HAVERÁ SEMPRE UMA DOSE DE SOFRIMENTO

O epicurismo – filosofia fundada por Epicuro de Samos, no século IV a.C – ensina que o objetivo da vida é a busca do prazer, de maneira racional e equilibrada, na perspectiva de que, eliminando o desejo do que não é razoável, almejando racionalmente o que é possível, tendemos a ter uma vida melhor e mais equilibrada, com menos dor e sofrimento.

Para os epicuristas, de mais a mais, a felicidade está em desfrutar dos prazeres simples da vida, como a amizade, as pequenas atividades do dia a dia e a família, destacando, como exemplos de coisas simples, o desfrute de um café da manhã com a família ou de uma caminhada no parque.

O epicurismo orienta, ademais, que evitemos a dor mental e emocional, como o medo, a ansiedade e o sofrimento.

Em síntese, o melhor dos mundos, para os epicuristas, está em buscar a felicidade nos prazeres simples e duradouros, sem nos deixar dominar por desejos excessivos ou medos.

A vida, no entanto, não é bem assim, infelizmente.

A realidade, importa reafirmar, se contrapõe aos ensinamentos dos epicuristas, pois a vida, por mais que busquemos a felicidade nas coisas simples – e nesse sentido sou um epicurista ranzinza -, o mundo nos reserva, em determinados momentos, uma dose elevada de sofrimento, na medida em que, importa reconhecer, ninguém passa pela vida sem experimentar um dissabor intenso.

A verdade é que todos nós, de rigor, buscamos viver uma vida sem dor e sem sofrimento; essa é a propensão/desejo natural de todo ser humano. Não são poucos, portanto, os que, como eu, vivem a vida buscando a felicidade nas coisas simples, objetivando levar a vida da melhor maneira possível, busca que, aqui e acolá, se depara, inevitavelmente, com mágoas e aflições, resultando disso, como sói ocorrer, a inevitabilidade de dores e sofrimentos, alguns dos quais lancinantes, do tipo insuportável mesmo, levando-nos, muitas vezes, à irracionalidade, nos colocando em rota de colisão com as nossas crenças.

Vivemos, todos, buscando, frenética e incessantemente, a felicidade. E ela, às vezes, como é compreensível, simplesmente não vem. Às vezes, ela até vem. Mas vem em doses. Ela nunca vem por inteiro. Ninguém é feliz o tempo inteiro. Haverá sempre uma dose de sofrimento, a reafirmar o óbvio, ou seja, de que ela, a felicidade, nunca é completa, ainda que a busquemos nas coisas simples, como ensina Epicuro.

O filósofo Mário Cortela, com sabedoria, lembra que quem se diz feliz o tempo inteiro é apenas um tonto, na medida em que é inviável a felicidade em tempo integral.

A verdade é que a vida nos reserva sempre uma dose de sofrimento, como dito acima. Sofrimento que pode ser intenso ou em menor grau. De toda sorte, sofrimento, convindo avaliar, nesse sentido, como nos preparamos para os reveses que a vida nos impõe, para as adversidades que permearão a nossa história, para as quedas, para os açoites, para os tropeços que a vida nos infligirá, mais cedo ou mais tarde.

É claro que cada pessoa tem sua dose de resiliência. Umas são mais; outras, menos resistentes às dores infligidas pela vida. Da minha parte, admito, não sou resistente diante das adversidades, fruto de uma história de vida que me fragilizou, daí que nenhuma adversidade me ocorre sem uma dose mínima de sofrimento, incapaz que sou de controlar o pensamento, que termina por assumir o controle da minha vida.

É isso.

O IMPACTO DAS NOSSAS DECISÕES -E OMISSÕES – NA VIDA DAS PESSOAS

É uma verdade comezinha que não somos sozinhos no mundo.

Haverá, com efeito, sempre alguém em nosso entorno, que poderá, sim, ser impactado, positiva ou negativamente, em face das nossas ações/omissões.

Por isso, e em face disso, todos devemos ter cuidado com as consequências do que fazemos ou deixamos de fazer.

Se, em face das posições/decisões decorrentes das relações interpessoais, algumas pessoas podem ser impactadas, avalie, nessa perspectiva, o poder que tem uma decisão judicial impensada, gestada à luz das idiossincrasias de quem a produz. Imagine, ademais, uma decisão judicial que não é prolatada em face de uma omissão ou por qualquer outro motivo.

Por tudo isso, convém refletir, todos os dias e todas as horas, sobre a relevância de o Poder Judiciário estar à altura das expectativas que a sociedade tem em face das suas decisões, daí a eleição que fiz da produtividade como metas 1, 2 e 3 para o biênio.

É bem de se ver, pois, que o quê o cidadão almeja, quando busca uma solução civilizada para eventual conflito, é que ela não seja contaminada por interesses escusos, e que decorra, ademais, de uma atuação esmerada e expedita do agente encarregado de dizer o direito, pois que, para ele, cidadão, pouco importam os nossos conhecidos problemas estruturais.

Apenas para exemplificar, a propósito da necessidade de que decidamos, tão rapidamente quanto possível, em face do impacto de uma decisão judicial na vida das pessoas, destaco que, em comparação com o ano de 2023, conforme dados amplamente divulgados no sítio do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, houve um aumento expressivo dos nossos julgamentos, dado positivo que também se verificou no que condiz com as baixas processuais, fruto do trabalho incansável dos nossos juízes e servidores, malgrado, forçoso reconhecer, as dificuldades que permeiam a função judicante, aqui e alhures.

Consigno, outrossim, que, no que concerne à evolução anual de julgamentos, também houve progresso no mesmo período, apesar da opção que fizemos de orientar os nossos juízes para julgarem os processos mais antigos, os quais, por óbvio, guardam maior complexidade, exigindo, de consequência, maior tempo de maturação das decisões.

Com essas ações, contando a colaboração decisiva e inexcedível das Coordenadorias do Tribunal de Justiça, e, por óbvio, de todos os magistrados maranhenses e de um quadro de servidores qualificados e abnegados, reafirmamos o nosso compromisso com o incremento da produtividade do Poder Judiciário, que se perfaz, de mais a mais, com o projeto Produtividade Extraordinária e seus eixos – Juiz Extraordinário, Secretaria Extraordinária e Analista Extraordinário -, com o que buscamos responder às expectativas do jurisdicionado maranhense, cumprindo destacar, nesse sentido, o apoio incondicional que temos tido da presidência do Tribunal de Justiça, sob a liderança do Desembargador Froz Sobrinho, comprometido, tanto quanto a Corregedoria, juízes e servidores, numa prestação jurisdicional, tanto quanto possível, célere e eficaz.

É isso.

CONSUMIDORES DE MENTIRA

Impressionante como, com as redes sociais, estamos formando uma geração consumidora – e geradora – de mentiras; mentiras que vão das mais simples – com menos efeitos colaterais, portanto –, às mais graves, com consequências nefastas para a sociedade.

Os propagadores de mentiras se esmeram em divulgá-las nos grupos de whatsapp, onde estão os mais suscetíveis ao seu consumo, os quais, por abrigarem os mais radicais e sectários – de esquerda e de direita –, não estão, por isso mesmo, nem aí para a verdade factual subjacente, daí que replicam as inverdades sem medo de ser felizes, e sem a mais mínima preocupação com os efeitos deletérios de sua propagação.

Impressiona, ademais, como o ser humano – os radicais aos quais me reportei acima -, nos dias presentes, propaga mentiras cada vez com mais esmero. Impressiona, da mesma forma e na mesma medida, a facilidade e o prazer com que as mentiras são consumidas – pelos mesmos radicias – e, depois, disseminadas, como se fora algo natural e como se vivêssemos uma crise moral e comportamental para a qual eu, cá do meu lado, não vejo solução a médio prazo.

Nesse panorama, não me surpreende a habilidade que os criadores/disseminadores de mentiras vão se aperfeiçoando nessa arte, que tende a ser potencializada com a Inteligência Artificial, capazes de levar a equívoco de avaliação da veracidade ou mendacidade da veiculação até mesmo os mais atilados, os mais experimentados como eu.

Exemplo.

Vi, numa rede social, um vídeo de um ex-coach cumprimentando Donald Trump, dando a entender, pela oportunidade da veiculação, que o vídeo tivesse sido feito por ocasião da posse do presidente dos Estados Unidos.

Mesmo com toda experiência, mesmo calejado e ciente do histórico de esquisitices do ex-coach, olhei o vídeo e, em princípio, pensei: poxa, o cara é furão mesmo. Pensei, ademais: todos queriam essa proximidade e o cara, caladinho, como quem não quer nada, furou o cerco e se aproximou do homem mais poderoso do mundo.

Depois de tudo, depois da repercussão do vídeo, todos ficamos sabendo, pela jornalista Malu Gaspar, que foi feito bem antes e que foi veiculado na data da posse de Donald Trump exatamente para confundir a opinião pública, tanto que, questionado sobre a data do vídeo, o ex-coach não respondeu, a reafirmar que o afã era mesmo confundir, levar as pessoas a crerem numa mentira, qual seja, a de que teria tido o privilégio, que poucos tiveram, de se aproximar do homem mais poderoso do mundo, exatamente no dia de sua posse como o 47º presidente da maior nação do mundo.

E, assim, de mentira em mentira, replicadas incontáveis vezes nas redes sociais, levando o incauto a ter uma percepção equivocada da realidade, os mais espertos vão se mantendo em evidência, tirando proveito das mentiras que veiculam, consumidas, sem reserva, por uma horda de desinformados, radicalizados pela paixão política.

É isso.

JURADO N. 2

É verdade comezinha que muitos fatos da vida passam ao largo do nosso controle. Ninguém escolhe, por exemplo, os genitores e o país onde vai nascer. Não temos o direito de escolher a nossa cor, os irmãos e os níveis de inteligência etc., disso resultando que, sem opção de escolha, só nos resta aceitar o que a vida nos impõe.

Não é o que ocorre, entrementes, com os dilemas morais, em razão dos quais somos instados a fazer uma escolha, tendo que suportar as consequências das opções que fazemos.

É sobre essa questão que me proponho a refletir, tendo como pano de fundo o filme Jurado nº 2.

Pois bem. Todos nós, em alguma medida e em algum momento da vida, já nos defrontamos com dilemas morais. Pense, por exemplo, nas incontáveis vezes que estivemos diante de uma situação que nos impunha denunciar ou não denunciar uma situação, mas que, sopesando, nos omitimos.

É assim que os dilemas morais surgem e nos acometem, ou seja, quando estamos diante de uma situação em que somos instados a decidir entre duas situações, sabendo que, ao decidir, de uma maneira ou de outra, vamos produzir uma situação eticamente censurável, como ocorre, por exemplo, quando se está entre torturar, ou não, um facínora, para evitar que realize o seu plano de, por exemplo, tirar a vida de inocentes.

É sobre essa questão que pretendo refletir, e o faço, aqui e agora, instigado pelo filme Jurado nº.2, disponível no streaming (Max e Amazon Prime), escrito e dirigido por Clint Eastwood, cineasta, produtor, e, também, ator famoso pelos seus papéis em filmes de ação, que, aos 94 anos, no seu último trabalho antes da aposentadoria, explora os limites morais e éticos do sistema judicial americano, num thriller /drama instigante, e muito bem avaliado pelo público e pela crítica, que acompanha o drama de Justin Kemp, interpretado por Nicholas Hoult, que está servindo em “jury duty”, o serviço obrigatório dos Estados Unidos que escala os membros do júri de casos criminais.

Justin Kemp, protagonista, é um homem de família que está passando por sérias dificuldades financeiras e acaba sendo confrontando com um enorme dilema moral, ao ser escalado para julgar um de homicídio, tendo vínculos definitivos com o evento, se colocando, em face dos fatos imputados ao réu, na situação de ser a única pessoa capaz de decidir pela sua condenação ou absolvição.

Sobre o filme, mais não posso falar para não dar spoiler, podendo dizer, no entanto, que o dilema moral nele contido leva o espectador a importantes reflexões acerca das armadilhas que a vida coloca em nossas caminhos e para as quais nem sempre temos uma solução pronta e acabada, levando-nos a dilemas existenciais muitas vezes insuperáveis.

São quase duas horas de projeção que levam o telespectador a pensar e repensar a vida, e a angústia de, em determinadas circunstâncias, ter que decidir assim ou assado, sejam quais forem as consequências de sua ação ou omissão, conquanto sujeito ao escrutínio de terceiros.

O filme, em face do dilema moral vivido pelo personagem central é um desafio à sua consciência, mas é, também, um soco no estômago do telespectador, instado, durante toda a projeção, a julgar a sua hesitação entre falar a verdade ou calar.

Confesso que, durante a exibição, fui tomado de uma enorme agonia, de me ver diante do mesmo dilema, sem saber ao certo como me comportaria, como agiria diante de tamanho dilema moral.

A conclusão a que chego, que é o que importa para essas reflexões, é que, diante de um dilema moral, como o vivido na ficção, ninguém sabe mesmo como se comportar, máxime se, em face do dilema, todas as decisões possíveis são moralmente erradas mas que, ainda assim, precisam ser tomadas.

É isso.

A VIDA SIMPLES É BOA

O Carnaval passou, e eu não vi. Ou melhor, tratei-o com rigorosa indiferença.

Da sexta-feira que antecedeu o sábado de Carnaval até o exato momento em que escrevo esta crônica, Quarta-Feira de Cinzas, praticamente não saí de casa.

Com previsível para quem me conhece, mantive minha rotina, vivendo como gosto: desfrutando das coisas simples que a vida oferece, simplicidade que inclui o meu respeito e a minha reverência total à mesmice, que, pasmem!, me apraz, porque nela estão inclusas as coisas que mais me fazem ser quem sou, dentre as quais a convivência com os meus netos, que, como todos sabem, dão uma nova dimensão à minha vida, sobretudo aos que, como eu, se verem na iminência de deixar o proscênio.

Gosto de viver as coisas simples da vida, mas não sou papalvo.

A verdade é que nunca fui sofisticado; nunca fiz nenhum esforço para sê-lo.

Viver o simples me dá enorme prazer. E o simples, para mim, condiz com viver um pouco mais do mesmo, todos os dias. Vida simples, para mim, é não fugir do comum, do habitual, do usual, do trivial.

Se, para muitos, viver o Carnaval e se entregar à folia de Momo é quase um imperativo, para mim, viver um pouco mais do mesmo, é uma imposição à qual me submeto prazerosamente.

Reitero a minha predileção pelo comezinho, pelo básico, pelo corriqueiro.

A convivência diária com o trivial não faz de mim um ser simplório, mas tem o poder de me levar ao encontro de mim mesmo e do mundo no qual fui forjado, onde a maior sofisticação é o compromisso com a paz interior, que só encontro nas coisas mais simples que a vida oferece.

Lembro-me de que, adolescente, testemunhava os colegas excitados com os prazeres do mundo exterior, o que me causava certa inquietação, levando-me a muitas indagações para as quais eu não tinha resposta à época, incapaz de compreender que minha constante ausência dos périplos noturnos já era uma indicação do eremita que acabei me tornando.

E por que nada daquilo me empolgava? Porque, em vez dos prazeres proporcionados pela vida na rua, eu me sentia – como me sinto até os dias atuais – enternecido pelos prazeres da vida intramuros.

Por que a alegria que contagiava a muitos não me tocava?

Porque a minha alegria nunca esteve no mundo exterior, recluso empedernido que sempre fui.

Eu sou assim.

Não gosto de badalação.

Não gosto de muvucas.

Não gosto de música alta.

Tenho pavor de aglomeração.

Não gosto, enfim, de fugir da minha rotina, tendo compreendido, muito cedo, que um dos poucos motivos que me estimulam a sair é o prazer de voltar para casa, tanto que, em minha longeva vida, não houve um dia sequer que eu não desejasse retornar ao recôndito do meu lar.

Na terça-feira, último dia de folia, recebi meus netos no final da tarde, para os quais dediquei parte do meu tempo com brincadeiras. Com um deles, montei uma torre de madeira; ao mais velho, ensinei como jogar Uno sem bagunça; e ao terceiro, o mais novinho, emprestei meu colo, tentando fazê-lo parar de chorar.

E, assim, como tudo na vida passa, a folia de Momo também passou e, para mim, nada representou, como, aliás, nunca representou, registro que faço para que não se argumente que a minha reclusão não passa de quizila própria da velhice.

Como diz a canção popular, a propósito:

Olho a cidade ao redor

E nada me interessa

Eu finjo ter calma

A solidão me apressa”

(Excerto da música Nua, de Ana Carolina)

Ou então:

É isso aí

Como a gente achou que ia ser

A vida tão simples é boa

Quase sempre”

(Excerto da música É Isso Aí, de Ana Carolina e Seu Jorge)

Definitivamente, a vida simples é boa, e a ela dedico parte relevante do meu tempo, com forte e decisivo entusiasmo.

É isso.

EM FACE DOS FILHOS TUDO É PERMITIDO?

Todos nós – salvo exceções – somos capazes, sim, de matar ou morrer pelos nossos filhos. Eles são o grande amor da nossa vida. São a nossa razão de viver, enfim. E eu nem precisava ser tão óbvio. Às vezes, todavia, o óbvio também precisa ser dito.

Mas a pergunta que se impõe para essas reflexões é a seguinte: há limites morais que nos impeçam de agir – por ação ou por omissão – em face dos nossos filhos? Ou, por eles, tudo é possível, tudo se justifica em nome do amor visceral que nos une a eles?

Faço essa linha de introdução em face da anistia do filho de Joe Biden, subscrita pelo próprio, que tinha sido condenado por um júri popular por três crimes federais.

(Convém anotar, a propósito, que não é inusual o uso da anistia pelos presidentes americanos. Gerald Ford, por exemplo, perdoou o ex-presidente Ricard Nixon, envolvido no escândalo Watergate; Bill Clinton perdoou o irmão Roger, acusado de vender cocaína; e Donald Trump, ao fim do mandato, perdoou o sogro da filha, acusado de vários crimes, incluindo falsificar declaração de imposto de renda).

O presidente Biden, como sói ocorrer, tratou uma questão jurídica como se fora uma questão política – como ocorre por essas paragens -, para anistiar o filho, afirmando, para justificar a proteção, que “ao tentarem derrubar Hunter eles tentaram me derrubar – e não há razão para acreditar que isso vai parar por aí”.

Por essas plagas não tem sido diferente.

Temos testemunhado, sim, destacados homens públicos dando apoio irrestrito às ações poucos republicanas de sua prole – como de resto acontece na vida privada -, sem nenhum constrangimento, nada obstante, para o consumo externo, preguem altivez, rigor, retidão e outros que tais, que, ao que parece, só servem como regra moral para o vizinho.

De minha parte, tenho dito que há limites morais que devem prevalecer para as concessões que eventualmente possam ser feitas aos nossos filhos. Definitivamente, não vale tudo para favorecê-los, não vale qualquer conduta pelos filhos e para os filhos; há um umbral moral que não pode ser ultrapassado.

Por mais que amemos incondicionalmente os nossos filhos, por mais que nos sacrifiquemos, se preciso, em face deles, não podemos flexibilizar os rigores morais a pretexto de atender às suas pretensões, levando-os aos desvios de conduta que abominamos e condenamos nos outros.

Permissividade em demasia, excesso de proteção, cumplicidade, enfim, devem ter limites, sob pena de criarmos uma geração viciada em concessões, sem peias e sem restrições, perpetuando entre nós, sobretudo nas nações terceiro-mundistas, um caldo de cultura nefando.

A propósito, certa feita, aqui mesmo, nesse mesmo espaço, refletindo sobre a importância da família como instância informal de controle, tive a oportunidade de consignar: “[…] Todavia, é triste admitir, as instâncias informais – a família, sobretudo – também têm falhado muito. Daí não ser incomum que uma família inteira se envolva com práticas criminosas, razão pela qual é de rigor que assumamos a nossa parcela de responsabilidade frente a muitas transgressões que poderiam ser evitadas, se formássemos cidadãos de bem nos ambientes familiares”.

Faço essas reflexões para que nos conscientizemos do mal que fazemos à sociedade quando não impomos limites aos nossos filhos, limites que exigimos que os outros imponham aos seus.

É isso.

SABER OUVIR

Nos dias de hoje, vejo, como muito mais clareza, que as pessoas têm dificuldades de ouvir umas às outras, mesmo porque, reconheçamos, não é fácil escutar de um interlocutor aquilo que não gostaríamos de ouvir, na medida em que, é de sabença, nem todos têm a capacidade de aceitar o contraditório, conquanto se saiba que aquele que eventualmente apresente dissenso em face ao que vocalizamos não é, necessariamente, um inimigo, mas, ao reverso, um parceiro na construção de uma sociedade plural e democrática.

Do mesmo modo, não é fácil, para muitos, admitir o erro, daí surge a dificuldade que muitos têm em ouvir, tendo em vista que, ouvindo, sabem muito bem que podem ser levados a concluir que estão errados, algo que, definitivamente, não lhes apraz.

Essa constatação me remete a um grave defeito moral que muitos de nós temos, máxime quando se exerce o poder, qual seja, de se imaginar dono da verdade, e os donos da verdade só têm ouvidos para ouvir o que lhes convém.

Para ouvir e ser capaz de mudar de rota, é preciso humildade; e a humildade, muitas vezes, é artigo de luxo entre os que detêm o poder, acostumados que são à sabujice que não lhes permite ver o mundo com as cores da humildade.

Nesse cenário, já vi de tudo. Vi, incontáveis vezes, quem, estando errado, persisti no erro, por pura vaidade e/ou arrogância, sem sequer sopesar as consequências da recalcitrância.

Todos já ouvimos, em alguma oportunidade, alguém mencionar que fulano, beltrano ou sicrano se julgam donos da verdade. Esses, os autoproclamados donos da verdade, são levados a pagar um elevado preço pela arrogância de se imaginarem acima do bem e do mal.

Essa linha de introdução é só para registar que todos que lidam/trabalham comigo, nesses mais de quarenta anos de exercício do múnus público, sabem que me recuso a assumir o papel de dono da verdade, razão pela qual estou sempre disposto a ouvir, discutir, refletir, ponderar –recurar, quando é o correto a fazer.

Todos têm testemunhado que compartilho minhas decisões, divido minhas impressões, coloco-as no tablado, concito à discussão, estimulo a reflexão, sempre disposto a ouvir e a retroceder, se for o caso.

Pensando e agindo assim, tudo que tenho idealizado na Corregedoria Geral da Justiça tem sido submetido a ampla discussão com minha assessoria, com os juízes corregedores e com meus pares e, especialmente, com o presidente Froz Sobrinho, de quem tenho recebido todo o apoio necessário.

Posso dizer, então, que o sucesso alcançado até aqui, em nossa administração está fincado nessa linha de compreensão, segundo a qual as boas ideias nascem em cada um de nós, mas precisam ser aperfeiçoadas, discutidas, avaliadas, sopesadas, para, só depois de maturadas, serem implementadas.

Assim foi com o nosso projeto de maior visibilidade, ou seja, Produtividade Extraordinária e seus eixos: Juiz Extraordinário, Analista Extraordinário, Secretaria Extraordinária, Oficial de Justiça Extraordinário e Contadoria Extraordinária, esta última ainda na fase inicial de implementação -, aperfeiçoados todos os dias, submetidos a permanente discussão e avaliação.

Fruto dessa mesma capacidade/necessidade de ouvir e discutir é que, agora, pretendemos dar uma nova dimensão ao Núcleo 4.0, objetivando alcançar resultados mais significativos no que concerne aos famigerados empréstimos consignados, para os quais impõe-se uma atenção especial, sobretudo em face do impacto deles resultantes em nossos indicadores.

Foi com essa mesma convicção – a de que é preciso saber ouvir, estar preparado para o dissenso e para a crítica – que criamos um canal direto de comunicação com os juízes, via WhatsApp, ampliado agora com os grupos de comunicação que acabamos de criar as secretarias judicias, objetivando dar uma nova dinâmica às nossas relações, tudo no afã de melhorar nossa produtividade, que é o foco primacial da minha gestão à frente da Corregedoria Geral da Justiça.

É isso.

OS SONHOS NÃO ENVELHECEM

Os que me veem envolvido e determinado à frente da Corregedoria-Geral de Justiça se indagam – e indagam a mim – onde encontro estímulos, força de vontade e determinação para, quase quarenta anos depois de ter ingressado na magistratura, continuar lutando com a mesma determinação, apesar de todas as frustrações, de todas as dificuldades pelas quais passamos para o desempenho do nosso desiderato, na medida em que temos problemas estruturais, de todos conhecidos e quase insuperáveis, apesar dos avanços que temos testemunhado, fruto das sucessivas e exitosas administrações do Poder Judiciário do Estado do Maranhão.

Os que estão no meu entorno, ademais, se surpreendem com a minha inquietação na busca de caminhos que possam nos levar à entrega mais rápida do provimento jurisdicional, de cuja inquietação nasceram os projetos Juiz Extraordinário, Analista Extraordinário, Secretaria Extraordinária, Oficial de Justiça Extraordinário e Processo em Movimento, pensados para minimizar as nossas reconhecidas deficiências e, por consequência, alcançar melhores índices de produtividade, do que resultará, como almejo para esses dois anos à frente da Corregedoria-Geral de Justiça, a produtividade extraordinária que todos queremos e sonhamos.

Apesar de desalentado, algumas vezes, com as dificuldades que impedem os nossos magistrados de alcançarem a produtividade que a sociedade espera do Poder Judiciário, persisto – persistimos todos, afinal – na mesma faina, sem perder a esperança, que, afinal, no arsenal das desgraças colocadas pelos deuses na caixa de Pandora (metáfora invocada para ilustrar) nela foi mantida, para o nosso alento e para que nunca percamos a fé diante dos infortúnios que a vida nos reserva.

A propósito e para os que ainda se surpreendem com a minha determinação, já caminhando para deixar a ribalta, tenho verbalizado, nas minhas diversas manifestações, que os sonhos não envelhecem, que a minha determinação segue inabalada, que sou movido pela esperança, crendo, sinceramente, que, com determinação, criatividade e boa vontade é possível fazer muito mais do que temos feito, e os números que temos alcançado estão aí para provar que tenho razão.

Na linha de compreensão que todos temos de que os sonhos envelhecem, destaco que Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo, atualmente Deputada Federal, política nordestina de conduta exemplar, ao completar 90 anos, disse, sem perder a fé, que a idade não tem peso para ela, que isso não a incomoda e que ainda vive pelo compromisso com a mudança. Disse, ademais, com especial sabedoria, que a esperança é revolucionária, para, adiante, arrematar, definitiva: “O sonho não cabe numa vida. Você parte e ele continua com as novas gerações”.

Aos setenta e um anos de idade, nos estertores da minha trajetória profissional, já tendo vivido mais do que me resta para viver, também sou movido pela esperança, pela fé inabalável que tenho de que, com um pouco mais de boa vontade e de determinação, podemos fazer muito mais, daí que, assim como a exemplar política nordestina, vou continuar lutando, tentando fazer o melhor que minha capacidade cognitiva me permite fazer, pois que é imorredoura em mim a minha crença de que dias melhores virão, ciente de que todos nós podemos ser melhores do que somos, seja na dor, seja no amor, como diz a conhecida canção popular.

É isso.