O CANTO DA SIRENA

Na intimidade, costumo contar a minha maior decepção; aquela que modificou a minha vida – e a de muitos no meu entorno -, levando-me a ser quem sou, daí posso afirmar que ela foi o combustível que me moveu – e ainda me move – até os dias atuais. É algo muito pessoal, e somente os mais íntimos sabem dela e do que ela significa para a minha vida.

Essa grande decepção – como as decepções em geral – tem a ver, sim, com as expectativas que criei – e que criamos – em torno de quem, podendo ser uma referência, preferiu tornar-se a minha maior desilusão.

Como qualquer ser humano, fui construindo, na infância, na juventude e até na vida adulta, um castelo de sonhos e de expectativas em torno de quem, depois, se revelou um engodo, fazendo ruir o castelo que construí, e, com isso, claro, os meus sonhos, levando-me a uma enorme frustração que marcou a minha vida e a da minha família, conquanto já houvesse sinais, desde muito cedo, de qual seria o desfecho.

A verdade é que alimentamos a nossa mente de sonhos e expectativas. Nesse afã, edificamos verdadeiros castelos de areias, que, por esta ou aquela razão, acabam sendo derrubados pela realidade, deixando-nos um sentimento de frustração, decepção e desilusão.

O que desejo, a propósito dessas reflexões, é reafirmar que, sendo a decepção um sentimento universal, que nos afeta em determinados momentos da vida, o ideal seria não nos deixarmos levar pelo “Canto da Sirena” – aqui usado metaforicamente para descrever algo que é atraente e sedutor, mas que pode conduzir a consequências negativas ou perigosas – e que, ao fim e ao cabo, pode nos levar de encontro aos rochedos.

Importa indagar, pois, em face do que me proponho a refletir aqui e agora: as decepções são evitáveis? A quem cabe a responsabilidade por elas? A nós mesmos, em face das nossas fraquezas e incapacidade de discernimento? Ou devemos imputá-las às pessoas em torno das quais construímos nossos sonhos?

Penso que, na maioria das vezes, o responsável pelas nossas decepções somos nós mesmos, incapazes que somos de compreender que as pessoas são o que são, que têm seus próprios sonhos e desejos, os quais não correspondem, necessariamente, aos nossos interesses e às nossas expectativas.

É preciso compreender – e muitas vezes não somos capazes de discernir – que as pessoas são únicas, que cada uma carrega suas próprias lutas, medos, desejos e sonhos, nos quais, muitas vezes, não estamos incluídos.

O que se deve fazer, então?

Há apenas um caminho: gerenciar os nossos sonhos e olhar a realidade como ela se apresenta. Assim o fazendo, podemos, sim, controlar nossas expectativas em face do semelhante, para, no mesmo passo, controlar as nossas frustrações.

Quando nos decepcionamos com alguém, devemos aproveitar o ensejo para refletir sobre as expectativas que depositamos nessa pessoa, pois a decepção pode estar muito mais em nós do que em outrem.

O sentimento de tristeza ou frustração, decorrente de uma expectativa não alcançada, pode ser uma singular oportunidade para levantar a cabeça, para abrir a camisa, encher o peito e marchar firmemente noutra direção – que não seja aquela que nos leve aos rochedos do naufrágio, como ilustra a alegoria que utilizei.

Como anotado acima, mas importa reafirmar: a decepção não se dá, necessariamente, em face dos outros, mas, muitas vezes – embora não admitamos -, por nossa conta e risco, quando fracassamos em nossas metas pessoais e atribuímos a alguém uma quebra de confiança que, na verdade, só existiu em nossa mente.

É preciso, portanto, romper com os sonhos que sabemos ser irrealizáveis, em função dos quais somos os maiores responsáveis, na medida em que projetamos nos outros nossos desejos e expectativas, que podem, sim, nos levar a uma intensa tristeza e enorme frustração, permeadas de raiva e desmotivação.

É isso.

Retomando as publicações diárias

Decidi deixar de publicar as minhas reflexões do Facebook e no Twitter.

Os motivos foram os mais variados. Acho que não convém mencionar aqui.

Posso dizer apenas que, para os meus objetivos, o melhor espaço mesmo é o proporcionado pelo  blog, razão pela qual entendi devesse abrir mão das demais mídias.

Vou tentar, na medida do possível, pouco importando o alcance do post, publicar, todos os dias, uma reflexão acerca das coisas que penso e acredito, comprometido apenas com a verdade.

SIMPATIA E GENTILEZA NÃO COMBINAM COM A DIFÍCIL MISSÃO DE JULGAR

contatos

jose.luiz.almeida@globo.com ou jose.luiz.almeida@folha.br

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Tenho medo que as novas gerações, diante de tanta impunidade, de tanta lassidão, de tanta omissão, de tanta discriminação, cheguem à conclusão que não vale à pena agir com retidão.
No exercício da difícil missão de julgar, nós, magistrados, não precisamos ser simpáticos. Simpatia e gentileza não combinam com a difícil, quase impossível arte de julgar; o magistrado, desde meu olhar, só precisa mesmo é ser justo, firme e decidido.
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Nada me agasta mais, ou melhor, poucas coisas me causam mais aborrecimento – até revolta, às vezes – que a falta de consciência de quem exerce uma função pública.

O execício da função pública não é para deleite pessoal, para desfilar vaidades, para regozijos ou patuscadas. É para servir mesmo! É assim que compreendo as coisas e é por isso que, às vezes, sou compelido a desabafar; desabafo que, não raro, é confundido com arrogância pelos que não têm a exata dimensão do que é a coisa pública.

Desde sempre tenho sido assim. Só ainda se surpreende com as minhas posições quem teima em não dar importância – ou não conhece – as minhas convicções pessoais.

Quem me conhece sabe que nunca fui de evasivas, rodeios ou subterfúgios. Nunca fui de procurar atalho, o caminho mais fácil. Não sei, definitivamente, ser sinuoso. O meu caminho é reto, frontal, proeminente.

Sou de encarar as coisas de frente. Não sou do tipo que joga pedra e esconde a mão. Isso não fica bem para um magistrado.

No exercício das minhas funções, pouco importa os que me compreendam mal, os que me julgam em face da falta que a simpatia me faz. Não sou mesmo palatável aos que não têm a exata dimensão do múnus. A minha obsinação em torno dessas questões me fazem mesmo indigerível.

No exercício da difícil missão de julgar, nós, magistrados, não precisamos ser simpáticos. Simpatia e gentileza não combinam com a difícil, quase impossível arte de julgar; o magistrado, desde meu olhar, só precisa mesmo é ser justo, firme e decidido.

Tenho entendido – e, por isso, não raro, fico indignado – que nada pode ser mais deletério para o conjunto da sociedade que a impunidade ou sensação dela, máxime se decorrentes da lassidão, da pachorra, da falta de espírito público de determinados agentes do Estado.

 

 

 

CONTINUAR

AS PESSOAS PODEM FALAR TUDO QUE PENSAM?

rolling-stones-lingua1Eu estava retornando de Brasília, não lembro o número do voo, mas me recordo que estava sentado na poltrona C, na primeira fila, no chamado assento +, da TAM.

Na fila 02, lado oposto, assento D, havia uma senhora loira, com uma criança morena, de cerca de 02 anos.

Essa criança, certamente muito saudável, deslumbrada com o ambiente, corria e gritava muito. Era só alegria.

Comecei a curtir a alegria da criança embevecido, afinal ver uma criança feliz é um alento, tanto que parei de ler para curti-la.

A comissária de bordo, contagiada com a alegria da criança, começou a brincar com ela, o que açulou ainda mais a sua desenvoltura.

A mãe, preocupada com os gritos da criança, tentou, incontáveis vezes, controlá-la, em vão.

Da poltrona que se seguia à minha, fila dois, poltrona B, uma pessoa do sexo masculino, incomodada com os gritos da criança, dirigiu-se à mãe dela e lhe disse na lata, indelicadamente:

-Se ela dessa idade não lhe obedece, espere  pra ver quando ela crescer.

A mãe da criança, estupefata com aquela manifestação, olhou para o mesmo, com ar de indignação, visivelmente constrangida, limitando-se a dizer-lhe:

-Moço, ela é apenas uma criança de dois anos.

Incomodada, pediu à comissária que lhe trocasse de lugar.

Distante, lá atrás, a criança, como que sentindo o constrangimento pelo qual passara a sua mãe, calou-se o resto do voo.

A indagação que faço, a propósito desse acontecimento, é se temos o direito de dizer tudo o que pensamos ou se as regras de educação nos impõem limites.

 

PREFEITO TEM PAI?

200px-gracilianoramosDepois das eleições municipais todos buscam explicação para o que pretendeu dizer o eleitor com o seu voto. As análises são as mais diversas, muitas das quais sem nenhuma base científica.

Eu prefiro, de meu lado, uma reflexão, digamos, mais literária, por isso aproveito o ensejo para uma mensagem que vem de Graciliano Ramos e que deveria servir de exemplo aos nossos alcaides.

Pois bem.

Graciliano Ramos,. prefeito de Palmeiras dos Índios, mandou recolher os animais que ficavam soltos nas ruas. O funcionário encarregado de cumprir a determinação disse não tê-la cumprido integralmente porque deixará de recolher os cachorros do pai de Graciliano, que, na oportunidade, reprovando-o pela atitude, disse-lhe, curto, grosso e objetivo:

-Prefeito não tem pai, meu filho.

 

VIVENDO EM OUTRO MUNDO

 

 

Celso Antonio Bandeira de Melo, a propósito das manifestações a favor do impeachment, disse o seguinte: “O mais curioso é que são pessoas da alta classe média. Elas não trabalham, pois podem se dar ao luxo de fazer arruaça. Já os que trabalham não podem . Pode até parecer que eles são maioria, mas não são. É uma minoria de elite lutando contra os pobres”.

Em que mundo esse senhor vive?

É PRECISO QUALIFICAR O DEBATE

O juiz, com qualquer outro profissional ,  deve  ter o senso crítico  aguçado, atilado. Mas só isso não basta. Deve, ademais,  estar preparado para o bom combate. Mas não deve fazê-lo apenas para satisfazer ao seu ego, sem conteúdo e sem preparo intelectual. O preparo intelectual, tenho dito, deve ser perseguido, obstinadamente, antes, durante e depois dos julgamentos, para qualificar o debate. Quem não se prepara intelectualmente para argumentar tende a usar os argumentos da força ao invés da força dos argumentos.

Agradecimento

Apesar de ter deixado de postar matéria com regularidade, decisão que tomei depois de concluir estar sendo repetitivo nas minhas colocações, a par das minhas convicções, observo, nos dados estatísticos do blog, que as pessoas continuam acessando ao mesmo e curtindo os poucos artigos que tenho postado.

Sendo assim, sinto-me quase na obrigação de continuar postando matérias com mais frequência, o que farei doravante, mas, claro, sem a mesma impetuosidade de antes.

Agradeço, portanto, aos que continuam compartilhando comigo as minhas reflexões, na certeza de que elas retratam, com fidelidade, a minha prática de vida.