DESCONFIANÇA COMO MECANISMO DE DEFESA

Despertou a minha atenção a afirmação contida na coluna de Thaís Oyama, no Jornal O Globo, edição de 27 de dezembro do ano passado, segundo a qual “o brasileiro não confia em ninguém”.

Essa desconfiança foi constatada, ademais, em pesquisa do World Values Survey, divulgada em 2023, e confirmada no recém-lançado livro O Brasil no espelho, do cientista político e CEO da Quaest, Felipe Nunes, com base em levantamento realizado com dez mil pessoas. Segundo o estudo, apenas 6% dos brasileiros concordam com a seguinte afirmação: “Podemos confiar na maioria das pessoas”. Outros 94% estão de acordo com a seguinte frase: “É preciso ser muito cuidadoso com as pessoas”.

A afirmação da jornalista e o resultado do levantamento apresentado no livro de Felipe Nunes me levaram a essas a essas reflexões, que inicio com as seguintes indagações: Por que temos dificuldades em acreditar nas pessoas? Onde foi que erramos? Por que chegamos a essa situação?

Tentarei refletir sobre essas indagações, à luz, apenas, da minha experiência de vida, sem nenhuma base científica, fruto, portanto, tão somente da minha natural inquietação diante do ser humano.

Principio afirmando que a desconfiança é uma sensação instintiva de todos nós, potencializada, ademais, pelo fato de que, desde a mais tenra idade, nos ensinam – e aprendemos – a ter cautela com os semelhantes, aprendizado que vai se consolidando com as decepções acumuladas ao longo da vida, em razão da indiscutível capacidade que o homem tem de dissimular, enganar, ludibriar e tentar levar vantagem em tudo.

Nesse cenário, eu, assim como tantos outros, aprendi, desde muito cedo, naturalmente, a desconfiar do próximo, fazendo-o como um mecanismo instintivo de defesa, que foi se radicalizando na mesma medida em que as decepções foram se somando, a ponto de afetar as relações interpessoais.

Tenho convicção, fruto da minha longa experiência de vida, de que é preciso administrar, com inteligência, parcimônia, equilíbrio, sensatez e temperança, as nossas naturais desconfianças, sem o que a vida em sociedade tornar-se-ia insuportável, na medida em que, se exacerbada, a desconfiança criaria – e cria, efetivamente – barreiras intransponíveis às relações sociais, com a consequente imposição de um isolamento incompatível com a natureza humana.

É preciso, pois, com cautela, mas sem preconceitos ou julgamentos prévios, estabelecer nossas interações com os demais seres humanos, cientes de que podemos, sim, em dado momento, nos decepcionar em face de uma ou outra atitude, já que a desconfiança integra a experiência humana, que não deve, por outro lado, transformar-se em obstáculo às nossas conexões com os semelhantes.

O desafio, pois, a que todos devemos nos submeter, é buscar, com sabedoria – e com lealdade, ingrediente inafastável -, estabelecer nossos vínculos sem permitir que a desconfiança nos impeça de viver e conviver em sociedade, pois, afinal, se é verdade que devemos confiar desconfiando, não é menos verdadeiro que o mundo está repleto de pessoas leais, amigas e desinteressadas, que fazem toda diferença, afinal, nada pode ser mais danoso do que uma comunhão calcada na suspeita permanente.

Um bom começo, nesse sentido, é a adoção de uma comunicação aberta e leal, pois, a partir dela, podemos, sim, com enorme probabilidade, construir relações sólidas, nas quais a desconfiança deve ser apenas – e tão somente – um ingrediente de somenos.

Por fim, importa realçar, para amenizar o peso das constatações anotadas no preâmbulo dessa crônica, que o sentimento de desconfiança que habita todos nós, desde a minha compreensão, não é um defeito, mas uma ferramenta de sobrevivência que, de rigor, moldou a própria civilização.

Não custa lembrar, para ilustrar, que, na savana, o custo de confiar em um predador ou em um estranho hostil pode ser a morte, advertência que deve, do mesmo modo, ser sublimada quando nos relacionamos com quem já tem uma história de deslealdade, cumprindo não esquecer, de mais a mais, de Thomas Hobbes, que defendia, com razão, que o homem é “o lobo do homem”, reforçando, definitivamente, a nossa natural necessidade de desconfiar.

Por fim, cumpre reconhecer que a civilização só existe porque somos capazes de compreender – e, às vezes, superar – a nossa natural desconfiança no semelhante, a qual não pode ser um obstáculo para vivermos a plenitude das nossas relações, ainda que seja necessário acioná-la , como mecanismo natural de defesa.

É isso.

SOBRE SER BOM

Dezembro é um mês especial, cheio de cores, luzes e, acima de tudo, de esperança, pois que é o mês em que se comemora o nascimento de Cristo, daí que, para mim, é mais uma grande oportunidade para perquirir sobre a bondade humana, e tudo o mais que dela decorre: empatia, atenção, gestos nobres, humildade, amor e compaixão.

Pois bem. Sobre a bondade humana, a verdade é que nós nos desacostumamos de praticá-la, na medida em que, não raro, cuidamos apenas dos nossos interesses, pouco importando a vida do semelhante, escapando da nossa percepção que a bondade não é um sacrifício, mas, ao contrário, uma vantagem evolutiva que permitiu à espécie humana sobreviver.

Na verdade, não só nos desacostumamos de ser bons, como também passamos a encarar a bondade com certa desconfiança, quando deveria ser vista como efetivamente é, ou seja, como uma ação capaz de transformar a vida das pessoas.

Nesse sentido, sempre que alguém nos surpreende com um gesto bondoso, somos levados a uma certa desconfiança, para, ressabiados, indagar: O que tem por trás dessa ação? Que interesse moveu beltrano ou sicrano à prática de atos de bondade?

E assim agimos e pensamos por que, infelizmente, a sociedade está doente, admitamos. Nesse cenário, para cada ação bondosa corresponde, quase automaticamente, uma reação de desconfiança, simplesmente porque deixamos de acreditar no ser humano, daí que toda atitude revestida de alguma virtude gera em nós alguma inquietação, uma vez que deixamos de entender a bondade como uma força transformadora, para, ao revés, enxergá-la fruto das nossas decepções- como ações movidas por interesses mesquinhos e oportunistas.

Vivemos, assim, tempos estranhos, nos quais julgamos o semelhante, não pelo que ele verdadeiramente é, mas em face da nossa falsa percepção da realidade, que nos leva a crer que todos são maus e que tudo são ações oportunistas, fruto das avaliações equivocadas que fazemos, calcadas nas nossas pré-compreensões, nos nossos preconceitos e pré-julgamentos.

Diante da nossa canhestra percepção da realidade, seguimos a vida desconfiando de tudo e de todos, tornando as relações muito mais complexas do que deveriam ser, razão pela qual acabamos por construir as nossas relações sob uma grave e perigosa sensação de que, por trás de toda ação/omissão, há sempre algum interesse inconfessável.

Eu, de meu canto, observador atento das relações entre as pessoas, não perdi a fé no ser humano, por isso continuo apostando na sua bondade, sem a qual a sociedade não sobreviveria, afinal, felizmente, não são poucos aqueles que aprenderam com Cristo a amar o próximo incondicionalmente.

Fazer o bem, sem olhar a quem, tem sido a minha obsessão, ciente, como diz a canção popular, de que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã (Legião Urbana).

A despeito das desconfianças geradas pelas complexas relações sociais, o que todos testemunhamos é a reafirmação da bondade humana nas mais singelas manifestações como, por exemplo, o gesto de alguém que cede seu lugar para um idoso no transporte coletivo ou de um desconhecido que ajuda outrem a carregar as compras de supermercado ou a atravessar a rua.

A bondade humana, importa anotar e destacar, é uma força poderosa, movida pelo amor, pela empatia e pela compaixão, capaz de impactar profundamente a vida das pessoas e da sociedade, razão por que é difícil compreender como alguém, podendo agir com bondade, escolhe não fazê-lo.

Por experiência própria, sei que, ao ajudar o semelhante, ao praticar um ato de bondade, nos sentimos mais conectados ao próximo, e, por consequência, mais felizes, ante a certeza de que, com ações que tais, tornamos o mundo um lugar melhor.

Nesse mês de dezembro, quando tanto se fala em solidariedade e amor, a bondade humana deve ser praticada como reflexo de uma luz divina que deveria habitar em cada um de nós, inspirados no exemplo do Cristo Jesus, que nos ensinou a praticar o bem – bondade que o levou, inclusive, a perdoar aqueles que o crucificaram.

Todavia, que fique o registro definitivo para reflexão do leitor: a bondade não pode ser apenas inspiração; ela só faz sentido quando se converte em uma prática de vida, daí o chamamento que faço para que, nesse mês de dezembro – e ao longo de todo o ano, claro – , enquanto decoramos nossas casas e trocamos presentes com os entes queridos, não esqueçamos que o mais importante é ser bom, pois a bondade revoluciona e transforma a nossa vida e a do semelhante, tornando-a muito mais confortável e agradável.

É isso.

O CANTO DA SIRENA

Na intimidade, costumo contar a minha maior decepção; aquela que modificou a minha vida – e a de muitos no meu entorno -, levando-me a ser quem sou, daí posso afirmar que ela foi o combustível que me moveu – e ainda me move – até os dias atuais. É algo muito pessoal, e somente os mais íntimos sabem dela e do que ela significa para a minha vida.

Essa grande decepção – como as decepções em geral – tem a ver, sim, com as expectativas que criei – e que criamos – em torno de quem, podendo ser uma referência, preferiu tornar-se a minha maior desilusão.

Como qualquer ser humano, fui construindo, na infância, na juventude e até na vida adulta, um castelo de sonhos e de expectativas em torno de quem, depois, se revelou um engodo, fazendo ruir o castelo que construí, e, com isso, claro, os meus sonhos, levando-me a uma enorme frustração que marcou a minha vida e a da minha família, conquanto já houvesse sinais, desde muito cedo, de qual seria o desfecho.

A verdade é que alimentamos a nossa mente de sonhos e expectativas. Nesse afã, edificamos verdadeiros castelos de areias, que, por esta ou aquela razão, acabam sendo derrubados pela realidade, deixando-nos um sentimento de frustração, decepção e desilusão.

O que desejo, a propósito dessas reflexões, é reafirmar que, sendo a decepção um sentimento universal, que nos afeta em determinados momentos da vida, o ideal seria não nos deixarmos levar pelo “Canto da Sirena” – aqui usado metaforicamente para descrever algo que é atraente e sedutor, mas que pode conduzir a consequências negativas ou perigosas – e que, ao fim e ao cabo, pode nos levar de encontro aos rochedos.

Importa indagar, pois, em face do que me proponho a refletir aqui e agora: as decepções são evitáveis? A quem cabe a responsabilidade por elas? A nós mesmos, em face das nossas fraquezas e incapacidade de discernimento? Ou devemos imputá-las às pessoas em torno das quais construímos nossos sonhos?

Penso que, na maioria das vezes, o responsável pelas nossas decepções somos nós mesmos, incapazes que somos de compreender que as pessoas são o que são, que têm seus próprios sonhos e desejos, os quais não correspondem, necessariamente, aos nossos interesses e às nossas expectativas.

É preciso compreender – e muitas vezes não somos capazes de discernir – que as pessoas são únicas, que cada uma carrega suas próprias lutas, medos, desejos e sonhos, nos quais, muitas vezes, não estamos incluídos.

O que se deve fazer, então?

Há apenas um caminho: gerenciar os nossos sonhos e olhar a realidade como ela se apresenta. Assim o fazendo, podemos, sim, controlar nossas expectativas em face do semelhante, para, no mesmo passo, controlar as nossas frustrações.

Quando nos decepcionamos com alguém, devemos aproveitar o ensejo para refletir sobre as expectativas que depositamos nessa pessoa, pois a decepção pode estar muito mais em nós do que em outrem.

O sentimento de tristeza ou frustração, decorrente de uma expectativa não alcançada, pode ser uma singular oportunidade para levantar a cabeça, para abrir a camisa, encher o peito e marchar firmemente noutra direção – que não seja aquela que nos leve aos rochedos do naufrágio, como ilustra a alegoria que utilizei.

Como anotado acima, mas importa reafirmar: a decepção não se dá, necessariamente, em face dos outros, mas, muitas vezes – embora não admitamos -, por nossa conta e risco, quando fracassamos em nossas metas pessoais e atribuímos a alguém uma quebra de confiança que, na verdade, só existiu em nossa mente.

É preciso, portanto, romper com os sonhos que sabemos ser irrealizáveis, em função dos quais somos os maiores responsáveis, na medida em que projetamos nos outros nossos desejos e expectativas, que podem, sim, nos levar a uma intensa tristeza e enorme frustração, permeadas de raiva e desmotivação.

É isso.

SONHO X REALIDADE

Do Samba-Enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, apresentado no Carnaval de 1992 – Sonhar não Custa Nada ou Quase Nada -, colhi a inspiração para estas reflexões.

Do mencionado Samba-Enredo, apanho a seguinte passagem, a partir da qual passo a refletir: “Deixe sua mente vagar, não custa nada sonhar, viajar nos braços do infinito onde tudo é mais bonito nesse mundo de ilusão…”.

Como diz a letra do samba, não raro deixamos a nossa mente vagar em face dos nossos sonhos, viajando nos braços do infinito, num mundo de ilusão. Mas, convém não permanecer nesse estado de letargia, sob pena de impedir que os sonhos se convertam em realidade.

É preciso, pois, com sensatez e racionalidade, sopesar os sonhos à realidade, na busca de um ponto de equilíbrio, pois, afinal, ante os sonhos irrealizáveis não convém persistir sonhando.

É importante ter sonhos e desejos, mas é preciso, no mesmo passo, ser realista, não deixar que os sonhos proporcionem algum desconforto ou desequilíbrio mental, pois, afinal, nem tudo é possível, nem tudo é factível, nem tudo é realizável, daí que devemos sonhar, alimentar os nossos desejos, mas cientes de que há barreiras, pedras no caminho e dificuldades insuperáveis entre os sonhos e a realidade.

Nesse sentido, quem sonha o impossível, quem deseja o inalcançável, sabendo-o inalcançável, tende à decepção e à frustração.

Mas é preciso, sim, persistir nos sonhos, afinal, desejos e sonhos são molas propulsores que nos conduzem aos caminhos que podem, sim, nos levar à sua realização, motivando as nossas ações, sem perder de vista eventuais frustrações.

Pois bem. Foi sonhando com a melhoria da produtividade dos juízes de primeiro grau, que assumi a Corregedoria-Geral de Justiça, ciente de que era preciso confrontar a realidade, encará-la de frente; e a realidade, pelo que pudemos constatar, não convenceu da factibilidade dos meus, dos nossos sonhos, desde que houvesse planejamento e união de esforços, e, principalmente, criatividade, daí surgindo, em boa hora, os nossos mais relevantes projetos, que nos levaram a melhorar significativamente os nossos números, nos conduzindo, no mesmo passo, a sonhar um sonho possível, qual seja, o Selo Diamante de Qualidade do Conselho Nacional de Justiça.

A realidade pode ser, sim, um obstáculo à realização dos sonhos. Mas, convém não esquecer, sonhos e desejos não são meras fantasias: são, ao reverso, fontes primárias de motivação e propósito.

Os nossos sonhos, os nossos desejos, como se viu no exemplo acima acerca da nossa produtividade, impulsionam os nossos esforços, nos levando, como efetivamente nos levou, à inovação e à criatividade, as quais, de seu turno, nos levaram à realização dos nossos objetivos, nos colocando, agora, num lugar de destaque entre os Tribunais mais produtivos do país.

A capacidade de sonhar, é preciso anotar, funciona, também, como um mecanismo de defesa contra o niilismo e, até, contra o desencorajamento, nos fornecendo um senso de direção, mesmo diante de realidades difíceis, como parecia ser o caso do Eixo Produtividade sobre o qual me referi acima.

Transformar o sonho em realidade foi o nosso objetivo, afinal alcançado, com esforço e determinação de tantos quantos puderam – e deram – a sua contribuição, porque, convém destacar, a realidade não é o oposto dos sonhos, mas, sim, o caminho metodológico para realizá-los.

É isso.

GENTE FEIA


Definitivamente, não gosto de gente feia.

Não, não é isso que você, precipitadamente, pensou, induzido pela afirmação peremptória.

Quando falo de gente feia (termo empregado nessas reflexões como gênero humano), não estou me reportando à beleza física; não é de estética que se trata, portanto.

Gente feia, no que condiz com essas anotações, é outra coisa. Nessa sentido, gente feia é, por exemplo, o mau-caráter, o traquinas, o ladravaz, o mendaz, o pérfido, o hipócrita, o inescrupuloso, o perigoso, o falseador, o dissimulado, o arrogante etc.

Gente bonita, noutro giro, é o oposto de tudo isso.

Gente bonita é a pessoa que tem a capacidade de se colocar no lugar do outro.

Gente bonita é a que sabe apoiar e compreender o semelhante na sua dor e nas suas angústias.

Gente feia, de mais a mais, é gente invejosa, intolerante.

Gente bonita é verdadeira e transparente nas suas ações e palavras.

Gente bonita trata as pessoas com dignidade, respeito, cordialidade e consideração.

Gente feia costuma apunhalar pelas costas.

Gente feia é grosseira e mal-educada.

Gente feia é egoísta.

Gente feia coloca seus interesses acima de tudo, pouco se importando com as consequências de seus malfeitos.

Gente bonita cumpre seus compromissos e deveres com responsabilidade.

Gente feia é raivosa, vive de mau humor, quer um motivo para criar intrigas.

Gente feia se alimenta da discórdia.

Gente feia expressa seus sentimentos de forma destrutiva, é invejosa, ressentida, orgulhosa, impulsiva e descontrolada.

Gente feia é repulsiva.

Gente bonita perseverante, criativa – e grata.

Gente bonita é a que vive de bem com a vida.

Gente bonita tem a capacidade ilimitada de amar e de se conectar com as outras pessoas.

Gente feia não sabe perder.

Gente feia vê competição, no sentido mais daninho do termo.

Gente feia sempre se coloca acima do bem e do mal.

Gente feia é despudorada.

Gente feia trata a coisa pública como se fosse particular.

Gente feia é intolerante ao volante.

Gente feia buzina desnecessariamente, azucrinando a vida alheia.

Gente feia não respeita a faixa de pedestre.

Gente feia costuma dar carteirada, valendo-se de sua posição social.

Gente feia gosta ouvir música alta, impondo o seu duvidoso gosto musical, pouco se

importando com o incômodo que provoca.

Gente feia entra no elevador social com animal de estimação.

Gente feia só trata bem o semelhante quando tem algum interesse.

Gente feia gosta de se exibir e se julga o centro do universo.

Gente feia usa perfume forte que exala e incomoda.

Gente feia fala alto em qualquer ambiente.

Gente feia mastiga de boca aberta e toma café como se estivesse aspirando o mundo.

Gente feia estaciona em lugar proibido; não respeita vagas destinadas a idosos ou gestantes, por exemplo.

Gente feia tira meleca e gruda debaixo da mesa.

Gente feia conversa de óculos escuros em ambientes que dispensam o assessório.

Gente feia leva babá ao restaurante para não ser perturbada pelos filhos.

Gente feia fuma em qualquer ambiente, pouco se importando com o semelhante e com os avisos indicadores da proibição.

Gente feia nunca é o que tenta mostrar que é; vive de aparência, de disfarce, de embuste.

Gente feia quer ser perdoada, mas não perdoa os erros alheios.

Gente feia fura fila, quer levar vantagem em tudo.

Gente feia fala alto para chamar atenção.

Gente feia não honra a hora marcada.

Gente feia prefere corromper a persuadir

Gente feia é insensata, insensível e perniciosa.

Gente feia é injusta, rancorosa e provocadora.

Gente feia vive censurando o outro, mas é incapaz de autocensura ou de reconhecer em si os erros que aponta no semelhante.

Por tudo isso e muito mais, detesto gente feia, dentre as quais, muitas vezes, me incluo, razão pela qual tenho lutado, todos os dias, para me tornar uma pessoa mais bonita.

É isso.

PONTUALIDADE, VIRTUDE OU DEFEITO?

Todos temos uma visão particular do mundo. Nesse sentido, o que aos meus olhos parece virtude, aos olhos dos outros pode ser, sim, um defeito, afinal, a vida é assim; a vida é dual, binária, enfim. Nas nossas relações assumimos, com clareza, essa dualidade.

O poeta popular já ensinava: “Não existiria som, se não houvesse o silêncio. Não haveria luz, se não fosse a escuridão. A vida é mesmo assim: dia e noite, não e sim” (Certas Coisas, Lulu Santos).

Dito isso, lembro, mais uma vez, sem temer pela exaustão, que todos vivemos a angústia da aceleração da vida. Diante dessa realidade, não existe nada mais deselegante, por exemplo, do que não respeitar a hora previamente ajustada em face de um compromisso assumido.

Nessa linha de pensar, destaco que, ao cumprir um compromisso na hora ajustada, reafirmamos o nosso respeito ao tempo do outro, nos mostramos mais confiáveis nas nossas relações e contribuímos, até, para maior êxito nas nossas atividades, na medida em que a pontualidade ajuda a aumentar a produtividade e a eficiência, sem perder de vista que o tempo perdido não se recupera (“Todos os dias, quando acordo, não tenho mais o tempo que passou”, Legião Urbana).

Cada minuto que perdemos em face do tempo de espera de alguém que não respeita a hora marcada é como se nos roubassem parte da nossa vida, da nossa própria existência, daí por que não me permito deixar de cumprir um compromisso na hora marcada, sempre na perspectiva de que haja reciprocidade.

Tenho sido assim, desde sempre. Mas não vejo, de muitos, a mesma determinação. O que tenho testemunhado, ao contrário, é que pontualidade é uma virtude sem testemunha e que, quem se esmera em cumprir a hora marcada, é, de rigor, um chato aos olhos dos que se acostumaram a fazer tábula rasa do compromisso assumido, disso resultado que a pontualidade, nesse cenário, é quase um defeito.

Dia dessas assisti a uma entrevista com o consagrado ator Tony Ramos. Num dos trechos, ele falou de elegância. Disse, na oportunidade, que ser elegante não é se apresentar, por exemplo, com um terno bem cortado ou uma bolsa de grife. Elegância, segundo a sua compressão, é, sobretudo, respeitar o ser humano, tratá-lo com cortesia, respeito e dignidade.

Digo eu, em adição: ser elegante é, também, honrar a hora marcada; é não deixar o outro esperando, indefinida e desrespeitosamente, pois, definitivamente, quem chega atrasado a um evento, justificada ou injustificadamente, presta-se apenas a constranger e a atrapalhar.

A propósito, dias desses, num evento marcado para as 9 horas, no Fórum Sarney Costa, a solenidade já estava atrasada em meia hora, causando em mim a costumeira inquietação.

Diante do atraso, fui aos organizadores e indaguei o que estava faltando para começar a solenidade. A resposta que me foi dada causou em mim estupefação:

-Está faltando chegar o representante de determinada autoridade.

Diante da resposta, redargui:

-Mas foi justificado o atraso?

Resposta do organizador do evento:

-Não. Mas começar a solenidade sem ele seria uma falta de consideração.

A indagação que importa fazer, em face do acima narrado, é a seguinte: falta de consideração por parte de quem? De quem não honrou a hora marcada ou dos que, como eu, se esforçaram para chegar antes do horário, em respeito ao que constava no convite para a solenidade?

De minha parte, em face do acima relatado, só me resta concluir que, infelizmente, fruto de uma cultura nefanda e terceiro-mundista, a mim, e a tantos que pensam como eu, só nos resta suportar, calados e elegantemente, como quem ouve uma sinfonia, a falta de elegância dos que não se preocupam em honrar a hora em face de um compromisso assumido.

Diante do que tenho testemunhado, indago aos recalcitrantes, inspirado no poeta popular: será que é tempo que lhes falta para perceber? Será que temos esse tempo a perder? Ou será que não se deram conta de que a vida não para, que a vida é tão rara? (Paciência, Lenine).

É isso.

MAR CALMA NÃO FAZ BOM MARINHEIRO

Lembro, como se fosse hoje: em 1986, portanto, há quase 40 anos, por opção, já que me foi dado o direito de escolher a comarca, fui nomeado para o cargo de juiz de direito de Presidente Dutra, composta, à época, ademais, por dois termos: Tutum e Eugênio Barros, hoje comarcas autônomas.

Eu pretendia – como efetivamente fiz – morar na cidade-sede da comarca. Daí a minha opção por uma unidade que me desafiasse, que exigisse o máximo de mim, para que eu pudesse evoluir como magistrado e, claro, como pessoa.

Encontrei em Presidente Dutra os desafios que me propus a enfrentar: muitos anos sem juiz titular, cujos processos, por isso mesmo, estavam acumulados, levando a população a uma forte descrença no Poder Judiciário. Em Presidente Dutra, vi diante de mim, com efeito, o cenário perfeito. Os desafios eram enormes, para os quais, depois constatei, eu não estava preparado, pois era muito jovem ainda e sem nenhuma experiência judicante.

À época, os que comigo compartilharam os mesmos momentos/desafios – falo dos que ingressaram no mesmo concurso – hão de lembrar: não recebíamos nenhum treinamento, nenhuma orientação; apenas desafios. Nesse sentido, era, como diz a voz corrente, “pegar ou largar”. Aprovados, tomávamos posse, entrávamos em exercício e colocávamos as mãos na massa – ops! – nos processos.

Nesse panorama, os desafios eram enfrentados solitariamente, e o maior sentimento era o de angústia, superado, como um imperativo, pela determinação de tentar fazer o melhor, convindo anotar, a guisa de ilustração, que as sentenças e despachos eram rascunhados à mão, muitas vezes de madrugada, para depois serem datilografados, no meu caso, numa velha e barulhenta Olivetti portátil, que ganhei de presente e guardei durante muito tempo como um troféu.

Para conhecimento da nova geração – e para reavivar a lembrança dos que, como eu, viveram no mundo analógico -, destaco, ademais, que os depoimentos eram colhidos artesanalmente, com a audição do depoente e, em seguida, sua reprodução de viva voz, para que fosse consignada em ata pela escrivã, em máquina similar à Olivetti que mencionei acima, com o compromisso, dever e obrigação de ser fiel ao que foi dito.

Pois bem. Foi forjado nesse ambiente de dificuldades que cresci – crescemos, enfim, eu e os da minha geração – como profissional, vivendo, ademais e com especial sacrifício, as agruras do isolamento social a que me impunha, situação determinada pela cultura sedimentada à época – e sempre lembrada como um alerta pelos mais experientes -, segundo a qual o magistrado devia evitar relações sociais que pudessem deixar dúvidas sobre a sua imparcialidade.

São quase quarenta anos de exercício pleno da atividade judicante. Quase meio século, portanto, tentando fazer o melhor pelo Poder Judiciário, em cuja trajetória, admito, cometi muitos erros, mas, também, acertos, a reafirmar a minha – a nossa – condição de seres humanos, falíveis e imperfeitos.

Eu bem que poderia, à época, ter optado por uma comarca que exigisse menos de mim. Propus-me, nada obstante, ao desafio. Decidi que seria bom para minha carreira enfrentar o mar bravio, para me tornar um bom marinheiro, como o título dessa crônica sugere; se não me tornei, pelo menos tenho a consciência de ter tentado.

Hoje, estou aqui, aos 72 anos, cheio de vitalidade e determinação para continuar servindo ao Poder Judiciário do Maranhão, até quando tiver saúde e a lei permitir, consciente de que, como disse acima, tentei sempre fazer o melhor, dar o melhor de mim, deixando parte da minha vida e da minha saúde pelo caminho, construindo parte relevante da minha história, com algum sacrifício pessoal e familiar, tudo recompensado pelo sentimento que tenho de ter, pelo menos, tentado fazer o melhor.

É isso.

RECORTES DA REALIDADE

No começo do ano de 2023 foi instalada, na Câmara dos Deputados, a CPI do MST, Movimento dos Sem-Terra. Do coligido na referida CPI, coloco em realce o diálogo havido entre o professor José Geraldo de Sousa Júnior, doutor em Direito da Universidade Nacional de Brasília, e a deputada Caroline de Toni (PL-SC).

Deputada da Caroline de Toni (PL-SC):

“[…] E é isso que a gente quer: transparência, legalidade, impessoalidade, gestão pública eficiente. Por isso que a gente está nessa CPI para desmascarar os crimes e para chegar, não só à verdade dos fatos, mas também, aqui, realmente, se é para dar terras para as pessoas, que elas mereçam efetivamente.

José Geraldo de Sousa Júnior, em resposta:

“[…] Eu só queria dizer assim. Otávio Paz, no Labirinto da Solidão, diz que os indígenas, quando Colombo chegou, não viram as caravelas, não viram que elas estavam ali fundiadas […], não havia cognição para poder representar cerebralmente uma imagem que era absolutamente incompatível com o quadro mental de uma cultura que não tinha elementos para visualizar. Eu não tenho como discutir com a deputada porque a sua visão de mundo, da sua percepção como cosmovisão só lhe permite enxergar o que a senhora já tem inscrito na sua cognição. Então, a senhora vai ver não é o que existe, mas é o que a senhora recorta da realidade. A realidade é recortada por um processo cognitivo de historialização. Então eu não posso discutir um tema que contrapõe visão de mundo, concepção de mundo […]”

Deputada Caroline de Toni, em seguida:

“[…] Ele me ofendeu. Com todo o respeito. Tentou vir com categoria acadêmica debochar da nossa cara. […]”.

Não, Deputada, não houve ofensa. É apenas a constatação de uma realidade indiscutível, cada dia mais presente em nossas vidas. As pessoas só veem mesmo o que desejam ver, ou seja, apenas os recortes que fazem da realidade.

Nos dias presentes, as pessoas têm uma maneira particular de ver o mundo, uma cosmovisão obliterada pelo sectarismo, pelo fanatismo, pelo engajamento, de modo que só têm olhos para o que lhes importam.

É dizer: cada dia mais o ser humano só reage em face do que já está inscrito na sua cognição, daí que até conceitos que antes eram indiscutíveis – como ditadura, democracia, legalidade, arbitrariedade e liberdade, por exemplo -, hoje são relativizados, a depender, sempre, da visão de mundo de cada uma, ou seja, em vista daquilo que veem, visão que macula, na origem, o processo de cognição.

À guisa de exemplo, lembremo-nos do que ocorre com a ação penal n. 2668, na qual estão sendo julgados os protagonistas de uma tentativa de golpe, segundo o Procurador-Geral da República, secundado pela 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal.

Pois bem. Para determinada parcela da população, não há dúvidas de que a imputação procede e, por isso, devem ser punidos os autores dos crimes. Para outra parcela, com as mesmas informações, em face dos mesmos fatos e mesmas tipificações, tudo não passaria de perseguição política, a reafirmar que cada um vê o que quer, a reafirmar, no mesmo passo, a seletividade da cognição a que me reportei acima.

Como pontuou o ilustre professor, gostemos ou não da sua fala, as pessoas só conseguem perceber aquilo que está escrito em sua cognição, simplesmente porque não desejam, se recusam a ver a realidade, por mais cristalina que ela possa parecer.

Algumas vezes, até tentamos fazer as pessoas enxergarem a realidade. Essa luta, no entanto, para quem não quer vê-la, resulta embalde, daí que é preciso admitir, perdemos tempo nas tentativas de demover, por exemplo, um fanático político de suas “convicções”, em face do que já está sedimentado em sua cognição, fruto dos recortes que faz da realidade.

É isso.