Category Archives: Crônicas

Loucos pelo poder

Sentir-se privado da fama e/ou do poder pode ser algo muito difícil de ser administrado  por determinadas pessoas. O poder perdido –  ainda que seja um só naco de poder –  pode destruir a vida de determinadas  pessoas, sobretudo as que sublimam a bajulação,  a badalação, as colunas sociais, os tapinhas nas costas, os elogios gratuitos  etc.

Quando Wilson Simonal  concluiu, finalmente, que sua vida de artista  famoso, rico e badalado, não tinha mais retorno, disse, desesperado, a um amigo: “Eu não existo. Sou um fantasma”. Wanderley Cardoso, “O bom rapaz” da Jovem Guarda, quando se viu sem os holofotes proporcionados pela fama, caiu em depressão e entregou-se ao vício do álcool.

Esses dois exemplos, apanhados ao acaso, são uma demonstração eloquente de como determinadas pessoas não estão preparadas para o ostracismo,  para viver sem a fama – e sem o poder dela decorrente –  que um dia alcançaram.

Essas pessoas, ao tempo da fama, não se preparam para o ocaso. Viveram intensamente o poder e a fama, esquecidos que, como tudo na vida, eles também passam.

Sabem-se de pessoas, com muito menos poder e quase nenhuma fama, que ao perderem aquele (o poder) , se desesperam,  se deprimem, perderam, até, a vontade de viver.

Essas pessoas, a meu sentir, são as que exercem o poder sem idealismo, mas em face do que ele tem fascinante. Essas têm que sofrer mesmo, pois o poder, para elas, era um fim em si mesmo. Elas se lambuzam com – e no –  o poder. Vivem das benemerências do poder, sem se darem conta que tudo na vida tem começo, meio e fim. São os tolos no poder, dos quais lhes falei em outra crônica publicada, aqui neste mesmo espaço.

Nossas crenças

Há coisas que, nas nossas relações sociais, nós revelamos, sem nenhuma dificuldade. Revelamos o  filme favorito, o carro da nossa predileção, as lojas da nossa preferência, os ambientes que gostamos de frequentar, o whisky ou a cerveja que tomamos. Tudo isso o fazemos sem o menor constrangimento, sem nenhuma restrição, tudo muito natural.

Noutras oportunidades, revelamos, ademais, as nossas crenças. Digo melhor, algumas das nossas crenças. Muitas vezes afirmamos, por exemplo, acreditar que chuvisco faz mal à saúde, que não se deve comer manga com febre ou que, depois de uma cirurgia, não devemos comer comida reimosa: pato, carne de porco, surubim, camarão, etc.

Essas são algumas das crenças que ousamos revelar: sem receio, sem constrangimento, em qualquer lugar ou circunstância. Nós cremos e não nos envergonhamos de crer, mesmo naquilo que a ciência descrê.

Fazer o quê?

São crenças e ponto, afinal, ninguém  pode viver ser crer em algo. Acredita-se até em pastor que tira o diabo do coro das pecadoras fazendo sexo elas.

É que, repito, é preciso acreditar, ter fé, caso contrário a vida se tornaria um inferno.

A nossa crença é tamanha que, muitas vezes, acreditamos até em promessas de campanha política; como se fôssemos tolos, babacas, otários. Eu mesmo já acreditei!

Essas são algumas crenças que revelamos  até com certa naturalidade, porque estão, afinal, incorporadas ao nosso dia a dia. Não há, pois, como negá-las, pois as confessamos, repito, sem pudor.

A nós não nos causa nenhum constrangimento admitir, por exemplo, que jogamos um lençol sobre o espelho para não atrair raios ou que só levantamos com o pé direito, para começar bem o dia, desde que um gato preto, numa sexta-feira, não cruze o nosso caminho.

Mas ao lado das crenças reveláveis, as ditas costumeiras, muitas deles racionais  (onde há fumaça, há fogo ou quem bebe tende a se embriagar), outras, nem tanto, há o que chamo de  falsas crenças; aquelas que, por prudência ou medo, muitas vezes não saem da nossa subjetividade mas que, iludidos, as temos como verdadeiras.

Nesse sentido, cremos, por exemplo, que a nossa vontade é livre, que mandamos em nós mesmos, que sabemos escolher entre o bem e o mal, que sabemos discernir o bom do ruim, que não cometemos deslizes graves, que os nossos pecados são apenas veniais, que apenas os pecados dos outros merece expiação ou que as doenças graves só alcançam o vizinho etc.

Nessa senda, cremos, ademais, que um dia a corrupção deixará de existir, que o homem e a mulher serão tratados com igualdade (na medidas de suas desigualdades), que o Poder Judiciário um dia será célere, que as pessoas que amamos nos amam com reciprocidade, que os filhos do vizinho levam os nossos à perdição, que erramos induzidos pelos outros, etc.

E assim vamos vivendo: enganando-nos aqui, nos iludindo acolá, pouco importando se são falsas ou verdadeiras as nossas crenças, pois, afinal, o que importa mesmo é ser feliz, ter paz de espírito, ter força para enfrentar as dificuldades do dia a dia; e, para ser feliz, para ter o mínimo de conforto espiritual, é preciso crer.

Por tudo isso, eu creio sim…

A vitória da esperteza

maradona_gol_de_mao_legoTem sido assim, desde sempre: o que importa é vencer, independentemente dos meios.

A sociedade, de tanto testemunhar a vitória da esperteza, termina por concluir que tem que ser assim mesmo.

O cidadão comum, diante de tantos exemplos negativos, fica com a clara sensação que ser correto é bobagem.

Há muitos exemplos, na história, da vitória – e comemoração – da esperteza. Os bobos que se danem, que paguem o preço por insistirem em ser corretos.

Mas os exemplos não precisam ser buscados na história. Todos os dias testemunhamos a vitória da esperteza; muitas vezes como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Faço essas afirmações, em face de várias vezes ter testemunhado a vitória da malandragem, e a vibração dos que torcem pela malandragem, dos que apoiam a malandragem,  o que, desde minha avaliação, é muito grave, pois fica-se com a impressão de que o oportunismo, no que ele tem de mais nefasto, só depende mesmo das circunstâncias.

Para recordar. Maradona fez um gol com a mão, contra a Inglaterra, em 1986, e por essa esperteza é elogiado até  os dias presentes. Dizem os torcedores argentinos,que não foi a mão de Maradona que tocou na bola; foi – pasmem! –  a mão de Deus.

Não se ouviu, vindo da nação Argentina, nenhuma crítica, muito menos condenação por essa malandragem. O toque malandro serviu, argumentam, para calar a boca dos otários, dos que, bobos, fazem e são flagrados. É como se dissessem: para tripudiar, para sobrepujar a ética, com atos de esperteza e malandragem, tem que ser vivaz e inteligente; inteligência que poucos têm comparável à de Maradona e de outros que, como ele, usam da esperteza para alcançarem as suas conquistas.

“Feio mesmo é perder”, dizem os que fazem coro à malandragem.

Na quarta-feira passada, o Corinthians foi desclassificado da Taça Libertadores, dentre outros motivos, em face de o árbitro não ter marcado um pênalti decorrente de uma jogada de mão de um jogador argentino.

Os corintianos, porque perderam, criticaram a esperteza; o torcedores do Boca, porque ganharam, enalteceram a “habilidade” do zagueiro. Para os torcedores do Boca, não há nada de mais em “roubar” o adversário, afinal, eles também fazem coro ao apotegma: feio mesmo é perder. Críticas eles mereceriam, pensam os torcedores do Boca,  é se não tivessem alcançado a classificação, ainda que pela via da malandragem.

Nesse sentido, eu já ouvi, de cronistas esportivos, incontáveis vezes, que o que importa mesmo – no futebol, pelo menos – é vencer,  ainda que seja fora do tempo normal, com um gol de mão, afinal, depois do resultado alcançado, sabe-se, nada mais pode ser feito.

Tivesse sido o Corinthians a vencer , beneficiado pelos erros da arbitragem, os argumentos dos torcedores brasileiros seriam os mesmos de que se valem hoje os torcedores do Boca: feio mesmo é perder e/ou tudo isso é choro de perdedor.

E assim vamos: acolhendo ou rejeitando a esperteza, dependendo da posição em que nos encontramos. Tudo muito espertamente, malandramente, como, afinal, tem sido, desde sempre.

Belo exemplo nos dão os que, convenientemente, aplaudem esse tipo de atitude.

São esses mesmos que não perdem uma oportunidade de condenar um político, quando, por exemplo, condiciona a aprovação de uma lei à liberação dos valores referentes às emendas parlamentares; aqueles valores que ninguém sabe – ou, pelo menos, não somos informados –  onde são empregados.

É isso.

Só teatro

DE SÃO PAULO

Barbara Gancia

Parece que Joaquim Barbosa anda irrequieto. Alega que um carro preto cheio de ho­mens deu para rondar sua casa. Hmmmm. Na minha modestíssima opinião, podem ser asseclas do Pinguim ou, quem sabe, do Coringa. Mas eu não descartaria algum estratagema terrível da Mulher Gato –nunca se sabe, daquela felina pode-se esperar qualquer coisa.

Quinzão não anda vendo espectros gratuitamente. Teme a hipótese de que o plenário do STF decida em favor de recursos que favoreçam os réus do mensalão que tiveram quatro votos a favor.

Joaquim Barbosa, super-herói da nação, salvador da pátria varonil, azul e anil, não admite hipótese que assegure os direitos dos 37 réus que ele reuniu em um só corpo e julgou simultaneamente. Batman quer jogar todos na cadeia já. Caso contrário estaríamos incorrendo em privilégio de poucos, estaríamos entrando no terreno da “impunidade”.

Mas, vem cá: foram quatro os juízes que levantaram dúvidas razoáveis acerca da culpabilidade dos réus, não foram? E, que se saiba, há mais de 800 anos a possibilidade de recurso vem sendo assegurada por lei, certo? Não será a entrada desenhada de luva de Barbosa em campo na disputadíssima contenda do Fla-Flu que irá satisfazer a sede de punibilidade a qualquer custo por parte da torcida, não?

Em 20 ou 30 anos, quando o contexto político for outro; a composição do STF for outra e, quem sabe, a temperatura for mais baixa nas áreas da banca em que ficam empilhadas as revistas semanais, as pessoas quem sabe se darão conta de que o acórdão, a sentença final do mensalão, é um documento sem pé nem cabeça, sem sustentação alguma, sem lógica interna, e que não foi a “impunidade” que o fez naufragar, mas sua falta de coerência.

QUEM SABE.

Desde o dia 1º venho martelando que a peça é capenga. Não, não entendo xongas de direito. Eu mais os milhões de fãs de Barbosa que ficaram meses com o nariz grudado na TV vendo o juiz em ação –sem revide da defesa, diga-se. Mas muito especialista que examinou a papelada reconhece que existe ali mais populismo jurídico do que competência de fato –foram 37 réus julgados de uma vez só por crimes diversos, onde já se viu uma coisa dessas?

Ora, ora, por que será que vários ministros retiraram suas considerações da versão final da sentença, não é mesmo, juiz Fux? O caro leitor já tentou ler o documento? Também não li. Mas quem teve de se debruçar sobre a obra atesta que ela não diz lé com cré.

Em sua sentença, um juiz precisa deixar claro para a sociedade os motivos que o levaram a chegar às suas conclusões. No processo do mensalão, Joaquim Barbosa fabricou um teatrinho que criou na sociedade brasileira uma série de falsas expectativas. Havia ali o papel do bandido, do mocinho, tinha a pecha de “maior julgamento da história” e havia até a certeza indiscutível de que viríamos um final feliz.

Agora, quem criou todas essas esperanças, quem usou de fígado em vez de ciência, quem deu um chute no traseiro da oportunidade histórica e será o responsável pela frustração de um país inteiro, além de reforçar uma perigosa polarização entre correntes de esquerda e direita, é o mesmo homem capaz de se dizer tão desencantado com o sistema a ponto de abandonar a toga e se candidatar a presidente. Duvida? Bem, depois não diga que não foi avisado…

Barbara Gancia

Barbara Gancia, mito vivo do jornalismo tapuia e torcedora do Santos FC, detesta se envolver em polêmica. E já chegou na idade de ter de recusar alimentos contendo gordura animal. É colunista do caderno “Cotidiano” e da revista “sãopaulo”.

Impontualidade

figura-74aHá um ditado popular, verdadeiro apotegma dos impontuais, segundo o qual “pontualidade é virtude sem testemunhas”.

Os impontuais (deselegantes e também mal-educados) acham que, à luz dessa máxima, ninguém deveria se preocupar com a  impontualidade, pois pontualidade é coisa de otários, de pessoas ansiosas, obsessivas e metidas a besta.

Para justificar a impontualidade, os impontuais se valem, ademais, de outras máximas, igualmente populares, mas igualmente marotas e oportunistas, do tipo “apressado come cru”  ou  “não vim para consertar o mundo”.

E assim, de deboche em deboche, desrespeito em desrespeito, os impontuais vão fulminando a nossa paciência, e vão levando a vida na valsa, do jeito que eles e o diabo gostam.

Você, por acaso, já esteve numa sala cinema, nas últimas filas de cadeiras, para o qual você chegou a tempo, quando, de repente, mal o filme começou, aparecerem os retardatários, com um pacote de pipoca nas mãos, quase às cegas, parando bem à sua frente, em busca de uma poltrona, exatamente no lugar menos provável?

Certamente que sim; certamente, como eu, você também se irritou, sentindo vontade de mandá-los ao inferno, o que não faz, no entanto, por educação e respeito para com os demais presentes.

Já aconteceu de você marcar uma consulta e o médico chegar três, quatro horas depois da informada para início do atendimento?

Fala sério: você não teve vontade de ir embora para casa, depois de assacar vários desaforos à atendente, que, sabemos, é a menos culpada?

Pois se com você nunca ocorreu, comigo já aconteceu; incontáveis vezes.

Deixa eu contar uma impontualidade revoltante, porque passou de todos os limites.

Pois bem. Uma pessoa muito próxima a mim foi diagnosticada com hérnia inguinal, a exigir uma cirurgia, sem mais demora.

Ajustado com o cirurgião dia e hora para o ato cirúrgico, o paciente foi ao hospital na hora marcada para a cirurgia: 7h30.

Sabe que horas o paciente entrou no centro cirúrgico?

Exatamente às 17h15!

Que tal? É ou não é revoltante?

Mas eu procuro não dar vida mole aos impontuais.

Quando marco um compromisso e na hora ajustada o cidadão não aparece e nem justifica as razões do atraso, espero 15 minutos e me ausento, só para deixar claro que a sua impontualidade inviabilizou o nosso contato, com as consequências daí decorrentes.

A impontualidade é uma falta de respeito, pois só serve mesmo ao impontual.

Vamos todos fazer uma corrente pra frente contra os impontuais.

Faça como eu: se houver atraso, vá embora, deixe o mal-educado falar sozinho.

Crônica para publicação

Abaixo, a crônica que enviei ao Jornal Pequeno para publicação, na qual faço algumas reflexões sobre discriminação.

Refletindo sobre discriminação 

José Luiz Oliveira de Almeida*

O ser humano, tenho testemunhado, é assim: em vez de sublimar, de valorizar, de elevar e enaltecer as virtudes das pessoas (colegas de confraria, por exemplo), prefere apontar-lhes os defeitos para, a partir deles, discriminá-las, movido por sentimentos menores.

Em face das discriminações que se verificam nas confrarias, se não é possível o alijamento do confrade, tenta-se, noutro giro, pelos meios sempre condenáveis, diminuí-lo, reduzir a sua importância, numa abominável, febril e equivocada percepção de mundo.

Numa confraria, essas tentativas de menosprezar o colega, pelo que as pessoas (ou desafetos) imaginam (ou almejam) que tenha de negativo, é uma evidência atroz, daquelas que, algumas vezes, até desestimulam, tendo em vista que há algozes que, nesse desiderato, vão ao extremo,

É claro que não estou inventando a roda. Eu apenas constato o óbvio. Mas o óbvio, algumas vezes, também precisa ser destacado. Por isso reafirmo a obviedade: todas sabem que é assim mesmo a vida nas corporações. Todos percebem que tem sido assim, que sempre foi assim, e que assim sempre será.

Mas não custa reafirmar, pelo menos para que saibam que sabemos, que todos percebemos, enfim, a discriminação que se faz em face dos defeitos que o discriminado muitas vezes não tem, e que, no mesmo passo, são relegadas as suas virtudes a plano secundário, por matreirice, esperteza ou má-fé.

Nas corporações, constatamos que o congênere pode ser discriminado pelas mais diversas razões, menos pela sua bondade, pelo seu caráter, pela sua dedicação e inteligência. Esses bons predicados, infelizmente, ficam, quase sempre, como anotei acima, relegados a plano secundário. É mais ou menos como ocorre no mundo da política, segundo vetusta máxima popular, em relação ao inimigo: se não tem defeito, arruma-se um – ou uns.

O que importa mesmo, nessa linha reflexiva, é discriminar, criticar, diminuir as virtudes das pessoas, pois que, assim agindo, imaginam os algozes que as trazem para a planície, “fabricando-as” à sua imagem e semelhança (dele, algoz). É como se dissessem: posso não ser virtuoso, mas ele, que pensa ser virtuoso, que age como um virtuoso, que as pessoas pensam ser virtuoso, é igualzinho a mim, somos em tudo iguais.

Numa corporação, sobretudo nas corporações de poder, é um pecado ser diferente, sair do centro, transitar pelo incomum, fugir dos clichês, seguir noutra direção que não a óbvia, ou seja, a que todos esperam e almejam.

Mas, sejamos realistas, não é preciso fazer parte de uma corporação para ser discriminado. Nós todos vivemos discriminando as pessoas. É próprio do ser humano discriminar, diminuir, vilipendiar, escarnecer, ridicularizar, zombar do semelhante, sobretudo se vislumbra nele um competidor; competidor na imaginação do zombeteiro, claro.

Discriminam-se as pessoas pela beleza, pela feiúra, pela inteligência, pela falta dela, pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, pelo andar, pelas roupas que veste, pelo tom da voz, pela timidez, pelo exibicionismo, pela posição social etc. O que importa mesmo é discriminar!

Do que vejo e sinto, o que menos importam são as realizações daqueles que discriminam, a sua capacidade de discernir, seu bom-senso, sua bondade, o respeito que têm pelo ser humano, a forma cortês com que tratam às pessoas, o sentimento de solidariedade, as relevantes realizações etc.

É mais cômodo discriminar, apontar os defeitos. É como se fosse um bálsamo para alma de quem discrimina. Se posso discriminar e, de consequência, diminuir os feitos do confrade, por  que razão deveria elogiá-lo, encher a sua bola?

Um exemplo capturado na história do Brasil: D. João VI, todos sabemos, era destacado mais pela sua feiúra que em face de suas realizações, convindo anotar que, pelo mesmo motivo, e outros mais picantes,também era discriminada  D. Carlota Joaquina.

Além da pouca,ou nenhuma, atração física, D. João VI também era discriminado pelo descuido com a higiene pessoal e pela fama de glutão sem escrúpulos e sem limites.

Os destaques aos defeitos de D. João  são um contraponto muito relevante – e muito sublimado, também – às suas realizações: abertura dos portos, remodelação do Rio de Janeiro, permissão para instalação de indústrias, aparelhamento das forças armadas, criação das Academias da Marinha e Militar, construção do Jardim Botânico, de um observatório astronômico e um museu mineralógico, além da biblioteca pública e da tipografia real, cuja primeira publicação foi A Riqueza das Nações, de Adam Smith.

*É desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão

E-mail: jose.luiz.almeida@globo.com

Blog: www.joseluizalmeida.com

O fascínio do poder

Sentir-se privado da fama e/ou do poder pode ser algo muito difícil de ser administrado  por determinadas pessoas. O poder perdido –  ainda que seja um só naco de poder –  pode destruir a vida de determinadas  pessoas, sobretudo as que sublimam a bajulação,  a badalação, as colunas sociais, os tapinhas nas costas, os elogios gratuitos, as influências que só o exercício do poder proporciona etc.

Quando Wilson Simonal  concluiu, finalmente, que sua vida de artista  famoso, rico e badalado, não tinha mais retorno, disse, desesperado, a um amigo: “Eu não existo. Sou um fantasma”. Wanderley Cardoso, “O bom rapaz” da Jovem Guarda, quando se viu sem os holofotes proporcionados pela fama, caiu em depressão e entregou-se ao vício do álcool.

Esses dois exemplos, apanhados ao acaso, são uma demonstração eloquente de como determinadas pessoas não estão preparadas para o ostracismo,  para viver sem a fama – e sem o poder dela decorrente –  que um dia alcançaram.

Essas pessoas, ao tempo da fama, não se preparam para o ocaso. Viveram intensamente o poder e a fama, esquecidos que, como tudo na vida, eles também passam.

Sabem-se de pessoas, com muito menos poder e quase nenhuma fama, que ao perderem aquele ( o poder) , se desesperam,  se deprimem, perderam, até, a vontade de viver.

Essas pessoas, a meu sentir, são as que exercem o poder sem idealismo, mas em face do que ele tem fascinante. Essas têm que sofrer mesmo, pois o poder, para elas, era um fim em si mesmo. Elas se lambuzam com – e no –  o poder. Vivem das benemerências do poder, sem se darem conta que tudo na vida tem começo, meio e fim. São os tolos no poder, dos quais lhes falei em outra crônica publicada, aqui neste mesmo matutino.

Eu não tenho nenhum problema em me afastar do poder. Não tenho apego ao poder. Incrível, não é mesmo? Mas é a mais cristalina verdade.

Aliás, três anos depois de ser promovido, ainda não entendi o fascínio das pessoas  por determinados. A minha vida permanece rigorosamente a mesma; a mesma de quando oficiava em primeira instância.

Com a minha família não é diferente. A minha, a nossa  rotina é a mesma. Continuo dormindo no mesmo horário, fazendo as refeições na hora marcada, frequentando os mesmo ambientes, trocando prosa com os mesmos amigos e parentes.

Não vivo de badalações, não frequento as colunas sociais, não vivo de ostentação,  e só tenho orgulho da minha família,  da história que construí na magistratura e das poucas amizades que amealhei e que procuro preservar.

Nada mais que isso! Nada além disso!

Portanto, para mim, deixar o poder, não será nenhum dilema. Tenho direito adquirido a aposentadoria, e tão logo compreenda que minha missão está cumprida, volto para casa, para viver, rigorosamente, a mesma vida, com os mesmos amigos e freqüentando os mesmos lugares.

Decerto que, ao deixar o proscênio, poucos serão os que se darão conta da minha saída de cena. E poucos são os que sabem que eu existo. E é bom que seja assim.

Teve época, sim, que me fascinava ser reconhecido pelo meu trabalho. Hoje, com a idade mais avançada, a fama não, como o poder, para mim são indiferentes, cumprindo anotar que o poder só o exerço para cumprir a minha missão. Não o faço por vaidade, que, como também já refleti aqui mesmo, é o câncer da alma.

Todos sabem que abomino as solenidades, que os ambientes festivos que frequento são aqueles que decorrem das minhas relações de amizade e familiar.

A verdade é que não sei viver em ambientes badalados. Não empresto a minha imagem para fins que não estejam umbilicalmente ligados à minha condição de magistrado. Portanto, sair da ribalta, para mim, será menos doloroso, seguramente, do que foi a minha promoção para o Tribunal.

É bom saber que, diferente de uma promoção, sair da ribalta só depende mim e de mais ninguém.

Apresso-me em dizer, a guisa de alerta, que  a minha missão, em segunda instância, mal começou e que, portanto, não se deve contar  com a minha aposentadoria nos próximos anos, pois tenho a convicção que ainda tenho muito a realizar, sobretudo agora, engajado como estou na instalação dos Centros de Conciliação, que, para mim, serão parte da solução para o acesso e morosidade do Poder Judiciário.

Discriminação

O ser humano é assim: em vez de sublimar as virtudes das pessoas, prefere apontar-lhes os defeitos para, a partir deles, discriminá-las e diminuí-las.

Numa corporação essas tentativas de menosprezar o colega, pelo que as pessoas vislumbram que tem de negativo, é uma evidência atroz.

Nas corporações, observo, o sujeito pode ser discriminado pelas mais diversas razões. É mais ou menos como ocorre no mundo da política em relação ao inimigo: se não tem defeito, arruma-se um – ou uns.

O importante mesmo é discriminar, criticar, diminuir as virtudes das pessoas, pois que, assim agindo, imaginam que o estão trazendo para a planície, para ser igualzinho a todas as outras pessoas.

Numa corporação, sobretudo nas corporações de poder, é um pecado ser diferente, sair do centro, transitar pelo incomum, fugir dos clichês, seguir noutra direção que não a óbvia- a que todos esperam, e almejam.

Mas, sejamos realistas, não é preciso fazer parte de uma corporação para ser discriminado.

Nós vivemos discriminando as pessoas. É próprio do ser humano a discriminação. Discriminam-se as pessoas pela beleza, pela feiura, pela inteligência, pela falta dela, pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, pelo andar, pelas roupas que veste, pelo tom da voz, pela timidez, pelo exibicionismo, pela posição social etc.

O que importa mesmo é discriminar!

Do que vejo e sinto, o que menos importa às pessoas são as realizações daqueles que discriminam, a sua capacidade de discernir, seu bom-senso, sua bondade, o respeito que têm pelo ser humano, a forma cortês com que tratam às pessoas, o sentimento de solidariedade, as relevantes realizações etc.

É mais cômodo discriminar, apontar os defeitos. É como se fosse um balsamo para alma. Se posso discriminar e, de consequência, diminuir os feitos do colega, por que razão deveria elogiá-lo, encher a sua bola?

D. João V era destacado mais pela sua feiura que em face de suas realizações, convindo anotar que, pelo mesmo motivo, e outros mais picantes, também era discriminada  D. Carlota Joaquina.

Além da feiura, D. João também era discriminado pelo descuido com a higiene pessoal e pela fama de glutão sem escrúpulo.

Os destaques aos defeitos de D. João  são um contraponto muito relevante às suas realizações: abertura dos portos,remodelação do Rio de Janeiro, a permissão para instalação de indústrias, aparelhamento das forças armadas, a criação das Academias da Marinha e Militar, a construção do Jardim Botânico, de um observatório astronômico e um museu mineralógico, além da biblioteca pública e da tipografia real, cuja primeira publicação foi A Riqueza das Nações, de Adam Smith.

E você: costuma viver apontando os defeitos das pessoas e discriminando-as por isso, ou, ao reverso, é do tipo que sublima as virtudes?

É isso.