SOMOS RECONHECIDOS PELO QUE SOMOS?

Muitas vezes, não. Aliás, raramente. E, quando isso acontece, pode ocorrer – e ocorre mesmo – de sermos analisados muito mais em face dos nossos defeitos do que em razão das nossas virtudes.

Penso que o ideal mesmo seria que, quando nos “julgassem” – e estamos sempre submetidos ao escrutínio do semelhante –, o fizessem a partir de um combo, ou seja, pelas nossas virtudes e pelos nossos defeitos.

Não é assim, entrementes, que as coisas funcionam, disso resultando que, não raro, somos julgados pelo que, rigorosamente, não somos, na medida em que os nossos defeitos são destacados, quase sempre em detrimento das nossas virtudes.

A verdade é que não há como controlar o pensamento e as ações das pessoas em relação ao semelhante, pela singela razão de que não há mesmo como mudar a concepção que cada um forma do próximo, pelo que só nos resta mesmo aceitar, com serenidade, os julgamentos aos quais somos submetidos, me conduzindo a lembrar da Oração da Serenidade, escrita em 1934, pelo teólogo Reinhold Niebuhr, nesses termos: “Deus, conceda-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar; a coragem para mudar as coisas que posso; e sabedoria para saber a diferença”.

Não temos, como dito acima, nenhum controle sobre o comportamento do semelhante; quando muito, com esforço e determinação, controlamos as nossas próprias pensamentos, buscando reconhecer nas pessoas as virtudes que elas têm e evitando não julgá-las por aquilo que não são ou apenas em face dos seus defeitos.

Nesse sentido, é preciso reconhecer que há, sim, situações que passam à margem do nosso controle. Não é o caso, contudo, dos julgamentos a que submetemos os nossos semelhantes, que poderiam, sim, ser mais justos, se essa for a nossa predisposição.

Se, ao acordarmos, introjetamos em nós o sentimento de que as pessoas com as quais vamos lidar durante o dia são arrogantes, prepotentes, desonestas, invejosas e ranzinzas, por exemplo, dificilmente reconheceremos nelas suas virtudes, nos levando, nesse passo, por óbvio, a não reconhecê-las pelo que realmente são.

As pessoas que iniciam sua jornada diária pré-julgando o semelhante são também incapazes de distinguir a beleza da feiura, a maldade da bondade, a luz da escuridão, razão por que, do mesmo modo, são incapazes de verem as pessoas como elas realmente são.

A mente obliterada pelo preconceito torna as pessoas incapazes de reconhecer o ser humano como ele efetivamente é, na medida em que as nossas pré-compreensões são limitadoras da nossa capacidade de ver o que deve ser visto, de sentir o que deve ser sentido.

Importa lembrar, aqui e agora, a propósito dessas reflexões, a lição de Marco Aurélio, segundo a qual, se não temos poder sobre os eventos externos, temos, sim (ou deveríamos ter, digo eu), sobre a nossa mente, porque a partir dela encontramos o caminho para avaliar o que deve ser avaliado e como deve ser avaliado, para julgar o que deve ser julgado e reconhecer o que deve ser reconhecido; assim agindo, seríamos capazes de ver o semelhante como ele efetivamente é.

É de Epicteto a lição comezinha: “A principal tarefa na vida é simplesmente esta: identificar e separar assuntos de modo que eu possa dizer claramente para mim quais são os aspectos externos que não estão sob meu controle e quais têm a ver com as escolhas que eu realmente controlo”, ensinança que, aplicada ao tema que elegi para essas reflexões, pode assim ser traduzida: reconhecer as virtudes do semelhante é apenas uma questão de escolha, tudo está a depender apenas de nós mesmos, desde que, claro, não nos deixemos levar pelos nossos preconceitos e pré-compreensões.

É isso.

PRODUTIVIDADE EXTRAORDINÁRIO-UMA REALIDADE

Eleito Corregedor-Geral da Justiça, defini a produtividade como prioridade. O objetivo era melhorar o tempo de tramitação dos processos, o que resultaria em uma solução mais célere para os conflitos judicializados.

Nesse sentido, aloquei servidores valorosos e com expertise comprovada em pontos estratégicos. Primeiro, busquei conhecer a fundo nossa realidade para, a partir dela, agir na busca de soluções para o macroproblema que aflige todos os tribunais do país: a demora na entrega do provimento jurisdicional.

Dessa busca por melhoria nos nossos indicadores, foi concebido, por exemplo, o Núcleo de Inteligência. Os dados coletados em diversas unidades por esse Núcleo nos auxiliaram a otimizar o tempo de tramitação dos processos no Estado, a partir de listas elaboradas com os processos que necessitavam de maior atenção. Essas listas eram enviadas às unidades para execução, pondo fim, definitivamente, aos chamados mutirões, que se mostraram, com o tempo, uma prática ultrapassada.

Todo esse planejamento foi baseado em dados levantados também pelo setor de Planejamento Estratégico. Avançamos, então, da prospecção para a execução de medidas concretas voltadas à melhoraria dos nossos índices. Nesse esforço, e com maior destaque, foi concebido o projeto Produtividade Extraordinária, com seus eixos: Juiz Extraordinário, Analista Extraordinário, Secretaria Extraordinária, Oficial de Justiça Extraordinário e Contadoria Extraordinária. A esse projeto, somou-se o Chamamento Judicial, concebido na Presidência do Tribunal de Justiça, replicando experiência do Superior Tribunal de Justiça, cuja execução ficou sob nossa responsabilidade.

Essas ações, aqui expostas de forma simplificada, resultaram em expressiva melhoria dos nossos números, culminando na maior produtividade da história do Poder Judiciário do Maranhão, desde a implementação das metas nacionais pelo CNJ.

Mas é preciso reconhecer, no entanto, que nada disso seria possível sem a determinação de nossos juízes e juízas, sem a força de vontade de nossos servidores (incluindo residentes e estagiários) e sem a decisiva contribuição de nossas Coordenadorias.

Digo, ainda, com a mesma ênfase, que, sem o apoio incondicional da Presidência do Tribunal de Justiça, também não teríamos alcançado a melhoria tão expressiva de nossos indicadores.

Esses resultados colocam o Judiciário maranhense, definitivamente, no panteão dos Tribunais mais produtivos do país, o que pode ser confirmado pelos números a seguir destacados, com a evolução registrada nos últimos doze meses:

Resultados Comparativos (Julho de 2024 x Julho de 2025)

Tempo médio de tramitação de processos de Feminicídio:

?2024: 762 dias

?2025: 348 dias

Redução: 414 dias (54%)

Tempo médio de tramitação das Ações de Violência Doméstica:

?2024: 869 dias

?2025: 505 dias

Redução: 364 dias (41%)

Tempo médio de tramitação das Ações de Saúde:

?2024: 395 dias

?2025: 285 dias

Redução: 110 dias (27%)

Tempo médio de tramitação das Ações Penais de Competência do Júri:

?2024: 1.874 dias

?2025: 1.349 dias

Redução: 525 dias (28%)

Tempo médio de tramitação das Ações Penais:

?2024: 1.459 dias

?2025: 1.079 dias

Redução: 380 dias (26%)

Redução do Acervo Pendente de Julgamento (processos distribuídos até 2022):

?2024: 28% do total de processos tramitando

?2025: 14% do total de processos tramitando

Redução: 50% do acervo

Redução da Taxa de Congestionamento Líquida:

?2024: 56%

?2025: 52%

Redução: 4% (representa uma redução de 4% no acervo de processos pendentes em tramitação no 1º Grau)

Indicador de Atendimento à Demanda (IAD):

?2024: 56% das unidades com IAD acima de 100%

?2025: 68% das unidades com IAD acima de 100%

Aumento: 12% (mostra que 68% das unidades judiciais de 1º Grau conseguiram resolver mais processos do que receberam)

Julgamento de Ações Ambientais (distribuídas até 2021):

2024: 4% haviam sido julgadas

2025: 42% haviam sido julgadas

Aumento: 38%

Além dos dados acima, cabe anotar que, no mês de julho de 2025, o TJMA superou, pela primeira vez em sua história, a marca de 100 mil processos baixados em um único mês.

Com esses números, monitorados contínua e incessantemente pelo setor de Inteligência da CGJ, posso dizer que, definitivamente, alcançamos uma produtividade extraordinária. O que começou como um projeto se tornou uma realidade, enchendo de orgulho a magistratura do nosso Estado.

É isso.

VAGÃO DA CONCILIAÇÃO-UMA VIAGEM PELA CIDADE

Nos dias 14 e 15 do corrente mês, a convite do desembargador José Nilo Ribeiro Filho, presidente do NUPEMEC – Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos –, embarcamos, eu e o desembargador Jorge Rachid Mubárak Maluf, com os consultores do Prêmio Innovare, Antônio Pontes de Aguiar Filho e Antônio Nery, o gerente jurídico Norte/Nordeste da Vale, Rômulo Nélson, além de um grupo relevante e necessário de conciliadores, liderados de perto pelo juiz Rodrigo Nina, no trem da Vale, para o que chamo de verdadeira viagem pela cidadania.

Na ocasião, testemunhamos de perto a realização de um dos mais auspiciosos e bem-sucedidos projetos do Tribunal de Justiça do Maranhão, pois materializa, fundamentalmente, à aproximação que tanto almejamos entre o Poder Judiciário e os cidadãos.

No referido trem, mais precisamente no já famoso “vagão da conciliação”, fruto da exitosa parceria entre a Vale e o Poder Judiciário, todos pudemos testemunhar a relevância das ações da Justiça quando dirigidas, especialmente, aos mais humildes — aqueles para os quais o acesso aos serviços judiciais constitui quase uma aventura e cujas demandas, muitas vezes, transformam-se em uma viagem sem fim.

Diferentemente do que ocorre com as decisões que resultam da judicialização — sem prazo e sem hora para se tornar exequível, pelos mais diversos motivos —, no “vagão da conciliação” vimos muitos sonhos sendo realizados, e nenhum sendo desfeito, destacando-se, entre os concretizados, o do casal Régio Brito Santos e Maria da Conceição Nogueira Coelho que, após 42 anos de união estável, finalmente, concretizou, no vagão da Vale, o desejo de formalizar juridicamente a sua união.

O exemplo acima, citado à guisa de ilustração, por ser o mais cintilante dos sonhos tornados realidade no “vagão da conciliação” – também denominado, pelo desembargador Jorge Rachid Mubárak Maluf, de “vagão da cidadania”, considerando-se que o projeto transcende a conciliação ou sua tentativa, destinando-se, ademais, as consultas jurídicas e atendimentos diversos -, é a reafirmação do óbvio, ou seja, de que a Justiça precisa ir onde o povo está.

Para que se tenha a dimensão do projeto, a reafirmar o seu amplo alcance, foram prestadas 93 (noventa e três) orientações jurídicas e realizados 124 encaminhamentos, números que realçam a importância do fomento ao respeito à cidadania, essencial à construção de sociedades mais justas e democráticas, em que os direitos de cada indivíduo devem ser sublimados como uma conquista da cidadania.

É de se realçar, pois, que o “vagão da conciliação” representa, objetivamente, mais uma porta aberta dentro do Sistema Multiportas do Poder Judiciário — também conhecido como Justiça Multiportas ou Tribunal Multiportas, expressão consagrada por Frank Sander, professor emérito de Harvard -, tratando-se, com efeito, de um instrumento que amplia o acesso à Justiça, confere dignidade constitucional ao cidadão, e possibilita a solução de conflitos de interesses, que não precisa, necessariamente, percorrer a tradicional via judicial.

De todo exposto, a lição que fica é clara: o “vagão da conciliação” veio para reafirmar a convicção que temos de que a solução negociada, com as partes assumindo o protagonismo da decisão construída é, definitivamente, o método mais eficaz e benéfico para resolver conflitos, pois, além de solucionar a demanda, preserva relacionamentos, reduz custos, flexibiliza negociações e presta tributo à rapidez, sem olvidar da diminuição do estresse que decorre da espera de uma decisão adjudicada.

É isso.

O VALOR DA INTROSPECÇÃO

Os dias presentes nos levam, todos concordam, a uma vida de correria, que, de seu lado, nos leva a uma quase permanente sensação de angústia, de não sermos capazes de atender às expectativas, ou seja, de não fazermos o que deve ser feito a tempo e hora, a considerar que tudo é para ontem, para agora, para já.

Pessoas como eu, de mente acelerada, que vivem a angústia da aceleração da vida, são levadas, com muito mais razão, a se perderem no caminho, tamanha a tenacidade com que me entrego aos afazeres do dia a dia, premido pelo tempo e pelas cobranças.

Por me reconhecer assim, estou sempre me cobrando um pouco menos de pressa, um pouco mais de pachorra, o que nem sempre é possível, pois, como tenho dito, minha mente é um turbilhão, processando várias coisas ao mesmo tempo, me impedindo até de realizar as introspecções – tema central dessas reflexões – que sei que preciso fazer, que todos deveriam praticar, enfim.

Os que convivem mais de perto comigo sabem que sou inclinado a análise interior, que condiz com aquilo que entendo como um processo fundamental para o meu desenvolvimento pessoal. E, quando falo em autoanálise, refiro-me, por óbvio, às introspecções, imprescindíveis nos dias de hoje, com tudo reclamando urgência.

Essas anotações são, portanto, uma advertência para a necessidade que todos temos de fazermos introspecções, voltando nossa mente para o nosso interior, mirando para dentro de nós mesmos, refletindo sobre as nossas vidas, crenças e ações, tentando contribuir, nesse processo de amadurecimento, para modificar o que deve ser modificado, construindo o que deve ser construído.

Tenho convicção de que, com uma autoanálise rigorosa, seremos capazes de selecionar nossos pensamentos e sopesar nossas angústias, nos permitindo crescer, pessoal e profissionalmente, valorizando o que importa e eliminando o que deve ser evitado.

Nesse cenário, precisamos compreender, sobretudo num mundo consumido pelas distrações das redes sociais, que todos somos capazes de fazer uma análise honesta e crítica de nós mesmos – como julgamos que somos capazes de fazer em face do semelhante -, pois que, na medida em que nos conhecermos melhor, estaremos mais preparados para entender o outro, melhorando, com consequência de uma natural evolução, as nossas relações interpessoais.

Agindo com o pensamento voltado para o próprio interior, creio, ademais, que seremos capazes de entender nossas limitações, compreender os desafios e nossa capacidade – ou incapacidade – de enfrentá-los, alinhar os nossos interesses, valorizar as nossas conquistas, crescer com as desditas, compreender melhor os nossos pontos fortes e fracos, bem como as crenças limitantes de nossas ações, com o que, no mesmo passo, seremos igualmente capazes de desenvolver empatia e capacidade de compreender melhor os outros, nos levando a uma melhoria contínua na seleção das nossas escolhas.

É isso.

A LIÇÃO SABEMOS DE COR, SO NOS RESTA APRENDER

Antes, uma história da vida real.

O ator João Miguel, quando tinha nove anos, apresentava um programa numa televisão local, em Salvador. Determinado dia, teve que entrevistar o genial Glauber Rocha (14/03/1939 – 22/08/1981), cineasta, ator, roteirista, produtor e crítico do cinema brasileiro. Muito nervoso diante do mito, o inexperiente ator começou a entrevista enfiando os pés pelas mãos:

-Glauber, eu vou te perguntar uma pergunta…

O cineasta interrompe o menino:

-E eu vou te responder uma resposta.

Qual a lição que se tira dessa historinha prosaica, trazida à colação a guisa de ilustração?

Que, de rigor, as coisas óbvias, de tão óbvias, não precisariam ser ditas.

Ainda assim, a vida tem nos ensinado que, mesmo sendo óbvias, às vezes a gente precisa dizer aquilo que todos têm em conta como verdade indiscutível, mas que não fazem uso como prática de vida.

Pois é sobre uma obviedade que pretendo refletir, aqui e agora.

Pois bem. A vida, dizem, é uma escola, disso resultando que, se recebemos dela lições diárias, de rigor, só nos restaria mesmo aprender.

Nada obstante, a verdade é que, conquanto se saiba a lição – para usar a expressão cunhada pelo grande Beto Guedes, tomada de empréstimo para essas reflexões -, não são muitos os que a aprendem. Daí que não são poucos os que, mesmo cientes dos ensinamentos, seguem passando à margem do que deveriam ter aprendido.

Nos dias de hoje, a lição mais comezinha que a vida ministra a todos nós, indistintamente, e que muitos sabem de cor, mas se negam a aprender, é que não se deve acreditar na primeira informação, ou seja, não se deve formar convicção sem checar a veracidade do que foi dito, sem, ademais, dar a oportunidade de a outra parte se manifestar sobre eventual irrogação.

A impulsividade, a precipitação, a crença acrítica e desprovida de discernimento diante da primeira informação – tomada como verdade absoluta e, em seguida, disseminada -, têm levado as pessoas, nesses tempos de reconhecida polarização e contaminação do debate político, a uma falsa percepção da realidade. Disso resultando prejuízos incalculáveis à vida de muitos de nós, sobretudo quando a “verdade” envolve as pessoas que exercem múnus público, com muita visibilidade, mais sujeitas, portanto, por óbvias razões, ao escrutínio popular.

Eu, cá do meu lado, já tendo vivido muito, ressabiado, ademais, em face dos exemplos que testemunhei ao longo da minha provecta existência, já tendo, portanto, aprendido a lição, sempre me apresso, diante de uma informação, ainda que seja trivial, em checar, ponderar, ouvir o outro lado, para evitar julgamentos precipitados, muitos dos quais, não raro, objetivam, nesses dias marcadamente intolerantes, deslustrar a história e a honra dos que são alvos das maledicências do mundo, potencializadas, como sói ocorrer, nos dias de fúria que vivemos, a reafirmar a necessidade de sermos prudentes diante da primeira informação, da primeira notícia.

Por má-fé, ou por não ter sido dado oportunidade de defesa em face das mentiras veiculadas, é que inverdades históricas se perpetuaram, com consequências graves para a sociedade em geral e para indivíduos em particular, como se deu, por exemplo, com Maria Antonieta, Rainha da França, que jamais teria dito a frase “se não têm pão, comam brioches”, mas que a ela resultou associada, num momento de forte tensão, cujas consequências todos temos ciência, a reafirmar que ainda temos muito que aprender, malgrado as lições que a vida nos proporciona todos os dias.

É isso.

SOMOS LIVRES PARA AMAR

Liberdade plena é o que muitos almejamos; não a temos e nem a teremos, no entanto, por compreensíveis razões.

A verdade é que, no geral, não somos totamente livres. Nesse sentido, estamos – e sempre estaremos, enfim – jungidos a circunstâncias da vida, quando não a normativas, que impõem limites às nossas ações, disso resultando que não podemos fazer tudo que almejamos; e é bom que seja assim.

Nem mesmo nas sociedade mais primitivas a liberdade era plena, pela singela razão de que ser liberdade plena é uma utopia.

Por mais poderosos que sejamos, nunca seremos totalmente livres, porque a vida é assim, sempre foi assim, assim sempre será.

Vivendo em sociedade, convivendo com o parecente, no estabelecimento de relações interpessoais, sempre houve e sempre haverá muitas amarras a nos prender, a restringir a nossa liberdade.

O homem, definitivamente, não pode fazer tudo que lhe convém, por isso existe o necessário controle social, pois que, liberto dos grilhões que limitam suas ações, tende a abusar da liberdade.

Para disciplinar a vida em sociedade, as regras são colocadas/impostas à observância de todos. Uns as cumprem sem hesitação; outros, ao reverso, as vilipendiam, por esse ou aquele motivo. Para os que as descumprem há condenações morais e legais, sem as quais a vida em sociedade seria um caos, daí que quando não as cumprimos, temos que suportar a inflição de penas, nas suas mais variadas modalidades e dimensões.

O Estado, por seus órgãos de controle e persecução, ou a sociedade, por suas instâncias informais de controle social, reagem sempre que não nos comportamos de acordo com as regras vigentes – escritas ou morais, repito.

Agindo assim ou assado, fora dos padrões morais ou em detrimento da ordem jurídica, podemos, sim, com alguma probabilidade, ser apenados, pois é assim a vida em sociedade.

De mais a mais, vivemos presos a muitas convenções sociais, que, do mesmo modo, limitam a nossa liberdade de agir. Regras escritas, convenções ou códigos morais, impõem a todos uma relevante limitação da liberdade.

Num mundo de tantas amarras, felizmente, e aqui o ponto fulcral dessas reflexões, somos livres para amar. Não há nada que nos impeça de amar. E amando a gente faz uma revolução.

Ninguém, nenhuma regra, nenhuma ação estatal, nenhuma vontade superior é capaz de nos impedir de amar. Nada é mais livre do que o amor. E quando amamos de verdade a gente se liberta – e liberta quem amamos, se o amor não egoísta.

O amor dá sentido à vida. Estar amando alimenta e melhora o estado da alma. O mundo se transforma quando se ama. A vida tem outro sentido quando o sentimento que a move é o amor, daí que, em face da relevância desse nobre sentimento, ele deve ser cultivado, regado, alimentado todos os dias.

Noutro giro, é preciso reconhecer que o amor não perde a sua relevância por não ser um amor possível, pois o mais relevante mesmo é amar, nas suas mais diferentes formas e dimensões.

Digo, por fim e ademais, que amar, dar amor, compartilhar esse sentimento revolucionário – sobretudo com a família, mas não só com ela -, antes de escravizar, nos faz viver livremente, pois que, como proclama Santo Agostinho, quem ama pode fazer o que quiser, pois o que importa mesmo é amar.

É isso.

ENVELHECER – PARTE I

ENVELHECER – Parte I


Se me perguntarem hoje quantos anos tenho, respondo que tenho os anos que me restam; os que vivi já não os tenho mais.??

A convicção que tenho é que o tempo passou e deixou em mim a certeza de que não são muitos os anos que me restam.??

A verdade é que há muito tenho a idade dos que têm prioridade nas filas de atendimento, ??daí a inevitável conclusão: a juventude, agora, vive na minha saudade ?.

Sobre a questão tenho agido de forma pendular.??

Há momentos que me sinto velho; há outros que me sinto jovem, projetando realizações para o futuro, futuro que, para os como eu, é logo ali, ou mesmo aqui e agora, afinal, como diz o genial Gilberto Gil:
“Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito
Que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos??”

Tudo, porém, são confusões da minha mente, porque , afinal, envelhecer termina sendo um privilégio, razão pela qual tenho tentado encarar a velhice com naturalidade.??

Ou não. ??

Não sei.

??Pode ser que sim; pode ser que não.

Acho até que não.??

Compreendo, no entanto, que só em estar refletindo sobre a questão já evidencia que não encaro a velhice com a naturalidade que gostaria.??

Aquela história de que o tempo parece que não passou, para mim não cola, e um dia, num breve dia, quando eu tiver saído para fora do teu círculo ( do tempo, refiro-me), não serei, nem terei sido (Caetano Veloso, Oração do tempo); simples assim.


?O tempo passou, sim.??

E como passou.??

E como foi rápido.??

E como deixou marcas em mim.??

Vejo-as por toda parte: no rosto, no corpo – e, agora, vejo-as, também, na mente, pois minha memória, que nunca foi boa, está mais seletiva que nunca.

??Não me desespero, porém, diante dessa realidade.

??Será???

Nessa questão sou bem resolvido.??

Jura???

Nem eu mesmo sei por que faço essas afirmações ao tempo em que reflito sobre elas, pois quem me conhece sabe dos meus conflitos com o tempo.

??Eu não sou bem resolvido nessa questão, preciso ser leal com as minhas idiossincrasias.

??Como não posso voltar no tempo, só quero viver bem o tempo que me resta.??

Mas queria viver sem conflito com o tempo; conflito que potencializa minha angústia em face dos planos que ainda faço para o futuro.??

Vivo em conflito com o tempo, admito.??

Mas não esqueço, entrementes, que foi o tempo que me permitiu realizar o que realizei; pouco é verdade. Todavia, realizei e isso importa.??

Convém indagar agora: fiz por merecer os anos vividos?
Cumpri bem o meu papel?
Tenho que me orgulhar???

Creio, imodestamente, que sim.

??Mas admito que fiz menos do que podia ter feito.??Todavia, ainda assim, realizei e, fundamentalmente, sei que deixarei, por exemplo, lições de como deve ser comportar um pai de família; esse, talvez, o meu maior legado. ??

Irrelevante a minha história???

Para muitos sim; para mim, não.

??Mas admito que podia ter sido mais audacioso, mais intrépido , enfim, afinal, muitas vezes, podendo reagir, me acovardei e paguei o preço da omissão.??

Tempo é tempo e nada se pode fazer para impedir o seu curso??.

Eu não posso, ninguém pode domar o tempo.
?Tudo isso, repito, são confusões da minha mente.??

É melhor mesmo que o tempo flua à solta, sem embaraços, sem impedimentos, afinal, tudo flui, tudo é fluxo, e é preciso viver a dança da realidade com ensina Heráclito, ou, como ensina Gilberto Gil,

“Não se iludam 
Não me iludo 
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo”

??E que cada um saiba viver o seu tempo, o seu momento, a sua história, afinal somos os únicos responsáveis pelas escolhas que fazemos.

??O racional mesmo é viver e deixar o tempo passar. ??

O hoje será, inevitavelmente , o ontem e o amanhã… bem, o amanhã a Deus pertence.??

De meu lado espero viver mais algum tempo para testemunhar o que virá.??

Apesar da idade eu vivo a perspectiva do que porvir, sim, ainda que saiba que existe uma grande possibilidade de não protagonizar o que virá, face a inevitabilidade do fim.??

Até quando posso esperar para viver o que espero que um dia virá ???

Não sei.??

Só sei que não tenho muito tempo de espera; e isso me aflige??.

Olho-me no espelho e vejo as marcas do tempo.


?Olho para os registros antigos e concluo que o tempo é implacável e que vivo agora, mais do que nunca, a angústia da brevidade da vida.


?E nesse cenário me questiono, mais uma vez: eu fiz o que devia ter sido feito?


?Valeu a pena?


?Fiz o certo?


?Onde errei e onde acertei?


?Não se volta no tempo.

Impossível, bem sei.

O que passou, passou.


?Mas não custa transportar o pensamento para o passado, porque isso ajuda a entender o presente.


?Pensar não faz mal, mas pode, sim, impor sofrimento– às vezes, desnecessariamente.


?Pode, todavia e noutro giro, energizar a alma.


?É que, pensando, volta-se no tempo, única possibilidade de reviver o passado.


?Voltando no tempo, as lembranças me vêm à mente, me alertando que ainda tenho alguma sanidade e que o tempo, mesmo implacável, não foi capaz de apagar as coisas boas que vivi, preservando em mim a capacidade de sorrir, mesmo diante da constatação de que o mundo muitas vezes me disse não.

É isso.



ENVELHECER – PARTE II

?

Que seria de mim se não tivesse a capacidade de pensar, de atender, enfim, às expectativas da minha imaginação, e de, no mesmo passo, reviver o tempo passado?

Os cabelos brancos, a pele flácida, a saudade inquietante em face do que vivi e do pouco (?) que usufruí, dão a exata dimensão do que o tempo é capaz de fazer. Tempo que só tem relevância se formos capazes de compreender, com Mario Quintana, que a vida é dever que trouxemos para fazer em casa, e que, depois de algum tempo, se não formos capazes de cumprir bem o que nos propusemos a fazer, será tarde demais, porque aí já teremos sido reprovados.

O tempo passa sem fazer concessões. E “quando se vê, já é Natal, quando se vê, já terminou o ano, quando se vê já se passaram 50 anos…” (Mário Quintana, ibidem), sendo que, no meu caso, já se passaram mais de setenta e dois.

Digo, a propósito, que insano é quem não se dá conta dessa realidade e desperdiça o melhor da vida complicando as coisas simples, daí que, se tivesse me dado conta antes, não teria, em determinados momentos, como tolamente o fiz, disparado a minha “metralhadora cheia de mágoas”, destruindo pontes e galvanizando, desnecessariamente, inimizades e antipatias (Cazuza).

Consciente de ter envelhecido, quero agora conduzir a minha vida em paz, até onde o tempo me premiar com sua generosidade.

Velhinho capeta, mal-humorado, criador de caso não sou – não quero ser.

Não sei ser assim; se fui um dia, disso não me ufano.

Velhinho simpático?

Também não sou.

Se não fui simpático na juventude, é muito pouco provável que o seja na velhice.

Mas eu tenho arroubos de simpatia, sim; espasmos de simpatia, admito.

O que fica de lição, depois de tudo, é que, se não podemos parar o tempo, devemos, ao menos, com o tempo vivido e com o tempo que nos resta viver para amar o próximo, para respeitar as diferenças, para afagar quem precisa de afago, para ajudar a minimizar a dor de quem sente dor, dar carinho a quem dele necessita, ser solidário com o sofrimento alheio.

Olho, mais uma vez, para o meu corpo e vejo que não cuidei de mim como deveria.

Não cuidei da matéria – e nem cuidei da alma.

Sei que é impossível, mas queria, sim, voltar no tempo, para poder reparar os erros que, podendo, não evitei cometer.

Se voltasse no tempo, faria muitas coisas diferentes.

Diferente dos arrogantes, eu admito, sim, que não faria tudo outra vez.

Eu faria só parcialmente o que fiz.

Eu, no mínimo, faria a mim as concessões que não fiz, e seria mais tolerante com os erros dos outros – e com meus próprios erros, em razão dos quais me impus desnecessário sofrimento.

Eu, muitas vezes, fui rude comigo mesmo – por birra e insensatez, admito.

Exigi de mim muito mais do que deveria.

Nessa questão estive próximo da irracionalidade.

Eu sou, sim, esse ser contraditório que as palavras desnudam.

A obsessão de acertar, de ser correto num mundo complexo como o nosso, me fez envelhecer mais rapidamente ainda.

Agora, não tem mais jeito.

O meu futuro é agora.

Agora é viver, admitindo que a lição já sei de cor, e que, diferente do que proclama o poeta, eu aprendi, sim.

Não dá para brincar de viver; nunca brinquei de viver, na verdade, conquanto admita que, em determinados momentos da vida, não sublimei a arte de viver quando o mundo me disse não (Guilherme Arantes).

Eu até poderia brincar de viver, eu poderia reaprender a viver, não tivesse feito opção por uma austera forma de ser e de encarar a vida.

Olho para mim mesmo e, às vezes, não me reconheço.

Nos registros de antanho me vejo ali: vinte, trinta, quarenta anos atrás, jovem, vivendo os espasmos da juventude que não aproveitei, pois o meu espírito envelheceu rapidamente, premido pelas circunstâncias da vida.

A verdade é que tive que me tornar adulto antes do tempo.

Agora, estou eu aqui aos setenta e dois, vivendo com a certeza de que entre os sentimentos que experimentei – e que movem a minha vida até hoje – o que me fez mais digno do ser humano que sou é o amor, por isso insisto, com o poeta popular, que, amando, vejo que a história parece não ter fim, daí que desejo amar todos que cruzarem o meu caminho.

É isso.