A PATOLOGIA DA AMIBIÇAO – PARTE I

Convém destacar, de logo, que a ambição, conquanto possa ser, em determinadas circunstâncias, uma armadilha ou a própria ruína (vide caso Banco Master e suas implicações), ela não é de todo ruim, porque, afinal, é ela que move as civilizações, impulsiona descobertas e é capaz de elevar o ser humano para além de sua condição imediata, como sói ocorrer, a reafirmar o óbvio: a ambição não é necessariamente danosa, desde que não assuma contornos patológicos, sobre o que pretendo refletir adiante.

Pois bem. Sob a perspectiva que me levou a essas reflexões, há uma versão dela (da ambição) que é perversa, grave, e profundamente danosa, porque é do tipo que corrompe silenciosamente, sorrateiramente, às escondidas, até que um dia as consequências dela se revelam, expondo os que sob o seu manto se mantiveram escondidos, à sorrelfa, furtivamente. Essa ambição, que é a que importa para essas reflexões, é a de natureza material que, todos testemunhamos cotidianamente – e a história está prenhe delas -, tem destruído biografias, mesmo as mais lustrosas, exatamente porque, para determinadas pessoas, ela simplesmente não tem limite, ela se mede em bens, cifras e posses, passando ao largo dos valores morais que muitos de nós insistimos em cultivar e preservar, levando o homem à sua própria destruição.

Os filósofos, a propósito, denominavam essa forma de ambição, no sentido aqui empregado, de pleonexia, que é o vício de sempre querer mais do que se tem, não por necessidade, mas por incapacidade de reconhecer o suficiente. A palavra deriva do grego pleon (mais) + echein (ter), que, literalmente, significa “ter mais”, indo além da simples ganância. É uma sede insaciável que se autoalimenta. É como se cada conquista gerasse não satisfação, mas um novo desejo. É como se pessoas que pensassem e agissem assim estivessem sempre insatisfeitas com o que tem, pouco importando o ser, mas o ter. É o vício da alma, como bem descreve Aristóteles, ou o sintoma de uma alma desordenada, como a via Platão. É a mentalidade moderna, na minha visão, que destrói reputações: mais dinheiro, mais status, mais poder – não como meios, mas como fins em si mesmos, num quadro patológico que acomete alguns homens públicos, levando-os à degradação moral.

Em situações em que a ambição material sobrepuja, deliberadamente, a própria trajetória de vida, sobrevém a desmoralização, as relações deixam de ser saudáveis porque elas representam apenas redes de interesses, são instrumentalizadas para a obtenção de mais e mais, sem controle, sem peias e sem limites.

A história nos oferece retratos nítidos do que estou falando, a reafirmar grandes fortunas erguidas sobre atalhos éticos, levam figuras públicas, antes intocadas, a perderem o respeito dos seus concidadãos, na medida em que decidiram colocar a riqueza no centro de sua identidade moral, tornando o homem refém daquilo que conquistou, cujos efeitos são potencializados quando de trata de homem público, do qual se exige a maxime probidade e controles morais internos capazes de controlar os seus impulsos e sua ambição.

Nesse cenário, em que se coloca a posse como algo a ser sublimado, nós outros, que não fomos capazes – por incompetência ou retidão – de acumular riqueza, somos tratados como quem falhou, distorcendo o sentido do mérito, ante a cultura que se fortalece inspirada na ambição.

A ironia de tudo o que envolve a ambição, no sentido empregado nessas reflexões, é que ela entrega consumo, entrega prazer, leva as novas relações, mas também entrega a diminuição de caráter, destruição da história e da biografia de quem do poder se vale para realização de desejos meramente materiais, daí a indagação que a mim me resta fazer, para encerrar essas reflexões: vale a pena uma ambição que destrói reputações, apaga legados, aniquila biografia e se revela como um grave defeito moral?

É isso.

A PATOLOGIA DA AMBIÇÃO- PARTE II

Vou falar, agora, de ambição pelo poder. E, com razoável certeza, ao final destas reflexões, é bem provável que você identifique alguém muito próximo que deseja o poder a qualquer custo, cuja característica, na busca dos seus objetivos, é a simpatia que esconde oportunismo; o sorriso maroto que revela desfaçatez; os mimos deixados nas portarias das residências dos potenciais eleitores para se mostrar solícito; e o tapinha nas costas para enganar os tolos, tudo isso usado como arma de conquista.

Vamos refletir, pois, sobre o ser humano que não tem limites quando o poder está em jogo, convindo anotar que Aristóteles já observava, a propósito, que o homem, sendo um animal político, tende naturalmente a organizar-se em sociedade e a disputar posição de influência, daí por que a ambição pelo poder não é, necessariamente, ruim, mas em sua forma moderada. Sob essa perspectiva, ela pode impulsionar o homem a grandes realizações. O problema surge quando se torna desmedida, porque, nesse caso, o ser humano age sem limites; e, claro, quem não se impõe limites para conquista do poder, tende a abusar desse mesmo poder – e a história está repleta de exemplos, para não me deixar mentir.

Pessoas sôfregas pelo poder buscam entrar para a história a qualquer custo, recorrendo, se necessário, a atalhos para afastar quem se interpõe em seu caminho. Nesse sentido, almejam construir a sua história, sob qualquer condição, valendo-se de quaisquer meios. Nesse afã, dizem o que não fazem e fazem o que não dizem. Prometem o que não pretendem honrar; não são fiéis a ninguém, muito menos a princípios. O que importa é ascender, ainda que, para isso, tenham que dissimular e assumir compromissos que não vão honrar. Para esse tipo o de gente, tudo é pouco; o céu é o limite, portanto. Nada as satisfaz porque sua ambição é patológica. Podem ter dinheiro, podem ter família, podem viver rodeado de amigos, mas nunca estão satisfeitas, porque elas almejam mesmo é o poder. Nesse ímpeto, vão “comendo belas bordas”, como se diz popularmente. Elas podem, até, ter o que a maioria das pessoas não têm. Ainda assim não são felizes, porque elas almejam mesmo é o poder. O poder é sua obsessão. Isso não é exagero; é diagnóstico.

Esse tipo de gente, que se faz de manso e cordato para alcançar seus objetivos, confunde ambição pelo poder com sua própria identidade. E não está nem aí se não está preparado para o poder; acha que, uma vez investido nele, tudo se resolve. Para esse tipo de gente, o poder não é meio — é fim. Não é ferramenta — é identidade. Tire o poder dele, ou lhe negue o poder, ou lhe dificulte o poder, e ele se revela.

Esse homem, ambicioso, diz uma coisa e faz outra. Jura fidelidade, mas é desleal. Jura respeitar a história dos outros, mas a espezinha. E não perde o sono por isso. Chama essa conduta de estratégia, de pragmatismo. Entende que é assim que o mundo funciona, o qual ele e seus iguais ajudaram a construir em benefício próprio. Ele negocia com a consciência como quem negocia com fornecedores: busca o poder com a obsessão sem limites. Ética, na disputa pelo poder, quando lhe ocorre, é obstáculo; lealdade, quando convém, é moeda; amizade é somente rede de contatos.

O mais perturbador não é saber do que ele é capaz para alcançar o poder. O que espanta é a normalidade com que as pessoas encaram esse tipo de gente.

O ambicioso patológico, de quem trato aqui, se parece com todos nós. Ele dorme bem. Come bem. Frequenta igreja, às vezes. Faz doação quando há plateia. Tem família, tem foto na parede, tem discurso pronto sobre valores e meritocracia. Mas, quando está em jogo o poder, ele se revela, se mostra como realmente é: alguém que não entende o significado da palavra lealdade, respeito e empatia.

E sabem o que é pior? É que o sistema não só absorve esse tipo de gente – ele o recompensa. O sistema o aplaude. Coloca-o na capa de revista, dos principais jornais e nas colunas sociais.

O mais grave, ainda, é a constatação de que essas ações ambiciosas, quando bem-sucedidas, viram exemplo.

É isso.

A PATOLOGIA DA AMBIÇÃO – PARTE FINAL

Com esse ensaio encerro a trilogia da ambição em sua feição patológica.
Para os que não tiveram acesso aos ensaios anteriores, no primeiro texto
fiz reflexões sobre a ambição material e, no segundo, sobre a ambição pelo poder,
apontando os efeitos deletérios de uma e de outra, deixando consignado que, em face de
ambas, o homem se revela e, não raro, pode perder a direção.

Nas reflexões com as quais encerro, agora, a trilogia, discorro, mais uma
vez, sobre a patologia da ambição, ainda sob a perspectiva do poder, mas à luz da
literatura.

Pois bem. Com a tragédia de Sófocles, composta por volta de 442 a.C,
faço a primeira ilustração, lembrando que Antígona era filha de Édipo e irmã de Etéocles e
Polinices, os quais disputavam o trono outrora pertencente ao pai; disputa que,
inicialmente, culminou num acordo segundo o qual ambos se revezariam no poder,
cabendo a cada um reinar por um ano, começando por Etéocles. Contudo, como sói
ocorrer com os que têm sede incontrolável de poder, transcorrido o primeiro ano, Etéocles
recusou-se a ceder o trono ao irmão, dando início a um trágico conflito, do qual resultou,
para sintetizar, a morte de ambos. tendo como pano de fundo, como dito, a ambição pelo
poder.

O que se conclui da tragédia de Sófocles é que o homem, estando no
poder, revela-se em sua inteireza e, muitas vezes, tem dificuldades de honrar a palavra
empenhada, pois, pelo poder, tudo é capaz, até matar ou morrer. Na tragédia, a ambição
desmedida dos irmãos – especialmente de Etéocles, que passa de herdeiro legítimo a
tirano, quebrando a própria palavra -, de tão incontrolável, conduziu-os à morte.

À guisa de ilustração, e ainda sob a perspectiva do que o poder é capaz
de fazer com os patologicamente ambiciosos, reflito, a seguir, sobre o romance satírico A
Revolução dos Bichos, de George Orwel, obra que faz contundente crítica ao
totalitarismo e à degeneração dos ideais revolucionários, podendo ser analisada,
igualmente, sob a ótica do que o homem – no romance, os porcos –, é capaz de fazer
estando no poder.

O livro, como sabido, conta a história de uma fazenda em que os animais,
insatisfeitos com o tratamento que recebem dos humanos, resolvem rebelar-se, liderados
pelos porcos. Inicialmente, os líderes revolucionários pregam ideais de igualdade e
liberdade, os quais deveriam reger a convivência entre os animais. Entretanto, com o
passar do tempo, traem os próprios ideais que juraram defender.

Nessa fábula moderna, há traições até mesmo entre os suínos e os
demais bichos, como acontece no mundo dos homens. Aos poucos, os porcos, líderes do
movimento revolucionário, passam a agir exatamente como os antigos opressores,
tratando os demais animais de forma despótica, contrariando tudo aquilo que antes
juraram combater.

O que se infere da tragédia de Sófocles e do romance satírico de Orwel é
que, pelo poder e estando no poder, quando a ambição assume contornos patológicos,
irmão desconhece irmão, pai e filho tornam-se inimigos, amigos traem amigos, ante a
incapacidade de honrar a palavra empenhada e de respeitar a história construída ao lado
do outro, a reafirmar, enfim, que o poder corrompe e degenera.

O que Sófocles e George Orwel ensinam, com a tragédia e com o
romance, respectivamente, é que o homem, uma vez aboletado no poder, revela a sua
verdadeira essência e que o poder corrompe até mesmo aqueles que começaram

movidos por intenções aparentemente boas, como se deu com os porcos que lideraram a
revolução, sob genuínos ideais de igualdade e libertação, e com os irmãos Etéocles e
Polinices, da tragédia de Sófocles.

Na tragédia, importa lembrar, a história de Etéocles e Polinices funciona
como espelho das disputas políticas que destroem nações, desfazem amizades e
desprezam sentimentos em face do ego desmedido dos líderes. No romance, a lição que
se extrai é a de que o poder tende, inevitavelmente, a corromper.

Por tudo isso, devemos ter extremo cuidado com as pessoas que alçamos
ao poder, porque há quem, movido por propensões ditatoriais, uma vez ungido e, muitas
vezes, cercado de fanáticos e maus conselheiros, sinta-se tentado a perpetuar-se no
mando, olvidando-se dos limites que a democracia impõe.

É isso.

SABE LÁ O QUE É NÃO TER E TER QUE TER PRA DÁ?

O título dessa crônica tomei de empréstimo à música de Djavan, para refletir sobre as dificuldades que alguns candidatos terão para convencer os eleitores, diante da constatação de que quase todos os pleitos são contaminados pelas ações e promessas heterodoxas de muitos, especialmente dos mais favorecidos pelas circunstâncias – e aqui me refiro aos que disputam o voto estando, por exemplo, no poder ou, por outro lado, dispõem de melhores condições materiais para facilitar o “convencimento do eleitor”; facilidades que terminam, pelo que elas contêm de danosas, por deslustrarem a própria democracia que, a rigor, deveria ser homenageada nas pugnas eleitorais.

Ante a constatação de que não são poucos os que fazem qualquer coisa pelo voto do eleitor para alcançar o poder, em face mesmo da obsessão/fascínio que ele, o poder, exerce sobre os mais ambiciosos – tema sobre o qual refleti recentemente na trilogia sobre a ambição patológica -, o que se tem testemunhado é que, após um resultado adverso, não é incomum os candidatos se questionarem sobre os erros eventualmente cometidos. Nesse cenário e como consequência dele, é natural, ademais, que, após a derrota, os experts questionem os candidatos, apontando essa ou aquela omissão como causa do malogro, do tipo: “você não prometeu o que devia prometer”; “você não ofereceu nada em troca”; “o adversário fez o jogo que você não fez”, para, finalmente, concluírem, numa acusação mordaz, ferina, inquietante e desalentadora: “numa disputa, o feio mesmo é perder”, como que alertando que os fins justificam os meios.

Eu, cá do meu lado, atento observador do mundo e dos meus iguais, numa eventual disputa, qualquer que seja ela, em qualquer nível e para qualquer cargo, faria exatamente o que fiz na minha vida inteira: ofereceria – como o fiz na disputa recente pela presidência do Tribunal de Justiça do Maranhão, em que fui questionado pela minha conduta/omissão – apenas e tão somente a minha história, para que, a partir dela, pudessem os eleitores avaliar se eu sou, ou não, digno do voto, o que, no caso da eleição para presidência do Tribunal de Justiça, certamente foi irrelevante.

Tivesse que submeter meu nome a uma disputa eleitoral – o que menciono apenas para argumentar, pois uma candidatura a um cargo eletivo, para mim, não seria mais do que um delírio -, eu nunca teria nada a oferecer, a não ser, repito, o que construí ao longo da minha vida, ou seja, a minha história. Ofereceria, por exemplo, o que realizei à frente do Tribunal Regional Eleitoral, tirando-o, em tempo recorde, da penúltima posição no Selo Prata de Qualidade, do Conselho Nacional de Justiça, para conduzi-lo a uma conquista inédita: o Selo Diamante. E ofereceria, ademais, as ações que desenvolvi na Corregedoria-Geral de Justiça, levando-nos a alcançar a maior produtividade da nossa história, conduzindo-nos, da mesma forma, ao Selo Diamante de Qualidade. Ofereceria, portanto, a minha trajetória, a minha história profissional, marcada por dedicação, empenho, esmero, zelo e conduta ética, que pretendo deixar como legado às novas gerações de magistrados.

Enfim, era tudo que eu poderia oferecer para conquistar votos. Se nada disso fosse suficiente, nada mais me restaria, lamentavelmente, por não ter qualquer outra coisa a oferecer. Nada além disso eu poderia oferecer, porque escaparia de mim qualquer oferta que não estivesse vinculada às minhas atividades judicantes, às quais sempre me dediquei integralmente ao longo da vida. É assim que entendo deva funcionar o convencimento nas eleições; o resto, é pura heterodoxia que escapa à minha maneira de ver o mundo. E, se para o eleitor isso ainda for insuficiente, a mim só restaria repetir e lamentar com o poeta popular: “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar. Sabe lá. Sabe lá”.

É isso.