SABE LÁ O QUE É NÃO TER E TER QUE TER PRA DÁ?

O título dessa crônica tomei de empréstimo à música de Djavan, para refletir sobre as dificuldades que alguns candidatos terão para convencer os eleitores, diante da constatação de que quase todos os pleitos são contaminados pelas ações e promessas heterodoxas de muitos, especialmente dos mais favorecidos pelas circunstâncias – e aqui me refiro aos que disputam o voto estando, por exemplo, no poder ou, por outro lado, dispõem de melhores condições materiais para facilitar o “convencimento do eleitor”; facilidades que terminam, pelo que elas contêm de danosas, por deslustrarem a própria democracia que, a rigor, deveria ser homenageada nas pugnas eleitorais.

Ante a constatação de que não são poucos os que fazem qualquer coisa pelo voto do eleitor para alcançar o poder, em face mesmo da obsessão/fascínio que ele, o poder, exerce sobre os mais ambiciosos – tema sobre o qual refleti recentemente na trilogia sobre a ambição patológica -, o que se tem testemunhado é que, após um resultado adverso, não é incomum os candidatos se questionarem sobre os erros eventualmente cometidos. Nesse cenário e como consequência dele, é natural, ademais, que, após a derrota, os experts questionem os candidatos, apontando essa ou aquela omissão como causa do malogro, do tipo: “você não prometeu o que devia prometer”; “você não ofereceu nada em troca”; “o adversário fez o jogo que você não fez”, para, finalmente, concluírem, numa acusação mordaz, ferina, inquietante e desalentadora: “numa disputa, o feio mesmo é perder”, como que alertando que os fins justificam os meios.

Eu, cá do meu lado, atento observador do mundo e dos meus iguais, numa eventual disputa, qualquer que seja ela, em qualquer nível e para qualquer cargo, faria exatamente o que fiz na minha vida inteira: ofereceria – como o fiz na disputa recente pela presidência do Tribunal de Justiça do Maranhão, em que fui questionado pela minha conduta/omissão – apenas e tão somente a minha história, para que, a partir dela, pudessem os eleitores avaliar se eu sou, ou não, digno do voto, o que, no caso da eleição para presidência do Tribunal de Justiça, certamente foi irrelevante.

Tivesse que submeter meu nome a uma disputa eleitoral – o que menciono apenas para argumentar, pois uma candidatura a um cargo eletivo, para mim, não seria mais do que um delírio -, eu nunca teria nada a oferecer, a não ser, repito, o que construí ao longo da minha vida, ou seja, a minha história. Ofereceria, por exemplo, o que realizei à frente do Tribunal Regional Eleitoral, tirando-o, em tempo recorde, da penúltima posição no Selo Prata de Qualidade, do Conselho Nacional de Justiça, para conduzi-lo a uma conquista inédita: o Selo Diamante. E ofereceria, ademais, as ações que desenvolvi na Corregedoria-Geral de Justiça, levando-nos a alcançar a maior produtividade da nossa história, conduzindo-nos, da mesma forma, ao Selo Diamante de Qualidade. Ofereceria, portanto, a minha trajetória, a minha história profissional, marcada por dedicação, empenho, esmero, zelo e conduta ética, que pretendo deixar como legado às novas gerações de magistrados.

Enfim, era tudo que eu poderia oferecer para conquistar votos. Se nada disso fosse suficiente, nada mais me restaria, lamentavelmente, por não ter qualquer outra coisa a oferecer. Nada além disso eu poderia oferecer, porque escaparia de mim qualquer oferta que não estivesse vinculada às minhas atividades judicantes, às quais sempre me dediquei integralmente ao longo da vida. É assim que entendo deva funcionar o convencimento nas eleições; o resto, é pura heterodoxia que escapa à minha maneira de ver o mundo. E, se para o eleitor isso ainda for insuficiente, a mim só restaria repetir e lamentar com o poeta popular: “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar. Sabe lá. Sabe lá”.

É isso.

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