A LIÇÃO SABEMOS DE COR, SO NOS RESTA APRENDER

Antes, uma história da vida real.

O ator João Miguel, quando tinha nove anos, apresentava um programa numa televisão local, em Salvador. Determinado dia, teve que entrevistar o genial Glauber Rocha (14/03/1939 – 22/08/1981), cineasta, ator, roteirista, produtor e crítico do cinema brasileiro. Muito nervoso diante do mito, o inexperiente ator começou a entrevista enfiando os pés pelas mãos:

-Glauber, eu vou te perguntar uma pergunta…

O cineasta interrompe o menino:

-E eu vou te responder uma resposta.

Qual a lição que se tira dessa historinha prosaica, trazida à colação a guisa de ilustração?

Que, de rigor, as coisas óbvias, de tão óbvias, não precisariam ser ditas.

Ainda assim, a vida tem nos ensinado que, mesmo sendo óbvias, às vezes a gente precisa dizer aquilo que todos têm em conta como verdade indiscutível, mas que não fazem uso como prática de vida.

Pois é sobre uma obviedade que pretendo refletir, aqui e agora.

Pois bem. A vida, dizem, é uma escola, disso resultando que, se recebemos dela lições diárias, de rigor, só nos restaria mesmo aprender.

Nada obstante, a verdade é que, conquanto se saiba a lição – para usar a expressão cunhada pelo grande Beto Guedes, tomada de empréstimo para essas reflexões -, não são muitos os que a aprendem. Daí que não são poucos os que, mesmo cientes dos ensinamentos, seguem passando à margem do que deveriam ter aprendido.

Nos dias de hoje, a lição mais comezinha que a vida ministra a todos nós, indistintamente, e que muitos sabem de cor, mas se negam a aprender, é que não se deve acreditar na primeira informação, ou seja, não se deve formar convicção sem checar a veracidade do que foi dito, sem, ademais, dar a oportunidade de a outra parte se manifestar sobre eventual irrogação.

A impulsividade, a precipitação, a crença acrítica e desprovida de discernimento diante da primeira informação – tomada como verdade absoluta e, em seguida, disseminada -, têm levado as pessoas, nesses tempos de reconhecida polarização e contaminação do debate político, a uma falsa percepção da realidade. Disso resultando prejuízos incalculáveis à vida de muitos de nós, sobretudo quando a “verdade” envolve as pessoas que exercem múnus público, com muita visibilidade, mais sujeitas, portanto, por óbvias razões, ao escrutínio popular.

Eu, cá do meu lado, já tendo vivido muito, ressabiado, ademais, em face dos exemplos que testemunhei ao longo da minha provecta existência, já tendo, portanto, aprendido a lição, sempre me apresso, diante de uma informação, ainda que seja trivial, em checar, ponderar, ouvir o outro lado, para evitar julgamentos precipitados, muitos dos quais, não raro, objetivam, nesses dias marcadamente intolerantes, deslustrar a história e a honra dos que são alvos das maledicências do mundo, potencializadas, como sói ocorrer, nos dias de fúria que vivemos, a reafirmar a necessidade de sermos prudentes diante da primeira informação, da primeira notícia.

Por má-fé, ou por não ter sido dado oportunidade de defesa em face das mentiras veiculadas, é que inverdades históricas se perpetuaram, com consequências graves para a sociedade em geral e para indivíduos em particular, como se deu, por exemplo, com Maria Antonieta, Rainha da França, que jamais teria dito a frase “se não têm pão, comam brioches”, mas que a ela resultou associada, num momento de forte tensão, cujas consequências todos temos ciência, a reafirmar que ainda temos muito que aprender, malgrado as lições que a vida nos proporciona todos os dias.

É isso.

SOMOS LIVRES PARA AMAR

Liberdade plena é o que muitos almejamos; não a temos e nem a teremos, no entanto, por compreensíveis razões.

A verdade é que, no geral, não somos totamente livres. Nesse sentido, estamos – e sempre estaremos, enfim – jungidos a circunstâncias da vida, quando não a normativas, que impõem limites às nossas ações, disso resultando que não podemos fazer tudo que almejamos; e é bom que seja assim.

Nem mesmo nas sociedade mais primitivas a liberdade era plena, pela singela razão de que ser liberdade plena é uma utopia.

Por mais poderosos que sejamos, nunca seremos totalmente livres, porque a vida é assim, sempre foi assim, assim sempre será.

Vivendo em sociedade, convivendo com o parecente, no estabelecimento de relações interpessoais, sempre houve e sempre haverá muitas amarras a nos prender, a restringir a nossa liberdade.

O homem, definitivamente, não pode fazer tudo que lhe convém, por isso existe o necessário controle social, pois que, liberto dos grilhões que limitam suas ações, tende a abusar da liberdade.

Para disciplinar a vida em sociedade, as regras são colocadas/impostas à observância de todos. Uns as cumprem sem hesitação; outros, ao reverso, as vilipendiam, por esse ou aquele motivo. Para os que as descumprem há condenações morais e legais, sem as quais a vida em sociedade seria um caos, daí que quando não as cumprimos, temos que suportar a inflição de penas, nas suas mais variadas modalidades e dimensões.

O Estado, por seus órgãos de controle e persecução, ou a sociedade, por suas instâncias informais de controle social, reagem sempre que não nos comportamos de acordo com as regras vigentes – escritas ou morais, repito.

Agindo assim ou assado, fora dos padrões morais ou em detrimento da ordem jurídica, podemos, sim, com alguma probabilidade, ser apenados, pois é assim a vida em sociedade.

De mais a mais, vivemos presos a muitas convenções sociais, que, do mesmo modo, limitam a nossa liberdade de agir. Regras escritas, convenções ou códigos morais, impõem a todos uma relevante limitação da liberdade.

Num mundo de tantas amarras, felizmente, e aqui o ponto fulcral dessas reflexões, somos livres para amar. Não há nada que nos impeça de amar. E amando a gente faz uma revolução.

Ninguém, nenhuma regra, nenhuma ação estatal, nenhuma vontade superior é capaz de nos impedir de amar. Nada é mais livre do que o amor. E quando amamos de verdade a gente se liberta – e liberta quem amamos, se o amor não egoísta.

O amor dá sentido à vida. Estar amando alimenta e melhora o estado da alma. O mundo se transforma quando se ama. A vida tem outro sentido quando o sentimento que a move é o amor, daí que, em face da relevância desse nobre sentimento, ele deve ser cultivado, regado, alimentado todos os dias.

Noutro giro, é preciso reconhecer que o amor não perde a sua relevância por não ser um amor possível, pois o mais relevante mesmo é amar, nas suas mais diferentes formas e dimensões.

Digo, por fim e ademais, que amar, dar amor, compartilhar esse sentimento revolucionário – sobretudo com a família, mas não só com ela -, antes de escravizar, nos faz viver livremente, pois que, como proclama Santo Agostinho, quem ama pode fazer o que quiser, pois o que importa mesmo é amar.

É isso.

ENVELHECER – PARTE I

ENVELHECER – Parte I


Se me perguntarem hoje quantos anos tenho, respondo que tenho os anos que me restam; os que vivi já não os tenho mais.??

A convicção que tenho é que o tempo passou e deixou em mim a certeza de que não são muitos os anos que me restam.??

A verdade é que há muito tenho a idade dos que têm prioridade nas filas de atendimento, ??daí a inevitável conclusão: a juventude, agora, vive na minha saudade ?.

Sobre a questão tenho agido de forma pendular.??

Há momentos que me sinto velho; há outros que me sinto jovem, projetando realizações para o futuro, futuro que, para os como eu, é logo ali, ou mesmo aqui e agora, afinal, como diz o genial Gilberto Gil:
“Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito
Que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos??”

Tudo, porém, são confusões da minha mente, porque , afinal, envelhecer termina sendo um privilégio, razão pela qual tenho tentado encarar a velhice com naturalidade.??

Ou não. ??

Não sei.

??Pode ser que sim; pode ser que não.

Acho até que não.??

Compreendo, no entanto, que só em estar refletindo sobre a questão já evidencia que não encaro a velhice com a naturalidade que gostaria.??

Aquela história de que o tempo parece que não passou, para mim não cola, e um dia, num breve dia, quando eu tiver saído para fora do teu círculo ( do tempo, refiro-me), não serei, nem terei sido (Caetano Veloso, Oração do tempo); simples assim.


?O tempo passou, sim.??

E como passou.??

E como foi rápido.??

E como deixou marcas em mim.??

Vejo-as por toda parte: no rosto, no corpo – e, agora, vejo-as, também, na mente, pois minha memória, que nunca foi boa, está mais seletiva que nunca.

??Não me desespero, porém, diante dessa realidade.

??Será???

Nessa questão sou bem resolvido.??

Jura???

Nem eu mesmo sei por que faço essas afirmações ao tempo em que reflito sobre elas, pois quem me conhece sabe dos meus conflitos com o tempo.

??Eu não sou bem resolvido nessa questão, preciso ser leal com as minhas idiossincrasias.

??Como não posso voltar no tempo, só quero viver bem o tempo que me resta.??

Mas queria viver sem conflito com o tempo; conflito que potencializa minha angústia em face dos planos que ainda faço para o futuro.??

Vivo em conflito com o tempo, admito.??

Mas não esqueço, entrementes, que foi o tempo que me permitiu realizar o que realizei; pouco é verdade. Todavia, realizei e isso importa.??

Convém indagar agora: fiz por merecer os anos vividos?
Cumpri bem o meu papel?
Tenho que me orgulhar???

Creio, imodestamente, que sim.

??Mas admito que fiz menos do que podia ter feito.??Todavia, ainda assim, realizei e, fundamentalmente, sei que deixarei, por exemplo, lições de como deve ser comportar um pai de família; esse, talvez, o meu maior legado. ??

Irrelevante a minha história???

Para muitos sim; para mim, não.

??Mas admito que podia ter sido mais audacioso, mais intrépido , enfim, afinal, muitas vezes, podendo reagir, me acovardei e paguei o preço da omissão.??

Tempo é tempo e nada se pode fazer para impedir o seu curso??.

Eu não posso, ninguém pode domar o tempo.
?Tudo isso, repito, são confusões da minha mente.??

É melhor mesmo que o tempo flua à solta, sem embaraços, sem impedimentos, afinal, tudo flui, tudo é fluxo, e é preciso viver a dança da realidade com ensina Heráclito, ou, como ensina Gilberto Gil,

“Não se iludam 
Não me iludo 
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo”

??E que cada um saiba viver o seu tempo, o seu momento, a sua história, afinal somos os únicos responsáveis pelas escolhas que fazemos.

??O racional mesmo é viver e deixar o tempo passar. ??

O hoje será, inevitavelmente , o ontem e o amanhã… bem, o amanhã a Deus pertence.??

De meu lado espero viver mais algum tempo para testemunhar o que virá.??

Apesar da idade eu vivo a perspectiva do que porvir, sim, ainda que saiba que existe uma grande possibilidade de não protagonizar o que virá, face a inevitabilidade do fim.??

Até quando posso esperar para viver o que espero que um dia virá ???

Não sei.??

Só sei que não tenho muito tempo de espera; e isso me aflige??.

Olho-me no espelho e vejo as marcas do tempo.


?Olho para os registros antigos e concluo que o tempo é implacável e que vivo agora, mais do que nunca, a angústia da brevidade da vida.


?E nesse cenário me questiono, mais uma vez: eu fiz o que devia ter sido feito?


?Valeu a pena?


?Fiz o certo?


?Onde errei e onde acertei?


?Não se volta no tempo.

Impossível, bem sei.

O que passou, passou.


?Mas não custa transportar o pensamento para o passado, porque isso ajuda a entender o presente.


?Pensar não faz mal, mas pode, sim, impor sofrimento– às vezes, desnecessariamente.


?Pode, todavia e noutro giro, energizar a alma.


?É que, pensando, volta-se no tempo, única possibilidade de reviver o passado.


?Voltando no tempo, as lembranças me vêm à mente, me alertando que ainda tenho alguma sanidade e que o tempo, mesmo implacável, não foi capaz de apagar as coisas boas que vivi, preservando em mim a capacidade de sorrir, mesmo diante da constatação de que o mundo muitas vezes me disse não.

É isso.



ENVELHECER – PARTE II

?

Que seria de mim se não tivesse a capacidade de pensar, de atender, enfim, às expectativas da minha imaginação, e de, no mesmo passo, reviver o tempo passado?

Os cabelos brancos, a pele flácida, a saudade inquietante em face do que vivi e do pouco (?) que usufruí, dão a exata dimensão do que o tempo é capaz de fazer. Tempo que só tem relevância se formos capazes de compreender, com Mario Quintana, que a vida é dever que trouxemos para fazer em casa, e que, depois de algum tempo, se não formos capazes de cumprir bem o que nos propusemos a fazer, será tarde demais, porque aí já teremos sido reprovados.

O tempo passa sem fazer concessões. E “quando se vê, já é Natal, quando se vê, já terminou o ano, quando se vê já se passaram 50 anos…” (Mário Quintana, ibidem), sendo que, no meu caso, já se passaram mais de setenta e dois.

Digo, a propósito, que insano é quem não se dá conta dessa realidade e desperdiça o melhor da vida complicando as coisas simples, daí que, se tivesse me dado conta antes, não teria, em determinados momentos, como tolamente o fiz, disparado a minha “metralhadora cheia de mágoas”, destruindo pontes e galvanizando, desnecessariamente, inimizades e antipatias (Cazuza).

Consciente de ter envelhecido, quero agora conduzir a minha vida em paz, até onde o tempo me premiar com sua generosidade.

Velhinho capeta, mal-humorado, criador de caso não sou – não quero ser.

Não sei ser assim; se fui um dia, disso não me ufano.

Velhinho simpático?

Também não sou.

Se não fui simpático na juventude, é muito pouco provável que o seja na velhice.

Mas eu tenho arroubos de simpatia, sim; espasmos de simpatia, admito.

O que fica de lição, depois de tudo, é que, se não podemos parar o tempo, devemos, ao menos, com o tempo vivido e com o tempo que nos resta viver para amar o próximo, para respeitar as diferenças, para afagar quem precisa de afago, para ajudar a minimizar a dor de quem sente dor, dar carinho a quem dele necessita, ser solidário com o sofrimento alheio.

Olho, mais uma vez, para o meu corpo e vejo que não cuidei de mim como deveria.

Não cuidei da matéria – e nem cuidei da alma.

Sei que é impossível, mas queria, sim, voltar no tempo, para poder reparar os erros que, podendo, não evitei cometer.

Se voltasse no tempo, faria muitas coisas diferentes.

Diferente dos arrogantes, eu admito, sim, que não faria tudo outra vez.

Eu faria só parcialmente o que fiz.

Eu, no mínimo, faria a mim as concessões que não fiz, e seria mais tolerante com os erros dos outros – e com meus próprios erros, em razão dos quais me impus desnecessário sofrimento.

Eu, muitas vezes, fui rude comigo mesmo – por birra e insensatez, admito.

Exigi de mim muito mais do que deveria.

Nessa questão estive próximo da irracionalidade.

Eu sou, sim, esse ser contraditório que as palavras desnudam.

A obsessão de acertar, de ser correto num mundo complexo como o nosso, me fez envelhecer mais rapidamente ainda.

Agora, não tem mais jeito.

O meu futuro é agora.

Agora é viver, admitindo que a lição já sei de cor, e que, diferente do que proclama o poeta, eu aprendi, sim.

Não dá para brincar de viver; nunca brinquei de viver, na verdade, conquanto admita que, em determinados momentos da vida, não sublimei a arte de viver quando o mundo me disse não (Guilherme Arantes).

Eu até poderia brincar de viver, eu poderia reaprender a viver, não tivesse feito opção por uma austera forma de ser e de encarar a vida.

Olho para mim mesmo e, às vezes, não me reconheço.

Nos registros de antanho me vejo ali: vinte, trinta, quarenta anos atrás, jovem, vivendo os espasmos da juventude que não aproveitei, pois o meu espírito envelheceu rapidamente, premido pelas circunstâncias da vida.

A verdade é que tive que me tornar adulto antes do tempo.

Agora, estou eu aqui aos setenta e dois, vivendo com a certeza de que entre os sentimentos que experimentei – e que movem a minha vida até hoje – o que me fez mais digno do ser humano que sou é o amor, por isso insisto, com o poeta popular, que, amando, vejo que a história parece não ter fim, daí que desejo amar todos que cruzarem o meu caminho.

É isso.

LACRADORES

O mundo digital incorporou ao nosso cotidiano algumas expressões que eu, da geração analógica, tive – e, às vezes, ainda tenho – dificuldade de compreender, embora tente me atualizar para não parecer anacrônico, afinal as expressões do universo digital estão incorporadas ao nosso cotidiano, e só nos resta mesmo tentar compreendê-las.

Nesse ambiente, termos estrangeiros foram sendo incorporados ao nosso vocabulário, e passaram a fazer parte da nossa vida. Reels (vídeos curtos e verticais, pensados para serem consumidos facilmente e compartilhados) feed (fluxo de conteúdo que pode ser visualizado em determinada ordem) e direct (forma privada de troca de mensagens), para ficar apenas nos três exemplos que me ocorrem agora, já fazem parte da linguagem corrente. Quem os desconhece terá dificuldades de interagir com o mundo digital.

Mas, ao lado dessas expressões, há outras que perderam, parcialmente, seu sentido original, para se incorporarem à nossa vida com outro sentido, como ocorre, por exemplo, com o termo lacração.

Com efeito, lacrar, outrora, tinha a ver, em seu sentido mais estrito, com segurança, disso resultando que quando alguém recomendava, por exemplo, que se lacrasse um envelope, sabia-se o que efetivamente se pretendia com a recomendação.

A mesma palavra, por outro lado, noutra vertente menos usual, significava fazer algo muito bem, impactante, relevante, com sucesso e com destaque; nada além disso, até que surgiram as redes sociais, e, com elas, lacrar passou a ter outra conotação, daí que o que, originalmente, significava segurança, mandar bem, realizar algo extraordinário, um grande feito, com as redes sociais, mudou de sentido, tema sobre o qual pretendo refletir a seguir.

Pois bem. Hoje, o lacrador, ou seja, aquele que “lacra” na internet, pode ser, sim, um inconsequente, um irresponsável, uma pessoa destituída de pudores, capaz de qualquer ação para dela se beneficiar, para tirar proveito material ou político, deixando, portanto, de ser protagonista de um grande feito.

Os lacradores, nos dias presentes, no sentido que empresto a essas reflexões, prestam um desserviço à sociedade.

A caça por likes e engajamento, a busca frenética por visibilidade ou de algum benefício pessoal, transformou os lacradores em serem nefastos, abjetos, nefandos e inconsequentes, os quais, com sua ação, transformaram as redes sociais onde atuam em ambientes tóxicos, impingindo à sociedade danos, por vezes, irreparáveis.

Movidos pelo prazer de lacrar, de estar em evidência, de alcançar os famigerados likes, os lacradores mentem, escarnecem, agem sem pudor, veiculando mentiras (as chamadas fake news), muitas das quais têm repercussão que extrapolam a esfera individual das pessoas, para ganhar dimensão nacional, em detrimento, até, da soberania nacional.

Definitivamente, os lacradores da internet, atuando numa área onde quase tudo podem, não têm limites daí que, vicejando muitos deles num ambiente político e polarizado, as lacrações vão além do inimaginável, pouco importando, algumas vezes, os prejuízos que causam à sociedade como um todo.

Reconheçamos que o mundo, depois da internet, jamais será o mesmo – para o bem e para mal.

As redes sociais, que, originariamente visavam – e visam, ainda, na sua vertente mais civilizada – facilitar a interação e a comunicação entre pessoas, por exemplo, se tornaram ambiente fértil para todo tipo de ação, das mais simples e despretensiosas às mais nefandas, onde vicejam os haters, capazes de qualquer ação que os levem à lacração, pouco importando as consequências da ação, quer em face de uma pessoa individualmente considerada, quer em face do conjunto da sociedade, pois que, para os lacradores, o que importa mesmo são a repercussão, as consequências, a monetização, os ganhos que possam auferir em face de suas ações.

Como diz o poeta popular, concitando as pessoas a não se acomodarem e a lutarem por um futuro melhor – e esse futuro necessariamente exige que se imponha um freio às ações danosas dos lacradores, que apostam no caos para dele tirar proveito: “É preciso dar um jeito, meu irmão”.

É isso.

CANTO DE DOR

Inicio essas reflexões sentado no terraço do meu apartamento, num final de tarde, embalado pelo canto de um pássaro selvagem – bigode, curió ou bicudo, imagino -, seguramente aprisionado numa gaiola, cujo canto – de dor, tenho certeza – me fez lembrar de um antigo sucesso de Luiz Gonzaga, o famigerado “Rei do Baião”, sobre o qual discorrei a seguir.

Pois bem. O cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989), em parceria com o advogado, compositor e poeta cearense Humberto Cavalcanti Teixeira (1915-1979), compôs o baião Assum Preto, verdadeira obra-prima do cancioneiro nacional, cuja letra tem início com a descrição plástica da beleza da mata em flor, para, em seguida, descrever um ato cruel entre os passarinheiros, sobre o qual faço menção adiante.

Desde muito novo, senti algo perturbador ao ouvir a música Assum Preto, sobretudo porque sempre fui – e sou – muito sensível a tudo que envolve o mundo animal, máxime dos que estão expostos à crueldade e à insensibilidade do ser humano. Demais, porque eu mesmo testemunhei o canto do mencionado pássaro, aqui no Maranhão, em Vitorino Freire, minha terra natal, por aquelas plagas nominado Chico Petro.

Ouvindo a música (experimente, se ainda não ouviu) a gente sente cravar uma faca no peito, tamanha a força narrativa da tragédia do pássaro, privado da liberdade de voar porque lhe arrancaram os olhos, para que o seu algoz tivesse primazia do seu canto, tornando-o – o pássaro – escravo do seu próprio estribilho, a reafirmar a inesgotável capacidade do homem de agredir a natureza, para servir aos seus desejos mais mesquinhos, pouco importando o sofrimento infligido, no caso, ao Assum Preto.

A letra da música segue:

Tudo em ‘vorta’ é só beleza, sol de abril e a mata em ‘frô’.

Mas Assum Preto, cego dos ‘óio’, num vendo a luz, ai, canta de dor.

Mas Assum Preto, cego dos ‘óio’, num vendo a luz, ai, canta de dor”.

E prossegue:

“ ‘Tarvez’ por ‘ingnorança’, ou ‘mardade’ das ‘pió’,

Furaro’ os ‘óio’ do Assum Preto pra ele assim, ai, ‘cantá’ ‘mio’,”.

E repete a letra, para cortar o coração de que tem sensibilidade:

“ ‘Furaro’ os ‘óio’ do Assum Preto, ‘pra’ ele assim, ai, ‘cantá’ ‘mio’.”

Mais adiante:

Assum Preto ‘veve sorto’, mas ‘num’ pode ‘avuá’, mil vez a sina de uma gaiola, desde que o céu, ai, pudesse ‘oiá’.”

E repete o refrão com a mesma conformação:

Mil vez a sina de uma gaiola, desde que o céu, ai, pudesse ‘oiá’.”

E finaliza:

Assum Preto, o meu cantar é tão triste como o teu, também ‘roubaro’ o meu amor que era a luz, ai, dos ‘óios’ meus, também ‘roubaro’ o meu amor, que era a luz, ai, dos ‘óios’ meus.”

Essas reflexões são um libelo em favor daqueles que, numa gaiola ou com os olhos arrancados, como o pássaro que inspirou os poetas – e aquele outro que ouvi da sacada do meu apartamento -, são subjugados e compelidos a cantar com exclusividade para satisfazer o seu algoz, que, prepotente e insensível, não se dá conta de que, na verdade, o que o canto sugere é um grito de dor, um pedido de socorro.

É isso.

FALEM MAL, MAS FALEM DE MIM

Há curiosidades para as quais não temos respostas. Não se entende, por exemplo, por que os kamikazes usavam capacetes e nem a razão pela qual, antes de se aplicar uma injeção letal, se usa álcool para limpar o local, nos casos de penas capitais.

Essas duas “curiosidades” – abstraído o sentido lúdico dos questionamentos -, tomadas ao acaso apenas para ilustrar, serviram de inspiração para que eu desenvolvesse esta crônica, em face de outra curiosidade – esta real -, que permeia as nossas relações e sobre a qual passo a refletir.

Pois bem. Não se há de negar que há, sim, pessoas para as quais a opinião dos outros não tem a menor relevância. Quando se trata, por exemplo, de um agente político, via de regra, ao serem acossados por uma acusação, em vez de ficarem agastados, tratam-na com desprezo e se defendem com o mesmo e manjado jargão, que serve de defesa para todas as acusações: “É tudo perseguição política”. Ou, então, tratando-se de uma fala descuidada: “Tiraram-na do contexto”.

Na vida dos simples mortais, entrementes, não é assim que a banda toca. Ninguém se defende de uma acusação grave apenas alegando ser perseguição de um desafeto, conquanto até pode sê-lo em determinadas situações.

Mas, ao lado dos mortais, para os quais qualquer imputação importa, há os que, narcísicos, são indiferentes a qualquer fala contra si. Esses, não raro, gostam de dizer que são imunes à opinião alheia, daí que, ao tomarem ciência de que alguém, em algum lugar, tenha falado sobre elas, mesmo que seja a imputação de um fato grave, se apressam em dizer, até com certo desdém e teatralmente, que “não estão nem aí” e que o que importa mesmo é que façam menção a elas, ou seja, falem bem ou mal, mas que falem delas, o que, desde a minha compreensão, é apenas uma frase de efeito, pois, rigorosamente, creio que ninguém gosta de ser malfalado, de ser mal-afamado, caluniado ou espezinhado sob qualquer perspectiva – a menos que se trate de uma personalidade doentia, para a qual os valores morais são indiferentes.

De minha parte, já tendo sido – raras vezes, é verdade – vítima de falas desairosas, digo, com ênfase, que não me apraz a máxima, convicto de que só mesmo um narcisista se compraz ou aceita, sem se incomodar, com uma fala irresponsável, apenas pelo prazer de ser comentado, de estar no centro das atenções, sobretudo quando se trata de uma fala irresponsável, sem uma base factual que lhe dê sustentação.

Para mim, não existe essa de ter que estar em evidência, de ser comentado apenas para ser lembrado. Eu, cá do meu canto, prefiro o esquecimento a estar na boca do povo, sendo alvo de comentários malévolos, apenas pelo desejo, injustificável, de ser lembrado.

Prefiro o ostracismo a ser objeto de falação de quem quer que seja, conquanto admita que, na condição de homem público, sobretudo nos dias atuais, com as redes sociais dando abrigo a todo tipo de gente que age sem limite e sem pudor, não ser malfalado é quase uma quimera.

Todavia, ainda que tenha ciência da minha exposição, das maledicências do mundo, do fato de que sempre decidimos a favor ou contra alguma pretensão, que o derrotado quase nunca se conforma e de que, nessa condição, pode, sim, com muita probabilidade, dizer o que lhe apraz e convém, cultivo em mim a expectativa de que respeitem a minha história, respeitem o meu compromisso com a coisa pública, minha preocupação permanente em fazer o que é certo, errando aqui e acertando acolá, mas nunca movido por outro sentimento que não seja o de fazer o correto.

Definitivamente, não creio que, verdadeiramente, uma pessoa possa achar normal que falem dela, bem ou mal, apenas para estar em evidência.

É isso.

HAVERÁ SEMPRE UMA DOSE DE SOFRIMENTO

O epicurismo – filosofia fundada por Epicuro de Samos, no século IV a.C – ensina que o objetivo da vida é a busca do prazer, de maneira racional e equilibrada, na perspectiva de que, eliminando o desejo do que não é razoável, almejando racionalmente o que é possível, tendemos a ter uma vida melhor e mais equilibrada, com menos dor e sofrimento.

Para os epicuristas, de mais a mais, a felicidade está em desfrutar dos prazeres simples da vida, como a amizade, as pequenas atividades do dia a dia e a família, destacando, como exemplos de coisas simples, o desfrute de um café da manhã com a família ou de uma caminhada no parque.

O epicurismo orienta, ademais, que evitemos a dor mental e emocional, como o medo, a ansiedade e o sofrimento.

Em síntese, o melhor dos mundos, para os epicuristas, está em buscar a felicidade nos prazeres simples e duradouros, sem nos deixar dominar por desejos excessivos ou medos.

A vida, no entanto, não é bem assim, infelizmente.

A realidade, importa reafirmar, se contrapõe aos ensinamentos dos epicuristas, pois a vida, por mais que busquemos a felicidade nas coisas simples – e nesse sentido sou um epicurista ranzinza -, o mundo nos reserva, em determinados momentos, uma dose elevada de sofrimento, na medida em que, importa reconhecer, ninguém passa pela vida sem experimentar um dissabor intenso.

A verdade é que todos nós, de rigor, buscamos viver uma vida sem dor e sem sofrimento; essa é a propensão/desejo natural de todo ser humano. Não são poucos, portanto, os que, como eu, vivem a vida buscando a felicidade nas coisas simples, objetivando levar a vida da melhor maneira possível, busca que, aqui e acolá, se depara, inevitavelmente, com mágoas e aflições, resultando disso, como sói ocorrer, a inevitabilidade de dores e sofrimentos, alguns dos quais lancinantes, do tipo insuportável mesmo, levando-nos, muitas vezes, à irracionalidade, nos colocando em rota de colisão com as nossas crenças.

Vivemos, todos, buscando, frenética e incessantemente, a felicidade. E ela, às vezes, como é compreensível, simplesmente não vem. Às vezes, ela até vem. Mas vem em doses. Ela nunca vem por inteiro. Ninguém é feliz o tempo inteiro. Haverá sempre uma dose de sofrimento, a reafirmar o óbvio, ou seja, de que ela, a felicidade, nunca é completa, ainda que a busquemos nas coisas simples, como ensina Epicuro.

O filósofo Mário Cortela, com sabedoria, lembra que quem se diz feliz o tempo inteiro é apenas um tonto, na medida em que é inviável a felicidade em tempo integral.

A verdade é que a vida nos reserva sempre uma dose de sofrimento, como dito acima. Sofrimento que pode ser intenso ou em menor grau. De toda sorte, sofrimento, convindo avaliar, nesse sentido, como nos preparamos para os reveses que a vida nos impõe, para as adversidades que permearão a nossa história, para as quedas, para os açoites, para os tropeços que a vida nos infligirá, mais cedo ou mais tarde.

É claro que cada pessoa tem sua dose de resiliência. Umas são mais; outras, menos resistentes às dores infligidas pela vida. Da minha parte, admito, não sou resistente diante das adversidades, fruto de uma história de vida que me fragilizou, daí que nenhuma adversidade me ocorre sem uma dose mínima de sofrimento, incapaz que sou de controlar o pensamento, que termina por assumir o controle da minha vida.

É isso.