{"id":959,"date":"2009-03-09T10:24:29","date_gmt":"2009-03-09T10:24:29","guid":{"rendered":"http:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=959"},"modified":"2009-03-16T21:03:30","modified_gmt":"2009-03-16T21:03:30","slug":"os-tolos-no-poder-releitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joseluizalmeida.com\/?p=959","title":{"rendered":"Os tolos no poder. Releitura."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e9bastian Roch Nicolas Chamfort, que viveu no s\u00e9culo XIX e assistiu a efervesc\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o francesa, foi um dos mais brilhantes sat\u00edricos de sua \u00e9poca. Suas m\u00e1ximas, publicadas depois da sua morte, revelaram-no um mestre do aforisma e um cr\u00edtico voraz e impiedoso.<br \/>\nS\u00e9bastian Chamfort tinha intensa avers\u00e3o aos tolos, sobre os quais definia assim:<br \/>\n&#8211; O que \u00e9 um tolo?<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Ele mesmo respondia, impiedosamente:<br \/>\n&#8211; Algu\u00e9m que confunde seu cargo com sua pessoa, seu status com seu talento e sua posi\u00e7\u00e3o com uma virtude.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Depois, diagnosticava, com a mesma acidez:<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">&#8211; Um tolo, ansiando com orgulho por alguma condecora\u00e7\u00e3o, parece-me inferior a esse homem rid\u00edculo que, para se estimular, fazia com que suas amantes pusessem penas de pav\u00e3o em seu traseiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta olhar em volta para ver que, no nosso dia-a-dia, por onde andamos, nos ambientes que freq\u00fcentamos, estamos, quase sempre, pr\u00f3ximos de muito tolos, travestidos de autoridade.<br \/>\nQuem convive com as autoridades submergidas em tolices, sabe do que estou falando.<br \/>\n\u00c9 mais comum do que se imagina encontrar um ser humano fantasiado de autoridade, mostrando-se, no mesmo passo, aos olhos dos circunstantes como apenas mais um bobalh\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 incomum encontrar tolos sublimando as virtudes que n\u00e3o t\u00eam, para chamar a aten\u00e7\u00e3o para suas idiossincrasias, para as suas abomin\u00e1veis, execr\u00e1veis fanfarronices.<br \/>\nO mais grave nessas assertivas \u00e9 que, por serem tolos, n\u00e3o percebem que todos percebemos que n\u00e3o passam de uns bobalh\u00f5es, que pensam que t\u00eam o talento que n\u00e3o t\u00eam e se julgam virtuosos sem efetivamente s\u00ea-los. Esquecem que s\u00f3 o cargo, que poder apenas, a vaidade e a prepot\u00eancia, jejunas de sensatez e intelig\u00eancia, n\u00e3o fazem milagres.<br \/>\n\u00c9 comum, mais do que comum &#8211; e n\u00e3o se h\u00e1 de negar, n\u00e3o se h\u00e1 de obscurecer &#8211; conviver com autoridades que pensam que s\u00e3o o pr\u00f3prio cargo; por isso, s\u00e3o mesmo uns tolos, uns bobocas embriagados e desnorteados em face do poder que exercem.<br \/>\n\u00c9 por isso que quando assumem um posto de relevo, adicionam ao seu nome a autoridade que nele se revela. Pedro Augusto Demente, por exemplo, se \u00e9 juiz de 2\u00ba grau, incorpora ao seu nome o t\u00edtulo que decorre do cargo, passando, doravante, a ser nominado desembargador Pedro Augusto Demente. E n\u00e3o ouse cham\u00e1-lo apenas pelo pr\u00e9-nome, pois ele costuma encarar essa atitude como uma ofensa, uma afronta. Ele exige do inferior hier\u00e1rquico ou de qualquer outra pessoa que sup\u00f5e ser inferior, subservi\u00eancia incondicional.<br \/>\nA verdade, a mais cristalina verdade \u00e9 que, como bem definiu S\u00e9bastian Chamfort, depois da ascens\u00e3o, o tolo pensa que, por milagre, tornou-se um virtuoso, um homem talentoso e cheio de bons predicados.<br \/>\n\u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 assim?<br \/>\nVoc\u00ea, caro leitor, conhece, ou n\u00e3o, tolos fantasiados de autoridade? Conhece, ou n\u00e3o, um mentecapto imaginando-se talentoso em face do cargo que exerce?<br \/>\nVoc\u00ea, amigo leitor, j\u00e1 se deparou, ou n\u00e3o, com um energ\u00fameno que, tendo ascendido, sob quaisquer condi\u00e7\u00f5es, pisando no pesco\u00e7o dos advers\u00e1rios, jogando o jogo rasteiro da gentalha, imagina-se capacitado, em face da posi\u00e7\u00e3o que ostenta?<br \/>\nPara, pense e responda \u00e0s indaga\u00e7\u00f5es supra. Creio que n\u00e3o encontrareis nenhuma dificuldade, pois muito pr\u00f3ximo de voc\u00ea h\u00e1 algum desses &#8220;virtuosos&#8221;, ostentando um baita rabo de pav\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9bastian Roch Nicolas Chamfort, que viveu no s\u00e9culo XIX e assistiu a efervesc\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o francesa, foi um dos mais brilhantes sat\u00edricos de sua \u00e9poca. Suas m\u00e1ximas, publicadas depois da sua morte, revelaram-no um mestre do aforisma e um cr\u00edtico voraz e impiedoso. 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