{"id":5606,"date":"2010-11-07T21:22:54","date_gmt":"2010-11-07T21:22:54","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=5606"},"modified":"2011-01-19T09:55:29","modified_gmt":"2011-01-19T12:55:29","slug":"brioche-chiclete-e-arrogancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=5606","title":{"rendered":"Brioche, chiclete e arrog\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000;\">Vers\u00e3o publicada no Jornal Pequeno, edi\u00e7\u00e3o de 31 de outubro de 2010<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Fui juiz titular da 7\u00aa Vara Criminal de S\u00e3o Luis do Maranh\u00e3o por longos 18(dezoito) anos. Nesse per\u00edodo amealhei muitos desafetos, inspirei muita antipatia, como s\u00f3i ocorrer. N\u00e3o porque tivesse cometido alguma arbitrariedade ou porque tivesse sido injusto com os jurisdicionados. \u00c9 que, sendo rigoroso, sobretudo com os roubadores, estimulei a m\u00e1 fama de duro e insens\u00edvel. Nesse contexto eu n\u00e3o fui estimado  pelos parentes e amigos dos acusados de assalto, e  muito menos pelos  seus advogados, os quais, em face das minhas convic\u00e7\u00f5es acerca dos crimes praticados com viol\u00eancia contra a pessoa,  tinham os pleitos de liberdade provis\u00f3ria, ou relaxamento de pris\u00e3o,   sistematicamente indeferidos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A par do exposto,  a  conclus\u00e3o mais do que \u00f3bvia \u00e9 que julgar n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, conquanto seja nobre. Da\u00ed a inevitabilidade das malqueren\u00e7as, das inimizades, das incompreens\u00f5es, dos dissabores. Julgando, \u00e9 for\u00e7oso convir, tem-se que desagradar. N\u00e3o existe julgador bonzinho. O julgador criminal s\u00f3 \u00e9 bom quando absolve ou concede liberdade ao autor do fato. O magistrado que, ao reverso,  nega um pedido de liberdade provis\u00f3ria  ou que se decida pela condena\u00e7\u00e3o do autor do fato, n\u00e3o  \u00e9 visto  com bons olhos,  sobretudo pelos  acusados e seus familiares.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 preciso convir, no entanto, que h\u00e1 muitas fantasias e inverdades acerca da atua\u00e7\u00e3o de determinados magistrados; fantasias e inverdades  que terminam por a\u00e7ular as malqueren\u00e7as.  Muito do que se fala e se comenta acerca desse ou daquele magistrado, com efeito,  \u00e9 pura  inven\u00e7\u00e3o criadora, conquanto se tenha de admitir  que h\u00e1 muitas verdades estarrecedoras envolvendo preclaros julgadores. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Todavia, tem-se que convir que, por conta dessas verdades,  criam-se hist\u00f3rias, plantam-se not\u00edcias, usam e abusam do \u201cdireito\u201d de achincalhar, de prejudicar, sem se importar com as consequ\u00eancias, com a dor e com o sofrimento que s\u00e3o infligidos \u00e0s   fam\u00edlias dos magistrados vitimizados.  E, o pior, \u00e9 que, com o tempo, essas fantasias  passam a compor a nossa  hist\u00f3ria. E,quando isso acontece, n\u00e3o adianta tentar reverter a situa\u00e7\u00e3o, pois na testa da v\u00edtima restar\u00e1 indelevelmente marcado o estere\u00f3tipo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Lembro, nesse sentido, que, muitas vezes, ouvi das m\u00e3es de acusados que eu era tido e havido como um homem mau, raz\u00e3o pela qual tinham medo, pavor,  de conversar comigo sobre a situa\u00e7\u00e3o dos filhos presos ou que apenas respondiam a processos na 7\u00aa Vara Criminal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Pura sacanagem! Essa fama de mau foi constru\u00edda por alguns desafetos gratuitos; exatamente aqueles que n\u00e3o suportam a dilig\u00eancia, o desvelo profissional e  a postura moral do semelhante.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Por homem mau passei e nada pude fazer para desmistificar essa ignom\u00ednia, porque essa invencionice foi  disseminada de tal forma, que n\u00e3o houve mais retorno.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Muitos dos que tiveram a oportunidade de conviver comigo, apesar  desse estere\u00f3tipo,  chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que tudo n\u00e3o passava mesmo de maldade, de pura perf\u00eddia; os que n\u00e3o tiveram acesso a minha pessoa certamente que, at\u00e9 hoje, me t\u00eam na conta de um homem mau e insens\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Esse estigma \u2013 e outros tantos &#8211;  tamb\u00e9m prejudicou a minha ascens\u00e3o profissional. Foi por essas e outras que fui o \u00fanico juiz da capital impedido de integrar a terceira lista de promo\u00e7\u00e3o por merecimento, consecutivamente. \u00c9 que muitos n\u00e3o suportavam a id\u00e9ia de a Corte ser composta  por um ser t\u00e3o insuport\u00e1vel \u2013 al\u00e9m do mais, arrogante, prepotente e mau.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Pura maldade! Pura sacanagem! Ins\u00eddia pura! Deslealdade plena!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Mas n\u00e3o foi s\u00f3 isso que os desafetos  fizeram comigo. Para eles ainda era pouco. Era preciso, de qualquer forma, impedir que um ser t\u00e3o \u201cexecr\u00e1vel\u201d ascendesse, para n\u00e3o contaminar a pureza do ambiente do nosso Sodal\u00edcio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Vou contar uma historinha que seria hil\u00e1ria, n\u00e3o fosse pensada apenas como um ingrediente a mais  para prejudicar a minha ascens\u00e3o profissional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Registro que lembrei-me desse epis\u00f3dio, a prop\u00f3sito do que ocorreu com Maria Antonieta, a quem se atribuiu, sem nenhuma prova, o conselho que teria dado aos franceses famintos para que comessem brioches. O resultado dessa mentira,  todos sabem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Pois bem. Determinado dia, estando eu realizando uma audi\u00eancia, uma testemunha apresentou-se com a boca cheia de goma de mascar. A propor\u00e7\u00e3o que tentava responder \u00e0s minhas indaga\u00e7\u00f5es, a testemunha deslocava  a goma de mascar dum lado para o outro, a ponto de escorrer saliva pelos cantos da boca.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Percebendo o desconforto da testemunha, puxei um  balde de lixo que estava sob a minha mesa, e pedi a ela que jogasse fora a goma de mascar, no que, claro, fui atendido prontamente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nessa \u00e9poca, insta anotar, eu era um dos fortes concorrentes \u00e0 promo\u00e7\u00e3o por merecimento para segunda inst\u00e2ncia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Pois bem. Esse fato ocorreu numa sexta-feira, pela manh\u00e3. Na segunda-feira, quando fui a Tribunal de Justi\u00e7a, para \u201ctrabalhar\u201d a minha promo\u00e7\u00e3o, estando na sala do presidente, Des. Jorge Rachid, entra um desembargador, hoje aposentado,  o qual, na frente de todos os presentes, antes mesmo de um bom dia, dirigiu-se a mim, com ar de, digamos,  deboche, para afirmar:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u2013 <em>Dr. Jos\u00e9 Luiz, o juiz brabo da Comarca.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em seguida, olhou para os circunstantes e arrematou, sem perder tempo:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; <em>Com o Dr. Jos\u00e9 Luiz ningu\u00e9m tem direito nem de mascar chicletes.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Pronto! Depois disso, ningu\u00e9m teve mais d\u00favida: eu n\u00e3o podia mesmo ser promovido, pois a minha arrog\u00e2ncia tinha chegada ao \u00e1pice e a minha presen\u00e7a, por isso,  faria muito mal ao Tribunal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Muito pensaram: um homem capaz de proibir o uso de goma de mascar em seu gabinete \u00e9 capaz de qualquer coisa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o tive direito de resposta. Ningu\u00e9m nunca me indagou se o fato era verdadeiro ou n\u00e3o, afinal, a afirma\u00e7\u00e3o tinha sido feita por um desembargador. Nesse sentido, quem ousaria questionar?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Registre-se, por oportuno, que, como previsto, n\u00e3o fui promovido por merecimento. Por essas e por outras inverdades que plantaram sobre a minha pessoa, tive que esperar a antiguidade, convindo destacar que at\u00e9 cartas an\u00f4nimas foram distribu\u00eddas no Tribunal, apontando-me como incendi\u00e1rio e desagregador, tudo para obstar a minha promo\u00e7\u00e3o. A minha luta, a minha dedica\u00e7\u00e3o, o meu empenho de nada valeram. O que valia mesmo era a certeza de que eu, sendo arrogante, bem n\u00e3o faria ao Tribunal, como se o Tribunal fosse composto de pessoas humildes, como se nos Tribunais n\u00e3o vicejassem, a plena carga, a arrog\u00e2ncia e a prepot\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Hoje, aqueles mesmos que disseminaram que eu era arrogante, s\u00e3o for\u00e7ados a admitir que tudo n\u00e3o passava de fantasia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Fazer o qu\u00ea? Agora \u00e9 tarde. A minha carreira foi prejudicada pelo que n\u00e3o fiz.  O meu \u00fanico consolo \u00e9 que nunca deixei de ser feliz, nunca deixei de me dedicar ao trabalho, nunca deixei que as injusti\u00e7as tirassem o meu est\u00edmulo, nunca perdi uma noite de sono pensando no mal que me fizeram.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Hoje, para o desprazer dos meus desafetos, tenho convic\u00e7\u00e3o de que a minha ascens\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 nem pr\u00f3ximo do que de melhor aconteceu na minha vida; tenho-a, at\u00e9, como um fardo dif\u00edcil de carregar, quase insuport\u00e1vel. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O exerc\u00edcio do poder n\u00e3o me fascina, definitivamente. O poder pelo o qual muitos s\u00e3o capazes de matar ou morrer, para mim \u00e9 apenas um compromisso; nada mais que isso. Saberei, pois, a hora de sair da ribalta e deixar o pano cair. N\u00e3o sou do tipo que se apega ao poder com unhas e dentes.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vers\u00e3o publicada no Jornal Pequeno, edi\u00e7\u00e3o de 31 de outubro de 2010 Fui juiz titular da 7\u00aa Vara Criminal de S\u00e3o Luis do Maranh\u00e3o por longos 18(dezoito) anos. Nesse per\u00edodo amealhei muitos desafetos, inspirei muita antipatia, como s\u00f3i ocorrer. 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