{"id":4745,"date":"2010-05-03T01:29:00","date_gmt":"2010-05-03T01:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=4745"},"modified":"2011-01-21T10:10:49","modified_gmt":"2011-01-21T13:10:49","slug":"capturada-no-jornal-pequeno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=4745","title":{"rendered":"Capturada no Jornal Pequeno"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A seguir, cr\u00f4nica da minha autoria, publicada  no dia 02 do corrente, no Jornal Pequeno, publicada, antes, com algumas altera\u00e7\u00f5es, neste blog, com outro t\u00edtulo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">JUIZ EM PAZ<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Jos\u00e9 Luiz Oliveira de Almeida*<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Tenho a inabal\u00e1vel convic\u00e7\u00e3o &#8211; todos temos, ou dever\u00edamos ter, afinal &#8211; de que juiz n\u00e3o pode agir movido, motivado por quest\u00f5es pessoais ou por um sentimento perigoso chamado paix\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Compreendo que todo magistrado deve ter a capacidade de, n\u00e3o estando com esp\u00edrito desarmado, n\u00e3o estando em paz com a vida, evitar julgar os atos do semelhante. Isso \u00e9 ser digno. Isso \u00e9 ser nobre. Isso se chama altivez. Isso \u00e9 cautela, precau\u00e7\u00e3o, prud\u00eancia, comedimento, modera\u00e7\u00e3o, sobriedade. Isso \u00e9 o que se espera, enfim, de um magistrado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O juiz, para bem decidir, tem que estar em paz, tem que estar feliz. Juiz infeliz, juiz sem paz, juiz impregnado de sentimentos menores, juiz ambicioso, juiz excessivamente vaidoso, juiz presun\u00e7oso, juiz que se sente superior ao pr\u00f3prio jurisdicionado, que pensa que alimenta um rei na barrica, que se julga acima do bem e do mal, n\u00e3o \u00e9, de rigor, magistrado, na verdadeira acep\u00e7\u00e3o do termo; n\u00e3o passa, desde meu olhar, de um oportunista travestido, fantasiado de magistrado, que uso o poder que tem para fazer mal ao semelhante.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Eu tenho ido para as sess\u00f5es do Tribunal com o esp\u00edrito absolutamente desarmado, como o fiz ao tempo em que fui juiz de primeiro grau. Eu nunca fui ao f\u00f3rum trabalhar sem estar feliz, em paz com a minha consci\u00eancia. Os erros que cometi decorreram da minha falibilidade, da minha condi\u00e7\u00e3o de gente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Eu j\u00e1 disse, nas conversas informais &#8211; e at\u00e9 formais &#8211; que jamais reagirei a uma agress\u00e3o verbal, enquanto juiz do segundo grau &#8211; se ela eventualmente ocorrer. Para o meu conforto, tenho recebido, da absoluta maioria dos meus colegas de confraria, tratamento absolutamente cort\u00eas &#8211; e tenho respondido na mesma medida. Algumas diverg\u00eancias que houve, envolvendo a minha pessoa, foram pontuais, sem nenhuma consequ\u00eancia pr\u00e1tica, decorrentes apenas da excita\u00e7\u00e3o propiciada pelos debates, o que \u00e9 mais do que natural num ambiente com tantas intelig\u00eancias privilegiadas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O dia que eu sentir, que me der conta que estou contaminado por um sentimento menor, que haja algo de podre em minha alma, n\u00e3o participarei da sess\u00e3o do Tribunal de Justi\u00e7a. Fico em casa. Assumo o risco da minha omiss\u00e3o. Assim o fazendo, creio, estarei me despindo da toga de pano, para me vestir com a toga da dignidade, indument\u00e1ria dos homens de bem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O dia que n\u00e3o tiver a capacidade de discutir as quest\u00f5es submetidas \u00e0 minha aprecia\u00e7\u00e3o com altivez, com esp\u00edrito p\u00fablico &#8211; sem raiva, sem rancor, sem baixaria, sem pequeneza -, n\u00e3o participarei da sess\u00e3o. Vou al\u00e9m: se me der conta que esse tipo de sentimento pode me tornar um homem injusto, a\u00ed, n\u00e3o tem apelo, volto pra casa, pendura a toga, saio da ribalta, afinal, n\u00e3o se julga bem com uma faca entre dentes, n\u00e3o se pode julgar com o fel escorrendo pelos cantos da boca. Quem julga nessas condi\u00e7\u00f5es, pode ter certeza, julga mal. Devia, sim, ter a coragem de pendurar a toga.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para julgar os atos dos semelhantes, repito, \u00e9 preciso estar em paz. Digo mais, vou al\u00e9m: \u00e9 preciso estar &#8211; e ser, se poss\u00edvel &#8211; feliz. N\u00e3o precisa ser t\u00e3o feliz quanto eu sou. Basta estar feliz. O homem feliz n\u00e3o faz mal ao semelhante. O homem feliz s\u00f3 irradia sentimentos benfazejos. O homem feliz \u00e9 quase um super-homem. \u00c9 quase inquebrant\u00e1vel. \u00c9 altru\u00edsta, sereno, ponderado, equilibrado&#8230;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Eu vivo em paz. E reitero: sou feliz. Eu durmo e acordo feliz. A vida, para mim, \u00e9 uma d\u00e1diva. Eu n\u00e3o vou desperdi\u00e7ar o tempo que tenho de vida com questi\u00fanculas, com amargura, com rancor, m\u00e1goa ou \u00f3dio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nessas condi\u00e7\u00f5es, compreendo que estou preparado para julgar, conquanto tenha que admitir que, como ser humano que sou, errei, erro e errarei; e posso, sim, com muita probabilidade, n\u00e3o ter sido injusto em alguma das muitas decis\u00f5es que prolatei ao longo da minha carreira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Mas um dado \u00e9 inquestion\u00e1vel: n\u00e3o julgo com esp\u00edrito atormentado, n\u00e3o julgo para me exibir, n\u00e3o elaboro meus votos para impressionar, n\u00e3o aproveito o ato de julgar para exteriorizar as minhas fraquezas, as minhas inquieta\u00e7\u00f5es, os meus conflitos com o mundo. Eu julgo porque esse \u00e9 meu oficio. E o fa\u00e7o com a alma em estado de gra\u00e7a. E, por isso, tamb\u00e9m, sou feliz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">*Desembargador do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Maranh\u00e3o<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">E-mail: jose.luiz.almeida@globo.com<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Blog: joseluizalmeida.com<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A seguir, cr\u00f4nica da minha autoria, publicada no dia 02 do corrente, no Jornal Pequeno, publicada, antes, com algumas altera\u00e7\u00f5es, neste blog, com outro t\u00edtulo. 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