Respondo à indagação dizendo que sim, lembrando que, quando Jean-Paul Sartre cunhou a frase que tomo de empréstimo para título desta crônica, não quis dizer que as pessoas são ruins, mas, sim, que nós é que, frequentemente, nos enxergamos e nos definimos a partir do olhar e do julgamento alheios, onde o inferno verdadeiramente habita.
Nesse sentido, eu mesmo, ao longo da minha vida – sobretudo profissional -, embora sempre me expusesse em demasia por meio dos meus escritos e das inúmeras entrevistas que concedi – algumas delas polêmicas -, senti-me frequentemente incomodado com o escrutínio do semelhante, tomado pela sensação – e, às vezes, pela certeza – de que era julgado muito mais pela percepção equivocada dos outros – onde o inferno habita – do que pela minha conduta pessoal e profissional.
Na prática, o que fiz durante toda a minha vida, de forma até contraditória – porque nunca suportei os julgamentos dos outros, muitas vezes perversos, mas insisti, como faço até hoje, em me posicionar e dar a cara a tapa -, foi expor-me para, logo em seguida, sofrer as consequências dessa exposição. Em face dos julgamentos do semelhante, desperdicei energia tentando me encaixar em grupos de pessoas, sem jamais possuir a capacidade – ou talvez a vocação – de vestir o figurino que esses grupos exigiam. Para eles, concluo hoje, o mais relevante nunca foi quem eu era, mas o estereótipo de arrogante e antipático que construíram a meu respeito.
O julgamento alheio e a convicção de que jamais me enquadraria em determinados padrões fizeram-me padecer sob a certeza de estar submetido a avaliações injustas, convindo lembrar, para ilustrar, que certa feita, disputando uma promoção por merecimento – que, afinal, nunca veio -, um magistrado de segundo grau, detentor de poder de voto, ao ser indagado sobre a razão de não votar em mim, respondeu candidamente: – Ele não é simpático.
É dizer: o inferno não estava em mim. O inferno estava em quem me julgava pela falta de simpatia, sem qualquer consideração pela minha história profissional e pela dedicação que sempre demonstrei – dedicação que me levou, diferentemente da maioria dos colegas, a fixar residência em todas as comarcas pelas quais passei.
O certo é que vivemos, na prática, tentando ser aceitos e nos encaixar em determinados padrões. Aquiescemos, por exemplo, com propostas que, em verdade, gostaríamos de recusar; escondemos, muitas vezes, a nossa opinião por medo da rejeição; agredimos a nossa própria essência, quando o correto seria agir de acordo com os nossos valores, com a nossa compreensão de mundo e com as nossas próprias conveniências, sem a permanente preocupação com o inferno que habita nos outros.
Como proclamam os existencialistas, a vida não vem pronta. Cada pessoa constrói a si mesma por meio das escolhas que faz todos os dias. Eu fiz muitas escolhas erradas. Uma delas foi tentar ser simpático para ser aceito. Tentei ser palatável sem possuir vocação para isso. Tentei me enquadrar numa vestimenta que nunca foi a minha para agradar aqueles que jamais tiveram disposição para compreender que somos, todos, diferentes.
Depois de tantos anos vividos em corporações, a única certeza que hoje possuo é a de que os maiores sofrimentos que experimentei decorreram dos julgamentos a que fui submetido por não conseguir – embora tenha tentado – amoldar-me à indumentária que me impuseram e que, ao final, recusei vestir. Daí que sempre me senti – sem perceber – prisioneiro do que pensavam de mim, do que diziam – a pecha de arrogante, por exemplo – e do que esperavam que eu fosse.
Apesar de tudo, apesar das cobranças que recebi e dos rótulos que me impuseram, das etiquetas que insistiram em colar na minha testa, nunca permiti, em essência, que os outros definissem quem eu era. Admito que essa luta foi dura e tenaz. Houve momentos em que quase sucumbi ao desejo de corresponder às expectativas alheias. Mas foi justamente essa experiência que me levou à conclusão de que o inferno nunca esteve em mim. Sempre esteve no olhar daqueles que pretenderam definir-me, quando, rigorosamente, nunca permiti, não permito e jamais permitirei que o façam.
É isso.