REFLEXÕES SOBRE TRAIÇÃO

Já vivi o suficiente para ter a exata dimensão da realidade, de modo que já não me surpreendo com nada. Não me iludo com encenações, abraços, promessas feitas ou qualquer gesto que preceda a traição. Embora não me iluda, persisto — para sobreviver — acreditando no ser humano. Não há outra opção, já que não nos é permitido devassar a mente alheia; a traição é uma engrenagem que escapa à nossa percepção.

Insisto em dar crédito ao próximo para, depois, me decepcionar. Foi o que ocorreu em um episódio recente de minha vida pessoal, que repetiu, no mesmo cenário e com a mesma gravidade, a maldade que me foi infligida há 24 anos. As consequências à minha sanidade mental foram igualmente danosas. Disso, só se recordam os mais próximos, pois, como diz o ditado: “quem bate esquece; quem apanha, lembra”.

Com a quebra da palavra empenhada, surgem o sofrimento, a descrença e a dor. Por persistir na crença no homem, mesmo ciente de sua capacidade de trair, fui, por diversas vezes, ludibriado. Não são poucos os que descumprem, em uma manhã solene, a promessa feita na noite anterior, deixando-me incrédulo diante da humanidade.

Diante dos fatos, reafirmo o óbvio: é preciso manter a cautela com o ser humano, sobretudo quando o poder está em jogo. Por ele, muitos mancham a própria biografia — o que, definitivamente, não é o meu caso. O consolo reside nos raros indivíduos em quem ainda podemos confiar; aqueles que não se curvam diante de pressões e nos provam que nem tudo está perdido.

Quanto àqueles que já possuem a história enlameada por atos de traição, estes jamais me surpreendem, especialmente em disputas de poder. Diante da ambição, poucos resistem a um afago, seja qual for a sua dimensão. No entanto, a traição deixa em mim a incômoda sensação de que estou perdendo a fé na humanidade. É desalentador ver o homem render-se à tentação do poder, às injunções e à troca de favores para trair compromissos assumidos, ignorando o peso da própria história.

O traidor age como agem os covardes, pois é, em essência, um covarde: foge do embate, não encara o “olho no olho”, carece de firmeza nas palavras e vive da desfaçatez. Aos traidores, reservo o meu desprezo; a história se encarregará de julgá-los. Aos “muristas” — os que não assumem posição e se definem apenas sob o manto da covardia, às escondidas — dedico o meu mais solene desdém.

Por fim, aos que, além de traidores, são ingratos e esquecem quem lhes estendeu a mão por meros interesses pessoais, a lata de lixo da história lhes reserva um lugar cativo.

É isso.

HUMANOS DESUMANOS

São mais de 40 anos lidando com pessoas às quais são imputadas práticas de crime. Nesse sentido, por força do ofício, já tive que lidar com muita gente, que, ao fim e ao cabo de uma instrução, se revelou criminosa, cujos crimes evidenciaram o seu lado mais perverso, daí que, de rigor, calejado em face dessa vivência profissional, talvez fosse o caso de não mais me surpreender com a maldade do homem.

Todavia, é preciso deixar claro que quem comete crime não é, necessariamente, uma pessoa má, conquanto tenha-se que admitir que, dentre os criminosos, há muitos de índole perversa, revelada, como anotado acima, pelo modus operandi, pela insensibilidade demonstrada antes, durante e após a prática do ilícito, causando estupor, mesmo em pessoas calejadas como eu, levando-me a questionar, como sói ocorrer, a própria essência do ser humano e a sua capacidade de fazer o mal.

Se é notório que a vida profissional impõe a determinados indivíduos conviver com pessoas de conduta heterodoxa, como é o caso de criminosos dos mais diversos matizes, não é menos verdadeiro que todos nós, indistintamente, na convivência social, somos compelidos a lidar com toda sorte de pessoas, muitas das quais não cansam de nos surpreender pela capacidade de fazer o mal.

Surpreender-se com as boas ações é tudo que queremos. Surpreender-se pela maldade é tudo que abominamos, daí que, malgrado convivamos diariamente com a maldade do ser humano, de menor ou maior intensidade, há ações que, no mínimo, nos causam indignação; e não são poucas, e em razão das quais o Estado nem sempre responde à altura, criando em nós uma grave sensação de que perdemos o controle de tudo.

Cito, à guisa de exemplo, o sofrimento infligido ao cachorro comunitário Orelha, espancado, segundo notícias veiculadas na imprensa, por adolescentes, na Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina, fato que comoveu o país a ponto de unir, inclusive, radicais de direita e esquerda, tamanha a revolta e inquietação provocadas.

Esse fato, e tantos outros do cotidiano, levaram-me a essas reflexões sobre a maldade entre nós, uma perversidade que, como temos visto, tem desumanizado o ser humano, presente em várias momentos e circunstâncias da nossa vida; maldade que, por vezes, viceja dentro dos próprios lares brasileiros, na medida em que não são poucos os que tornam o lar um ambiente tóxico, onde se respira ódio e se promove discórdia, impregnado, portanto, de crueldade, falta de respeito, consideração e solidariedade.

A verdade é que, infelizmente, banalizamos a maldade, cumprindo anotar que muitos artífices dessas ações que fazem parte da nossa vida, tomam café, almoçam e jantam com a família, abraçam e beijam filhos e companheiro(a) antes de sair de casa, e, para completar, ainda fazem o sinal da cruz, frequentam igrejas e templos, colocando Deus como refúgio de tudo, deixando a desumanidade ainda mais demoníaca.

Mas a maldade se apresenta de muitas formas. Pode estar na ação, como pode residir na omissão de muitos de nós, que não se sentem à vontade para denunciá-la, contribuindo para que se perpetue. Essa é a maldade – por omissão – que se apresenta em uma de suas facetas mais perversas, como ocorre, por exemplo, com quem filma um acidente em vez de ajudar as vítimas ou com quem passa diante de um morador de rua, clamando por uma ajuda, olhando-o com indiferença, como se ele fosse um poste.

Outro tipo de maldade a que tenho chamado a atenção é a que decorre do linchamento virtual, quando milhares de pessoas destilam ódio por trás de um avatar, como se fossem justiceiros, enquanto destroem a saúde mental das vítimas; maldade, diria, covarde e sem rosto.

O grave é que essas ações deletérias contam, não raro, com a nossa omissão, como acima anotado, o que, de certa forma, estimula a algoz a persistir na prática da maldade, revelando que o mundo “é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas, sim, por causa daqueles que observam e deixam que o mal aconteça.”

Essa frase, atribuída a Albert Einstein, é um apelo à responsabilidade individual e à ação contra a injustiça, sugerindo que a apatia, a indiferença e a passividade da maioria (aquelas pessoas que apenas observam) são mais perigosas do que os atos de maldade em si, pois permitem que o mal prospere sem oposição

É isso.

A ILUSÃO DA INFALIBIDADE: QUANDO O ORGULHO NOS CEGA


Dia desses assisti a uma entrevista com Ralf, da agora desfeita –
definitivamente – dupla com Chrystian, no Podcast de Eduardo Piunti, o qual, dentre
outras coisas, para minha inquietação/reflexão, afirmou:

-Eu não erro, cara, você está sendo pago para isso. Então, como é
que você pode errar? Não, você não pode errar. Eu nunca errei. Eu fui um vocalista
que nunca errou, cara. Por quê? Porque eu tinha atenção e presteza em atender.
Você tem que ser prestativo. Você tem que ser bravo com as coisas que você faz,
entendeu? Eu sou extremamente caxias. Tudo que eu faço tem que ser perfeito e
me cobro muito e sofro muito por isso.

Essa afirmação do sertanejo de se considerar infalível me levou a

essas reflexões.

E por que fui instado a pensar sobre o que disse Ralf?
Porque entendo que a crença na própria infalibilidade, embora
muitos não percebam, é uma armadilha perigosa, especialmente entre os que
ocupam posições de poder ou se consideram superiores.

A propósito, a história está repleta de exemplos de ações de
pessoas que se julgavam infalíveis e que, por pensarem e agirem assim, erraram
feio, para, no mesmo passo, caírem em desgraça – e em descrença –, exatamente
por sentirem superiores, olvidando-se de sua condição de ser humano, que os levou
a cometer os erros em razão dos quais se julgavam infensos.

O erro é humano, é o apotegma. Quanto a isso não se tem dúvidas.
Nesse sentido, e por óbvio, o erro é uma parte natural da condição humana, razão
pela qual ninguém está imune à falha, ainda que se imagine acima do bem e do
mal.

Afirmar, como fez o sertanejo Ralf, que nunca erra, é pura
arrogância, que, em sua feição mais perversa, leva as pessoas a se considerarem
infalíveis, tornando-as cegas diante dos seus próprios erros.

A crença na infalibilidade é ainda mais grave e perigosa quando
quem se julga infalível exerce o poder, pois que, foi pensando assim, que grandes
lideres levaram nações a se envolverem em contendas graves e desnecessárias,
que poderiam ter sido evitadas, como se deu, por exemplo, com a invasão da Baia
dos Porcos pelos Estados Unidos, que subestimaram completamente a reação
cubana, cujo erro estratégico se transformou em humilhação internacional, ou
noutro giro, como ocorre, até os dias atuais, com os erros judiciais, que resultam na
condenação de inocentes à morte ou a décadas de prisão, com base em
testemunhos falsos, preconceitos e investigações mal conduzidas (ccmo no caso
dos Irmãos Naves, de triste memória), ou, ainda, como mostram casos

documentados de erros médicos, com a amputação, por exemplo, de membros
saudáveis ou a realização de cirurgias em pacientes errados, resultantes de falhas
básicas de checagem.

Cito esses exemplos, vindos ao acaso na minha mente, apenas
para reafirmar que precisamos ser humildes, que precisamos acreditar em nossa
falibilidade e que a crença de que não erramos não é boa conselheira, sobretudo,
repito, se se trata de quem detêm o poder e decidem sobre a vida das pessoas e a
sorte das nações.

A admissão do erro é um sinal de força, não de fraqueza. Por
pensar assim é que tenho, humildemente, admitido meus erros, que foram muitos
na minha trajetória, muitos dos quais foram corrigidos a tempo e hora.

Reconhecer a própria falibilidade é o primeiro passo para aprender
e crescer, pouco importando a idade, pois há, sim, os que envelhecem mas não
aprendem com os erros que cometem, muitos dos quais, como sói correr, poderiam
ter sido evitados.

A mensagem que deixo com essas reflexões é que sejamos
humildes, independentemente de nossa posição social, para que possamos
reconhecer nossos erros enquanto é tempo, evitando que eles se repitam.

A dica final, e mais atual, é: o erro é uma prova de que não somos
algoritmos. Nossa “imperfeição” é o que nos diferencia da inteligência artificial.

É isso.

DESCONFIANÇA COMO MECANISMO DE DEFESA

Despertou a minha atenção a afirmação contida na coluna de Thaís Oyama, no Jornal O Globo, edição de 27 de dezembro do ano passado, segundo a qual “o brasileiro não confia em ninguém”.

Essa desconfiança foi constatada, ademais, em pesquisa do World Values Survey, divulgada em 2023, e confirmada no recém-lançado livro O Brasil no espelho, do cientista político e CEO da Quaest, Felipe Nunes, com base em levantamento realizado com dez mil pessoas. Segundo o estudo, apenas 6% dos brasileiros concordam com a seguinte afirmação: “Podemos confiar na maioria das pessoas”. Outros 94% estão de acordo com a seguinte frase: “É preciso ser muito cuidadoso com as pessoas”.

A afirmação da jornalista e o resultado do levantamento apresentado no livro de Felipe Nunes me levaram a essas a essas reflexões, que inicio com as seguintes indagações: Por que temos dificuldades em acreditar nas pessoas? Onde foi que erramos? Por que chegamos a essa situação?

Tentarei refletir sobre essas indagações, à luz, apenas, da minha experiência de vida, sem nenhuma base científica, fruto, portanto, tão somente da minha natural inquietação diante do ser humano.

Principio afirmando que a desconfiança é uma sensação instintiva de todos nós, potencializada, ademais, pelo fato de que, desde a mais tenra idade, nos ensinam – e aprendemos – a ter cautela com os semelhantes, aprendizado que vai se consolidando com as decepções acumuladas ao longo da vida, em razão da indiscutível capacidade que o homem tem de dissimular, enganar, ludibriar e tentar levar vantagem em tudo.

Nesse cenário, eu, assim como tantos outros, aprendi, desde muito cedo, naturalmente, a desconfiar do próximo, fazendo-o como um mecanismo instintivo de defesa, que foi se radicalizando na mesma medida em que as decepções foram se somando, a ponto de afetar as relações interpessoais.

Tenho convicção, fruto da minha longa experiência de vida, de que é preciso administrar, com inteligência, parcimônia, equilíbrio, sensatez e temperança, as nossas naturais desconfianças, sem o que a vida em sociedade tornar-se-ia insuportável, na medida em que, se exacerbada, a desconfiança criaria – e cria, efetivamente – barreiras intransponíveis às relações sociais, com a consequente imposição de um isolamento incompatível com a natureza humana.

É preciso, pois, com cautela, mas sem preconceitos ou julgamentos prévios, estabelecer nossas interações com os demais seres humanos, cientes de que podemos, sim, em dado momento, nos decepcionar em face de uma ou outra atitude, já que a desconfiança integra a experiência humana, que não deve, por outro lado, transformar-se em obstáculo às nossas conexões com os semelhantes.

O desafio, pois, a que todos devemos nos submeter, é buscar, com sabedoria – e com lealdade, ingrediente inafastável -, estabelecer nossos vínculos sem permitir que a desconfiança nos impeça de viver e conviver em sociedade, pois, afinal, se é verdade que devemos confiar desconfiando, não é menos verdadeiro que o mundo está repleto de pessoas leais, amigas e desinteressadas, que fazem toda diferença, afinal, nada pode ser mais danoso do que uma comunhão calcada na suspeita permanente.

Um bom começo, nesse sentido, é a adoção de uma comunicação aberta e leal, pois, a partir dela, podemos, sim, com enorme probabilidade, construir relações sólidas, nas quais a desconfiança deve ser apenas – e tão somente – um ingrediente de somenos.

Por fim, importa realçar, para amenizar o peso das constatações anotadas no preâmbulo dessa crônica, que o sentimento de desconfiança que habita todos nós, desde a minha compreensão, não é um defeito, mas uma ferramenta de sobrevivência que, de rigor, moldou a própria civilização.

Não custa lembrar, para ilustrar, que, na savana, o custo de confiar em um predador ou em um estranho hostil pode ser a morte, advertência que deve, do mesmo modo, ser sublimada quando nos relacionamos com quem já tem uma história de deslealdade, cumprindo não esquecer, de mais a mais, de Thomas Hobbes, que defendia, com razão, que o homem é “o lobo do homem”, reforçando, definitivamente, a nossa natural necessidade de desconfiar.

Por fim, cumpre reconhecer que a civilização só existe porque somos capazes de compreender – e, às vezes, superar – a nossa natural desconfiança no semelhante, a qual não pode ser um obstáculo para vivermos a plenitude das nossas relações, ainda que seja necessário acioná-la , como mecanismo natural de defesa.

É isso.

SOBRE SER BOM

Dezembro é um mês especial, cheio de cores, luzes e, acima de tudo, de esperança, pois que é o mês em que se comemora o nascimento de Cristo, daí que, para mim, é mais uma grande oportunidade para perquirir sobre a bondade humana, e tudo o mais que dela decorre: empatia, atenção, gestos nobres, humildade, amor e compaixão.

Pois bem. Sobre a bondade humana, a verdade é que nós nos desacostumamos de praticá-la, na medida em que, não raro, cuidamos apenas dos nossos interesses, pouco importando a vida do semelhante, escapando da nossa percepção que a bondade não é um sacrifício, mas, ao contrário, uma vantagem evolutiva que permitiu à espécie humana sobreviver.

Na verdade, não só nos desacostumamos de ser bons, como também passamos a encarar a bondade com certa desconfiança, quando deveria ser vista como efetivamente é, ou seja, como uma ação capaz de transformar a vida das pessoas.

Nesse sentido, sempre que alguém nos surpreende com um gesto bondoso, somos levados a uma certa desconfiança, para, ressabiados, indagar: O que tem por trás dessa ação? Que interesse moveu beltrano ou sicrano à prática de atos de bondade?

E assim agimos e pensamos por que, infelizmente, a sociedade está doente, admitamos. Nesse cenário, para cada ação bondosa corresponde, quase automaticamente, uma reação de desconfiança, simplesmente porque deixamos de acreditar no ser humano, daí que toda atitude revestida de alguma virtude gera em nós alguma inquietação, uma vez que deixamos de entender a bondade como uma força transformadora, para, ao revés, enxergá-la fruto das nossas decepções- como ações movidas por interesses mesquinhos e oportunistas.

Vivemos, assim, tempos estranhos, nos quais julgamos o semelhante, não pelo que ele verdadeiramente é, mas em face da nossa falsa percepção da realidade, que nos leva a crer que todos são maus e que tudo são ações oportunistas, fruto das avaliações equivocadas que fazemos, calcadas nas nossas pré-compreensões, nos nossos preconceitos e pré-julgamentos.

Diante da nossa canhestra percepção da realidade, seguimos a vida desconfiando de tudo e de todos, tornando as relações muito mais complexas do que deveriam ser, razão pela qual acabamos por construir as nossas relações sob uma grave e perigosa sensação de que, por trás de toda ação/omissão, há sempre algum interesse inconfessável.

Eu, de meu canto, observador atento das relações entre as pessoas, não perdi a fé no ser humano, por isso continuo apostando na sua bondade, sem a qual a sociedade não sobreviveria, afinal, felizmente, não são poucos aqueles que aprenderam com Cristo a amar o próximo incondicionalmente.

Fazer o bem, sem olhar a quem, tem sido a minha obsessão, ciente, como diz a canção popular, de que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã (Legião Urbana).

A despeito das desconfianças geradas pelas complexas relações sociais, o que todos testemunhamos é a reafirmação da bondade humana nas mais singelas manifestações como, por exemplo, o gesto de alguém que cede seu lugar para um idoso no transporte coletivo ou de um desconhecido que ajuda outrem a carregar as compras de supermercado ou a atravessar a rua.

A bondade humana, importa anotar e destacar, é uma força poderosa, movida pelo amor, pela empatia e pela compaixão, capaz de impactar profundamente a vida das pessoas e da sociedade, razão por que é difícil compreender como alguém, podendo agir com bondade, escolhe não fazê-lo.

Por experiência própria, sei que, ao ajudar o semelhante, ao praticar um ato de bondade, nos sentimos mais conectados ao próximo, e, por consequência, mais felizes, ante a certeza de que, com ações que tais, tornamos o mundo um lugar melhor.

Nesse mês de dezembro, quando tanto se fala em solidariedade e amor, a bondade humana deve ser praticada como reflexo de uma luz divina que deveria habitar em cada um de nós, inspirados no exemplo do Cristo Jesus, que nos ensinou a praticar o bem – bondade que o levou, inclusive, a perdoar aqueles que o crucificaram.

Todavia, que fique o registro definitivo para reflexão do leitor: a bondade não pode ser apenas inspiração; ela só faz sentido quando se converte em uma prática de vida, daí o chamamento que faço para que, nesse mês de dezembro – e ao longo de todo o ano, claro – , enquanto decoramos nossas casas e trocamos presentes com os entes queridos, não esqueçamos que o mais importante é ser bom, pois a bondade revoluciona e transforma a nossa vida e a do semelhante, tornando-a muito mais confortável e agradável.

É isso.

O CANTO DOS CISNES

Para ilustrar essas reflexões, recordo que o “Canto dos Cisnes” é uma expressão que significa o último esforço ou a derradeira apresentação de alguém ou de algo antes de desaparecer ou morrer. Representa um momento final ou uma última tentativa de fazer algo antes de acabar. Trata-se, enfim, de uma metáfora que simboliza uma grande obra, empenho ou performance de alguém antes da morte, da aposentadoria ou do encerramento de uma carreira, geralmente marcada por algo notável ou grandioso.

Pois bem. É sob a luz dessa metáfora que desejo expender as minhas reflexões de hoje, convindo destacar que, ao que se sabe, os cisnes não cantam antes de morrer. São aves aquáticas que habitam lagos e rios, e o seu canto é mais um som de comunicação do que uma música, não existindo evidências, portanto, de que entoem qualquer melodia específica em seus momentos finais.

Assim como se equivocam os que imaginam que os cisnes cantam antes da morte, se enganam os que creem que minha passagem pela Corregedoria-Geral da Justiça será meu canto derradeiro. Tenho fé de que não o seja. É que ainda tenho muita disposição e determinação para continuar lutando, pronto para enfrentar novos desafios que, creio, ainda surgirão, até que eu possa, finalmente — aí, sim —, entoar meu último canto, e apresentar a despedida, ciente de que, na vida, é assim mesmo: tudo tem começo, meio e fim.

Todos são testemunhas do meu empenho – em conjunto com minha equipe – para que a gestão à frente da Corregedoria alcançasse êxito, sobretudo quanto à produtividade, eleita como prioridade absoluta, sem a qual o sonho do Selo Diamante seria apenas uma quimera.

Nesse sentido, cercado de excepcionais assessores – inclusos, evidentemente, os juízes corregedores – e contando com o esforço coletivo de desembargadores, juízes e servidores – estagiários e residentes igualmente incluídos -, atingimos a maior produtividade da história do Poder Judiciário, fazendo com que o Maranhão se destacasse como o único Tribunal do Nordeste a alcançar o Selo Diamante de Qualidade do Conselho Nacional de Justiça.

Mas, repito: engana-se quem pensa que este tenha sido meu derradeiro esforço ou o encerramento dos meus projetos no âmbito do Poder Judiciário. Ainda tenho fé, força, coragem, perseverança e determinação para continuar lutando; daí que pretendo, sim, caso seja esse o desejo dos meus pares, seguir adiante, continuar a lutar para melhorar a vida dos jurisdicionados, como procurei – e conseguimos todos, coletivamente, como tenho destacado – à frente da Corregedoria-Geral de Justiça, por meio dos projetos que compõem o Programa Produtividade Extraordinária (Juiz Extraordinário, Analista Extraordinário, Oficial de Justiça Extraordinário, Secretaria Extraordinária e Contadoria Extraordinária), os quais nos conduziram a expressiva ascensão no ranking nacional, do 16º para o 9º lugar em produtividade.

Aos 72 anos, sinto-me preparado para esse desafio. Visitei, durante minha gestão na Corregedoria-Geral de Justiça, até agora, mais de 100 (cem) comarcas do Estado – e pretendo visitar a totalidade delas –, com o propósito de conhecer de perto nossa realidade, pois que, assim o fazendo, imagino que me credenciarei, ainda mais, para enfrentar os futuros desafios, se essa, repito, for a vontade dos meus pares.

Conhecendo, como efetivamente conheço, o Poder Judiciário do Maranhão, sobretudo depois dos périplos realizados pelos mais longínquos rincões do Estado, e contando, ademais, com a experiência acumulada ao longo de quase 40 (quarenta) anos de atividade judicante, sinto-me, sim, em condições de enfrentar novos desafios.

Reafirmo, assim, que minha passagem pela Corregedoria não deve ser entendida como o último capítulo da minha trajetória, razão por que não me vejo entoando o canto final, nutrindo a esperança de que ainda me aguarde um grande desafio, findo o qual, aí sim, premido pelo tempo e pelos ditames da lei, seguirei noutra direção, até que, finalmente, a natureza me conduza a descansar definitivamente.

É isso.

O CANTO DA SIRENA

Na intimidade, costumo contar a minha maior decepção; aquela que modificou a minha vida – e a de muitos no meu entorno -, levando-me a ser quem sou, daí posso afirmar que ela foi o combustível que me moveu – e ainda me move – até os dias atuais. É algo muito pessoal, e somente os mais íntimos sabem dela e do que ela significa para a minha vida.

Essa grande decepção – como as decepções em geral – tem a ver, sim, com as expectativas que criei – e que criamos – em torno de quem, podendo ser uma referência, preferiu tornar-se a minha maior desilusão.

Como qualquer ser humano, fui construindo, na infância, na juventude e até na vida adulta, um castelo de sonhos e de expectativas em torno de quem, depois, se revelou um engodo, fazendo ruir o castelo que construí, e, com isso, claro, os meus sonhos, levando-me a uma enorme frustração que marcou a minha vida e a da minha família, conquanto já houvesse sinais, desde muito cedo, de qual seria o desfecho.

A verdade é que alimentamos a nossa mente de sonhos e expectativas. Nesse afã, edificamos verdadeiros castelos de areias, que, por esta ou aquela razão, acabam sendo derrubados pela realidade, deixando-nos um sentimento de frustração, decepção e desilusão.

O que desejo, a propósito dessas reflexões, é reafirmar que, sendo a decepção um sentimento universal, que nos afeta em determinados momentos da vida, o ideal seria não nos deixarmos levar pelo “Canto da Sirena” – aqui usado metaforicamente para descrever algo que é atraente e sedutor, mas que pode conduzir a consequências negativas ou perigosas – e que, ao fim e ao cabo, pode nos levar de encontro aos rochedos.

Importa indagar, pois, em face do que me proponho a refletir aqui e agora: as decepções são evitáveis? A quem cabe a responsabilidade por elas? A nós mesmos, em face das nossas fraquezas e incapacidade de discernimento? Ou devemos imputá-las às pessoas em torno das quais construímos nossos sonhos?

Penso que, na maioria das vezes, o responsável pelas nossas decepções somos nós mesmos, incapazes que somos de compreender que as pessoas são o que são, que têm seus próprios sonhos e desejos, os quais não correspondem, necessariamente, aos nossos interesses e às nossas expectativas.

É preciso compreender – e muitas vezes não somos capazes de discernir – que as pessoas são únicas, que cada uma carrega suas próprias lutas, medos, desejos e sonhos, nos quais, muitas vezes, não estamos incluídos.

O que se deve fazer, então?

Há apenas um caminho: gerenciar os nossos sonhos e olhar a realidade como ela se apresenta. Assim o fazendo, podemos, sim, controlar nossas expectativas em face do semelhante, para, no mesmo passo, controlar as nossas frustrações.

Quando nos decepcionamos com alguém, devemos aproveitar o ensejo para refletir sobre as expectativas que depositamos nessa pessoa, pois a decepção pode estar muito mais em nós do que em outrem.

O sentimento de tristeza ou frustração, decorrente de uma expectativa não alcançada, pode ser uma singular oportunidade para levantar a cabeça, para abrir a camisa, encher o peito e marchar firmemente noutra direção – que não seja aquela que nos leve aos rochedos do naufrágio, como ilustra a alegoria que utilizei.

Como anotado acima, mas importa reafirmar: a decepção não se dá, necessariamente, em face dos outros, mas, muitas vezes – embora não admitamos -, por nossa conta e risco, quando fracassamos em nossas metas pessoais e atribuímos a alguém uma quebra de confiança que, na verdade, só existiu em nossa mente.

É preciso, portanto, romper com os sonhos que sabemos ser irrealizáveis, em função dos quais somos os maiores responsáveis, na medida em que projetamos nos outros nossos desejos e expectativas, que podem, sim, nos levar a uma intensa tristeza e enorme frustração, permeadas de raiva e desmotivação.

É isso.

SONHO X REALIDADE

Do Samba-Enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, apresentado no Carnaval de 1992 – Sonhar não Custa Nada ou Quase Nada -, colhi a inspiração para estas reflexões.

Do mencionado Samba-Enredo, apanho a seguinte passagem, a partir da qual passo a refletir: “Deixe sua mente vagar, não custa nada sonhar, viajar nos braços do infinito onde tudo é mais bonito nesse mundo de ilusão…”.

Como diz a letra do samba, não raro deixamos a nossa mente vagar em face dos nossos sonhos, viajando nos braços do infinito, num mundo de ilusão. Mas, convém não permanecer nesse estado de letargia, sob pena de impedir que os sonhos se convertam em realidade.

É preciso, pois, com sensatez e racionalidade, sopesar os sonhos à realidade, na busca de um ponto de equilíbrio, pois, afinal, ante os sonhos irrealizáveis não convém persistir sonhando.

É importante ter sonhos e desejos, mas é preciso, no mesmo passo, ser realista, não deixar que os sonhos proporcionem algum desconforto ou desequilíbrio mental, pois, afinal, nem tudo é possível, nem tudo é factível, nem tudo é realizável, daí que devemos sonhar, alimentar os nossos desejos, mas cientes de que há barreiras, pedras no caminho e dificuldades insuperáveis entre os sonhos e a realidade.

Nesse sentido, quem sonha o impossível, quem deseja o inalcançável, sabendo-o inalcançável, tende à decepção e à frustração.

Mas é preciso, sim, persistir nos sonhos, afinal, desejos e sonhos são molas propulsores que nos conduzem aos caminhos que podem, sim, nos levar à sua realização, motivando as nossas ações, sem perder de vista eventuais frustrações.

Pois bem. Foi sonhando com a melhoria da produtividade dos juízes de primeiro grau, que assumi a Corregedoria-Geral de Justiça, ciente de que era preciso confrontar a realidade, encará-la de frente; e a realidade, pelo que pudemos constatar, não convenceu da factibilidade dos meus, dos nossos sonhos, desde que houvesse planejamento e união de esforços, e, principalmente, criatividade, daí surgindo, em boa hora, os nossos mais relevantes projetos, que nos levaram a melhorar significativamente os nossos números, nos conduzindo, no mesmo passo, a sonhar um sonho possível, qual seja, o Selo Diamante de Qualidade do Conselho Nacional de Justiça.

A realidade pode ser, sim, um obstáculo à realização dos sonhos. Mas, convém não esquecer, sonhos e desejos não são meras fantasias: são, ao reverso, fontes primárias de motivação e propósito.

Os nossos sonhos, os nossos desejos, como se viu no exemplo acima acerca da nossa produtividade, impulsionam os nossos esforços, nos levando, como efetivamente nos levou, à inovação e à criatividade, as quais, de seu turno, nos levaram à realização dos nossos objetivos, nos colocando, agora, num lugar de destaque entre os Tribunais mais produtivos do país.

A capacidade de sonhar, é preciso anotar, funciona, também, como um mecanismo de defesa contra o niilismo e, até, contra o desencorajamento, nos fornecendo um senso de direção, mesmo diante de realidades difíceis, como parecia ser o caso do Eixo Produtividade sobre o qual me referi acima.

Transformar o sonho em realidade foi o nosso objetivo, afinal alcançado, com esforço e determinação de tantos quantos puderam – e deram – a sua contribuição, porque, convém destacar, a realidade não é o oposto dos sonhos, mas, sim, o caminho metodológico para realizá-los.

É isso.