REFLEXÕES SOBRE TRAIÇÃO

Já vivi o suficiente para ter a exata dimensão da realidade, de modo que já não me surpreendo com nada. Não me iludo com encenações, abraços, promessas feitas ou qualquer gesto que preceda a traição. Embora não me iluda, persisto — para sobreviver — acreditando no ser humano. Não há outra opção, já que não nos é permitido devassar a mente alheia; a traição é uma engrenagem que escapa à nossa percepção.

Insisto em dar crédito ao próximo para, depois, me decepcionar. Foi o que ocorreu em um episódio recente de minha vida pessoal, que repetiu, no mesmo cenário e com a mesma gravidade, a maldade que me foi infligida há 24 anos. As consequências à minha sanidade mental foram igualmente danosas. Disso, só se recordam os mais próximos, pois, como diz o ditado: “quem bate esquece; quem apanha, lembra”.

Com a quebra da palavra empenhada, surgem o sofrimento, a descrença e a dor. Por persistir na crença no homem, mesmo ciente de sua capacidade de trair, fui, por diversas vezes, ludibriado. Não são poucos os que descumprem, em uma manhã solene, a promessa feita na noite anterior, deixando-me incrédulo diante da humanidade.

Diante dos fatos, reafirmo o óbvio: é preciso manter a cautela com o ser humano, sobretudo quando o poder está em jogo. Por ele, muitos mancham a própria biografia — o que, definitivamente, não é o meu caso. O consolo reside nos raros indivíduos em quem ainda podemos confiar; aqueles que não se curvam diante de pressões e nos provam que nem tudo está perdido.

Quanto àqueles que já possuem a história enlameada por atos de traição, estes jamais me surpreendem, especialmente em disputas de poder. Diante da ambição, poucos resistem a um afago, seja qual for a sua dimensão. No entanto, a traição deixa em mim a incômoda sensação de que estou perdendo a fé na humanidade. É desalentador ver o homem render-se à tentação do poder, às injunções e à troca de favores para trair compromissos assumidos, ignorando o peso da própria história.

O traidor age como agem os covardes, pois é, em essência, um covarde: foge do embate, não encara o “olho no olho”, carece de firmeza nas palavras e vive da desfaçatez. Aos traidores, reservo o meu desprezo; a história se encarregará de julgá-los. Aos “muristas” — os que não assumem posição e se definem apenas sob o manto da covardia, às escondidas — dedico o meu mais solene desdém.

Por fim, aos que, além de traidores, são ingratos e esquecem quem lhes estendeu a mão por meros interesses pessoais, a lata de lixo da história lhes reserva um lugar cativo.

É isso.

HUMANOS DESUMANOS

São mais de 40 anos lidando com pessoas às quais são imputadas práticas de crime. Nesse sentido, por força do ofício, já tive que lidar com muita gente, que, ao fim e ao cabo de uma instrução, se revelou criminosa, cujos crimes evidenciaram o seu lado mais perverso, daí que, de rigor, calejado em face dessa vivência profissional, talvez fosse o caso de não mais me surpreender com a maldade do homem.

Todavia, é preciso deixar claro que quem comete crime não é, necessariamente, uma pessoa má, conquanto tenha-se que admitir que, dentre os criminosos, há muitos de índole perversa, revelada, como anotado acima, pelo modus operandi, pela insensibilidade demonstrada antes, durante e após a prática do ilícito, causando estupor, mesmo em pessoas calejadas como eu, levando-me a questionar, como sói ocorrer, a própria essência do ser humano e a sua capacidade de fazer o mal.

Se é notório que a vida profissional impõe a determinados indivíduos conviver com pessoas de conduta heterodoxa, como é o caso de criminosos dos mais diversos matizes, não é menos verdadeiro que todos nós, indistintamente, na convivência social, somos compelidos a lidar com toda sorte de pessoas, muitas das quais não cansam de nos surpreender pela capacidade de fazer o mal.

Surpreender-se com as boas ações é tudo que queremos. Surpreender-se pela maldade é tudo que abominamos, daí que, malgrado convivamos diariamente com a maldade do ser humano, de menor ou maior intensidade, há ações que, no mínimo, nos causam indignação; e não são poucas, e em razão das quais o Estado nem sempre responde à altura, criando em nós uma grave sensação de que perdemos o controle de tudo.

Cito, à guisa de exemplo, o sofrimento infligido ao cachorro comunitário Orelha, espancado, segundo notícias veiculadas na imprensa, por adolescentes, na Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina, fato que comoveu o país a ponto de unir, inclusive, radicais de direita e esquerda, tamanha a revolta e inquietação provocadas.

Esse fato, e tantos outros do cotidiano, levaram-me a essas reflexões sobre a maldade entre nós, uma perversidade que, como temos visto, tem desumanizado o ser humano, presente em várias momentos e circunstâncias da nossa vida; maldade que, por vezes, viceja dentro dos próprios lares brasileiros, na medida em que não são poucos os que tornam o lar um ambiente tóxico, onde se respira ódio e se promove discórdia, impregnado, portanto, de crueldade, falta de respeito, consideração e solidariedade.

A verdade é que, infelizmente, banalizamos a maldade, cumprindo anotar que muitos artífices dessas ações que fazem parte da nossa vida, tomam café, almoçam e jantam com a família, abraçam e beijam filhos e companheiro(a) antes de sair de casa, e, para completar, ainda fazem o sinal da cruz, frequentam igrejas e templos, colocando Deus como refúgio de tudo, deixando a desumanidade ainda mais demoníaca.

Mas a maldade se apresenta de muitas formas. Pode estar na ação, como pode residir na omissão de muitos de nós, que não se sentem à vontade para denunciá-la, contribuindo para que se perpetue. Essa é a maldade – por omissão – que se apresenta em uma de suas facetas mais perversas, como ocorre, por exemplo, com quem filma um acidente em vez de ajudar as vítimas ou com quem passa diante de um morador de rua, clamando por uma ajuda, olhando-o com indiferença, como se ele fosse um poste.

Outro tipo de maldade a que tenho chamado a atenção é a que decorre do linchamento virtual, quando milhares de pessoas destilam ódio por trás de um avatar, como se fossem justiceiros, enquanto destroem a saúde mental das vítimas; maldade, diria, covarde e sem rosto.

O grave é que essas ações deletérias contam, não raro, com a nossa omissão, como acima anotado, o que, de certa forma, estimula a algoz a persistir na prática da maldade, revelando que o mundo “é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas, sim, por causa daqueles que observam e deixam que o mal aconteça.”

Essa frase, atribuída a Albert Einstein, é um apelo à responsabilidade individual e à ação contra a injustiça, sugerindo que a apatia, a indiferença e a passividade da maioria (aquelas pessoas que apenas observam) são mais perigosas do que os atos de maldade em si, pois permitem que o mal prospere sem oposição

É isso.

RECORTES DA REALIDADE

No começo do ano de 2023 foi instalada, na Câmara dos Deputados, a CPI do MST, Movimento dos Sem-Terra. Do coligido na referida CPI, coloco em realce o diálogo havido entre o professor José Geraldo de Sousa Júnior, doutor em Direito da Universidade Nacional de Brasília, e a deputada Caroline de Toni (PL-SC).

Deputada da Caroline de Toni (PL-SC):

“[…] E é isso que a gente quer: transparência, legalidade, impessoalidade, gestão pública eficiente. Por isso que a gente está nessa CPI para desmascarar os crimes e para chegar, não só à verdade dos fatos, mas também, aqui, realmente, se é para dar terras para as pessoas, que elas mereçam efetivamente.

José Geraldo de Sousa Júnior, em resposta:

“[…] Eu só queria dizer assim. Otávio Paz, no Labirinto da Solidão, diz que os indígenas, quando Colombo chegou, não viram as caravelas, não viram que elas estavam ali fundiadas […], não havia cognição para poder representar cerebralmente uma imagem que era absolutamente incompatível com o quadro mental de uma cultura que não tinha elementos para visualizar. Eu não tenho como discutir com a deputada porque a sua visão de mundo, da sua percepção como cosmovisão só lhe permite enxergar o que a senhora já tem inscrito na sua cognição. Então, a senhora vai ver não é o que existe, mas é o que a senhora recorta da realidade. A realidade é recortada por um processo cognitivo de historialização. Então eu não posso discutir um tema que contrapõe visão de mundo, concepção de mundo […]”

Deputada Caroline de Toni, em seguida:

“[…] Ele me ofendeu. Com todo o respeito. Tentou vir com categoria acadêmica debochar da nossa cara. […]”.

Não, Deputada, não houve ofensa. É apenas a constatação de uma realidade indiscutível, cada dia mais presente em nossas vidas. As pessoas só veem mesmo o que desejam ver, ou seja, apenas os recortes que fazem da realidade.

Nos dias presentes, as pessoas têm uma maneira particular de ver o mundo, uma cosmovisão obliterada pelo sectarismo, pelo fanatismo, pelo engajamento, de modo que só têm olhos para o que lhes importam.

É dizer: cada dia mais o ser humano só reage em face do que já está inscrito na sua cognição, daí que até conceitos que antes eram indiscutíveis – como ditadura, democracia, legalidade, arbitrariedade e liberdade, por exemplo -, hoje são relativizados, a depender, sempre, da visão de mundo de cada uma, ou seja, em vista daquilo que veem, visão que macula, na origem, o processo de cognição.

À guisa de exemplo, lembremo-nos do que ocorre com a ação penal n. 2668, na qual estão sendo julgados os protagonistas de uma tentativa de golpe, segundo o Procurador-Geral da República, secundado pela 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal.

Pois bem. Para determinada parcela da população, não há dúvidas de que a imputação procede e, por isso, devem ser punidos os autores dos crimes. Para outra parcela, com as mesmas informações, em face dos mesmos fatos e mesmas tipificações, tudo não passaria de perseguição política, a reafirmar que cada um vê o que quer, a reafirmar, no mesmo passo, a seletividade da cognição a que me reportei acima.

Como pontuou o ilustre professor, gostemos ou não da sua fala, as pessoas só conseguem perceber aquilo que está escrito em sua cognição, simplesmente porque não desejam, se recusam a ver a realidade, por mais cristalina que ela possa parecer.

Algumas vezes, até tentamos fazer as pessoas enxergarem a realidade. Essa luta, no entanto, para quem não quer vê-la, resulta embalde, daí que é preciso admitir, perdemos tempo nas tentativas de demover, por exemplo, um fanático político de suas “convicções”, em face do que já está sedimentado em sua cognição, fruto dos recortes que faz da realidade.

É isso.

SOMOS RECONHECIDOS PELO QUE SOMOS?

Muitas vezes, não. Aliás, raramente. E, quando isso acontece, pode ocorrer – e ocorre mesmo – de sermos analisados muito mais em face dos nossos defeitos do que em razão das nossas virtudes.

Penso que o ideal mesmo seria que, quando nos “julgassem” – e estamos sempre submetidos ao escrutínio do semelhante –, o fizessem a partir de um combo, ou seja, pelas nossas virtudes e pelos nossos defeitos.

Não é assim, entrementes, que as coisas funcionam, disso resultando que, não raro, somos julgados pelo que, rigorosamente, não somos, na medida em que os nossos defeitos são destacados, quase sempre em detrimento das nossas virtudes.

A verdade é que não há como controlar o pensamento e as ações das pessoas em relação ao semelhante, pela singela razão de que não há mesmo como mudar a concepção que cada um forma do próximo, pelo que só nos resta mesmo aceitar, com serenidade, os julgamentos aos quais somos submetidos, me conduzindo a lembrar da Oração da Serenidade, escrita em 1934, pelo teólogo Reinhold Niebuhr, nesses termos: “Deus, conceda-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar; a coragem para mudar as coisas que posso; e sabedoria para saber a diferença”.

Não temos, como dito acima, nenhum controle sobre o comportamento do semelhante; quando muito, com esforço e determinação, controlamos as nossas próprias pensamentos, buscando reconhecer nas pessoas as virtudes que elas têm e evitando não julgá-las por aquilo que não são ou apenas em face dos seus defeitos.

Nesse sentido, é preciso reconhecer que há, sim, situações que passam à margem do nosso controle. Não é o caso, contudo, dos julgamentos a que submetemos os nossos semelhantes, que poderiam, sim, ser mais justos, se essa for a nossa predisposição.

Se, ao acordarmos, introjetamos em nós o sentimento de que as pessoas com as quais vamos lidar durante o dia são arrogantes, prepotentes, desonestas, invejosas e ranzinzas, por exemplo, dificilmente reconheceremos nelas suas virtudes, nos levando, nesse passo, por óbvio, a não reconhecê-las pelo que realmente são.

As pessoas que iniciam sua jornada diária pré-julgando o semelhante são também incapazes de distinguir a beleza da feiura, a maldade da bondade, a luz da escuridão, razão por que, do mesmo modo, são incapazes de verem as pessoas como elas realmente são.

A mente obliterada pelo preconceito torna as pessoas incapazes de reconhecer o ser humano como ele efetivamente é, na medida em que as nossas pré-compreensões são limitadoras da nossa capacidade de ver o que deve ser visto, de sentir o que deve ser sentido.

Importa lembrar, aqui e agora, a propósito dessas reflexões, a lição de Marco Aurélio, segundo a qual, se não temos poder sobre os eventos externos, temos, sim (ou deveríamos ter, digo eu), sobre a nossa mente, porque a partir dela encontramos o caminho para avaliar o que deve ser avaliado e como deve ser avaliado, para julgar o que deve ser julgado e reconhecer o que deve ser reconhecido; assim agindo, seríamos capazes de ver o semelhante como ele efetivamente é.

É de Epicteto a lição comezinha: “A principal tarefa na vida é simplesmente esta: identificar e separar assuntos de modo que eu possa dizer claramente para mim quais são os aspectos externos que não estão sob meu controle e quais têm a ver com as escolhas que eu realmente controlo”, ensinança que, aplicada ao tema que elegi para essas reflexões, pode assim ser traduzida: reconhecer as virtudes do semelhante é apenas uma questão de escolha, tudo está a depender apenas de nós mesmos, desde que, claro, não nos deixemos levar pelos nossos preconceitos e pré-compreensões.

É isso.

PRODUTIVIDADE EXTRAORDINÁRIO-UMA REALIDADE

Eleito Corregedor-Geral da Justiça, defini a produtividade como prioridade. O objetivo era melhorar o tempo de tramitação dos processos, o que resultaria em uma solução mais célere para os conflitos judicializados.

Nesse sentido, aloquei servidores valorosos e com expertise comprovada em pontos estratégicos. Primeiro, busquei conhecer a fundo nossa realidade para, a partir dela, agir na busca de soluções para o macroproblema que aflige todos os tribunais do país: a demora na entrega do provimento jurisdicional.

Dessa busca por melhoria nos nossos indicadores, foi concebido, por exemplo, o Núcleo de Inteligência. Os dados coletados em diversas unidades por esse Núcleo nos auxiliaram a otimizar o tempo de tramitação dos processos no Estado, a partir de listas elaboradas com os processos que necessitavam de maior atenção. Essas listas eram enviadas às unidades para execução, pondo fim, definitivamente, aos chamados mutirões, que se mostraram, com o tempo, uma prática ultrapassada.

Todo esse planejamento foi baseado em dados levantados também pelo setor de Planejamento Estratégico. Avançamos, então, da prospecção para a execução de medidas concretas voltadas à melhoraria dos nossos índices. Nesse esforço, e com maior destaque, foi concebido o projeto Produtividade Extraordinária, com seus eixos: Juiz Extraordinário, Analista Extraordinário, Secretaria Extraordinária, Oficial de Justiça Extraordinário e Contadoria Extraordinária. A esse projeto, somou-se o Chamamento Judicial, concebido na Presidência do Tribunal de Justiça, replicando experiência do Superior Tribunal de Justiça, cuja execução ficou sob nossa responsabilidade.

Essas ações, aqui expostas de forma simplificada, resultaram em expressiva melhoria dos nossos números, culminando na maior produtividade da história do Poder Judiciário do Maranhão, desde a implementação das metas nacionais pelo CNJ.

Mas é preciso reconhecer, no entanto, que nada disso seria possível sem a determinação de nossos juízes e juízas, sem a força de vontade de nossos servidores (incluindo residentes e estagiários) e sem a decisiva contribuição de nossas Coordenadorias.

Digo, ainda, com a mesma ênfase, que, sem o apoio incondicional da Presidência do Tribunal de Justiça, também não teríamos alcançado a melhoria tão expressiva de nossos indicadores.

Esses resultados colocam o Judiciário maranhense, definitivamente, no panteão dos Tribunais mais produtivos do país, o que pode ser confirmado pelos números a seguir destacados, com a evolução registrada nos últimos doze meses:

Resultados Comparativos (Julho de 2024 x Julho de 2025)

Tempo médio de tramitação de processos de Feminicídio:

?2024: 762 dias

?2025: 348 dias

Redução: 414 dias (54%)

Tempo médio de tramitação das Ações de Violência Doméstica:

?2024: 869 dias

?2025: 505 dias

Redução: 364 dias (41%)

Tempo médio de tramitação das Ações de Saúde:

?2024: 395 dias

?2025: 285 dias

Redução: 110 dias (27%)

Tempo médio de tramitação das Ações Penais de Competência do Júri:

?2024: 1.874 dias

?2025: 1.349 dias

Redução: 525 dias (28%)

Tempo médio de tramitação das Ações Penais:

?2024: 1.459 dias

?2025: 1.079 dias

Redução: 380 dias (26%)

Redução do Acervo Pendente de Julgamento (processos distribuídos até 2022):

?2024: 28% do total de processos tramitando

?2025: 14% do total de processos tramitando

Redução: 50% do acervo

Redução da Taxa de Congestionamento Líquida:

?2024: 56%

?2025: 52%

Redução: 4% (representa uma redução de 4% no acervo de processos pendentes em tramitação no 1º Grau)

Indicador de Atendimento à Demanda (IAD):

?2024: 56% das unidades com IAD acima de 100%

?2025: 68% das unidades com IAD acima de 100%

Aumento: 12% (mostra que 68% das unidades judiciais de 1º Grau conseguiram resolver mais processos do que receberam)

Julgamento de Ações Ambientais (distribuídas até 2021):

2024: 4% haviam sido julgadas

2025: 42% haviam sido julgadas

Aumento: 38%

Além dos dados acima, cabe anotar que, no mês de julho de 2025, o TJMA superou, pela primeira vez em sua história, a marca de 100 mil processos baixados em um único mês.

Com esses números, monitorados contínua e incessantemente pelo setor de Inteligência da CGJ, posso dizer que, definitivamente, alcançamos uma produtividade extraordinária. O que começou como um projeto se tornou uma realidade, enchendo de orgulho a magistratura do nosso Estado.

É isso.

VAGÃO DA CONCILIAÇÃO-UMA VIAGEM PELA CIDADE

Nos dias 14 e 15 do corrente mês, a convite do desembargador José Nilo Ribeiro Filho, presidente do NUPEMEC – Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos –, embarcamos, eu e o desembargador Jorge Rachid Mubárak Maluf, com os consultores do Prêmio Innovare, Antônio Pontes de Aguiar Filho e Antônio Nery, o gerente jurídico Norte/Nordeste da Vale, Rômulo Nélson, além de um grupo relevante e necessário de conciliadores, liderados de perto pelo juiz Rodrigo Nina, no trem da Vale, para o que chamo de verdadeira viagem pela cidadania.

Na ocasião, testemunhamos de perto a realização de um dos mais auspiciosos e bem-sucedidos projetos do Tribunal de Justiça do Maranhão, pois materializa, fundamentalmente, à aproximação que tanto almejamos entre o Poder Judiciário e os cidadãos.

No referido trem, mais precisamente no já famoso “vagão da conciliação”, fruto da exitosa parceria entre a Vale e o Poder Judiciário, todos pudemos testemunhar a relevância das ações da Justiça quando dirigidas, especialmente, aos mais humildes — aqueles para os quais o acesso aos serviços judiciais constitui quase uma aventura e cujas demandas, muitas vezes, transformam-se em uma viagem sem fim.

Diferentemente do que ocorre com as decisões que resultam da judicialização — sem prazo e sem hora para se tornar exequível, pelos mais diversos motivos —, no “vagão da conciliação” vimos muitos sonhos sendo realizados, e nenhum sendo desfeito, destacando-se, entre os concretizados, o do casal Régio Brito Santos e Maria da Conceição Nogueira Coelho que, após 42 anos de união estável, finalmente, concretizou, no vagão da Vale, o desejo de formalizar juridicamente a sua união.

O exemplo acima, citado à guisa de ilustração, por ser o mais cintilante dos sonhos tornados realidade no “vagão da conciliação” – também denominado, pelo desembargador Jorge Rachid Mubárak Maluf, de “vagão da cidadania”, considerando-se que o projeto transcende a conciliação ou sua tentativa, destinando-se, ademais, as consultas jurídicas e atendimentos diversos -, é a reafirmação do óbvio, ou seja, de que a Justiça precisa ir onde o povo está.

Para que se tenha a dimensão do projeto, a reafirmar o seu amplo alcance, foram prestadas 93 (noventa e três) orientações jurídicas e realizados 124 encaminhamentos, números que realçam a importância do fomento ao respeito à cidadania, essencial à construção de sociedades mais justas e democráticas, em que os direitos de cada indivíduo devem ser sublimados como uma conquista da cidadania.

É de se realçar, pois, que o “vagão da conciliação” representa, objetivamente, mais uma porta aberta dentro do Sistema Multiportas do Poder Judiciário — também conhecido como Justiça Multiportas ou Tribunal Multiportas, expressão consagrada por Frank Sander, professor emérito de Harvard -, tratando-se, com efeito, de um instrumento que amplia o acesso à Justiça, confere dignidade constitucional ao cidadão, e possibilita a solução de conflitos de interesses, que não precisa, necessariamente, percorrer a tradicional via judicial.

De todo exposto, a lição que fica é clara: o “vagão da conciliação” veio para reafirmar a convicção que temos de que a solução negociada, com as partes assumindo o protagonismo da decisão construída é, definitivamente, o método mais eficaz e benéfico para resolver conflitos, pois, além de solucionar a demanda, preserva relacionamentos, reduz custos, flexibiliza negociações e presta tributo à rapidez, sem olvidar da diminuição do estresse que decorre da espera de uma decisão adjudicada.

É isso.

O VALOR DA INTROSPECÇÃO

Os dias presentes nos levam, todos concordam, a uma vida de correria, que, de seu lado, nos leva a uma quase permanente sensação de angústia, de não sermos capazes de atender às expectativas, ou seja, de não fazermos o que deve ser feito a tempo e hora, a considerar que tudo é para ontem, para agora, para já.

Pessoas como eu, de mente acelerada, que vivem a angústia da aceleração da vida, são levadas, com muito mais razão, a se perderem no caminho, tamanha a tenacidade com que me entrego aos afazeres do dia a dia, premido pelo tempo e pelas cobranças.

Por me reconhecer assim, estou sempre me cobrando um pouco menos de pressa, um pouco mais de pachorra, o que nem sempre é possível, pois, como tenho dito, minha mente é um turbilhão, processando várias coisas ao mesmo tempo, me impedindo até de realizar as introspecções – tema central dessas reflexões – que sei que preciso fazer, que todos deveriam praticar, enfim.

Os que convivem mais de perto comigo sabem que sou inclinado a análise interior, que condiz com aquilo que entendo como um processo fundamental para o meu desenvolvimento pessoal. E, quando falo em autoanálise, refiro-me, por óbvio, às introspecções, imprescindíveis nos dias de hoje, com tudo reclamando urgência.

Essas anotações são, portanto, uma advertência para a necessidade que todos temos de fazermos introspecções, voltando nossa mente para o nosso interior, mirando para dentro de nós mesmos, refletindo sobre as nossas vidas, crenças e ações, tentando contribuir, nesse processo de amadurecimento, para modificar o que deve ser modificado, construindo o que deve ser construído.

Tenho convicção de que, com uma autoanálise rigorosa, seremos capazes de selecionar nossos pensamentos e sopesar nossas angústias, nos permitindo crescer, pessoal e profissionalmente, valorizando o que importa e eliminando o que deve ser evitado.

Nesse cenário, precisamos compreender, sobretudo num mundo consumido pelas distrações das redes sociais, que todos somos capazes de fazer uma análise honesta e crítica de nós mesmos – como julgamos que somos capazes de fazer em face do semelhante -, pois que, na medida em que nos conhecermos melhor, estaremos mais preparados para entender o outro, melhorando, com consequência de uma natural evolução, as nossas relações interpessoais.

Agindo com o pensamento voltado para o próprio interior, creio, ademais, que seremos capazes de entender nossas limitações, compreender os desafios e nossa capacidade – ou incapacidade – de enfrentá-los, alinhar os nossos interesses, valorizar as nossas conquistas, crescer com as desditas, compreender melhor os nossos pontos fortes e fracos, bem como as crenças limitantes de nossas ações, com o que, no mesmo passo, seremos igualmente capazes de desenvolver empatia e capacidade de compreender melhor os outros, nos levando a uma melhoria contínua na seleção das nossas escolhas.

É isso.

A LIÇÃO SABEMOS DE COR, SO NOS RESTA APRENDER

Antes, uma história da vida real.

O ator João Miguel, quando tinha nove anos, apresentava um programa numa televisão local, em Salvador. Determinado dia, teve que entrevistar o genial Glauber Rocha (14/03/1939 – 22/08/1981), cineasta, ator, roteirista, produtor e crítico do cinema brasileiro. Muito nervoso diante do mito, o inexperiente ator começou a entrevista enfiando os pés pelas mãos:

-Glauber, eu vou te perguntar uma pergunta…

O cineasta interrompe o menino:

-E eu vou te responder uma resposta.

Qual a lição que se tira dessa historinha prosaica, trazida à colação a guisa de ilustração?

Que, de rigor, as coisas óbvias, de tão óbvias, não precisariam ser ditas.

Ainda assim, a vida tem nos ensinado que, mesmo sendo óbvias, às vezes a gente precisa dizer aquilo que todos têm em conta como verdade indiscutível, mas que não fazem uso como prática de vida.

Pois é sobre uma obviedade que pretendo refletir, aqui e agora.

Pois bem. A vida, dizem, é uma escola, disso resultando que, se recebemos dela lições diárias, de rigor, só nos restaria mesmo aprender.

Nada obstante, a verdade é que, conquanto se saiba a lição – para usar a expressão cunhada pelo grande Beto Guedes, tomada de empréstimo para essas reflexões -, não são muitos os que a aprendem. Daí que não são poucos os que, mesmo cientes dos ensinamentos, seguem passando à margem do que deveriam ter aprendido.

Nos dias de hoje, a lição mais comezinha que a vida ministra a todos nós, indistintamente, e que muitos sabem de cor, mas se negam a aprender, é que não se deve acreditar na primeira informação, ou seja, não se deve formar convicção sem checar a veracidade do que foi dito, sem, ademais, dar a oportunidade de a outra parte se manifestar sobre eventual irrogação.

A impulsividade, a precipitação, a crença acrítica e desprovida de discernimento diante da primeira informação – tomada como verdade absoluta e, em seguida, disseminada -, têm levado as pessoas, nesses tempos de reconhecida polarização e contaminação do debate político, a uma falsa percepção da realidade. Disso resultando prejuízos incalculáveis à vida de muitos de nós, sobretudo quando a “verdade” envolve as pessoas que exercem múnus público, com muita visibilidade, mais sujeitas, portanto, por óbvias razões, ao escrutínio popular.

Eu, cá do meu lado, já tendo vivido muito, ressabiado, ademais, em face dos exemplos que testemunhei ao longo da minha provecta existência, já tendo, portanto, aprendido a lição, sempre me apresso, diante de uma informação, ainda que seja trivial, em checar, ponderar, ouvir o outro lado, para evitar julgamentos precipitados, muitos dos quais, não raro, objetivam, nesses dias marcadamente intolerantes, deslustrar a história e a honra dos que são alvos das maledicências do mundo, potencializadas, como sói ocorrer, nos dias de fúria que vivemos, a reafirmar a necessidade de sermos prudentes diante da primeira informação, da primeira notícia.

Por má-fé, ou por não ter sido dado oportunidade de defesa em face das mentiras veiculadas, é que inverdades históricas se perpetuaram, com consequências graves para a sociedade em geral e para indivíduos em particular, como se deu, por exemplo, com Maria Antonieta, Rainha da França, que jamais teria dito a frase “se não têm pão, comam brioches”, mas que a ela resultou associada, num momento de forte tensão, cujas consequências todos temos ciência, a reafirmar que ainda temos muito que aprender, malgrado as lições que a vida nos proporciona todos os dias.

É isso.