamb\u00e9m gestada para perpetuar a impunidade da classe de cima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, infelizmente, ainda prepondera &#8211; e preponderar\u00e1 por muitos anos &#8211; a velha m\u00e1xima de que quem pode mais chora menos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A seletividade do Direito Penal no Brasil sempre esteve presente em nossas vidas, como uma chaga dif\u00edcil de ser expungida. 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