GENTE FEIA


Definitivamente, não gosto de gente feia.

Não, não é isso que você, precipitadamente, pensou, induzido pela afirmação peremptória.

Quando falo de gente feia (termo empregado nessas reflexões como gênero humano), não estou me reportando à beleza física; não é de estética que se trata, portanto.

Gente feia, no que condiz com essas anotações, é outra coisa. Nessa sentido, gente feia é, por exemplo, o mau-caráter, o traquinas, o ladravaz, o mendaz, o pérfido, o hipócrita, o inescrupuloso, o perigoso, o falseador, o dissimulado, o arrogante etc.

Gente bonita, noutro giro, é o oposto de tudo isso.

Gente bonita é a pessoa que tem a capacidade de se colocar no lugar do outro.

Gente bonita é a que sabe apoiar e compreender o semelhante na sua dor e nas suas angústias.

Gente feia, de mais a mais, é gente invejosa, intolerante.

Gente bonita é verdadeira e transparente nas suas ações e palavras.

Gente bonita trata as pessoas com dignidade, respeito, cordialidade e consideração.

Gente feia costuma apunhalar pelas costas.

Gente feia é grosseira e mal-educada.

Gente feia é egoísta.

Gente feia coloca seus interesses acima de tudo, pouco se importando com as consequências de seus malfeitos.

Gente bonita cumpre seus compromissos e deveres com responsabilidade.

Gente feia é raivosa, vive de mau humor, quer um motivo para criar intrigas.

Gente feia se alimenta da discórdia.

Gente feia expressa seus sentimentos de forma destrutiva, é invejosa, ressentida, orgulhosa, impulsiva e descontrolada.

Gente feia é repulsiva.

Gente bonita perseverante, criativa – e grata.

Gente bonita é a que vive de bem com a vida.

Gente bonita tem a capacidade ilimitada de amar e de se conectar com as outras pessoas.

Gente feia não sabe perder.

Gente feia vê competição, no sentido mais daninho do termo.

Gente feia sempre se coloca acima do bem e do mal.

Gente feia é despudorada.

Gente feia trata a coisa pública como se fosse particular.

Gente feia é intolerante ao volante.

Gente feia buzina desnecessariamente, azucrinando a vida alheia.

Gente feia não respeita a faixa de pedestre.

Gente feia costuma dar carteirada, valendo-se de sua posição social.

Gente feia gosta ouvir música alta, impondo o seu duvidoso gosto musical, pouco se

importando com o incômodo que provoca.

Gente feia entra no elevador social com animal de estimação.

Gente feia só trata bem o semelhante quando tem algum interesse.

Gente feia gosta de se exibir e se julga o centro do universo.

Gente feia usa perfume forte que exala e incomoda.

Gente feia fala alto em qualquer ambiente.

Gente feia mastiga de boca aberta e toma café como se estivesse aspirando o mundo.

Gente feia estaciona em lugar proibido; não respeita vagas destinadas a idosos ou gestantes, por exemplo.

Gente feia tira meleca e gruda debaixo da mesa.

Gente feia conversa de óculos escuros em ambientes que dispensam o assessório.

Gente feia leva babá ao restaurante para não ser perturbada pelos filhos.

Gente feia fuma em qualquer ambiente, pouco se importando com o semelhante e com os avisos indicadores da proibição.

Gente feia nunca é o que tenta mostrar que é; vive de aparência, de disfarce, de embuste.

Gente feia quer ser perdoada, mas não perdoa os erros alheios.

Gente feia fura fila, quer levar vantagem em tudo.

Gente feia fala alto para chamar atenção.

Gente feia não honra a hora marcada.

Gente feia prefere corromper a persuadir

Gente feia é insensata, insensível e perniciosa.

Gente feia é injusta, rancorosa e provocadora.

Gente feia vive censurando o outro, mas é incapaz de autocensura ou de reconhecer em si os erros que aponta no semelhante.

Por tudo isso e muito mais, detesto gente feia, dentre as quais, muitas vezes, me incluo, razão pela qual tenho lutado, todos os dias, para me tornar uma pessoa mais bonita.

É isso.

PONTUALIDADE, VIRTUDE OU DEFEITO?

Todos temos uma visão particular do mundo. Nesse sentido, o que aos meus olhos parece virtude, aos olhos dos outros pode ser, sim, um defeito, afinal, a vida é assim; a vida é dual, binária, enfim. Nas nossas relações assumimos, com clareza, essa dualidade.

O poeta popular já ensinava: “Não existiria som, se não houvesse o silêncio. Não haveria luz, se não fosse a escuridão. A vida é mesmo assim: dia e noite, não e sim” (Certas Coisas, Lulu Santos).

Dito isso, lembro, mais uma vez, sem temer pela exaustão, que todos vivemos a angústia da aceleração da vida. Diante dessa realidade, não existe nada mais deselegante, por exemplo, do que não respeitar a hora previamente ajustada em face de um compromisso assumido.

Nessa linha de pensar, destaco que, ao cumprir um compromisso na hora ajustada, reafirmamos o nosso respeito ao tempo do outro, nos mostramos mais confiáveis nas nossas relações e contribuímos, até, para maior êxito nas nossas atividades, na medida em que a pontualidade ajuda a aumentar a produtividade e a eficiência, sem perder de vista que o tempo perdido não se recupera (“Todos os dias, quando acordo, não tenho mais o tempo que passou”, Legião Urbana).

Cada minuto que perdemos em face do tempo de espera de alguém que não respeita a hora marcada é como se nos roubassem parte da nossa vida, da nossa própria existência, daí por que não me permito deixar de cumprir um compromisso na hora marcada, sempre na perspectiva de que haja reciprocidade.

Tenho sido assim, desde sempre. Mas não vejo, de muitos, a mesma determinação. O que tenho testemunhado, ao contrário, é que pontualidade é uma virtude sem testemunha e que, quem se esmera em cumprir a hora marcada, é, de rigor, um chato aos olhos dos que se acostumaram a fazer tábula rasa do compromisso assumido, disso resultado que a pontualidade, nesse cenário, é quase um defeito.

Dia dessas assisti a uma entrevista com o consagrado ator Tony Ramos. Num dos trechos, ele falou de elegância. Disse, na oportunidade, que ser elegante não é se apresentar, por exemplo, com um terno bem cortado ou uma bolsa de grife. Elegância, segundo a sua compressão, é, sobretudo, respeitar o ser humano, tratá-lo com cortesia, respeito e dignidade.

Digo eu, em adição: ser elegante é, também, honrar a hora marcada; é não deixar o outro esperando, indefinida e desrespeitosamente, pois, definitivamente, quem chega atrasado a um evento, justificada ou injustificadamente, presta-se apenas a constranger e a atrapalhar.

A propósito, dias desses, num evento marcado para as 9 horas, no Fórum Sarney Costa, a solenidade já estava atrasada em meia hora, causando em mim a costumeira inquietação.

Diante do atraso, fui aos organizadores e indaguei o que estava faltando para começar a solenidade. A resposta que me foi dada causou em mim estupefação:

-Está faltando chegar o representante de determinada autoridade.

Diante da resposta, redargui:

-Mas foi justificado o atraso?

Resposta do organizador do evento:

-Não. Mas começar a solenidade sem ele seria uma falta de consideração.

A indagação que importa fazer, em face do acima narrado, é a seguinte: falta de consideração por parte de quem? De quem não honrou a hora marcada ou dos que, como eu, se esforçaram para chegar antes do horário, em respeito ao que constava no convite para a solenidade?

De minha parte, em face do acima relatado, só me resta concluir que, infelizmente, fruto de uma cultura nefanda e terceiro-mundista, a mim, e a tantos que pensam como eu, só nos resta suportar, calados e elegantemente, como quem ouve uma sinfonia, a falta de elegância dos que não se preocupam em honrar a hora em face de um compromisso assumido.

Diante do que tenho testemunhado, indago aos recalcitrantes, inspirado no poeta popular: será que é tempo que lhes falta para perceber? Será que temos esse tempo a perder? Ou será que não se deram conta de que a vida não para, que a vida é tão rara? (Paciência, Lenine).

É isso.

MAR CALMA NÃO FAZ BOM MARINHEIRO

Lembro, como se fosse hoje: em 1986, portanto, há quase 40 anos, por opção, já que me foi dado o direito de escolher a comarca, fui nomeado para o cargo de juiz de direito de Presidente Dutra, composta, à época, ademais, por dois termos: Tutum e Eugênio Barros, hoje comarcas autônomas.

Eu pretendia – como efetivamente fiz – morar na cidade-sede da comarca. Daí a minha opção por uma unidade que me desafiasse, que exigisse o máximo de mim, para que eu pudesse evoluir como magistrado e, claro, como pessoa.

Encontrei em Presidente Dutra os desafios que me propus a enfrentar: muitos anos sem juiz titular, cujos processos, por isso mesmo, estavam acumulados, levando a população a uma forte descrença no Poder Judiciário. Em Presidente Dutra, vi diante de mim, com efeito, o cenário perfeito. Os desafios eram enormes, para os quais, depois constatei, eu não estava preparado, pois era muito jovem ainda e sem nenhuma experiência judicante.

À época, os que comigo compartilharam os mesmos momentos/desafios – falo dos que ingressaram no mesmo concurso – hão de lembrar: não recebíamos nenhum treinamento, nenhuma orientação; apenas desafios. Nesse sentido, era, como diz a voz corrente, “pegar ou largar”. Aprovados, tomávamos posse, entrávamos em exercício e colocávamos as mãos na massa – ops! – nos processos.

Nesse panorama, os desafios eram enfrentados solitariamente, e o maior sentimento era o de angústia, superado, como um imperativo, pela determinação de tentar fazer o melhor, convindo anotar, a guisa de ilustração, que as sentenças e despachos eram rascunhados à mão, muitas vezes de madrugada, para depois serem datilografados, no meu caso, numa velha e barulhenta Olivetti portátil, que ganhei de presente e guardei durante muito tempo como um troféu.

Para conhecimento da nova geração – e para reavivar a lembrança dos que, como eu, viveram no mundo analógico -, destaco, ademais, que os depoimentos eram colhidos artesanalmente, com a audição do depoente e, em seguida, sua reprodução de viva voz, para que fosse consignada em ata pela escrivã, em máquina similar à Olivetti que mencionei acima, com o compromisso, dever e obrigação de ser fiel ao que foi dito.

Pois bem. Foi forjado nesse ambiente de dificuldades que cresci – crescemos, enfim, eu e os da minha geração – como profissional, vivendo, ademais e com especial sacrifício, as agruras do isolamento social a que me impunha, situação determinada pela cultura sedimentada à época – e sempre lembrada como um alerta pelos mais experientes -, segundo a qual o magistrado devia evitar relações sociais que pudessem deixar dúvidas sobre a sua imparcialidade.

São quase quarenta anos de exercício pleno da atividade judicante. Quase meio século, portanto, tentando fazer o melhor pelo Poder Judiciário, em cuja trajetória, admito, cometi muitos erros, mas, também, acertos, a reafirmar a minha – a nossa – condição de seres humanos, falíveis e imperfeitos.

Eu bem que poderia, à época, ter optado por uma comarca que exigisse menos de mim. Propus-me, nada obstante, ao desafio. Decidi que seria bom para minha carreira enfrentar o mar bravio, para me tornar um bom marinheiro, como o título dessa crônica sugere; se não me tornei, pelo menos tenho a consciência de ter tentado.

Hoje, estou aqui, aos 72 anos, cheio de vitalidade e determinação para continuar servindo ao Poder Judiciário do Maranhão, até quando tiver saúde e a lei permitir, consciente de que, como disse acima, tentei sempre fazer o melhor, dar o melhor de mim, deixando parte da minha vida e da minha saúde pelo caminho, construindo parte relevante da minha história, com algum sacrifício pessoal e familiar, tudo recompensado pelo sentimento que tenho de ter, pelo menos, tentado fazer o melhor.

É isso.

RECORTES DA REALIDADE

No começo do ano de 2023 foi instalada, na Câmara dos Deputados, a CPI do MST, Movimento dos Sem-Terra. Do coligido na referida CPI, coloco em realce o diálogo havido entre o professor José Geraldo de Sousa Júnior, doutor em Direito da Universidade Nacional de Brasília, e a deputada Caroline de Toni (PL-SC).

Deputada da Caroline de Toni (PL-SC):

“[…] E é isso que a gente quer: transparência, legalidade, impessoalidade, gestão pública eficiente. Por isso que a gente está nessa CPI para desmascarar os crimes e para chegar, não só à verdade dos fatos, mas também, aqui, realmente, se é para dar terras para as pessoas, que elas mereçam efetivamente.

José Geraldo de Sousa Júnior, em resposta:

“[…] Eu só queria dizer assim. Otávio Paz, no Labirinto da Solidão, diz que os indígenas, quando Colombo chegou, não viram as caravelas, não viram que elas estavam ali fundiadas […], não havia cognição para poder representar cerebralmente uma imagem que era absolutamente incompatível com o quadro mental de uma cultura que não tinha elementos para visualizar. Eu não tenho como discutir com a deputada porque a sua visão de mundo, da sua percepção como cosmovisão só lhe permite enxergar o que a senhora já tem inscrito na sua cognição. Então, a senhora vai ver não é o que existe, mas é o que a senhora recorta da realidade. A realidade é recortada por um processo cognitivo de historialização. Então eu não posso discutir um tema que contrapõe visão de mundo, concepção de mundo […]”

Deputada Caroline de Toni, em seguida:

“[…] Ele me ofendeu. Com todo o respeito. Tentou vir com categoria acadêmica debochar da nossa cara. […]”.

Não, Deputada, não houve ofensa. É apenas a constatação de uma realidade indiscutível, cada dia mais presente em nossas vidas. As pessoas só veem mesmo o que desejam ver, ou seja, apenas os recortes que fazem da realidade.

Nos dias presentes, as pessoas têm uma maneira particular de ver o mundo, uma cosmovisão obliterada pelo sectarismo, pelo fanatismo, pelo engajamento, de modo que só têm olhos para o que lhes importam.

É dizer: cada dia mais o ser humano só reage em face do que já está inscrito na sua cognição, daí que até conceitos que antes eram indiscutíveis – como ditadura, democracia, legalidade, arbitrariedade e liberdade, por exemplo -, hoje são relativizados, a depender, sempre, da visão de mundo de cada uma, ou seja, em vista daquilo que veem, visão que macula, na origem, o processo de cognição.

À guisa de exemplo, lembremo-nos do que ocorre com a ação penal n. 2668, na qual estão sendo julgados os protagonistas de uma tentativa de golpe, segundo o Procurador-Geral da República, secundado pela 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal.

Pois bem. Para determinada parcela da população, não há dúvidas de que a imputação procede e, por isso, devem ser punidos os autores dos crimes. Para outra parcela, com as mesmas informações, em face dos mesmos fatos e mesmas tipificações, tudo não passaria de perseguição política, a reafirmar que cada um vê o que quer, a reafirmar, no mesmo passo, a seletividade da cognição a que me reportei acima.

Como pontuou o ilustre professor, gostemos ou não da sua fala, as pessoas só conseguem perceber aquilo que está escrito em sua cognição, simplesmente porque não desejam, se recusam a ver a realidade, por mais cristalina que ela possa parecer.

Algumas vezes, até tentamos fazer as pessoas enxergarem a realidade. Essa luta, no entanto, para quem não quer vê-la, resulta embalde, daí que é preciso admitir, perdemos tempo nas tentativas de demover, por exemplo, um fanático político de suas “convicções”, em face do que já está sedimentado em sua cognição, fruto dos recortes que faz da realidade.

É isso.

SOMOS RECONHECIDOS PELO QUE SOMOS?

Muitas vezes, não. Aliás, raramente. E, quando isso acontece, pode ocorrer – e ocorre mesmo – de sermos analisados muito mais em face dos nossos defeitos do que em razão das nossas virtudes.

Penso que o ideal mesmo seria que, quando nos “julgassem” – e estamos sempre submetidos ao escrutínio do semelhante –, o fizessem a partir de um combo, ou seja, pelas nossas virtudes e pelos nossos defeitos.

Não é assim, entrementes, que as coisas funcionam, disso resultando que, não raro, somos julgados pelo que, rigorosamente, não somos, na medida em que os nossos defeitos são destacados, quase sempre em detrimento das nossas virtudes.

A verdade é que não há como controlar o pensamento e as ações das pessoas em relação ao semelhante, pela singela razão de que não há mesmo como mudar a concepção que cada um forma do próximo, pelo que só nos resta mesmo aceitar, com serenidade, os julgamentos aos quais somos submetidos, me conduzindo a lembrar da Oração da Serenidade, escrita em 1934, pelo teólogo Reinhold Niebuhr, nesses termos: “Deus, conceda-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar; a coragem para mudar as coisas que posso; e sabedoria para saber a diferença”.

Não temos, como dito acima, nenhum controle sobre o comportamento do semelhante; quando muito, com esforço e determinação, controlamos as nossas próprias pensamentos, buscando reconhecer nas pessoas as virtudes que elas têm e evitando não julgá-las por aquilo que não são ou apenas em face dos seus defeitos.

Nesse sentido, é preciso reconhecer que há, sim, situações que passam à margem do nosso controle. Não é o caso, contudo, dos julgamentos a que submetemos os nossos semelhantes, que poderiam, sim, ser mais justos, se essa for a nossa predisposição.

Se, ao acordarmos, introjetamos em nós o sentimento de que as pessoas com as quais vamos lidar durante o dia são arrogantes, prepotentes, desonestas, invejosas e ranzinzas, por exemplo, dificilmente reconheceremos nelas suas virtudes, nos levando, nesse passo, por óbvio, a não reconhecê-las pelo que realmente são.

As pessoas que iniciam sua jornada diária pré-julgando o semelhante são também incapazes de distinguir a beleza da feiura, a maldade da bondade, a luz da escuridão, razão por que, do mesmo modo, são incapazes de verem as pessoas como elas realmente são.

A mente obliterada pelo preconceito torna as pessoas incapazes de reconhecer o ser humano como ele efetivamente é, na medida em que as nossas pré-compreensões são limitadoras da nossa capacidade de ver o que deve ser visto, de sentir o que deve ser sentido.

Importa lembrar, aqui e agora, a propósito dessas reflexões, a lição de Marco Aurélio, segundo a qual, se não temos poder sobre os eventos externos, temos, sim (ou deveríamos ter, digo eu), sobre a nossa mente, porque a partir dela encontramos o caminho para avaliar o que deve ser avaliado e como deve ser avaliado, para julgar o que deve ser julgado e reconhecer o que deve ser reconhecido; assim agindo, seríamos capazes de ver o semelhante como ele efetivamente é.

É de Epicteto a lição comezinha: “A principal tarefa na vida é simplesmente esta: identificar e separar assuntos de modo que eu possa dizer claramente para mim quais são os aspectos externos que não estão sob meu controle e quais têm a ver com as escolhas que eu realmente controlo”, ensinança que, aplicada ao tema que elegi para essas reflexões, pode assim ser traduzida: reconhecer as virtudes do semelhante é apenas uma questão de escolha, tudo está a depender apenas de nós mesmos, desde que, claro, não nos deixemos levar pelos nossos preconceitos e pré-compreensões.

É isso.

PRODUTIVIDADE EXTRAORDINÁRIO-UMA REALIDADE

Eleito Corregedor-Geral da Justiça, defini a produtividade como prioridade. O objetivo era melhorar o tempo de tramitação dos processos, o que resultaria em uma solução mais célere para os conflitos judicializados.

Nesse sentido, aloquei servidores valorosos e com expertise comprovada em pontos estratégicos. Primeiro, busquei conhecer a fundo nossa realidade para, a partir dela, agir na busca de soluções para o macroproblema que aflige todos os tribunais do país: a demora na entrega do provimento jurisdicional.

Dessa busca por melhoria nos nossos indicadores, foi concebido, por exemplo, o Núcleo de Inteligência. Os dados coletados em diversas unidades por esse Núcleo nos auxiliaram a otimizar o tempo de tramitação dos processos no Estado, a partir de listas elaboradas com os processos que necessitavam de maior atenção. Essas listas eram enviadas às unidades para execução, pondo fim, definitivamente, aos chamados mutirões, que se mostraram, com o tempo, uma prática ultrapassada.

Todo esse planejamento foi baseado em dados levantados também pelo setor de Planejamento Estratégico. Avançamos, então, da prospecção para a execução de medidas concretas voltadas à melhoraria dos nossos índices. Nesse esforço, e com maior destaque, foi concebido o projeto Produtividade Extraordinária, com seus eixos: Juiz Extraordinário, Analista Extraordinário, Secretaria Extraordinária, Oficial de Justiça Extraordinário e Contadoria Extraordinária. A esse projeto, somou-se o Chamamento Judicial, concebido na Presidência do Tribunal de Justiça, replicando experiência do Superior Tribunal de Justiça, cuja execução ficou sob nossa responsabilidade.

Essas ações, aqui expostas de forma simplificada, resultaram em expressiva melhoria dos nossos números, culminando na maior produtividade da história do Poder Judiciário do Maranhão, desde a implementação das metas nacionais pelo CNJ.

Mas é preciso reconhecer, no entanto, que nada disso seria possível sem a determinação de nossos juízes e juízas, sem a força de vontade de nossos servidores (incluindo residentes e estagiários) e sem a decisiva contribuição de nossas Coordenadorias.

Digo, ainda, com a mesma ênfase, que, sem o apoio incondicional da Presidência do Tribunal de Justiça, também não teríamos alcançado a melhoria tão expressiva de nossos indicadores.

Esses resultados colocam o Judiciário maranhense, definitivamente, no panteão dos Tribunais mais produtivos do país, o que pode ser confirmado pelos números a seguir destacados, com a evolução registrada nos últimos doze meses:

Resultados Comparativos (Julho de 2024 x Julho de 2025)

Tempo médio de tramitação de processos de Feminicídio:

?2024: 762 dias

?2025: 348 dias

Redução: 414 dias (54%)

Tempo médio de tramitação das Ações de Violência Doméstica:

?2024: 869 dias

?2025: 505 dias

Redução: 364 dias (41%)

Tempo médio de tramitação das Ações de Saúde:

?2024: 395 dias

?2025: 285 dias

Redução: 110 dias (27%)

Tempo médio de tramitação das Ações Penais de Competência do Júri:

?2024: 1.874 dias

?2025: 1.349 dias

Redução: 525 dias (28%)

Tempo médio de tramitação das Ações Penais:

?2024: 1.459 dias

?2025: 1.079 dias

Redução: 380 dias (26%)

Redução do Acervo Pendente de Julgamento (processos distribuídos até 2022):

?2024: 28% do total de processos tramitando

?2025: 14% do total de processos tramitando

Redução: 50% do acervo

Redução da Taxa de Congestionamento Líquida:

?2024: 56%

?2025: 52%

Redução: 4% (representa uma redução de 4% no acervo de processos pendentes em tramitação no 1º Grau)

Indicador de Atendimento à Demanda (IAD):

?2024: 56% das unidades com IAD acima de 100%

?2025: 68% das unidades com IAD acima de 100%

Aumento: 12% (mostra que 68% das unidades judiciais de 1º Grau conseguiram resolver mais processos do que receberam)

Julgamento de Ações Ambientais (distribuídas até 2021):

2024: 4% haviam sido julgadas

2025: 42% haviam sido julgadas

Aumento: 38%

Além dos dados acima, cabe anotar que, no mês de julho de 2025, o TJMA superou, pela primeira vez em sua história, a marca de 100 mil processos baixados em um único mês.

Com esses números, monitorados contínua e incessantemente pelo setor de Inteligência da CGJ, posso dizer que, definitivamente, alcançamos uma produtividade extraordinária. O que começou como um projeto se tornou uma realidade, enchendo de orgulho a magistratura do nosso Estado.

É isso.

VAGÃO DA CONCILIAÇÃO-UMA VIAGEM PELA CIDADE

Nos dias 14 e 15 do corrente mês, a convite do desembargador José Nilo Ribeiro Filho, presidente do NUPEMEC – Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos –, embarcamos, eu e o desembargador Jorge Rachid Mubárak Maluf, com os consultores do Prêmio Innovare, Antônio Pontes de Aguiar Filho e Antônio Nery, o gerente jurídico Norte/Nordeste da Vale, Rômulo Nélson, além de um grupo relevante e necessário de conciliadores, liderados de perto pelo juiz Rodrigo Nina, no trem da Vale, para o que chamo de verdadeira viagem pela cidadania.

Na ocasião, testemunhamos de perto a realização de um dos mais auspiciosos e bem-sucedidos projetos do Tribunal de Justiça do Maranhão, pois materializa, fundamentalmente, à aproximação que tanto almejamos entre o Poder Judiciário e os cidadãos.

No referido trem, mais precisamente no já famoso “vagão da conciliação”, fruto da exitosa parceria entre a Vale e o Poder Judiciário, todos pudemos testemunhar a relevância das ações da Justiça quando dirigidas, especialmente, aos mais humildes — aqueles para os quais o acesso aos serviços judiciais constitui quase uma aventura e cujas demandas, muitas vezes, transformam-se em uma viagem sem fim.

Diferentemente do que ocorre com as decisões que resultam da judicialização — sem prazo e sem hora para se tornar exequível, pelos mais diversos motivos —, no “vagão da conciliação” vimos muitos sonhos sendo realizados, e nenhum sendo desfeito, destacando-se, entre os concretizados, o do casal Régio Brito Santos e Maria da Conceição Nogueira Coelho que, após 42 anos de união estável, finalmente, concretizou, no vagão da Vale, o desejo de formalizar juridicamente a sua união.

O exemplo acima, citado à guisa de ilustração, por ser o mais cintilante dos sonhos tornados realidade no “vagão da conciliação” – também denominado, pelo desembargador Jorge Rachid Mubárak Maluf, de “vagão da cidadania”, considerando-se que o projeto transcende a conciliação ou sua tentativa, destinando-se, ademais, as consultas jurídicas e atendimentos diversos -, é a reafirmação do óbvio, ou seja, de que a Justiça precisa ir onde o povo está.

Para que se tenha a dimensão do projeto, a reafirmar o seu amplo alcance, foram prestadas 93 (noventa e três) orientações jurídicas e realizados 124 encaminhamentos, números que realçam a importância do fomento ao respeito à cidadania, essencial à construção de sociedades mais justas e democráticas, em que os direitos de cada indivíduo devem ser sublimados como uma conquista da cidadania.

É de se realçar, pois, que o “vagão da conciliação” representa, objetivamente, mais uma porta aberta dentro do Sistema Multiportas do Poder Judiciário — também conhecido como Justiça Multiportas ou Tribunal Multiportas, expressão consagrada por Frank Sander, professor emérito de Harvard -, tratando-se, com efeito, de um instrumento que amplia o acesso à Justiça, confere dignidade constitucional ao cidadão, e possibilita a solução de conflitos de interesses, que não precisa, necessariamente, percorrer a tradicional via judicial.

De todo exposto, a lição que fica é clara: o “vagão da conciliação” veio para reafirmar a convicção que temos de que a solução negociada, com as partes assumindo o protagonismo da decisão construída é, definitivamente, o método mais eficaz e benéfico para resolver conflitos, pois, além de solucionar a demanda, preserva relacionamentos, reduz custos, flexibiliza negociações e presta tributo à rapidez, sem olvidar da diminuição do estresse que decorre da espera de uma decisão adjudicada.

É isso.

O VALOR DA INTROSPECÇÃO

Os dias presentes nos levam, todos concordam, a uma vida de correria, que, de seu lado, nos leva a uma quase permanente sensação de angústia, de não sermos capazes de atender às expectativas, ou seja, de não fazermos o que deve ser feito a tempo e hora, a considerar que tudo é para ontem, para agora, para já.

Pessoas como eu, de mente acelerada, que vivem a angústia da aceleração da vida, são levadas, com muito mais razão, a se perderem no caminho, tamanha a tenacidade com que me entrego aos afazeres do dia a dia, premido pelo tempo e pelas cobranças.

Por me reconhecer assim, estou sempre me cobrando um pouco menos de pressa, um pouco mais de pachorra, o que nem sempre é possível, pois, como tenho dito, minha mente é um turbilhão, processando várias coisas ao mesmo tempo, me impedindo até de realizar as introspecções – tema central dessas reflexões – que sei que preciso fazer, que todos deveriam praticar, enfim.

Os que convivem mais de perto comigo sabem que sou inclinado a análise interior, que condiz com aquilo que entendo como um processo fundamental para o meu desenvolvimento pessoal. E, quando falo em autoanálise, refiro-me, por óbvio, às introspecções, imprescindíveis nos dias de hoje, com tudo reclamando urgência.

Essas anotações são, portanto, uma advertência para a necessidade que todos temos de fazermos introspecções, voltando nossa mente para o nosso interior, mirando para dentro de nós mesmos, refletindo sobre as nossas vidas, crenças e ações, tentando contribuir, nesse processo de amadurecimento, para modificar o que deve ser modificado, construindo o que deve ser construído.

Tenho convicção de que, com uma autoanálise rigorosa, seremos capazes de selecionar nossos pensamentos e sopesar nossas angústias, nos permitindo crescer, pessoal e profissionalmente, valorizando o que importa e eliminando o que deve ser evitado.

Nesse cenário, precisamos compreender, sobretudo num mundo consumido pelas distrações das redes sociais, que todos somos capazes de fazer uma análise honesta e crítica de nós mesmos – como julgamos que somos capazes de fazer em face do semelhante -, pois que, na medida em que nos conhecermos melhor, estaremos mais preparados para entender o outro, melhorando, com consequência de uma natural evolução, as nossas relações interpessoais.

Agindo com o pensamento voltado para o próprio interior, creio, ademais, que seremos capazes de entender nossas limitações, compreender os desafios e nossa capacidade – ou incapacidade – de enfrentá-los, alinhar os nossos interesses, valorizar as nossas conquistas, crescer com as desditas, compreender melhor os nossos pontos fortes e fracos, bem como as crenças limitantes de nossas ações, com o que, no mesmo passo, seremos igualmente capazes de desenvolver empatia e capacidade de compreender melhor os outros, nos levando a uma melhoria contínua na seleção das nossas escolhas.

É isso.