Previsões para 2014

Sócrates ensinou que uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida. Em Fédon ele diz que uma vida irrefletida leva a alma a ficar “confusa e aturdida, como se estivesse bêbada”, enquanto uma alma sábia alcança a estabilidade e seu vagar chega ao fim. Nessa linha de compreensão, teimo em levar uma vida reflexiva, mesmo diante da óbvia constatação de que, não raro, o resultado das minhas reflexões não sejam muito palatáveis.

Nessas reflexões, incursiono, ousadamente, no mundo da premonição, o fazendo com a perspectiva de acertar a maioria das previsões aqui encartadas, pela óbvia constatação de que todos que tenham o mínimo de lucidez concluiriam pela sua inevitabilidade.

Vejamos as previsões, não exaustivamente. No ano vindouro haverá mais rebeliões e mortes na Penitenciária de Pedrinhas; serão denunciados, mais uma vez, a superpopulação carcerária e o tratamento degradante e desumano aos presos, cujo quadro permanecerá inalterado; um congressista muito conhecido vai se deslocar num avião da FAB para cuidar de assuntos pessoais, para, depois de flagrado, assumir o erro e prometer ressarcir os cofres públicos; os assaltos se multiplicarão e muitos sucumbirão sob as armas dos meliantes, mas só uma parcela mínima de transgressores será punida; cadeias serão interditadas, por falta de condições para receber presos provisórios; presos cavarão túneis e fugirão de cadeias, com a complacência e cumplicidade de algum agente do próprio Estado; os líderes de facções criminosas continuarão comandando as suas ações de dentro das prisões; as praias de São Luís continuarão impróprias para o banho; brasileiros morrerão nas filas dos hospitais e serão “depositados” pelos corredores dos mesmos, por falta de leitos; balas perdidas continuarão matando inocentes; a polícia será acusada da prática de violência e o porta-voz da caserna dirá que tudo será rigorosamente apurado e que os culpados serão punidos; muitos serão mortos pela própria polícia, que alegará, em sua defesa, que agiu no estrito cumprimento do dever legal; muitos, incontáveis crimes continuarão impunes, porque as instâncias de controle teimarão em tratar os processos criminais como feitos de segunda categoria; em face de desvios éticos, muitos prefeitos serão afastados por juízes singulares, todavia voltarão aos cargos, no dia seguinte, em face de uma liminar concedida por um membro da segunda instância; os precatórios não serão pagos, disso resultando que, mais uma vez, haverá quem se aventure pensar, delirando, em intervenção federal no Maranhão, mas ninguém que tenha juízo acreditará nessa possibilidade; muitas falcatruas serão noticiadas, a maioria delas imputadas aos homens públicos, que se limitarão a dizer que é intriga da oposição ou que se trata de uma campanha difamatória deflagrada por um inimigo político; o noticiário chapa branca dirá que vivemos no paraíso, e a oposição dirá que vivemos no inferno; haverá sempre quem, na oposição, torça pelo insucesso do adversário que está no poder, e tudo fará para que não obtenha êxito em suas ações, pouco se importando com as conseqüências para população; na campanha eleitoral que se aproxima, para variar, os candidatos prometerão o que sabem que não poderão cumprir; mais uma vez o poder econômico influenciará, decisivamente, no resultado das eleições, tanto majoritárias quanto proporcionais; os candidatos a reeleição continuarão a fazer propaganda eleitoral fora de época, sob o olhar complacente das instâncias de controle; as empresas aéreas continuarão descumprindo o horário e as malas continuarão a ser extraviadas ou violadas; as pessoas se agastarão nas filas de atendimento dos aeroportos, sem ter a quem reclamar; muitas serão as denúncias de desvios de verbas públicas, mas, como regra, todos ficarão impunes; os prefeitos serão acusados de enriquecimento ilícito,e muitos, efetivamente, enriquecerão nos cargos, confiantes na impunidade; prefeitos flagrados em falcatruas dirão que a culpa é do contador ou de um assessor que traiu a sua confiança; o Judiciário será acusado de moroso, e os juízes dirão que fazem o que é possível e que a estrutura deficiente é a responsável pelo atraso na entrega do provimento judicial; as operadoras de celular continuarão a prestar um serviço de péssima qualidade; Ministério Público será acusado de omisso, mas dirá que exerce com perseverança o seu papel de custos legis e guardião da Constituição; novas leis penais deverão surgir, a pretexto de combater a violência, com a exacerbação das penas privativas de liberdade, mas tudo ficará como dantes; será deflagrada uma campanha pela legalização da maconha, como uma panacéia no combate à traficância; os flanelinhas continuarão dominando os estacionamentos públicos, sob o olhar complacente das autoridades; mais uma vez a Lagoa da Jasen será “despoluída”; o Pleno do Tribunal de Justiça deixará de se reunir, algumas vezes, por falta de quórum; as comarcas, salvo exceção, ficarão acéfalas aos finais de semana; os clubes serão punidos em face de brigas envolvendo torcidas organizadas; o Fluminense não será rebaixado, mais uma vez; haverá manifestações públicas e os Black Blocs voltarão a atacar o patrimônio privado, preferencialmente; haverá manifestações com a interdição de estradas para infernizar a vida dos usuários; a transposição das águas do Rio São Francisco continuará como uma sonho de uma noite de verão; o STF continuará agindo como protagonista, decidindo sobre questões que as instâncias próprias preferem se omitir, por conveniências políticas; os doadores de campanha vão cobrar a conta dos eleitos às suas custas; não haverá reforma política e nem tributária; muitas licitações serão fraudadas; o chefe do Executivo, dissimulando, dirá que não negocia com o legislativo sob pressão; as emendas parlamentares continuarão fazendo a festa de muitos parlamentares; os viadutos da Forquilha, do Calhau e da Av. dos Holandeses não serão construídos; a refinaria continuará sendo um sonho; os engarrafamentos no trânsito minarão a nossa paciência; magistrados serão aposentados compulsoriamente pelo CNJ; as Assembleias Legislativas continuarão a “trabalhar” em “harmonia” com o Poder Executivo; com as chuvas, o asfalto será pulverizado e muitas estradas ficarão intrafegáveis; haverá desabastecimento de pescado na semana santa; os ferry boats continuarão descumprindo os horários; a intolerância marcará as relações pessoais. É isso.

Vítimas da propaganda oficial

Nós somos todos, de certa forma, vítimas da propaganda oficial; aqui e alhures. Nesse sentido o Maranhão não difere muito do resto do país – e do mundo.

Quem assisti a propaganda oficial do Estado, ou as notícias da imprensa chapa branca, tem a sensação de que vivemos no paraíso. Mas que vive aqui sabe em que mundo vivemos: de miséria, de violência, de descaso, de enriquecimento ilícito, de falta de perspectivas, etc.

Mas, como disse acima, isso ocorre aqui e em outros lugares, sobretudo nos países onde não há liberdade de imprensa e onde a história é contada como deve ser, ou seja, de acordo com os interesses de quem está, ou esteve, no poder.

Na China, por exemplo, na cidade de Shaoshan, li ontem, acho que no jornal Folha de S. Paulo, o culto a Mao Tse-tung chega às raias da adoração. Tem até quem o veja como santo milagroso, o que, convenhamos, é um despautério. Esses adoradores, decerto, não conhecem a História como conhecemos. Eles só conhecem a História oficial. Não sabem nada, por exemplo, da Grande Fome (1958-62) e dos horrores da Revolução Cultural ( 1966-76).

Mas a China, como disse acima, não difere muito do que ocorre em outros países e como a própria História Universal, sempre contada a partir dos interesses de quem as conta. Nesse sentido é preciso, sempre que possível, revisitar a História, a partir das informações de autores que não estiveram e nem estão a serviço do Poder, até mesmo para que sejam reparadas algumas injustiças que foram sedimentadas no inconsciente popular.

Exemplo. A minha vida toda ouvi que Nero era um incendiário. Hoje, já se sabe, que as coisas não se deram bem assim. Sabe-se, por exemplo, que Tácito e Suetônio, principais autores clássicos que tratam do grande incêndio em Roma, tinham ressentimentos políticos com Nero, daí que, como dizem alguns autores, cuidaram de construir uma narrativa impregnada de ressentimento.

A verdade é que, contada a história pela metade ou de acordo com interesses inconfessáveis, virou verdade absoluta o mito de que Nero, inclusive, ao tempo em que Roma ardia em chamas, tocava lira, observando de longe a destruição.

O certo é que, sendo verdade ou não, Nero passou para a história como anticristo, violador de virgens e mulheres casadas, mandou incendiar Roma e tocava Lira enquanto a cidade ardia.

Verdade ou mito?

Qualquer um que aprofundar o estudo da questão pode ser tomado de, no mínimo, muitas dúvidas.

O certo e recerto é que, como se faz com a história, nos dias presentes somos instados, pela propaganda oficial, a acreditar em mitos. Para não ser alienado, é preciso muito tempo dedicado à leitura, o que é inviável para a imensa maioria dos brasileiros, aos quais, nesse contexto, só resta mesmo assimilar a propaganda oficial, sem a mínima possibilidade de discernir o que é mito e o que seja realidade.

Fonte sobre Nero: Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, de Leandro Narloch, Leya, 2013.

O templo e os oportunistas

Uma leitora da Folha de São Paulo, no Painel do Leitor, dizendo se negar a sair à ruas, para novas manifestações, como propôs Elie Gaspari, a propósito da mais uma presepada de Renan Calheiros, aproveita o ensejo para lembrar ao colunista, que os políticos não são os únicos desonestos, ao tempo em que narra que, estando numa igreja e tendo esquecido o seu aparelho de telefone celular no local onde estava sentada, ao retornar, o mesmo já tinha sido subtraído, provavelmente por um fiel que estava rezando e condenando os que agem como Renan Calheiros.

Não deixa de ter razão a leitora. Aliás, ela tem muita razão. É muito estranho mesmo que as pessoas condenam as ações ilícitas dos políticos, para, na primeira oportunidade, fazerem exatamente a mesma coisa. Aliás, essa tem sido a minha cantilena. Tenho dito, nesse sentido, que só pode se arvorar de honesto quem, tendo a oportunidade de praticar uma ilegalidade ou um desvio de conduta, não o faça.

Eu, confesso, conheço pessoas, sim, que invocam a todo momento a palavra de Deus, que são assíduas nos templos religiosos, as quais, no entanto, levam uma vida dissoluta, não respeitam pai, mãe, filhos, amigos e quem mais possa cruzar o seu caminho, e não perdem a oportunidade de fazer uma bandalheira.

A leitora, nesse sentido, tem razão, sim, de condenar a ação de seu ou sua colega de templo, pois num ambiente desses é onde menos se espera que as pessoas sejam capazes de fazer o mal a alguém ou de dilapidarem o patrimônio alheio, ainda que se possa argumentar que, por se tratar de bem perdido, não restasse tipificado nenhum tipo de crime.

Heróis esquecidos

Há muitas pessoas, algumas até muito próximas, que, até hoje, não engolem o meu discurso de posse. Por causa dele, nunca me perdoaram. Sei disso. Sinto isso.

Desde o discurso – ou mesmo antes deles, por eu ser uma pessoa muito convicta na defesa das minhas ideias – atraí a antipatia de muitos.

Eu sei perfeitamente disso. Eu sinto isso. Eu respiro isso. Sei que não foi fácil assimilar a minha, digamos, ousadia. É que, sem que as pessoas tenham sofrido na carreira os reveses que sofri, elas jamais compreenderão as razões que me levaram a fazer aquele discurso. Todavia, espero que tenham percebido, não ataquei ninguém. Fiz um discurso limpo, me limitando a narrar fatos. Nada mais que isso.

O certo é que, se é verdade que muitos não engolem a minha ousadia, consegui, sem perceber, galvanizar a simpatia de parte da população. Por todos os lugares por onde ando tenho sido bem recebido, e há sempre alguém a dizer que me admira, que gosta do meu trabalho e que sou um cidadão respeitado.

Que bom que seja assim! É bom, sim, ser reconhecido, ser respeitado, considerado…

Mas, atenção!, eu não sou herói. Não nasci pra ser herói.

Digo isso porque, desde que cheguei ao Tribunal, tenho recebido cartas anônimas, denunciando pessoas importantes, e pedindo providências. E muitos são os que dizem que fazem isso porque confiam em mim. Há muitos que, inclusive, fazem menção ao meu discurso de posse, porque a partir dele teria nascido a admiração.

Contudo, repito: não sou herói e não sou inconsequente. Eu jamais adotarei qualquer providência, contra quem quer que seja, sem que a denúncia se apresente com pelo menos indícios da prática de um crime ou de um ilícito administrativo, e com a identificação do seu autor.

Dizem, jocosamente, que o inferno está cheio de bem-intencionados e de heróis. Eu não pretendo me juntar aos heróis inconsequentes.

Por falar em herói, pergunto se algum dos senhores já ouviu falar do Marechal Carlos Machado Bittencourt?

Pois saiba que Carlos Machado Bittencourt, em 1897, evitou que o presidente Prudente de Morais fosse assassinado, se interpondo entre ele e seu algoz, Marcelino Bispo. Resultado, recebeu as facadas que se destinavam a Prudente de Morais, morrendo em seguida.

Carlos Machado Bittencourt, como se vê, é mais um daqueles heróis que sucumbem e sobre o qual a história silencia.

Definitivamente, não tenho vocação suicida.

É isso.

Horrendo espetáculo

É claro que não se deve viver antecipando um sofrimento que não se saber ao certo se ocorrerá, afinal, há, sim, os que, por sorte ou seja lá o que for, passam pela vida e não sofrem.

Mas ninguém sabe o futuro. E é preciso estar preparado – e tentar preparar – para o futuro, afinal o que a gente pode fazer é trabalhar para que, no futuro, não tenha que pagar pelos erros e pelos excessos do presente.

Ainda que não se deva viver a vida antecipando um sofrimento que pode não vir, ainda assim, sem paranoia,  aos 60 anos, tenho me preocupado com o meu futuro, com o que me aguarda quando chegar, definitivamente,  à velhice; falo da velhice incapacitante, que causa dependência.

Tenho, sim, medo da invalidez, da dependência, da dor, do abandono, da solidão, da tristeza que acompanha a velhice.

Tenho medo, sim, de sentir-me só pela ausência dos meus filhos, de ver chegar a hora; a minha hora e a hora das pessoas que amo.

Não deve ser fácil, por isso não me furto de refletir sobre essas questões, porque, pior que refletir, é negar a realidade, como se fôssemos eternos ou feitos de um material  não perecível.

Mas, importa dizer, não sou do tipo obsessivo e nem paranoico. Prefiro admitir que sou realista. Todavia, por ser realista, me cuido. Faço dieta. Faço exercício. Não abuso de bebidas alcoólicas ou de fumo.

Tudo isso, sim, porque espero ter uma velhice saudável, para não ter que sofrer e infligir sofrimento aos meus filhos, que têm o direito de viver a sua vida, de construirem a sua história, de se dedicarem aos seus filhos e às suas conquistas pessoais.

Essas reflexões me ocorreram ao conhecer uma página da História do Brasil, que condiz com a expulsão da família real, depois de proclamada a República.

Uma das passagens que me fizeram refletir condiz com a tentativa de D. Pedro II de, chegando em Portugal, encontrar o romancista Camilo Castelo Branco, por quem tinha uma profunda admiração.

Camilo Castelo Branco vivia  no andar térreo de uma casa em ruínas, no centro da cidade, cego, doente, empobrecido, surdo e sentindo muitas dores.

D.Pedro II, também passando por momentos difíceis, depois de ser expulso de sua terra natal,  mandou perguntar se poderia visitá-lo. O escritor, no entanto, recusou a visita, dizendo que, naquelas condições, preferia não rever o amigo.

Eis excerto da correspondência:

“A visita de Vossa Majestade, na dolorosa situação em que me encontro, seria para os meus cruéis padecimentos uma exacerbação”, para concluir: Além das nevralgias que me forçam a gritar, estou febril, cego e surdo. Não queira Vossa Majestade presenciar esse horrendo espetáculo”.

Mas D. Pedro II insistiu e foi visitar o amigo.

Trecho do diálogo, presenciado por Ana Correia, sobrinha do escritor:

-Meu Camilo, console-se, Há de voltar a ter a vista.

-Meu senhor, a cegueira é a antecâmara da minha sepultura.

-Perdi o trono, estou exilado, e não voltar à pátria é viver penando.

-Resigne-se Vossa Majestade. Tem luz nos seus olhos.

-Sim, meu Camilo, mas falta-me o sol de lá.

PS. Camilo Castelo Branco suicidou-se no primeiro dia de junho de 1890, com um tiro de revólver na têmpora direita.

Fonte: 1889, de Laurentino Gomes

Falta de agilidade não se confunde com falta de sensibilidade

qEu supunha, quando era jovem,que velho tinha pouca sensibilidade. Eu confundia falta de agilidade com insensibilidade. É que idoso quase sempre reage às  emoções ( também) com vagareza, como se lhe faltasse sensibilidade, quando, na verdade, o que lhe falta mesmo é agilidade, sobretudo se sedentário. Hoje, ao 60 anos, posso afirmar que, ao contrário do que eu mesmo supunha, a velheci vai nos tornando é muito mais sensível. Pelo menos, eu sou assim. Nos dias presentes, com efeito, tudo me sensibiliza. Tudo me faz chorar. Não aquele choro compulsivo, estridente, para fora, para ser visto. Não! É um choro leve, introspectivo, só pra mim, bem lá junto da alma, que é mesmo para que ninguém perceba.

A verdade é que, nos dias presentes, eu não consigno mais testemunhar certos acontecimentos sem me emocionar – e chorar; seja uma notícia, uma manifestação de afeto, de carinho e de solidariedade. Tudo, enfim, toca a minha alma. Nada passa desapercebido por mim. Eu vivo o que está em volta. Eu sinto o que muitos não sentem – ou fingem não sentir.

Eu sempre fui muito sensível, mas confesso que, na juventude, era diferente. Pouca coisa me emocionava a ponto de lervar-me às lágrimas, ainda que sentisse, sim, forte emoção. Agora, depois de idoso, choro, me emociono com muita facilidade. Mesmo assistindo ao noticiário televisivo ou lendo as notícias imperessas ou um bom livro, eu acabo sempre chorando.

Essa semana, por exemplo, não tive condições de ler a matéria de Veja sobre o dilema dos Beagles. A capa da revista, o olhar de tristeza do cão que está fotografado em destaque, me compeliram a não ler a reportagem; já havia lido matérias similares nos jornais da semana. Não havia por que voltar à leitura, para, mais uma vez, sofrer com dó dos cães. Mesmo porque o olhar do cão me fez lembrar o olhar do meu gato, por quem eu tinha adoração,  poucas horas antes de morrer.

Estava lendo o jornal o Globo, de hoje, como faço todos os dias, e não pude deixar de me abalar com a notícia dos nigerianos que morreram, provavelmente de sede, no deserto de Saara, quando fugiam do seu país em busca de oportunidades. É impossível não se sensibilizar com os corpos em decomposição de adultos e crianças, imaginando  e a dor que sentiram ao se despedirem tão tragicamente da vida na terra, exatamente quando buscam melhores condições para sobreviver.

Tenho compulsou por história e especialmente por biografias. Terminei de ler, pela segunda vez, o livro que trata da vida de Maria Antonieta. Não pude deixar de me emocionar com a forma abrupta com que a separaram do rei e de seus filhos – especialmente do seu filho.

Do livro, a propósito da separação de Maria Antonieta dos filhos, apanho o seguinte excerto, que compartilho agora com o leitor do meu blog:

“No dia 3 de julho, por volta das des horas, diversos funcionários municipais entraram no quarto da rainha, perturbando as ocupações pacíficas das três princesas. Um deles leu pomposamente um decreto. A rainha não os entendeu imediatamente; em seguida, a horrível verdade se torno claro: seu filho seria separado dela. Reunindo repentinamente toda energia que lhe restava, aquele mulher debilitada se ergueu como uma fúria, dando todos os argumentos possíveis para conservar o filho. Inflexíveis, os homens se aproximaram da cama do príncipe. Ele acordou e gritou lancinantemente. A mãe o abraçou com força. Mas quando os funcionários municipais ameaçaram chamar os guardas para levá-lo à força, a rainha cedeu. Ajudiu-o a levantar-se, vestiu-o e chorou ao beijá-lo e entregá-lo aos brutos. No dia seguinte, ficou completamente desolada ao saber que o ‘tutor’ do filho era um sapateiro alcóolotra de nome Simon”. ( Evelyne Lever, in Maria Antonieta, A ùltima Rainha da França, 2004, p. 324).

É possível não se sensibilizar, mesmo sabendo que o fato se passou em 1793?

A vida é assim

No Brasil é assim; sempre foi e sempre será: quando se quer, cobrem-se de virtudes quem não as tem, ou se negam essas mesmas virtudes a quem as tem de sobra.EPITACIO PESSOA

Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul, quando se decidiram pela eleição de Epitácio Pessoa, alardearam que tinha tido esplendoroso desempenho em Versalhes (Conferência de Paz , em Paris, na qual foi assinado o famoso Tratado de Versalhes, após a primeira guerra mundial).

Como era do interesse dos representantes desses estados  de  vender uma imagem positiva de Epitácio Pessoa, ninguém fez menção que, na delegação chefiada por ele, para a conferência de paz,  seguiram, além de juristas e representantes oficias do país, seus familiares, assessores, convidados, em tal número que o navio que zarpou do Rio de Janeiro, no dia 02 de janeiro de 1919, partiu quase lotado, às custas do Estado.

Em face dos interesses pessoais das lideranças desses estados, preferiu-se omitir esse e outros deslizes de Epitácio Pessoa, que, ele mesmo, se surpreendeu com a sua eleição. Só que, Epitácio Pessoa, ao assumir o governo, mostrou-se mais autoritário do que se supunha, surpreendendo(?) os seus próprios aliados.

A vida é assim. Se o desafeto não tem defeito, dá-se um jeito de arrumar um ou uns; se se trata de um igual ou se for conveniente, omitem-se os seus defeitos, para só trazê-los à luz se for necessário.

Esse tipo de conduta se vê muito no mundo da política. Mas nas corporações não é diferente. Se desejas ser simpático – e, até, amado -, pois então que seja, ou deixe parecer, ser medíocre; se pretendes ser desprezado ou visto com reserva, ouse deixar transparecer que tens alguma lucidez.

É isso.

Tudo flui

Louis_XV;_BusteQuero dizer, de logo, que não me acanho em refletir sobre qualquer tema; mesmo os que parecem não ser politicamente corretos.

As minhas reflexões vão surgindo do nada. No momento em que me chega a inspiração, escrevo, muito embora saiba que haverá muitos que não concordarão com o que penso.

Assim sendo, passo às reflexões, na certeza de que para muitos não será fácil digerir o que vou dizer a seguir.

Pois bem.

O ocaso é melancólio, sobretudo para os que têm obsessão pelo poder.

A velhice (inválida, claro) é melancólia; a passagem do tempo, implacável.

Louvo aqueles que veem o tempo passar e não se afligem ante a inexorável expiração da vida.

Não somos eternos. Todos um dia passarão. Eu passarei, tu passarás, nos passaremos. Essa certeza me faz, algumas vezes, soturno. Não dá pra se olhar no espelho e não concluir que o tempo passaou. Não deve ser fácil chegar ao fim da linha.

Deve ser sofrido olhor para o futuro e não vislumbrá-lo. Deve ser de lamentar ver diante de si apenas o presente.

Eu, confesso, tenho pensado muito, nos últimos tempos, sobre a finitude da vida, sobre a certeza de que num futuro muito próximo não estarei aqui, como aqui não estarão os da minha geração.

Admiro e aplaudo quem, estando com a idade avançada, ainda faz planos para daqui a vinte, trinta anos.

A melancolia que às vezes toma conta de mim, a propósito do tema aqui refletido, não é, digamos, privilégio da minha mente inquieta. Todos que têm o mínimo de lucidez sentem a proximidade do fim, proximidade que se torna muito mais dilacerante se somos felizes.

Hoje, ao ler os jornais do dia, como faço habitualmente, voltei a refletir sobre essa questão em face de um diálogo patético entre os senadores Pedro Simon e Cássio Cunha Lima.

Cassio Cunha Lima quis saber se o provecto senador ainda disputaria outra eleição, ao que respondeu que achava que ia para casa, para concluir:

-Já vou para os meus 85 anos. Meus bons companheiros não estão mais aqui. O que vou fazer?

Cássio Cunha Lima respondeu:

-Eu sei o que o senhor vai fazer: vai fazer muita falta nesta casa.

É. Pode ser. Mas a verdade é que um homem, aos 85 anos, não deve mesmo fazer mais projeções para o futuro, sobretudo se olha em volta e se dá conta de que, como seus companheiros que se foram, ele também irá um dia, porque, afinal, não somos eternos.

O que se espera, em face da inevitabilidade da saída do proscênio, é que alguma coisa do boa que fizemos sirva de exemplo para as novas gerações, afinal, a experiência ensina, uma vez de pijama, o esquecimento é inevitável.

É triste dizer, mas é a realidade. E quem não for capaz disso compreender e assimilar que tudo flui, tende a sofrer muito mais, como sofria Luiz XV, que, aos 64 anos, uma idade considerada avançada para época em que a expectativa de vida não passava de 45 anos,  vivia a obsessão da morte, conquanto gozasse de boa saúde. Obsessão que só aumentava sempre que tinha notícia do falecimento dos seus contemporâneos.*

É isso.

*Poucos meses depois de fazer 64 anos o rei Luiz XV, o bem amado, o belo,  o amante voraz, o homem de incontáveis aventuras  morreria de varíola. Os biógrafos contam que o seu rosto estava da cor de bronze, como a máscara de um mouro de boca aberta, numa terrível visão para quem se aproximava dele. Contam, ademais, que um odor pestilento soprava do seu quarto empestiando o ar do palácio (Evelyne Lever)