Lembro, como se fosse hoje: em 1986, portanto, há quase 40 anos, por opção, já que me foi dado o direito de escolher a comarca, fui nomeado para o cargo de juiz de direito de Presidente Dutra, composta, à época, ademais, por dois termos: Tutum e Eugênio Barros, hoje comarcas autônomas.
Eu pretendia – como efetivamente fiz – morar na cidade-sede da comarca. Daí a minha opção por uma unidade que me desafiasse, que exigisse o máximo de mim, para que eu pudesse evoluir como magistrado e, claro, como pessoa.
Encontrei em Presidente Dutra os desafios que me propus a enfrentar: muitos anos sem juiz titular, cujos processos, por isso mesmo, estavam acumulados, levando a população a uma forte descrença no Poder Judiciário. Em Presidente Dutra, vi diante de mim, com efeito, o cenário perfeito. Os desafios eram enormes, para os quais, depois constatei, eu não estava preparado, pois era muito jovem ainda e sem nenhuma experiência judicante.
À época, os que comigo compartilharam os mesmos momentos/desafios – falo dos que ingressaram no mesmo concurso – hão de lembrar: não recebíamos nenhum treinamento, nenhuma orientação; apenas desafios. Nesse sentido, era, como diz a voz corrente, “pegar ou largar”. Aprovados, tomávamos posse, entrávamos em exercício e colocávamos as mãos na massa – ops! – nos processos.
Nesse panorama, os desafios eram enfrentados solitariamente, e o maior sentimento era o de angústia, superado, como um imperativo, pela determinação de tentar fazer o melhor, convindo anotar, a guisa de ilustração, que as sentenças e despachos eram rascunhados à mão, muitas vezes de madrugada, para depois serem datilografados, no meu caso, numa velha e barulhenta Olivetti portátil, que ganhei de presente e guardei durante muito tempo como um troféu.
Para conhecimento da nova geração – e para reavivar a lembrança dos que, como eu, viveram no mundo analógico -, destaco, ademais, que os depoimentos eram colhidos artesanalmente, com a audição do depoente e, em seguida, sua reprodução de viva voz, para que fosse consignada em ata pela escrivã, em máquina similar à Olivetti que mencionei acima, com o compromisso, dever e obrigação de ser fiel ao que foi dito.
Pois bem. Foi forjado nesse ambiente de dificuldades que cresci – crescemos, enfim, eu e os da minha geração – como profissional, vivendo, ademais e com especial sacrifício, as agruras do isolamento social a que me impunha, situação determinada pela cultura sedimentada à época – e sempre lembrada como um alerta pelos mais experientes -, segundo a qual o magistrado devia evitar relações sociais que pudessem deixar dúvidas sobre a sua imparcialidade.
São quase quarenta anos de exercício pleno da atividade judicante. Quase meio século, portanto, tentando fazer o melhor pelo Poder Judiciário, em cuja trajetória, admito, cometi muitos erros, mas, também, acertos, a reafirmar a minha – a nossa – condição de seres humanos, falíveis e imperfeitos.
Eu bem que poderia, à época, ter optado por uma comarca que exigisse menos de mim. Propus-me, nada obstante, ao desafio. Decidi que seria bom para minha carreira enfrentar o mar bravio, para me tornar um bom marinheiro, como o título dessa crônica sugere; se não me tornei, pelo menos tenho a consciência de ter tentado.
Hoje, estou aqui, aos 72 anos, cheio de vitalidade e determinação para continuar servindo ao Poder Judiciário do Maranhão, até quando tiver saúde e a lei permitir, consciente de que, como disse acima, tentei sempre fazer o melhor, dar o melhor de mim, deixando parte da minha vida e da minha saúde pelo caminho, construindo parte relevante da minha história, com algum sacrifício pessoal e familiar, tudo recompensado pelo sentimento que tenho de ter, pelo menos, tentado fazer o melhor.
É isso.





