Inicio essas reflexões sentado no terraço do meu apartamento, num final de tarde, embalado pelo canto de um pássaro selvagem – bigode, curió ou bicudo, imagino -, seguramente aprisionado numa gaiola, cujo canto – de dor, tenho certeza – me fez lembrar de um antigo sucesso de Luiz Gonzaga, o famigerado “Rei do Baião”, sobre o qual discorrei a seguir.
Pois bem. O cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989), em parceria com o advogado, compositor e poeta cearense Humberto Cavalcanti Teixeira (1915-1979), compôs o baião Assum Preto, verdadeira obra-prima do cancioneiro nacional, cuja letra tem início com a descrição plástica da beleza da mata em flor, para, em seguida, descrever um ato cruel entre os passarinheiros, sobre o qual faço menção adiante.
Desde muito novo, senti algo perturbador ao ouvir a música Assum Preto, sobretudo porque sempre fui – e sou – muito sensível a tudo que envolve o mundo animal, máxime dos que estão expostos à crueldade e à insensibilidade do ser humano. Demais, porque eu mesmo testemunhei o canto do mencionado pássaro, aqui no Maranhão, em Vitorino Freire, minha terra natal, por aquelas plagas nominado Chico Petro.
Ouvindo a música (experimente, se ainda não ouviu) a gente sente cravar uma faca no peito, tamanha a força narrativa da tragédia do pássaro, privado da liberdade de voar porque lhe arrancaram os olhos, para que o seu algoz tivesse primazia do seu canto, tornando-o – o pássaro – escravo do seu próprio estribilho, a reafirmar a inesgotável capacidade do homem de agredir a natureza, para servir aos seus desejos mais mesquinhos, pouco importando o sofrimento infligido, no caso, ao Assum Preto.
A letra da música segue:
“Tudo em ‘vorta’ é só beleza, sol de abril e a mata em ‘frô’.
Mas Assum Preto, cego dos ‘óio’, num vendo a luz, ai, canta de dor.
Mas Assum Preto, cego dos ‘óio’, num vendo a luz, ai, canta de dor”.
E prossegue:
“ ‘Tarvez’ por ‘ingnorança’, ou ‘mardade’ das ‘pió’,
‘Furaro’ os ‘óio’ do Assum Preto pra ele assim, ai, ‘cantá’ ‘mio’,”.
E repete a letra, para cortar o coração de que tem sensibilidade:
“ ‘Furaro’ os ‘óio’ do Assum Preto, ‘pra’ ele assim, ai, ‘cantá’ ‘mio’.”
Mais adiante:
“Assum Preto ‘veve sorto’, mas ‘num’ pode ‘avuá’, mil vez a sina de uma gaiola, desde que o céu, ai, pudesse ‘oiá’.”
E repete o refrão com a mesma conformação:
“Mil vez a sina de uma gaiola, desde que o céu, ai, pudesse ‘oiá’.”
E finaliza:
“Assum Preto, o meu cantar é tão triste como o teu, também ‘roubaro’ o meu amor que era a luz, ai, dos ‘óios’ meus, também ‘roubaro’ o meu amor, que era a luz, ai, dos ‘óios’ meus.”
Essas reflexões são um libelo em favor daqueles que, numa gaiola ou com os olhos arrancados, como o pássaro que inspirou os poetas – e aquele outro que ouvi da sacada do meu apartamento -, são subjugados e compelidos a cantar com exclusividade para satisfazer o seu algoz, que, prepotente e insensível, não se dá conta de que, na verdade, o que o canto sugere é um grito de dor, um pedido de socorro.
É isso.