REFLEXÕES SOBRE TRAIÇÃO

Já vivi o suficiente para ter a exata dimensão da realidade, de modo que já não me surpreendo com nada. Não me iludo com encenações, abraços, promessas feitas ou qualquer gesto que preceda a traição. Embora não me iluda, persisto — para sobreviver — acreditando no ser humano. Não há outra opção, já que não nos é permitido devassar a mente alheia; a traição é uma engrenagem que escapa à nossa percepção.

Insisto em dar crédito ao próximo para, depois, me decepcionar. Foi o que ocorreu em um episódio recente de minha vida pessoal, que repetiu, no mesmo cenário e com a mesma gravidade, a maldade que me foi infligida há 24 anos. As consequências à minha sanidade mental foram igualmente danosas. Disso, só se recordam os mais próximos, pois, como diz o ditado: “quem bate esquece; quem apanha, lembra”.

Com a quebra da palavra empenhada, surgem o sofrimento, a descrença e a dor. Por persistir na crença no homem, mesmo ciente de sua capacidade de trair, fui, por diversas vezes, ludibriado. Não são poucos os que descumprem, em uma manhã solene, a promessa feita na noite anterior, deixando-me incrédulo diante da humanidade.

Diante dos fatos, reafirmo o óbvio: é preciso manter a cautela com o ser humano, sobretudo quando o poder está em jogo. Por ele, muitos mancham a própria biografia — o que, definitivamente, não é o meu caso. O consolo reside nos raros indivíduos em quem ainda podemos confiar; aqueles que não se curvam diante de pressões e nos provam que nem tudo está perdido.

Quanto àqueles que já possuem a história enlameada por atos de traição, estes jamais me surpreendem, especialmente em disputas de poder. Diante da ambição, poucos resistem a um afago, seja qual for a sua dimensão. No entanto, a traição deixa em mim a incômoda sensação de que estou perdendo a fé na humanidade. É desalentador ver o homem render-se à tentação do poder, às injunções e à troca de favores para trair compromissos assumidos, ignorando o peso da própria história.

O traidor age como agem os covardes, pois é, em essência, um covarde: foge do embate, não encara o “olho no olho”, carece de firmeza nas palavras e vive da desfaçatez. Aos traidores, reservo o meu desprezo; a história se encarregará de julgá-los. Aos “muristas” — os que não assumem posição e se definem apenas sob o manto da covardia, às escondidas — dedico o meu mais solene desdém.

Por fim, aos que, além de traidores, são ingratos e esquecem quem lhes estendeu a mão por meros interesses pessoais, a lata de lixo da história lhes reserva um lugar cativo.

É isso.

HUMANOS DESUMANOS

São mais de 40 anos lidando com pessoas às quais são imputadas práticas de crime. Nesse sentido, por força do ofício, já tive que lidar com muita gente, que, ao fim e ao cabo de uma instrução, se revelou criminosa, cujos crimes evidenciaram o seu lado mais perverso, daí que, de rigor, calejado em face dessa vivência profissional, talvez fosse o caso de não mais me surpreender com a maldade do homem.

Todavia, é preciso deixar claro que quem comete crime não é, necessariamente, uma pessoa má, conquanto tenha-se que admitir que, dentre os criminosos, há muitos de índole perversa, revelada, como anotado acima, pelo modus operandi, pela insensibilidade demonstrada antes, durante e após a prática do ilícito, causando estupor, mesmo em pessoas calejadas como eu, levando-me a questionar, como sói ocorrer, a própria essência do ser humano e a sua capacidade de fazer o mal.

Se é notório que a vida profissional impõe a determinados indivíduos conviver com pessoas de conduta heterodoxa, como é o caso de criminosos dos mais diversos matizes, não é menos verdadeiro que todos nós, indistintamente, na convivência social, somos compelidos a lidar com toda sorte de pessoas, muitas das quais não cansam de nos surpreender pela capacidade de fazer o mal.

Surpreender-se com as boas ações é tudo que queremos. Surpreender-se pela maldade é tudo que abominamos, daí que, malgrado convivamos diariamente com a maldade do ser humano, de menor ou maior intensidade, há ações que, no mínimo, nos causam indignação; e não são poucas, e em razão das quais o Estado nem sempre responde à altura, criando em nós uma grave sensação de que perdemos o controle de tudo.

Cito, à guisa de exemplo, o sofrimento infligido ao cachorro comunitário Orelha, espancado, segundo notícias veiculadas na imprensa, por adolescentes, na Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina, fato que comoveu o país a ponto de unir, inclusive, radicais de direita e esquerda, tamanha a revolta e inquietação provocadas.

Esse fato, e tantos outros do cotidiano, levaram-me a essas reflexões sobre a maldade entre nós, uma perversidade que, como temos visto, tem desumanizado o ser humano, presente em várias momentos e circunstâncias da nossa vida; maldade que, por vezes, viceja dentro dos próprios lares brasileiros, na medida em que não são poucos os que tornam o lar um ambiente tóxico, onde se respira ódio e se promove discórdia, impregnado, portanto, de crueldade, falta de respeito, consideração e solidariedade.

A verdade é que, infelizmente, banalizamos a maldade, cumprindo anotar que muitos artífices dessas ações que fazem parte da nossa vida, tomam café, almoçam e jantam com a família, abraçam e beijam filhos e companheiro(a) antes de sair de casa, e, para completar, ainda fazem o sinal da cruz, frequentam igrejas e templos, colocando Deus como refúgio de tudo, deixando a desumanidade ainda mais demoníaca.

Mas a maldade se apresenta de muitas formas. Pode estar na ação, como pode residir na omissão de muitos de nós, que não se sentem à vontade para denunciá-la, contribuindo para que se perpetue. Essa é a maldade – por omissão – que se apresenta em uma de suas facetas mais perversas, como ocorre, por exemplo, com quem filma um acidente em vez de ajudar as vítimas ou com quem passa diante de um morador de rua, clamando por uma ajuda, olhando-o com indiferença, como se ele fosse um poste.

Outro tipo de maldade a que tenho chamado a atenção é a que decorre do linchamento virtual, quando milhares de pessoas destilam ódio por trás de um avatar, como se fossem justiceiros, enquanto destroem a saúde mental das vítimas; maldade, diria, covarde e sem rosto.

O grave é que essas ações deletérias contam, não raro, com a nossa omissão, como acima anotado, o que, de certa forma, estimula a algoz a persistir na prática da maldade, revelando que o mundo “é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas, sim, por causa daqueles que observam e deixam que o mal aconteça.”

Essa frase, atribuída a Albert Einstein, é um apelo à responsabilidade individual e à ação contra a injustiça, sugerindo que a apatia, a indiferença e a passividade da maioria (aquelas pessoas que apenas observam) são mais perigosas do que os atos de maldade em si, pois permitem que o mal prospere sem oposição

É isso.