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O POVO BRASILEIRO E A SÍNDROME DA AVESTRUZ

“[…]Nunca se viu tanta grana do contribuinte sendo distribuída a parlamentares, à luz do dia, a nos afrontar, a nos agredir a todos, como um ultraje, um escárnio, consequência de ações que são próprias de quem acredita na impunidade, a considerar que muitos são os parlamentares investigados, abrigados, todavia, sob o manto do fórum privilegiado[…]”.

Com o perdão do clichê, devo dizer, beirando a obviedade, que vivemos atualmente uma quadra difícil – afirmação com a qual todos haverão de concordar -, proporcionada, sobretudo, por uma maioria significativa de  homens públicos que só defendem os seus próprios interesses, aproveitando-se, o que é mais grave, de uma outorga popular.

Nunca, em tempo algum, as negociatas no parlamento nacional estiveram tão em voga, tão à luz do dia, tão evidentes, tão claras, a nos indignar a todos nós. A mercancia de votos no Congresso Nacional, com efeito, jamais foi feita com tanta clareza, com tanta pujança, tão desavergonhadamente, sem receio, sem titubeio, sem enleio, às claras, à vista de todos, como se deu recentemente, por exemplo, com a decisão que sustou a persecução criminal em desfavor do atual presidente da República.

Até onde a minha vista alcança, nunca o processo político esteve tão contaminado, tão degradado – no ápice de uma crise econômica grave, anote-se –  pelo uso indiscriminado de verbas públicas, disfarçadas de emendas parlamentares e outras mesuras que, embora com a aparência de legalidade, são contaminadas pela imoralidade, pelos fins escusos a que se destinam, alfim e ao cabo.

Nunca se viu tanta grana do contribuinte sendo distribuída a parlamentares, à luz do dia, a nos afrontar, a nos agredir a todos, como um ultraje, um escárnio, consequência de ações que são próprias de quem acredita na impunidade, a considerar que muitos são os parlamentares investigados, abrigados, todavia, sob o manto do fórum privilegiado.

A ação despudorada de alguns dos nossos representantes beira a obscenidade e nos agride, nos insulta a todos, nos faz descrer da classe política, principal beneficiária das “negociações” que são feitas à luz do dia, sem nenhum recato, discrição ou pundonor, quase sempre em detrimento do interesse público.

O povo, principal vítima das negociações que são feitas para manutenção do status quo, com a distribuição indecorosa de cargos públicos, quase sempre para atender aos interesses pessoais dos parlamentares, a tudo isso assiste sonolento, omisso, inerte, cabisbaixo, conformado, quieto, anestesiado, em total estado de letargia.

A verdade é que, de rigor, diante do quadro de degradação moral que se descortina sob os nossos olhos, ninguém reage, ninguém protesta, as panelas, antes tão ativas, hoje dormitam numa gaveta de armário, como se tudo estivesse na mais perfeita ordem.

Enquanto o povo, acomodado, a tudo assiste, sem esboçar a menor reação, o nosso dinheiro se esvai. São bilhões distribuídos em verbas parlamentares, as quais só Deus sabe o destino final, pois é pouco provável que sejam aplicadas, com o necessário rigor, em obras e serviços de interesse do povo.

O que mais revolta em tudo isso é a desfaçatez dos beneficiados com as verbas, cargos públicos e outras benesses – que não é o povo, registre-se. O que causa indignação é ouvir parlamentares, sem nenhuma cerimônia, depois de devidamente contemplados, candidamente, como se fossem um exército de querubins, como se não tivessem a quem dar satisfação, afirmando, com evidente mofa, que votam de acordo com a sua consciência.

Enquanto isso, repito, o povo permanece inerte, indolente, indiferente diante de tantas traquinices, o que me leva a indagar inquieto, com perplexidade: o que levou o cidadão brasileiro, até há bem pouco tempo tão ativo, altivo e indignado, a se deixar levar pela síndrome da avestruz, a decidir, ao que parece, por enterrar a cabeça na areia para não confrontar a realidade, a não esboçar reação alguma diante das transações em benefícios de uns poucos – que, registre-se, já foram tenebrosas, envoltas em mistérios, disfarçadas, e hoje se mostram à luz do dia – que são realizadas em Brasília?

O que ocorre com o povo brasileiro, nos dias atuais, que resolveu não sair da comodidade de seu lar, como se vivesse no mais honesto dos mundos, como se não testemunhasse o Estado brasileiro ser inventariado, dilapidado, sucateado para atender à ambição de quem quer, a qualquer custo, se manter no poder e/ou dele tirar proveito?

Cá do meu canto, como atento observador da conjuntura, creio que o povo se acomodou porque simplesmente perdeu a esperança, tanto nas instituições quanto nos homens públicos que as representam.

O povo não acredita, com efeito, que saindo às ruas para protestar conseguirá fazer refluir as ações nefandas dos nossos representantes e muito menos conseguirá fazer com que as instâncias persecutórias punam exemplarmente os desvios de conduta, ante a óbvia constatação de que o que testemunhamos na famigerada Operação Lava Jato é apenas a ponta do iceberg, em face de uma sociedade carcomida pela cultura da corrupção.

Desde a minha compreensão, o que ocorre nos dias atuais é, pura e simplesmente, descrença, desalento com tudo o que está aí. O povo já não acredita que haverá mudança de comportamento dos homens públicos se optar por protestar, e nem acredita, ademais, que as instituições, como anotei acima, darão resposta pronta e eficaz para os desvios de conduta, motivos pelos quais se acomodou, perdeu a esperança.

Diante desse quadro de degradação moral e em vista da ineficiência das instâncias punitivas, o povo refluiu, perdeu a fé e preferiu ficar em casa, porque cansou de gritar, de sair às ruas, de bater panelas. Agora, desalentado, não reage, optando por viver a sua vida, horrorizado, escandalizado, anestesiado com tudo que vê.

O povo, lamentável constatar, cansou – e se acomodou, uma vez que não acredita em mais nada. Perdeu a fé nas instituições e nos homens públicos.  Por isso, não reage. O povo sabe, é triste admitir, que indo ou não às ruas, tudo permanecerá como está. Nada mudará. E, o que é mais grave, muitos dos que protagonizam as negociatas que todos nós testemunhamos, valendo-se dos mandatos que lhes foram outorgados, serão reeleitos, para, mais uma vez, procederem da mesma forma, num círculo vicioso que destrói os nossos sonhos, as nossas esperanças.

A verdade é que ninguém acredita que, aderindo às manifestações ou simplesmente batendo panelas nas sacadas dos apartamentos, conseguirá mudar a conduta viciada e deletéria dos nossos representantes, posto que não há meios capazes de mudar a conduta de quem prefere ser contemplado com cargos e verbas públicas a seguir algum ideal, mesmo porque, dez milhões de reais de emendas parlamentares, por exemplo, são muito mais sedutores que o grito das ruas, que qualquer ideologia.

É isso.

NINGUÉM TEM O PODER DE APRISIONAR O FUTURO

“[…]O futuro chegará, sim, às vezes mais breve do que imaginamos. Nessa hora, teremos, repito, que prestar contas das nossas ações e/ou omissões; seremos forçados a parar para pensar, sobretudo, quando sentirmos que as nossas forças estão se esvaindo, sem tempo para corrigir a rota, para rever os nossos erros, o mal que eventualmente tenhamos feito ao semelhante. Nessa hora, desanimados e tristes, veremos a vida escapando das mãos como um sabonete molhado[…]”.

Não me lembro onde li a frase que tomo de empréstimo para dar título a essas reflexões. Não sei, tampouco, de quem é a sua autoria. Mas achei que, a partir dela, seria possível fazer uma interessante reflexão, sem me importar se o autor da frase pretendia desenvolver o mesmo raciocínio que vou desenvolver aqui e agora. Mas antes de fazê-lo, peço desculpas pela insolência e eventual falta de fidelidade
O ponto de partida dessas reflexões será o que, imagino, possa ser inferido da frase em comento, tão profundamente construída, e a partir da qual pretendo fazer uma análise que me conduza a uma avaliação das consequências do que fazemos hoje, em face do porvir.
Nesse sentido, posso iniciar dizendo que, como traduz no título – desde a minha interpretação, claro -, a ninguém é dado o poder de aprisionar o futuro, dado a sua óbvia inevitabilidade. Ninguém tem, portanto, como evitar o porvir, a menos que nos faltem a vida ou a capacidade de discernimento para a efetiva constatação da sua inevitabilidade.
O futuro é, portanto, logo ali; inevitavelmente ali, muito próximo da gente, tanto que posso, com a minha capacidade reflexiva e algumas ponderações, vê-lo se aproximando, celeremente, de maneira inclemente, batendo à porta, insolente, sem controle, inevitavelmente. Ele, o futuro, o porvir, está mais próximo do que somoscapazes de imaginar na maioria das vezes, sobretudo, se vivemos apenas o presente, sem nenhuma preocupação com a inevitabilidade do que estar por vir.
Vivemos fazendo planos a longo prazo, como se o futuro fosse algo distante, como se pudéssemos aprisioná-lo lá longe,bem distante, onde os olhos e a mente não possam alcançá-lo, como um meio de impedi-lo de nos atingir.
Todavia,ainda que assim pensemos, um dia, quase que inesperadamente, somos surpreendidos com o futuro que chegou, com todos os seus consectários, com as consequências que decorrem da passagem inclemente do tempo.
Temos, portanto – e é bom que não nos iludamos – compromisso com o futuro, data marcada para esse encontro, para inexorabilidade desse encontro. Por isso, é preciso viver e curtir o presente, saber estar nele, sem se olvidar de que o futuro é logo ali, muito próximo, próximo mesmo.
É preciso, portanto, estar preparado para o que vier pela frente, pois é lá, mais adiante, que vamos prestar contas dos nossos atos, das nossas ações, dos nossos erros, das maldades que fizemos, da dor que causamos ao semelhante.
O futuro chegará, sim, às vezes mais breve do que imaginamos. Nessa hora, teremos, repito, que prestar contas das nossas ações e/ou omissões; seremos forçados a parar para pensar, sobretudo, quando sentirmos que as nossas forças estão se esvaindo, sem tempo para corrigir a rota, para rever os nossos erros, o mal que eventualmente tenhamos feito ao semelhante. Nessa hora, desanimados e tristes, veremos a vida escapando das mãos como um sabonete molhado.
É que, segundo o velho clichê, a vida segue; tudo flui, enfim;nada é eterno. Ninguém banha nas mesmas águas de um rio duas vezes (Heráclito). Assim sendo, logo, logo estaremos no futuro. E é lá, no futuro, que, inelutavelmente, pagaremos pelos nossos erros ou colheremos os frutos do bem que realizamos, da obra que edificamos, da história que construímos.
E feliz será aquele que, diante do futuro, com os olhos voltados para o passado, não se constranger em face do caminho que trilhou, da história que construiu, das renúncias que fez, da postura que adotou para preservar o seu nome e o respeito de sua família.
Do futuro, não tenha dúvidas, repito a obviedade, nenhum de nós escapará, ainda que, para alguns, ele já tenha chegado sem que se apercebessem, embevecidos, muitas vezes, pela vaidade do cargo que exercem ou do poder que eventualmente lhe tenha chegado às mãos.
Decerto que, mais dia menos dia, teremos um encontro marcado com o que virá, o que pode estar próximo ou distante, como dito acima. Mas será inevitável. E nesse dia, não adianta lamentar pelo que se fez no passado. Por isso, é preciso, enquanto o presente não é futuro, que sejamos capazes de fazer uma revisão das nossas ações/omissões, que sejamos capazes de refluir, de reexaminar, de rediscutir, de reavaliar, de repensar, de rever posições, enquanto é tempo.
Mas, antes, é preciso viver o presente, sem pressa, contemplando as coisas belas, contemplando o que for bom de ser contemplado, vivendo intensamente, sem cultivar esperanças impossíveis, pois, como diz Umberto Eco, quem cultiva sonhos impossíveis já é um perdedor (Número Zero); sem pressa diante das coisas boas, sem sentimentos maldosos, cumprindo lembrar, para ilustrar essas reflexões, as belas palavras do ex-Ministro Carlos Ayres Brito, segundo o qualo sentimento abre as portas do pensamento, e assim, quando se começa uma atividade racional pelo sentimento, já começamos bem as nossas tarefas intelectuais.
Não se perde por esperar, o que fazemos nos dias presentes virá no futuro para nos punir ou nos premiar, conquanto se compreenda que não se deva fazer algo com o objetivo de ser recompensado, da mesma forma que não se deve fazê-lo apenas pelo prazer de fazer o mal.
Devemos fazer o que pede o coração, o que aconselha a razão. E quem age racionalmente e tem um bom coração, sempre colherá bons frutos, porque tende a fazer o bem, afinal, como diz Ferreira Gullar, nessa vida é melhor ser feliz que ter razão.
Uma última reflexão: quando não guardamos magoas, quando não projetamos nenhuma vingança em face do mal que nos fizeram, quando não procuramos magoar os corações, fiquemos certos, todos os corações estarão a nosso favor(Voltaire).
É assim que pretendo esperar o futuro.

“INTIMADO PORRA NENHUMA”

 

A verdade é que os Poderes estão em crise; crise de credibilidade. Com efeito, não temos fé – e nem esperança – no Executivo, no Legislativo, nas mais diversas esferas, e, o que é gravíssimo, aos poucos o Poder Judiciário, como os demais, vai caindo em descrédito, em face da conduta despudorada de alguns dos seus membros – poucos, é verdade -,que não têm controle moral, que não medem as consequências de sua ação, cuja ambição os fazem agir como um carro sem freio e sem condutor descendo uma ladeira íngreme em desabalada carreira, para atingir em cheio a credibilidade da instituição.

 

Foi assim que reagiu o deputado Roberto Góes (PDT-AP), depois de ser avisado por um oficial de justiça,via telefone, que estava intimado a comparecer a uma audiência no Supremo Tribunal Federal, marcada para o dia 15 de fevereiro do corrente, num dos seis inquéritos em curso, tendo-o como investigado, segundo matéria veiculada no jornal Folha de S. Paulo do dia 02 de julho do ano em curso.

Segundo a matéria,quando um dos quatro oficiais de justiça do Supremo recebe um mandado para intimar o deputado G oés, já sabe que serão dispendidas muitas horas e ligações na missão, na tentativa de localizá-lo, pois ele simplesmente se esconde para não ser intimado, além de criar toda sorte de empecilhos.

Entre as dificuldades para localizar o parlamentar estão, por exemplo, as ausências da Câmara Federal. Levantamento feito pela Folha nos registros da Casa mostra que Góes esteve ausente em 75 das 94 sessões ordinárias e extraordinárias realizadas neste ano, até quarta-feira, 28 de junho.

Um dos oficiais de justiça, cansado das tentativas de intimar o parlamentar, narrou, em certidão, que “de todos os investigados e processados perante o Supremo, o deputado é o único que adota uma postura reiterada de não se dispor a receber as comunicações processuais”.

Da reação desvairada e desrespeitosa do deputado, da sua vida prenhe de deslizes – para dizer o mínimo -, enfim, posso tirar várias conclusões. Posso inferir, por exemplo, que o eleitor do Amapá não sabe escolher bem os seus representantes. Mas a mim não me importa aprofundar essa questão, porque, afinal, o eleitor brasileiro já deu inúmeras provas de que essa afirmativa é verdadeira, oque pode ser corroborado por tudo o que temos testemunhado em face da Operação Lava Jato.

Outra conclusão que se pode tirar do episódio e das informações do jornal, é a de que, infelizmente, apesar dos avanços, a lei parece mesmo não se destinara todos indistintamente, como preconiza a Constituição brasileira, o que pode ser constatado em face dos seguintes dados: Dos 500(quinhentos) congressistas acusados de atos criminosos desde a promulgação da Constituição de 1988, somente 16(dezesseis) foram condenados, e apenas 08 (oito) chegaram a cumprir pena. Em muitos casos, segundo o site Congresso Em Foco, “os processos simples prescreveram sem que os ministros do STF tivessem julgado o comportamento dos réus”.

A propósito, Luís Flávio Gomes adverte que “A igualdade, no direito penal, é um mito. As pessoas, nessa área, não são tratadas de forma isonômica. A desigualdade vem do tempo da sociedade aristocrática (1500-1888). Os iguais (ou considerados tais) pelas elites governantes sempre tiveram privilégios (de pena menor, de serem julgados pelos seus pares etc.), que perduraram mesmo durante a república (1889 até os dias atuais). Um dos grupos escandalosamente privilegiados é o dos parlamentares, que desfrutam (ainda hoje) de várias imunidades e prerrogativas” (cf. Quais são as imunidades dos parlamentares? Podem ser presos? In site Jus Brasil).

Outras tantas conclusões poderiam ser tiradas em face da conduta sub-reptícia do desbocado deputado, o qual, malgrado contumaz, ainda escarnece da Suprema Corte do país, quiçá porque, em face da leniência das instâncias persecutórias e frouxidão da legislação brasileira, ainda está em liberdade, conquantoexista contra si, inclusive, título executivo penal.

Para mim, inobstante, a reação do deputado Roberto Góes decorre, basicamente, de duas singelas evidências: certeza da impunidade e descrença nas instituições, pois, quem vive à margem da lei, contando com o beneplácito das instâncias persecutórias – e são incontáveis os mandatários, quer no executivo, quer no legislativo nessa condição –, e não recebe, de rigor, nenhuma punição, sente-se no direito de abespinhar as instâncias de controle, consciente de que nada lhe ocorrerá.

A verdade é que os Poderes estão em crise; crise de credibilidade. Com efeito, não temos fé – e nem esperança – no Executivo, no Legislativo, nas mais diversas esferas, e, o que é gravíssimo, aos poucos o Poder Judiciário, como os demais, vai caindo em descrédito, em face da conduta despudorada de alguns dos seus membros – poucos, é verdade -,que não têm controle moral, que não medem as consequências de sua ação, cuja ambição os fazem agir como um carro sem freio e sem condutor descendo uma ladeira íngreme em desabalada carreira, para atingir em cheio a credibilidade dainstituição.

A verdade é que, em face de tantas decisões incompreensíveis, de tantas posições ambivalentes diante dos mesmos temas, de tanta exposição pública desnecessária de alguns dos seus membros, de tantas decisões que afrontam a consciência média, de tantas e tantas decisões contraditórias em face da mesma quadra fática, de tantas e reiteradas notícias de enriquecimento ilícito de alguns dos seus membros, o Poder Judiciário não podia mesmo manter os níveis de credibilidade que se deseja.

Nesse cenário, dois vizinhos, por exemplo, jamais compreenderão como o Poder Judiciário pode, por exemplo, diante de casos absolutamente similares, prolatar decisões díspares, em face das divergências em duas turmas ou duas câmaras, como, infelizmente, temos assistido, aqui e em outras instâncias.

A solapar a credibilidade do Poder Judiciário, ademais, consigno que nenhum cidadão se sente confortável com os desvios de condutas de prefeitos municipais – e são muitos, incontáveis – que,  de rigor,não recebem do Poder Judiciáriopunição exemplar, quer em face das prescrições penais, quer em face da sua absolvição em virtude de um filigrana jurídico, de um detalhe técnico, como, por exemplo, em casos reiterados de afronta à Lei de Licitações, ante a alegação de ausência de dolo específico, como se algum alcaide, num rasgo de sinceridade, admitisse ter fraudada uma licitação com o fim específico de tirar proveito pessoal.

Convenhamos que situações desse jaez, a seletividade punitiva, as decisões que terminam por perpetuar a impunidade dos poderosos e outras coisas mais só podem mesmo nos levar ao descrédito, o que, convenhamos, é péssimo para a democracia, pois é em face dessa realidade que testemunhamos homens públicos sem nenhuma credibilidade se sentindo no direito de qualificar com impropérios decisões de magistrados cuja história e postura moral, aos olhos de quem quer ver, é digna dos mais destacados elogios.

NINGUÉM TEM O PODER DE APRISIONAR O FUTURO

“[…]O futuro é, portanto, logo ali; inevitavelmente ali, muito próximo da gente, tanto que posso, com a minha capacidade reflexiva e algumas ponderações, vê-lo se aproximando, celeremente, de maneira inclemente, batendo à porta, insolente, sem controle, inevitavelmente. Ele, o futuro, o porvir, está mais próximo de nós do que somos, muitas vezes, capazes de imaginar[…]”.

 

Não sei aonde li a frase que tomo de empréstimo para dar título a essas reflexões. Não sei, portanto, de quem é a sua autoria. Mas achei que, a partir dela, seria possível fazer uma interessante reflexão, sem me importar, e peço desculpas pela insolência e falta de fidelidade, se o autor da frase pretendia, a partir dela, desenvolver o raciocínio que vou desenvolver aqui e agora.

O ponto de partido dessas reflexões, isso eu sei, será o que, imagino, possa ser inferido em face da frase em comento, tão bem construída, tão profundamente construída, e a partir da qual imagino poder fazer uma análise que me conduza a uma avaliação das consequências do que fazemos hoje, em face do porvir.

Nesse sentido, posso iniciar dizendo que, como traduz no título – desde a minha interpretação, claro -, a ninguém é dado o poder de aprisionar o futuro, dado a sua óbvia inevitabilidade.

Não se tem, portanto, como evitar, intervir, enfim, no porvir, a menos que nos faltem a vida ou a capacidade de discernimento para a efetiva constatação da sua inevitabilidade.

O futuro é, portanto, logo ali; inevitavelmente ali, muito próximo da gente, tanto que posso, com a minha capacidade reflexiva e algumas ponderações, vê-lo se aproximando, celeremente, de maneira inclemente, batendo à porta, insolente, sem controle, inevitavelmente. Ele, o futuro, o porvir, está mais próximo de nós do que somos, muitas vezes, capazes de imaginar.

Vivemos fazendo planos a longo prazo, como se o futuro fosse algo distante, como se pudéssemos aprisiona-lo distante para impedi-lo de nos atingir. Todavia, quase que inesperadamente, somos surpreendidos com o futuro que chegou, com todos os seus consectários, com as consequências que decorrem da passagem inclemente do tempo.

Temos, portanto – e é bom que não nos iludamos – compromisso com o futuro, data marcada para esse encontro, para inevitabilidade desse encontro. Por isso é preciso viver o presente, curtir o presente, saber estar no presente, sem se olvidar de que o futuro é logo ali, muito próximo, próximo mesmo.

É preciso, portanto, se preparar para o que virá à frente, pois é lá, mais adiante, que vamos prestar contas dos nossos atos, das nossas ações, dos nossos erros, das maldades que fizemos, da dor que proporcionamos ao semelhante.

O futuro chegará, sim, às vezes mais breve do que imaginamos. Nessa hora, teremos, inexoravelmente, que prestar contas das nossas ações; seremos forçados a parar para pensar, sobretudo quando sentirmos as nossas forças se esvaindo, sem tempo para rever as nossas ações, os nossos erros, o mal que fizermos ao semelhante. Veremos, nessa hora, a vida escapando das mãos como um sabonete molhado.

É que a vida segue; tudo flui, enfim. Nada é eterno. Ninguém banha nas mesmas águas de um rio duas vezes (Heráclito). Assim sendo, logo, logo estaremos no futuro. E é lá, no futuro, que pagaremos pelos nossos erros ou colheremos os frutos do bem que realizamos, da obra que edificamos, da história que construímos. E feliz será aquele que, diante do futuro, com os olhos voltados para o passado, não se constranger em face do caminho que trilhou, da história que construiu, das renúncias que fez, da postura que adotou para preservar o seu nome e o respeito de sua família.

Do futuro, não tenha dúvidas, repito a obviedade, nenhum de nós escapará, ainda que, para alguns, o futuro já tenha chegado sem que se apercebessem, embevecidos, tomados, muitas vezes, pela vaidade do cargo que exercem ou do poder que eventualmente lhe tenha chegado às mãos.

Mais dia menos dia teremos um encontro marcado com o que virá. Pode estar próximo; pode estar distante, como dito acima. Mas será inevitável. E nesse dia, não adiante lamentar pelo que fez no passado. Por isso, é preciso, enquanto o presente não é futuro, que se faça uma revisitação das nossas ações, que sejamos capazes de refluir, de reexaminar, de rediscutir, de reavaliar, de repensar, de rever posições, enquanto é tempo.

Mas, antes, é preciso viver o presente, sem pressa, sem vexame, contemplando as coisas belas, contemplando o que for bom de ser contemplado, vivendo intensamente, sem cultivar esperanças impossíveis, afinal, como diz Umberto Eco, quem cultiva sonhos impossíveis já é um perdedor (Número Zero); sem pressa diante das coisas boas,  sem sentimentos maldosos, pois que, afinal, com diz Carlos Ayres Brito, o sentimento abre as portas do pensamento, e assim, quando se começa uma atividade racional pelo sentimento, já começamos bem as nossas tarefas intelectuais.

O que fazemos nos dias presentes, não se perde por esperar, virá no futuro para nos punir ou nos premiar, conquanto compreenda que não se deva fazer algo com o objetivo de ser recompensado, da mesma forma que não se deve fazê-lo apenas pelo prazer de fazer o mal.

Devemos fazer o que pede o coração, o que aconselha a razão. E quem age racionalmente e tem um bom coração, sempre colherá bons frutos, porque tende a fazer o bem.

Quando não guardamos magoas, quando não projetamos nenhuma vingança em face do mal que nos fizeram, quando não procuramos magoar os corações, fiquemos certos, todos os corações estarão a nosso favor (Voltaire)

MORALIDADE SELETIVA

 

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“[…]Nesse cenário, penso, com efeito, que se fôssemos capazes de nos impor limites, de colocar em ação os nossos próprios freios morais internos, como tentamos impor aos outros, se não fôssemos condescendentes com os erros das pessoas que prezamos – ou quando nos convém -, a vida seria diferente, a sociedade seria diferente, o nosso futuro seria diferente[…]”.

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Na obra ficcional “Não veras país nenhum”, de Ignácio Layola Brandão, publicado originalmente em 1981, o protagonista, um ex-professor de História, aposentado à força pelo regime, um burocrata metódico e entediado, faz, logo no início, no primeiro capítulo, uma grave confissão, como se fosse a coisa mais simples do mundo, mas que traduz um pouco do que somos culturalmente. Os fragmentos da confissão estão nos seguintes termos:

Quatro para as oito; se não corro, perco o ônibus. Não fosse esta perna, eu teria uma bicicleta, como todo mundo. Uma artrose no joelho me impede de pedalar. Tive de passar por dezenas de exames, centenas de gabinetes, paguei gorjetas, conheci todos os pequenos subornos.”Trecho de: Ignácio de Loyola Brandão. “Não Verás País Nenhum.” iBooks.

O que concluo, a par desses fragmentos e da realidade do mundo em que vivemos, é que o ser humano – eu, inclusive – é, não raro, contraditório. Por isso vivemos a vida administrando as nossas e as contradições dos outros, sem opção, pois elas, as contradições do homem, são indissociáveis da nossa personalidade.

A par dessa realidade, é fácil constatar, sem surpresa, que costumamos exigir das pessoas aquilo que, muitas vezes, não exigimos de nós mesmos. Constata-se, ademais, que somos críticos assaz da conduta do congênere, mas somos compassivos, condescendentes quando se trata da conduta das pessoas que distinguimos com a nossa amizade ou simpatia. É dizer: não são poucos os que são rigorosos, severos juízes da conduta alheia, do comportamento do outro, mas frouxos quando se trata das próprias condutas ou de uma terceira pessoa, desde que seja conveniente sê-lo.

Nesse cenário, penso, com efeito, que se fôssemos capazes de nos impor limites, de colocar em ação os nossos próprios freios morais internos, como tentamos impor aos outros, se não fôssemos condescendentes com os erros das pessoas que prezamos – ou quando nos convém -, a vida seria diferente, a sociedade seria diferente, o nosso futuro seria diferente.

Já testemunhei – todos testemunhamos, enfim – críticos morais e críticas acerbas da conduta dos políticos – que são, de longe, a classe mais criticada pela falta de freios morais -, mas que, nos bastidores, à sorrelfa, às escondidas, às claras, às vezes, à vista de todos, enfim, sem pejo e sem peias, agem como agem os políticos que condenam, como freios morais fossem seletivos, como se o que valesse para os outros não valesse para mim.

Em face da crise moral que vivenciamos e das contradições que são próprias do ser humano, o que se observa – sem estupefação, com uma dose significativa de parcimônia, o que torna a questão mais grave ainda – é uma espécie de apologia descarada do “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”. Noutras palavras: pregamos para os outros, exigimos dos outros as regras morais que não servem para nós mesmos, como se vivêssemos em estado de anomia.

Nossos controles morais, pode-se dizer, em face do anotado acima, são seletivos, definitivamente. Condenamos nos estranhos e nos desafetos aquilo que toleramos nas pessoas que amamos ou que são próximas de nós, ou das quais nos servimos ou dependemos de certa forma.

Mas, se queremos mudar o rumo da história, se pretendemos construir uma nova sociedade, não podemos ser seletivos nas nossas ações morais e na condenação dos desvios de conduta, pois a condenação às condutas desviantes deve começar no nosso próprio ambiente familiar, sem o que não se mudará a cultura arrivista de um povo.

Ou valem para todos as peias morais – inclusive para as pessoas no nosso convívio pessoal – ou não valem para ninguém. Ou assumimos uma postura definitiva em torna dessas questões, ou não vale ficar nas rodas de bate-papo espinafrando essa ou aquela autoridade, mas esperando uma “boquinha” para os mesmos propósitos.

Nessas questões, como tantas outras, não é recomendável que adotemos uma posição dúbia e incoerente em face dos nossos interesses pessoais. Ou bem assumimos uma postura retilínea nessas questões, acionando os freios morais independentemente de quem seja o condutor das ações descontroladas, ou não teremos condições de acioná-los (os freios morais) em face do semelhante.

A vida que se leva no ambiente familiar é a vida que tendemos levar profissionalmente. Por isso entendo que é de casa que se deve forjar, desde a mais tenra idade, a moral dos nossos filhos, pois que, se assim não for feito, as instâncias de controle, dirigidas por quem não tem base moral sólida, tendem a ser rigorosas na seleção daqueles a quem se devem punir.

Em face dessa realidade é que, historicamente, somos complacentes com os criminosos do colarinho branco – o que ainda é uma regra, lamentavelmente – enquanto tratamos com rigor excessivo os criminosos das classes desfavorecidas, às quais sobram, apenas, os rigores da lei. Os pobres, com efeito, são, definitivamente, tratados com muito mais rigor que os egressos das classes mais favorecidas, a expor, também por isso, as nossas eternas e despudoradas contradições morais.

Entrementes, não deveria ser assim. Não podemos imprimir no exercício das nossas atividades o mesmo juízo parcial e descriminante que desenvolvemos nas nossas relações, mesmo nas familiares, pois a família não pode ser um ambiente de estímulo às tergiversações morais.

Ninguém deveria contemporizar com dos desvios de conduta; dos mais simples aos mais graves. Convém, assim, ser intransigentes no enfrentamento dessas questões; intransigência, entretanto, que não pode ser seletiva. O que vale para o filho do vizinho, é bem de ver-se, vale – ou deveria valer –  para meu filho. O que vale para o amigo tem que valer para o inimigo, pois nas questões morais convém não fazer concessões, não convém ser seletivo.

Nosso juízo crítico tem que se coerente e retilíneo. Não convém relativizar essas questões. Não podemos ser cínicos, insensíveis, amorais, e transigentes com os nossos, os que estão guardados no lado esquerdo do peito, e rigorosos, moralistas, sensíveis e intransigentes com os outros.

Ninguém nessa vida está livre de um desvio moral. Convém, no entanto, estar atento. Os nossos controles internos não podem ser frouxos, devem estar sempre de prontidão, para, constatado o desvio, nos impor a correção de rumo.

E digo isso na certeza de que tanto eu quanto o leitor dessas despretensiosas reflexões, por mais rigorosos que sejamos, em determinados momentos da nossa história, fomos instados, impelidos, pelos mais diversos motivos, a mudar a direção.

Por isso é importante reconhecer o equívoco, mudar o percurso, para, sem demora, trilhar, sem concessões, sem tergiversações, rigorosamente, intransigentemente, definitivamente, o caminho que possa nos levar à construção de uma sociedade minimamente ética.

 

CATARSE

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“[…]Logo, é preciso reconhecer que o grito intempestivo, a encenação e a postura beligerante não resolvem. E exatamente por isso, mantenho o equilíbrio em face de uma agressão e não saio da linha, principalmente, quando isso acontece no meu ambiente de trabalho, onde me imponho maior equilíbrio ainda e mantenho a calma, em respeito à liturgia do cargo, postura que se exige, sobretudo, de um magistrado[…]”

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Tenho certeza de que amadureci muito nos últimos anos. Digo melhor: amadureci mais ainda. Como se não bastasse, também pude descobrir que não é só a idade que nos faz amadurecer, uma vez que isso está totalmente associado ato de querer ou não. Se fosse apenas pela idade, todos seriam maduros. Contudo, não é isso o que vejo, quando me deparo com pessoas que, definitivamente, passe o tempo que passar, não amadurecem. Basta olhar em volta.

No meu atual momento de vida, não é qualquer descortesia ou atitude grosseira que me tira do sério, pois o meu objetivo de vida é a relação pacífica e cortês, por isso, na maioria das vezes, tendo estado imune às provocações.

Anoto, nesse sentido, que tendo amadurecido mais ainda nos últimos anos, em face das lições que assimilei da convivência num órgão colegiado, estou sempre preparado para, se for o caso, ceder, contemporizar, transigir, compor, a suportar calado as provocações, a contar até cem antes de reagir. É que o confronto não me apraz nessa fase da minha vida. Por isso, suporto com resignação e equilíbrio eventuais grosserias que são feitas a mim, as injustiças que penso estar sofrendo, tanto que ninguém nunca testemunhou uma reação intempestiva da minha parte durante as reuniões coletivas dos órgãos julgadores dos quais faço parte.

Mas, como todos sabem e testemunharam, nem sempre foi assim, já que em épocas passadas, agressões disparadas contra mim receberiam a resposta correspondente. Não tinha essa de levar desaforo para casa. Hoje, levo-os todos, sem me deixar contaminar, sem reagir, tudo com muito equilíbrio como se espera de um magistrado.

Nos dias presentes, como diz Ferreira Gullar, em artigo publicado na  Folha de São Paulo, “eu não quero ter razão, eu quero mesmo é ser feliz”. Mas para ser feliz, verdadeiramente, como eu sou, tem-se que passar por uma espécie de purificação, de limpeza da alma. As almas impuras são quase sempre agressivas, descorteses, mal-educadas, desrespeitosas. Dessas eu procuro manter distância.

Definitivamente, nos dias presentes, não passo recibo à grosseria.  Não dou atenção à discórdia, conquanto abomine, sim, a falta de postura, de educação, o murro na mesa, a voz alguns decibéis acima do que recomenda a boa educação.

Pensando assim, não acho elegante, vejo com especial comiseração, a postura dos que almejam impor o seu ponto de vista na marra, sem lucidez, sem equilíbrio, precipitadamente, açodadamente, na marra, no grito, no escândalo que a todos nós nos constrangem.

Tenho dito às pessoas mais próximas que argumentos devem ser contrapostos com argumentos e que “contra todos os expedientes da arte e da intriga, vale mais, modesta e obscuramente, ter-se razão” (Calamandrei).

Logo, é preciso reconhecer que o grito intempestivo, a encenação e a postura beligerante não resolvem. E exatamente por isso, mantenho o equilíbrio em face de uma agressão e não saio da linha, principalmente, quando isso acontece no meu ambiente de trabalho, onde me imponho maior equilíbrio ainda e mantenho a calma, em respeito à liturgia do cargo, postura que se exige, sobretudo, de um magistrado,

Ao longo dos anos, tenho me libertado dos pensamentos negativos, em face de um exercício continuo de autoanálise, razão pela qual imagino estar passando por verdadeira catarse, a me fazer melhor como gente, como cidadão e como profissional a cada dia, a cada momento.

Tenho, nessa auspiciosa fase da minha vida, me libertado dos sentimentos mesquinhos e das emoções reprimidas. Daí por que vivo uma prazerosa e indescritível sensação de alivio e de pacificação comigo mesmo e com o mundo ao meu redor. Em face dessa libertação, tenho afastado de mim, com muita sofreguidão, os maus sentimentos.

Dessa forma, mesmo quando me sinto agredido, sobretudo quando concluo desnecessária a agressão, quando percebo alguma reação que julgo descabida em relação a minha pessoa, procuro, com equilíbrio, administrar as adversidades, em tributo à minha felicidade, posto que, afinal, é o que importa mesmo, definitivamente. Ademais, para ser feliz como sou, só mesmo me libertando dos maus sentimentos e me prevenindo das maledicências do mundo.

Provocações?  Elas vêm, batem no meu peito mas resvalam como uma bala em obstáculo sólido. Depois, voltam, sim, como um petardo disparado pela minha alma, no coração dos que não sabem controlar os seus impulsos.

Por isso, mesmo já tendo convivido com perturbações psíquicas, com o medo, com traumas e com a sensação de estar oprimido, hoje tenho a sensação de que me curei disso tudo. Daí a certeza de que sou feliz, que é, afinal, tudo o que almejo, pois a mim não perturba nenhum tipo de ambição material que não seja somente aquilo que posso adquirir com o que ganho honestamente.

Poderia dizer, com algum exagero, inspirado, intenso em Zeca Pagodinho, que no atual estágio da minha vida, só posso levantar as mãos pro céu, agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu, pois, se não tenho tudo o que preciso, com o que tenho vivo, e de mansinho lá vou eu.

Assim agindo, repito, vou purificando a minha alma, defenestrando as minhas neuroses, administrando, quando necessário, as neuroses do semelhante, seguindo a minha vida, libertando-me dos sentimentos malsãs, deixando fluir as emoções que antes reprimia, pacificando e aliviando o meu espírito das sensações que possam me infelicitar.

SENHOR DO MEU DESTINO

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“[…]Devo dizer, nessa linha de pensar, que, não fosse a minha determinação de mudar o caminho que, aparentemente, já estava traçada para mim, muito provavelmente eu não seria o que sou hoje, e, muito provavelmente também, estaria trabalhando na lavoura, cuidando da terra, como, afinal, foi o destino dos que, como eu, nasceram e se criaram convivendo com o campo[…]”

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Sócrates ensinou que uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida. Em Fédon ele diz que uma vida irrefletida leva a alma a ficar “confusa e aturdida, como se estivesse bêbada”, enquanto uma alma sábia alcança a estabilidade e seu vagar chega ao fim.

Nessa linha de compreensão, teimo em levar uma vida reflexiva, mesmo diante da óbvia constatação de que, não raro, o resultado das minhas reflexões pode não ser muito palatável, o que, para mim, não é nenhum óbice a impedir a minha contínua vida de reflexão.

Assim determinado, começo essas reflexões com uma indagação inquietante: O homem tem o poder de mudar o seu destino? Ou é verdade que cada a uma já nasce com o seu destino definido, cabendo a cada um de nós apenas aguardar que o tempo fluo, na certeza de que a projeção do nosso futuro já está definida?

Muitas vezes ouvir, diante de um infortúnio, de um tropeço ou de uma derrocada, as pessoas costumam dizer na tentativa de dar conforto às vítimas das desditas, que foi o destino que assim o quis, como que reafirmando que, em face dele, somos impotentes, só nos restando mesmo a conformação.

Claro que a incursão em torno desse tema exigiria de mim, de rigor, um conhecimento que não tenho, uma profundidade de análise que não sou capaz de fazer. Compreendo, no entanto, que, apesar das minhas limitações intelectuais, posso, sim, refletir sobre a questão como qualquer pessoa minimamente racional pode fazê-lo, pois, afinal, o objetivo mesmo é só pensar, exercer o direito de dizer o que penso e sinto ante os mais diversos acontecimentos que permeiam a minha vida, sem nenhuma outra pretensão que não seja desnudar a minha alma, me expor ao julgamento daqueles que se aventuram ler as coisas que escrevo.

A propósito do tema em comento, devo dizer que, segundo a minha percepção, fruto apenas da minha experiência de vida, em face de tudo que já testemunhei ao longo da minha provecta existência, que, naquilo que depende só de nós, nós somos, sim, os únicos responsáveis pelo nosso, digamos, destino.

Devo dizer, nessa linha de pensar, que, não fosse a minha determinação de mudar o caminho que, aparentemente, já estava traçada para mim, muito provavelmente eu não seria o que sou hoje, e, muito provavelmente também, estaria trabalhando na lavoura, cuidando da terra, como, afinal, foi o destino dos que, como eu, nasceram e se criaram convivendo com o campo.

Mas eu decidi que não era isso que eu queria, e, nesse afã, aproveitei as oportunidades que se apresentaram na minha vida, sempre com muita tenacidade, e com convicção de que meu mundo deveria ir muito além do campo e da roça.

Nesse afã, cuidei de mudar a direção, cuidei de pavimentar o caminho noutro rumo, tendo alcançado, pelas forças da minha determinação, os meus reais objetivos, mesmo quando tudo parecia conspirar contra, face as enormes dificuldades pelas quais passei, depois que o nosso provedor optou por nos abandonar.

Posso dizer, então, que, no que dependeu da minha vontade, eu mudei a minha rota, contribuindo, decisivamente, para construção da minha história, que poderia, sim, ter sido diferente, se eu permanecesse “com a boca escancarada e cheia de dentes, esperando a morte chegar”, como narrou Raul Seixas.

Tenho convicção, em face mesmo de tudo que vivi e testemunhei, que o mesmo não se dá quando deixamos a vida nos levar, sem fazer nenhum esforço para mudar o rumo dos acontecimentos. Nesse caso, o destino de cada um termina sendo traçado pelos outros, pelas forças exteriores que não sejamos capazes de enfrentar – por medo, covardia ou acomodação.

Aquele que, diante das dificuldades da vida, prefere se acomodar e deixar acontecer, aí sim, acaba sendo levado pela correnteza da vida como um barco sem comando enfrentando uma tempestade. E isso ocorre porque não foi capaz de segurar as rédeas da sua história.

Aquele que não assume o comanda da sua vida, da sua história, que fraqueja e sucumbe diante do infortúnio, não é, definitivamente, o senhor do seu destino, razão pela qual só lhe resta mesmo assumir, conformado, que “foi  destino foi quem quis assim”, quando, na realidade, ele próprio foi quem se omitiu, se negando a sair da zona de conforto que poderia mudar a direção da sua vida, perspectiva em face da qual as portas do mundo se abrem ou se fecham, dependendo da força e da determinação de cada um.

Para ilustrar e roborar o que digo, anoto que o genial Nelson Cavaquinho (que tocava mesmo era violão), era do tipo que deixava a vida seguir o seu fluxo, que não lutava para mudar a rota, que se deixou levar sem mover uma palha para mudar a direção. Era do tipo que, diferente de muitos, não se aproximava das pessoas que não fosse por afeto. Nenhum interesse que não fosse o prazer da convivência o movia. Deixou acontecer. Ele nunca forçava a barra. Deixava os acontecimentos fluírem. Com essa conduta, traçou o seu próprio destino porque não se empenhou em modificar o curso dos acontecimentos. Era, portanto, do tipo acomodado que, apesar da genialidade, não tirou proveito material da sua criatividade, porque preferiu que fosse assim, se acomodou com a situação, não fez questão de pavimentar o caminho que o levaria noutra direção.

É claro que, por vezes, nem tudo depende só da boa vontade de cada um, da determinação de cada um. Às vezes uma boa dose de sorte ajuda muito. Contudo, devo alertar, tomando de empréstimo as lições do poeta popular, que “não adianta um pé de coelho no bolso traseiro, nem mesmo a tal ferradura suspensa atrás da porta ou um astral bem maior que o da noite passada, pois toda sorte tem quem acredita nela”. (Fernando Mendes).

Digo mais, agora inspirado, ao reverso, em Mia Couto (Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, editora Companhia das Letras), que não devemos nos deixar levar pela desesperança, achando que tudo é destino e que contra o que está escrito nada podemos fazer, pois tenho testemunhado não ser verdadeira a afirmação de que a vantagem de pobre é saber esperar, e esperar sem esperança, pois não foram poucos os que, lutando com todas as dificuldades propiciadas pela vida, ainda assim venceram, afinal, com disposição e fé, somos, sim, os senhores do nosso destino ou, pelo menos, devemos tentar assumir o comando dele”.

É isso.

 

 

COMPLACÊNCIA TÓXICA

Há pessoas que não têm boa percepção da realidade porque se contentam em apenas olhar o que está diante delas em vez de refletir profundamente sobre o que se apresenta diante dos seus olhos. Essa posição, puramente contemplativa em face da realidade, é que as conduzem a, por exemplo, votar em pessoas despudoradas, sem compromisso com as promessas que fazem, muitas das quais tendentes, pura e simplesmente, ao logro, à obtenção de vantagens de cunho pessoal, levando os incautos, sem a exata visão da realidade, a se contentarem apenas com percepção das sombras dessa mesma realidade. (Sócrates).

Conquanto me coloque na condição de uma pessoa comum, sei que, de certa forma, as minhas posições podem influenciar as pessoas. Por isso, não me limito, aliás, me recuso a ver apenas as sombras do que está em volta de mim.

Prefiro, ao reverso, encarar a realidade, olhá-la de frente, sem medo, sem receio, sem receio de expor as minhas inquietações, sem me importar com os que, numa visão reducionista da realidade, advertem, para estancar o pensamento, que juiz só fala nos autos, olvidando-se os críticos que juiz é componente da sociedade, que ele participa do seu acervo cultural e dos problemas que a envolvem, e que é um equívoco imaginar que exista juiz neutro, asséptico, acrítico ou inolente.

Esses críticos, é bem de ver-se, não se dão conta de que neutralidade, em relação aos magistrados, é uma inviabilidade antropológica (Zaffaroni). Nesse sentido, importa consignar, os que pensam que existem juízes neutros, apenas se enganam, pois, repito, antes de ser magistrado, somos todos partícipes das tendências sociais nas quais nos achamos envolvidos; pensar de forma diversa é imaginar que somos uma categoria de alienados.

Devo dizer, agora, em face do tema que escolhi para essas reflexões, que não tenho receio de, algumas vezes, parecer monocórdico ou monotemático por, aparentemente, insistir nos mesmo temas, pois, afinal, de rigor, múltiplos são os temas sobre os quais já expendi as minhas opiniões, as minhas inquietações, pois me incomoda, como disse acima, a posição meramente contemplativa, imberbe (sentido figurado), neutra, passiva, anódina e acomodada diante da realidade.

A verdade é que, reconheçamos, a realidade que testemunhamos nos últimos tempos tem nos impelido a, muitas vezes, tratar, até com certa frequência, dos mesmos temas, daí que não me recuso fazê-lo, afinal, como diz Caetano Veloso, está tudo fora de órbita. Aliás, no Brasil, desde o descobrimento, tudo parece estar mesmo fora de órbita. Por isso insisto em refletir sobre temas aparentemente reiterados, os quais, no entanto, têm a sua relevância em face do momento em que estamos vivendo.

Importa anotar nesse panorama – e aqui avanço, definitivamente, na direção do tema que elegi para meditar -, como tenho destacado em vários artigos e/ou crônicas, que tendemos a ser complacentes, quando nos convém, com os desvios de conduta, se eles, de alguma forma, nos dizem respeito.

Essa tem sido, infelizmente, uma realidade que se descortina sob os nossos olhos, olhos que assimilam – e aceitam com benevolência, como indisfarçável condescendência –  as condutas heterodoxas, dependendo do autor do desvio, dependendo dos nossos próprios interesses.

Penso, com efeito, que, para alguns críticos contumazes da conduta dos “outros”, a realidade tem  cores diferentes se os desvios de conduta são de pessoas pelas quais têm algum apreço, e/ou quando, de alguma forma, são beneficiários (os críticos) desses mesmos desvios. Nesse cenário, o que se constata é que os desvios de conduta são assimilados como práticas, digamos, normais, desde que não sejam as práticas dos nossos vizinhos; esses, sim, merecem ser censurados, quando não condenados, quando agem em desacordo com os valores morais que cultivamos ou deveríamos cultivar.

Tenho qualificado esse tipo de atitude de complacência tóxica. Os efeitos danosos dessa conduta compassiva são imensuráveis, desastrosas mesmo, para o conjunto da sociedade, porque, com ela, terminamos por sedimentar na sociedade o sentimento de que a vida é mesmo assim, que é preciso relativizar, também, as condutas morais, premissa a partir da qual terminamos por influenciar os caminhos das novas gerações.

A capacidade que temos de apontar nos outros os defeitos que não vemos – ou preferimos fingir não ver – nas pessoas que estão no nosso entorno e que deveriam ser desencorajadas de seguir na direção errada, é, além de tóxica, perversa, pois estimula a formação de uma geração de oportunistas, para a qual o céu é o limite.

Tenho dito, repetidas vezes, que não adiantA sentar numa mesa de bar, numa roda de amigos, num ambiente familiar e criticar a ação nefanda de políticos que tomaram de assalto o Estado brasileiro, para, no mesmo passo, fazer vista grossa em face das condutas desviantes e condenáveis daqueles que estão próximos de nós, ou pelos quais nutrimos simpatia, como fizeram, por exemplo, Artur Azevedo, Raul Pompeia e Jorge Amado, que foram defensores ardorosos do nefasto autocrata  Floriano Peixoto (Schmidt, Paulo, “Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes da República, Leya, 2016-02-26T03:00:00+00:00. ibooks).

A esperança que tenho é de que operações como a Lava-jato sirvam para diminuir o ímpeto dos que ascendem ao poder, em face é de uma outorga popular, para, nele, poder, promoverem toda sorte de falcatrua. Todavia, antes, precisamos fazer a nossa parte. Precisamos preparar as gerações futuras para se insurgirem contra essas práticas nefandas, sem discriminar os seus, condenando-os indistintamente.

Devemos, sim, nos unir numa cruzada, definitiva e moralizadora, contra os desvios de conduta, seja das pessoas que estão próximas de nós, seja dos que estão distantes dos nossos olhos ou pelos quais tenhamos alguma simpatia, desestimulando, na medida do possível, as gerações futuras de seguirem os passos dos que condescendem com os desvios de conduta.

É isso.