A PATOLOGIA DA AMIBIÇAO – PARTE I

Convém destacar, de logo, que a ambição, conquanto possa ser, em determinadas circunstâncias, uma armadilha ou a própria ruína (vide caso Banco Master e suas implicações), ela não é de todo ruim, porque, afinal, é ela que move as civilizações, impulsiona descobertas e é capaz de elevar o ser humano para além de sua condição imediata, como sói ocorrer, a reafirmar o óbvio: a ambição não é necessariamente danosa, desde que não assuma contornos patológicos, sobre o que pretendo refletir adiante.

Pois bem. Sob a perspectiva que me levou a essas reflexões, há uma versão dela (da ambição) que é perversa, grave, e profundamente danosa, porque é do tipo que corrompe silenciosamente, sorrateiramente, às escondidas, até que um dia as consequências dela se revelam, expondo os que sob o seu manto se mantiveram escondidos, à sorrelfa, furtivamente. Essa ambição, que é a que importa para essas reflexões, é a de natureza material que, todos testemunhamos cotidianamente – e a história está prenhe delas -, tem destruído biografias, mesmo as mais lustrosas, exatamente porque, para determinadas pessoas, ela simplesmente não tem limite, ela se mede em bens, cifras e posses, passando ao largo dos valores morais que muitos de nós insistimos em cultivar e preservar, levando o homem à sua própria destruição.

Os filósofos, a propósito, denominavam essa forma de ambição, no sentido aqui empregado, de pleonexia, que é o vício de sempre querer mais do que se tem, não por necessidade, mas por incapacidade de reconhecer o suficiente. A palavra deriva do grego pleon (mais) + echein (ter), que, literalmente, significa “ter mais”, indo além da simples ganância. É uma sede insaciável que se autoalimenta. É como se cada conquista gerasse não satisfação, mas um novo desejo. É como se pessoas que pensassem e agissem assim estivessem sempre insatisfeitas com o que tem, pouco importando o ser, mas o ter. É o vício da alma, como bem descreve Aristóteles, ou o sintoma de uma alma desordenada, como a via Platão. É a mentalidade moderna, na minha visão, que destrói reputações: mais dinheiro, mais status, mais poder – não como meios, mas como fins em si mesmos, num quadro patológico que acomete alguns homens públicos, levando-os à degradação moral.

Em situações em que a ambição material sobrepuja, deliberadamente, a própria trajetória de vida, sobrevém a desmoralização, as relações deixam de ser saudáveis porque elas representam apenas redes de interesses, são instrumentalizadas para a obtenção de mais e mais, sem controle, sem peias e sem limites.

A história nos oferece retratos nítidos do que estou falando, a reafirmar grandes fortunas erguidas sobre atalhos éticos, levam figuras públicas, antes intocadas, a perderem o respeito dos seus concidadãos, na medida em que decidiram colocar a riqueza no centro de sua identidade moral, tornando o homem refém daquilo que conquistou, cujos efeitos são potencializados quando de trata de homem público, do qual se exige a maxime probidade e controles morais internos capazes de controlar os seus impulsos e sua ambição.

Nesse cenário, em que se coloca a posse como algo a ser sublimado, nós outros, que não fomos capazes – por incompetência ou retidão – de acumular riqueza, somos tratados como quem falhou, distorcendo o sentido do mérito, ante a cultura que se fortalece inspirada na ambição.

A ironia de tudo o que envolve a ambição, no sentido empregado nessas reflexões, é que ela entrega consumo, entrega prazer, leva as novas relações, mas também entrega a diminuição de caráter, destruição da história e da biografia de quem do poder se vale para realização de desejos meramente materiais, daí a indagação que a mim me resta fazer, para encerrar essas reflexões: vale a pena uma ambição que destrói reputações, apaga legados, aniquila biografia e se revela como um grave defeito moral?

É isso.

A PATOLOGIA DA AMBIÇÃO- PARTE II

Vou falar, agora, de ambição pelo poder. E, com razoável certeza, ao final destas reflexões, é bem provável que você identifique alguém muito próximo que deseja o poder a qualquer custo, cuja característica, na busca dos seus objetivos, é a simpatia que esconde oportunismo; o sorriso maroto que revela desfaçatez; os mimos deixados nas portarias das residências dos potenciais eleitores para se mostrar solícito; e o tapinha nas costas para enganar os tolos, tudo isso usado como arma de conquista.

Vamos refletir, pois, sobre o ser humano que não tem limites quando o poder está em jogo, convindo anotar que Aristóteles já observava, a propósito, que o homem, sendo um animal político, tende naturalmente a organizar-se em sociedade e a disputar posição de influência, daí por que a ambição pelo poder não é, necessariamente, ruim, mas em sua forma moderada. Sob essa perspectiva, ela pode impulsionar o homem a grandes realizações. O problema surge quando se torna desmedida, porque, nesse caso, o ser humano age sem limites; e, claro, quem não se impõe limites para conquista do poder, tende a abusar desse mesmo poder – e a história está repleta de exemplos, para não me deixar mentir.

Pessoas sôfregas pelo poder buscam entrar para a história a qualquer custo, recorrendo, se necessário, a atalhos para afastar quem se interpõe em seu caminho. Nesse sentido, almejam construir a sua história, sob qualquer condição, valendo-se de quaisquer meios. Nesse afã, dizem o que não fazem e fazem o que não dizem. Prometem o que não pretendem honrar; não são fiéis a ninguém, muito menos a princípios. O que importa é ascender, ainda que, para isso, tenham que dissimular e assumir compromissos que não vão honrar. Para esse tipo o de gente, tudo é pouco; o céu é o limite, portanto. Nada as satisfaz porque sua ambição é patológica. Podem ter dinheiro, podem ter família, podem viver rodeado de amigos, mas nunca estão satisfeitas, porque elas almejam mesmo é o poder. Nesse ímpeto, vão “comendo belas bordas”, como se diz popularmente. Elas podem, até, ter o que a maioria das pessoas não têm. Ainda assim não são felizes, porque elas almejam mesmo é o poder. O poder é sua obsessão. Isso não é exagero; é diagnóstico.

Esse tipo de gente, que se faz de manso e cordato para alcançar seus objetivos, confunde ambição pelo poder com sua própria identidade. E não está nem aí se não está preparado para o poder; acha que, uma vez investido nele, tudo se resolve. Para esse tipo de gente, o poder não é meio — é fim. Não é ferramenta — é identidade. Tire o poder dele, ou lhe negue o poder, ou lhe dificulte o poder, e ele se revela.

Esse homem, ambicioso, diz uma coisa e faz outra. Jura fidelidade, mas é desleal. Jura respeitar a história dos outros, mas a espezinha. E não perde o sono por isso. Chama essa conduta de estratégia, de pragmatismo. Entende que é assim que o mundo funciona, o qual ele e seus iguais ajudaram a construir em benefício próprio. Ele negocia com a consciência como quem negocia com fornecedores: busca o poder com a obsessão sem limites. Ética, na disputa pelo poder, quando lhe ocorre, é obstáculo; lealdade, quando convém, é moeda; amizade é somente rede de contatos.

O mais perturbador não é saber do que ele é capaz para alcançar o poder. O que espanta é a normalidade com que as pessoas encaram esse tipo de gente.

O ambicioso patológico, de quem trato aqui, se parece com todos nós. Ele dorme bem. Come bem. Frequenta igreja, às vezes. Faz doação quando há plateia. Tem família, tem foto na parede, tem discurso pronto sobre valores e meritocracia. Mas, quando está em jogo o poder, ele se revela, se mostra como realmente é: alguém que não entende o significado da palavra lealdade, respeito e empatia.

E sabem o que é pior? É que o sistema não só absorve esse tipo de gente – ele o recompensa. O sistema o aplaude. Coloca-o na capa de revista, dos principais jornais e nas colunas sociais.

O mais grave, ainda, é a constatação de que essas ações ambiciosas, quando bem-sucedidas, viram exemplo.

É isso.

A PATOLOGIA DA AMBIÇÃO – PARTE FINAL

Com esse ensaio encerro a trilogia da ambição em sua feição patológica.
Para os que não tiveram acesso aos ensaios anteriores, no primeiro texto
fiz reflexões sobre a ambição material e, no segundo, sobre a ambição pelo poder,
apontando os efeitos deletérios de uma e de outra, deixando consignado que, em face de
ambas, o homem se revela e, não raro, pode perder a direção.

Nas reflexões com as quais encerro, agora, a trilogia, discorro, mais uma
vez, sobre a patologia da ambição, ainda sob a perspectiva do poder, mas à luz da
literatura.

Pois bem. Com a tragédia de Sófocles, composta por volta de 442 a.C,
faço a primeira ilustração, lembrando que Antígona era filha de Édipo e irmã de Etéocles e
Polinices, os quais disputavam o trono outrora pertencente ao pai; disputa que,
inicialmente, culminou num acordo segundo o qual ambos se revezariam no poder,
cabendo a cada um reinar por um ano, começando por Etéocles. Contudo, como sói
ocorrer com os que têm sede incontrolável de poder, transcorrido o primeiro ano, Etéocles
recusou-se a ceder o trono ao irmão, dando início a um trágico conflito, do qual resultou,
para sintetizar, a morte de ambos. tendo como pano de fundo, como dito, a ambição pelo
poder.

O que se conclui da tragédia de Sófocles é que o homem, estando no
poder, revela-se em sua inteireza e, muitas vezes, tem dificuldades de honrar a palavra
empenhada, pois, pelo poder, tudo é capaz, até matar ou morrer. Na tragédia, a ambição
desmedida dos irmãos – especialmente de Etéocles, que passa de herdeiro legítimo a
tirano, quebrando a própria palavra -, de tão incontrolável, conduziu-os à morte.

À guisa de ilustração, e ainda sob a perspectiva do que o poder é capaz
de fazer com os patologicamente ambiciosos, reflito, a seguir, sobre o romance satírico A
Revolução dos Bichos, de George Orwel, obra que faz contundente crítica ao
totalitarismo e à degeneração dos ideais revolucionários, podendo ser analisada,
igualmente, sob a ótica do que o homem – no romance, os porcos –, é capaz de fazer
estando no poder.

O livro, como sabido, conta a história de uma fazenda em que os animais,
insatisfeitos com o tratamento que recebem dos humanos, resolvem rebelar-se, liderados
pelos porcos. Inicialmente, os líderes revolucionários pregam ideais de igualdade e
liberdade, os quais deveriam reger a convivência entre os animais. Entretanto, com o
passar do tempo, traem os próprios ideais que juraram defender.

Nessa fábula moderna, há traições até mesmo entre os suínos e os
demais bichos, como acontece no mundo dos homens. Aos poucos, os porcos, líderes do
movimento revolucionário, passam a agir exatamente como os antigos opressores,
tratando os demais animais de forma despótica, contrariando tudo aquilo que antes
juraram combater.

O que se infere da tragédia de Sófocles e do romance satírico de Orwel é
que, pelo poder e estando no poder, quando a ambição assume contornos patológicos,
irmão desconhece irmão, pai e filho tornam-se inimigos, amigos traem amigos, ante a
incapacidade de honrar a palavra empenhada e de respeitar a história construída ao lado
do outro, a reafirmar, enfim, que o poder corrompe e degenera.

O que Sófocles e George Orwel ensinam, com a tragédia e com o
romance, respectivamente, é que o homem, uma vez aboletado no poder, revela a sua
verdadeira essência e que o poder corrompe até mesmo aqueles que começaram

movidos por intenções aparentemente boas, como se deu com os porcos que lideraram a
revolução, sob genuínos ideais de igualdade e libertação, e com os irmãos Etéocles e
Polinices, da tragédia de Sófocles.

Na tragédia, importa lembrar, a história de Etéocles e Polinices funciona
como espelho das disputas políticas que destroem nações, desfazem amizades e
desprezam sentimentos em face do ego desmedido dos líderes. No romance, a lição que
se extrai é a de que o poder tende, inevitavelmente, a corromper.

Por tudo isso, devemos ter extremo cuidado com as pessoas que alçamos
ao poder, porque há quem, movido por propensões ditatoriais, uma vez ungido e, muitas
vezes, cercado de fanáticos e maus conselheiros, sinta-se tentado a perpetuar-se no
mando, olvidando-se dos limites que a democracia impõe.

É isso.

SABE LÁ O QUE É NÃO TER E TER QUE TER PRA DÁ?

O título dessa crônica tomei de empréstimo à música de Djavan, para refletir sobre as dificuldades que alguns candidatos terão para convencer os eleitores, diante da constatação de que quase todos os pleitos são contaminados pelas ações e promessas heterodoxas de muitos, especialmente dos mais favorecidos pelas circunstâncias – e aqui me refiro aos que disputam o voto estando, por exemplo, no poder ou, por outro lado, dispõem de melhores condições materiais para facilitar o “convencimento do eleitor”; facilidades que terminam, pelo que elas contêm de danosas, por deslustrarem a própria democracia que, a rigor, deveria ser homenageada nas pugnas eleitorais.

Ante a constatação de que não são poucos os que fazem qualquer coisa pelo voto do eleitor para alcançar o poder, em face mesmo da obsessão/fascínio que ele, o poder, exerce sobre os mais ambiciosos – tema sobre o qual refleti recentemente na trilogia sobre a ambição patológica -, o que se tem testemunhado é que, após um resultado adverso, não é incomum os candidatos se questionarem sobre os erros eventualmente cometidos. Nesse cenário e como consequência dele, é natural, ademais, que, após a derrota, os experts questionem os candidatos, apontando essa ou aquela omissão como causa do malogro, do tipo: “você não prometeu o que devia prometer”; “você não ofereceu nada em troca”; “o adversário fez o jogo que você não fez”, para, finalmente, concluírem, numa acusação mordaz, ferina, inquietante e desalentadora: “numa disputa, o feio mesmo é perder”, como que alertando que os fins justificam os meios.

Eu, cá do meu lado, atento observador do mundo e dos meus iguais, numa eventual disputa, qualquer que seja ela, em qualquer nível e para qualquer cargo, faria exatamente o que fiz na minha vida inteira: ofereceria – como o fiz na disputa recente pela presidência do Tribunal de Justiça do Maranhão, em que fui questionado pela minha conduta/omissão – apenas e tão somente a minha história, para que, a partir dela, pudessem os eleitores avaliar se eu sou, ou não, digno do voto, o que, no caso da eleição para presidência do Tribunal de Justiça, certamente foi irrelevante.

Tivesse que submeter meu nome a uma disputa eleitoral – o que menciono apenas para argumentar, pois uma candidatura a um cargo eletivo, para mim, não seria mais do que um delírio -, eu nunca teria nada a oferecer, a não ser, repito, o que construí ao longo da minha vida, ou seja, a minha história. Ofereceria, por exemplo, o que realizei à frente do Tribunal Regional Eleitoral, tirando-o, em tempo recorde, da penúltima posição no Selo Prata de Qualidade, do Conselho Nacional de Justiça, para conduzi-lo a uma conquista inédita: o Selo Diamante. E ofereceria, ademais, as ações que desenvolvi na Corregedoria-Geral de Justiça, levando-nos a alcançar a maior produtividade da nossa história, conduzindo-nos, da mesma forma, ao Selo Diamante de Qualidade. Ofereceria, portanto, a minha trajetória, a minha história profissional, marcada por dedicação, empenho, esmero, zelo e conduta ética, que pretendo deixar como legado às novas gerações de magistrados.

Enfim, era tudo que eu poderia oferecer para conquistar votos. Se nada disso fosse suficiente, nada mais me restaria, lamentavelmente, por não ter qualquer outra coisa a oferecer. Nada além disso eu poderia oferecer, porque escaparia de mim qualquer oferta que não estivesse vinculada às minhas atividades judicantes, às quais sempre me dediquei integralmente ao longo da vida. É assim que entendo deva funcionar o convencimento nas eleições; o resto, é pura heterodoxia que escapa à minha maneira de ver o mundo. E, se para o eleitor isso ainda for insuficiente, a mim só restaria repetir e lamentar com o poeta popular: “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar. Sabe lá. Sabe lá”.

É isso.

UM PAÍS DIVIDIDO

Principio essas reflexões com uma obviedade: somos um país dividido,
fruto do ódio/radicalismo que tem permeado as discussões/ações políticas, nos mais diversos ambientes – familiar, inclusive -, a contaminar as relações sociais.

Já tendo vivido muito, testemunhei – como eleitor, como advogado,
professor, promotor de justiça e magistrado – muitas disputas políticas, sobretudo depois da redemocratização; testemunhei, portanto, de tudo um pouco.

Ainda assim, me surpreendo com o que tenho assistido nos dias de
hoje, vendo o radicalismo político tomar conta do debate, tornando-o incivilizado, agressivo e, consequentemente, improdutivo.

O que tenho testemunhado, lamentável dizer, é a disseminação do
ódio, sobretudo nas redes sociais, campo fértil no qual vicejam as incompreensões, as desinteligências e a intolerância.

Chegamos a uma situação de tamanha insensatez que, tenho
constatado, estamos autorizados, nos ambientes familiares – pasmem! – assacar críticas contra os próprios pais que elas ainda assim serão toleradas.

O que não é permitido, triste reconhecer, é dirigir críticas a
determinadas lideranças políticas, ungidas à condição de intocáveis, de semideuses até.

A situação aqui descrita, importa reafirmar, é grave.
O cenário sob os nossos olhos, e dos que ainda guardam alguma lucidez, é constrangedor e preocupante, a exigir detida reflexão.

Como não estou impedido de pensar, fico imaginando que, para que o
nosso país volte à civilidade e à união, só mesmo uma situação de ameaça externa, conquanto ainda tenho dúvidas sofre a sua eficácia, tamanhas as paixões, tamanhas as dissensões, considerando que a radicalização nos levou ao paroxismo, a revelar uma triste realidade: quem assume posição no espectro político se transforma, no mesmo passo, em inimigo de quem está no espectro político oposto, em face da preponderância da máxime do “nós contra eles” que tem norteado o debate político.

Para ilustrar, cito uma passagem da nossa história que, outrora, uniu o
país; penso que ela servirá para justificar a linha de pensamento acima adotada.
Pois bem. Na famigerada Guerra do Paraguai, os brasileiros de cor
branca lutaram ao lado de escravos, negros, mulatos, índios e mestiços; ribeirinhos da Amazônia e sertanejos do Nordeste encontraram-se e se uniram, pela primeira vez, aos gaúchos, catarinenses e paulistas.

A guerra em comento, portanto, produziu um sentimento de unidade
nacional que o Brasil jamais havia testemunhado, mesmo no tempo de sua
independência, cumprindo anotar que até o imperador se deslocou para a frente de batalha, enfrentando o frio e a intempérie numa barraca de campanha.

Essa passagem da história me leva a conclusão de que talvez uma
causa nacional nos unisse, ainda que se admita uma certa dúvida, visto que, no
caso da pandemia de Covid, por exemplo, testemunhei, estupefato, a sociedade
dividida entre os que apostavam na ciência e os negacionistas, para os quais a
vacina só traria malefícios a quem se dispusesse a entregar o braço para a sua
infusão.

O que espero, cá do meu canto, é que, nesse cenário desalentador que
hoje se apresenta, surja uma liderança que tenha o bom senso e pregue a
concórdia, para, no mesmo passo, refutar a beligerância.

Lembro, a propósito do bom senso e do equilíbrio que deveriam
presidir as ações das nossas lideranças, da reação de Benjamim Constant, quando o alfares Joaquim Inácio, radicalizando, propôs o fuzilamento de D. Pedro II, por ocasião das tratativas para a Proclamação da República. Na oportunidade, ante a desabrida proposta de execução do imperador, o militar brasileiro reagiu nos seguintes termos: “O senhor é sanguinário! Ao contrário, devemos rodeá-lo de todas as garantias e considerações, porque é um nosso patrício muito digno”.

Não é essa sensatez, entrementes, que tenho visto nos dias atuais, lamento concluir.
É isso.

REFLEXÕES SOBRE TRAIÇÃO

Já vivi o suficiente para ter a exata dimensão da realidade, de modo que já não me surpreendo com nada. Não me iludo com encenações, abraços, promessas feitas ou qualquer gesto que preceda a traição. Embora não me iluda, persisto — para sobreviver — acreditando no ser humano. Não há outra opção, já que não nos é permitido devassar a mente alheia; a traição é uma engrenagem que escapa à nossa percepção.

Insisto em dar crédito ao próximo para, depois, me decepcionar. Foi o que ocorreu em um episódio recente de minha vida pessoal, que repetiu, no mesmo cenário e com a mesma gravidade, a maldade que me foi infligida há 24 anos. As consequências à minha sanidade mental foram igualmente danosas. Disso, só se recordam os mais próximos, pois, como diz o ditado: “quem bate esquece; quem apanha, lembra”.

Com a quebra da palavra empenhada, surgem o sofrimento, a descrença e a dor. Por persistir na crença no homem, mesmo ciente de sua capacidade de trair, fui, por diversas vezes, ludibriado. Não são poucos os que descumprem, em uma manhã solene, a promessa feita na noite anterior, deixando-me incrédulo diante da humanidade.

Diante dos fatos, reafirmo o óbvio: é preciso manter a cautela com o ser humano, sobretudo quando o poder está em jogo. Por ele, muitos mancham a própria biografia — o que, definitivamente, não é o meu caso. O consolo reside nos raros indivíduos em quem ainda podemos confiar; aqueles que não se curvam diante de pressões e nos provam que nem tudo está perdido.

Quanto àqueles que já possuem a história enlameada por atos de traição, estes jamais me surpreendem, especialmente em disputas de poder. Diante da ambição, poucos resistem a um afago, seja qual for a sua dimensão. No entanto, a traição deixa em mim a incômoda sensação de que estou perdendo a fé na humanidade. É desalentador ver o homem render-se à tentação do poder, às injunções e à troca de favores para trair compromissos assumidos, ignorando o peso da própria história.

O traidor age como agem os covardes, pois é, em essência, um covarde: foge do embate, não encara o “olho no olho”, carece de firmeza nas palavras e vive da desfaçatez. Aos traidores, reservo o meu desprezo; a história se encarregará de julgá-los. Aos “muristas” — os que não assumem posição e se definem apenas sob o manto da covardia, às escondidas — dedico o meu mais solene desdém.

Por fim, aos que, além de traidores, são ingratos e esquecem quem lhes estendeu a mão por meros interesses pessoais, a lata de lixo da história lhes reserva um lugar cativo.

É isso.

HUMANOS DESUMANOS

São mais de 40 anos lidando com pessoas às quais são imputadas práticas de crime. Nesse sentido, por força do ofício, já tive que lidar com muita gente, que, ao fim e ao cabo de uma instrução, se revelou criminosa, cujos crimes evidenciaram o seu lado mais perverso, daí que, de rigor, calejado em face dessa vivência profissional, talvez fosse o caso de não mais me surpreender com a maldade do homem.

Todavia, é preciso deixar claro que quem comete crime não é, necessariamente, uma pessoa má, conquanto tenha-se que admitir que, dentre os criminosos, há muitos de índole perversa, revelada, como anotado acima, pelo modus operandi, pela insensibilidade demonstrada antes, durante e após a prática do ilícito, causando estupor, mesmo em pessoas calejadas como eu, levando-me a questionar, como sói ocorrer, a própria essência do ser humano e a sua capacidade de fazer o mal.

Se é notório que a vida profissional impõe a determinados indivíduos conviver com pessoas de conduta heterodoxa, como é o caso de criminosos dos mais diversos matizes, não é menos verdadeiro que todos nós, indistintamente, na convivência social, somos compelidos a lidar com toda sorte de pessoas, muitas das quais não cansam de nos surpreender pela capacidade de fazer o mal.

Surpreender-se com as boas ações é tudo que queremos. Surpreender-se pela maldade é tudo que abominamos, daí que, malgrado convivamos diariamente com a maldade do ser humano, de menor ou maior intensidade, há ações que, no mínimo, nos causam indignação; e não são poucas, e em razão das quais o Estado nem sempre responde à altura, criando em nós uma grave sensação de que perdemos o controle de tudo.

Cito, à guisa de exemplo, o sofrimento infligido ao cachorro comunitário Orelha, espancado, segundo notícias veiculadas na imprensa, por adolescentes, na Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina, fato que comoveu o país a ponto de unir, inclusive, radicais de direita e esquerda, tamanha a revolta e inquietação provocadas.

Esse fato, e tantos outros do cotidiano, levaram-me a essas reflexões sobre a maldade entre nós, uma perversidade que, como temos visto, tem desumanizado o ser humano, presente em várias momentos e circunstâncias da nossa vida; maldade que, por vezes, viceja dentro dos próprios lares brasileiros, na medida em que não são poucos os que tornam o lar um ambiente tóxico, onde se respira ódio e se promove discórdia, impregnado, portanto, de crueldade, falta de respeito, consideração e solidariedade.

A verdade é que, infelizmente, banalizamos a maldade, cumprindo anotar que muitos artífices dessas ações que fazem parte da nossa vida, tomam café, almoçam e jantam com a família, abraçam e beijam filhos e companheiro(a) antes de sair de casa, e, para completar, ainda fazem o sinal da cruz, frequentam igrejas e templos, colocando Deus como refúgio de tudo, deixando a desumanidade ainda mais demoníaca.

Mas a maldade se apresenta de muitas formas. Pode estar na ação, como pode residir na omissão de muitos de nós, que não se sentem à vontade para denunciá-la, contribuindo para que se perpetue. Essa é a maldade – por omissão – que se apresenta em uma de suas facetas mais perversas, como ocorre, por exemplo, com quem filma um acidente em vez de ajudar as vítimas ou com quem passa diante de um morador de rua, clamando por uma ajuda, olhando-o com indiferença, como se ele fosse um poste.

Outro tipo de maldade a que tenho chamado a atenção é a que decorre do linchamento virtual, quando milhares de pessoas destilam ódio por trás de um avatar, como se fossem justiceiros, enquanto destroem a saúde mental das vítimas; maldade, diria, covarde e sem rosto.

O grave é que essas ações deletérias contam, não raro, com a nossa omissão, como acima anotado, o que, de certa forma, estimula a algoz a persistir na prática da maldade, revelando que o mundo “é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas, sim, por causa daqueles que observam e deixam que o mal aconteça.”

Essa frase, atribuída a Albert Einstein, é um apelo à responsabilidade individual e à ação contra a injustiça, sugerindo que a apatia, a indiferença e a passividade da maioria (aquelas pessoas que apenas observam) são mais perigosas do que os atos de maldade em si, pois permitem que o mal prospere sem oposição

É isso.

A ILUSÃO DA INFALIBIDADE: QUANDO O ORGULHO NOS CEGA


Dia desses assisti a uma entrevista com Ralf, da agora desfeita –
definitivamente – dupla com Chrystian, no Podcast de Eduardo Piunti, o qual, dentre
outras coisas, para minha inquietação/reflexão, afirmou:

-Eu não erro, cara, você está sendo pago para isso. Então, como é
que você pode errar? Não, você não pode errar. Eu nunca errei. Eu fui um vocalista
que nunca errou, cara. Por quê? Porque eu tinha atenção e presteza em atender.
Você tem que ser prestativo. Você tem que ser bravo com as coisas que você faz,
entendeu? Eu sou extremamente caxias. Tudo que eu faço tem que ser perfeito e
me cobro muito e sofro muito por isso.

Essa afirmação do sertanejo de se considerar infalível me levou a

essas reflexões.

E por que fui instado a pensar sobre o que disse Ralf?
Porque entendo que a crença na própria infalibilidade, embora
muitos não percebam, é uma armadilha perigosa, especialmente entre os que
ocupam posições de poder ou se consideram superiores.

A propósito, a história está repleta de exemplos de ações de
pessoas que se julgavam infalíveis e que, por pensarem e agirem assim, erraram
feio, para, no mesmo passo, caírem em desgraça – e em descrença –, exatamente
por sentirem superiores, olvidando-se de sua condição de ser humano, que os levou
a cometer os erros em razão dos quais se julgavam infensos.

O erro é humano, é o apotegma. Quanto a isso não se tem dúvidas.
Nesse sentido, e por óbvio, o erro é uma parte natural da condição humana, razão
pela qual ninguém está imune à falha, ainda que se imagine acima do bem e do
mal.

Afirmar, como fez o sertanejo Ralf, que nunca erra, é pura
arrogância, que, em sua feição mais perversa, leva as pessoas a se considerarem
infalíveis, tornando-as cegas diante dos seus próprios erros.

A crença na infalibilidade é ainda mais grave e perigosa quando
quem se julga infalível exerce o poder, pois que, foi pensando assim, que grandes
lideres levaram nações a se envolverem em contendas graves e desnecessárias,
que poderiam ter sido evitadas, como se deu, por exemplo, com a invasão da Baia
dos Porcos pelos Estados Unidos, que subestimaram completamente a reação
cubana, cujo erro estratégico se transformou em humilhação internacional, ou
noutro giro, como ocorre, até os dias atuais, com os erros judiciais, que resultam na
condenação de inocentes à morte ou a décadas de prisão, com base em
testemunhos falsos, preconceitos e investigações mal conduzidas (ccmo no caso
dos Irmãos Naves, de triste memória), ou, ainda, como mostram casos

documentados de erros médicos, com a amputação, por exemplo, de membros
saudáveis ou a realização de cirurgias em pacientes errados, resultantes de falhas
básicas de checagem.

Cito esses exemplos, vindos ao acaso na minha mente, apenas
para reafirmar que precisamos ser humildes, que precisamos acreditar em nossa
falibilidade e que a crença de que não erramos não é boa conselheira, sobretudo,
repito, se se trata de quem detêm o poder e decidem sobre a vida das pessoas e a
sorte das nações.

A admissão do erro é um sinal de força, não de fraqueza. Por
pensar assim é que tenho, humildemente, admitido meus erros, que foram muitos
na minha trajetória, muitos dos quais foram corrigidos a tempo e hora.

Reconhecer a própria falibilidade é o primeiro passo para aprender
e crescer, pouco importando a idade, pois há, sim, os que envelhecem mas não
aprendem com os erros que cometem, muitos dos quais, como sói correr, poderiam
ter sido evitados.

A mensagem que deixo com essas reflexões é que sejamos
humildes, independentemente de nossa posição social, para que possamos
reconhecer nossos erros enquanto é tempo, evitando que eles se repitam.

A dica final, e mais atual, é: o erro é uma prova de que não somos
algoritmos. Nossa “imperfeição” é o que nos diferencia da inteligência artificial.

É isso.