Saber ou aprender a envelhecer?

Não tem jeito. A idade avança e a gente sente os efeitos do tempo. O consolo, se é que se pode dizer isso, é que todos envelhecessem; a menos, claro, que morramos antes.

Diante dessa inevitável “tragédia”, é preciso aprender a conviver com essa realidade. Aliás, há pessoas que dizem, talvez para consolar, que é preciso saber envelhecer, como se isso fosse possível. Ninguém sabe envelhecer; envelhecer a gente aprende, na prática.

Os primeiros sinais que tive de que estava sendo consumido pelo tempo foi quando subi numa escada e, ao descer, com um pulo inconsequente e impensado, dei-me conta de que as minhas pernas já não tinham a mesma firmeza de quando, há algum tempo, eu jogava vôlei na praia e corria como um desesperado para alcançar a bola quando o vento a levava para bem distante.

Esse foi o primeiro sinal. Mas basta estar atento para o que  está em volta que logo se percebe que já não somos os mesmos. Comigo essa percepção, embora no primeiro momento não tivesse me dado conta,  se deu, ademais, quando as amigas da minha filha passaram a lidar comigo me chamando de tio.

Agora só resta a conformação, pois o tempo, a aceleração da vida, e tudo o mais que envolve a nossa permanência na terra, passa de forma inclemente.

Tudo isso é para reafirmar, como antecipei acima, que estou aprendendo a envelhecer e que, diferente do que se afirma por aí, ninguém sabe envelhecer; quando muito, quando se tem uma clara percepção de mundo, se aprende a envelhecer. Mas, para isso, a primeira lição é ter consciência de que o tempo passou, para não ficar por aí dando uma de velhinho transviado e paquerador, sob pena de, por falta de noção da realidade, ser ridicularizado.

O certo é que diante dessas claras mensagens, pude concluir que  envelheci. Agora, o que importa é ter qualidade de vida na terceira idade, que alguns malucos chamam de melhor idade. Como isso será possível para quem teve que passar mais da metade da vida tomando remédios para doença autoimune é que é a questão.

 

Artigo enviado ao jornal Pequeno para publicação

Nossas crenças

José Luiz Oliveira de Almeida*

Nas nossas relações sociais revelamos, sem nenhuma dificuldade, sem nenhum acanhamento, os filmes e livros favoritos, os carros da nossa predileção, as lojas da nossa preferência, os ambientes que gostamos de frequentar, o whisky ou a cerveja que gostamos de tomar etc.

Essas revelações, as fazemos sem o menor constrangimento, sem nenhuma restrição, em qualquer ambiente, qualquer dia, hora ou circunstância, porque são, digamos, particularidades, preferências que não nos constrangem, que não agridem, e que não despertam, de rigor, a curiosidade de ninguém; a menos que se trate de um(a) famoso(a), pois que, nesse caso, a curiosidade em relação a ele(a) deixa de ser natural para ser patológica.

Assim como revelamos as nossas predileções, revelamos, noutras oportunidades, mas em circunstâncias peculiares, as nossas crenças, ou melhor, algumas das nossas crenças, muitas das quais introduzidas em nós pelos mais antigos; algumas delas, por evidente, sem nenhuma base científica, mas, ainda assim, crença, e, como tal, deve ser respeitada. Nesse sentido, cremos, por exemplo, que chuva fina faz mal à saúde, que não se deve comer manga com febre ou que, depois de uma cirurgia, não se deve degustar alimento reimoso  (corruptela de reima ou reuma, que significa algo que ofende).

Essas são algumas das crenças que não nos constrangemos em  revelar, que o fazemos sem receio, sem acanhamento – numa conversa informal, à beira de uma piscina, na praia, no bar ou no interior de um ônibus coletivo.

A verdade é que, quando cremos, não nos envergonhamos de crer, pois acreditar (aqui usado no mesmo sentido de crer) é uma necessidade, mesmo naquilo que a ciência conteste, ainda que desestimulados por alguns. A nós nos basta, em face das nossas necessidades espirituais, crer, simplesmente crer; crer, muitas vezes, nos basta, nos fortalece, faz bem para a alma e para o coração – e, segundo estudos, melhora até a nossa imunidade.

Fazer o quê?  São crenças e não se fala mais nisso, afinal, ninguém  vive ser crer em algo. Crê-se, até, em pregador, como recentemente noticiado, que tira o diabo do coro das “pecadoras” constrangendo-as a fazer  sexo com ele. É que, repito, é preciso crer, caso contrário, para muitos, a vida se tornaria um inferno. A nossa crença é tamanha que, muitas vezes, acreditamos até em promessas políticas, mesmo dos que, de quatro em quatro anos, voltam aos mesmos lugares, com o mesmo discurso, fazendo as mesmas promessas não cumpridas. Fazer o quê?

Pois bem. Essas são algumas crenças que revelamos,  até com certa naturalidade, porque estão, afinal, incorporadas ao nosso dia a dia. Não há, pois, como negá-las, pois as confidenciamos, repito, a qualquer momento, em qualquer lugar, sem nenhum pudor.

A nós não nos causa nenhum constrangimento admitir, por exemplo, que jogamos um lençol sobre o espelho para não atrair raios ou que só levantamos com o pé direito, para começar bem o dia, desde que um gato preto, numa sexta-feira 13, não cruze o nosso caminho.

Mas ao lado das crenças reveláveis, as ditas costumeiras, muitas delas racionais  (onde há fumaça, há fogo, ou quem bebe tende a se embriagar) – outras, nem tanto -, há o que chamo de  falsas crenças ou crenças mistificadas ou dissimuladas; aquelas que, por prudência, covardia ou conveniência, muitas vezes preferimos que não saiam, como as concebemos, da nossa subjetividade. Imagine só um magistrado admitindo, publicamente, que no nosso país a justiça é feita para uma minoria ou que a justiça criminal, especificamente, tem os olhos voltados apenas para uma determinada classe de pessoas! Imagine esse mesmo magistrado admitindo que, por culpa do próprio Poder Judiciário, muitos crimes ficam(ram) impunes! Ele crer nisso, sabe disso, mas, por prudência ou conveniência, prefere não revelar, pois não é prudente, não é conveniente fazê-lo. Essas são algumas das muitas crenças que não deixamos escapar da nossa subjetividade, por temor, receio, vergonha ou constrangimento.

Vou adiante. Muitos são os que sabem que, de rigor, a  vontade do homem não é livre, que não mandamos em nós mesmos, e que, muitas vezes, não somos capazes sequer discernir entre o bem e o mal, dependendo das nossas circunstâncias ou das nossas conveniências. Por prudência ou recato, fingimos crer que a realidade é diferente, razão pela qual e pelos mesmos motivos antes elencados, mantemos a nossa verdadeira crença aprisionada em nossa subjetividade.

Noutro giro, há os que fingem crer, porque não convém revelar no que efetivamente  acreditam, que um dia a corrupção deixará de existir, que o homem e a mulher serão tratados com igualdade (na medida de suas desigualdades),  que não haverá mais discriminação em face da cor e da posição social, que o Poder Judiciário um dia será célere, que as pessoas que amamos nos amam com reciprocidade, que os filhos do vizinho levam os nossos à perdição, que erramos induzidos pelos outros, etc.

Lado outro, imagine, agora, um médico admitindo que a vida do paciente escapou-lhe por incompetência ou descaso. É muito provável que ele jamais o fará. Ele, ao reverso, mesmo diante das evidências, tenderá, sempre, a crer, ou fingir que crer, a se convencer da crença, por que isso lhe convém, que tudo não passou de uma fatalidade e que ele, dentro do que era possível, agiu com o necessário desvelo.

Como se vê, muitas das nossas verdadeiras crenças – crença no sentido mais amplo do termo – preferimos manter no recôndito da nossa alma,  porque nem sempre é conveniente ou prudente revelar as coisas nas quais acreditamos ou que temos ciência, por isso vamos dissimulando, dourando a pílula, por que não nos convém, muitas vezes, enfrentar a realidade.

E assim vamos vivendo: enganando-nos aqui, nos iludindo acolá, dissimulando aqui, fingindo mais adiante, de acordo com as nossas crenças – ou falsas crenças.

É a vida, dirão! É a vida, direi!

É desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão

Blog: www.joseluizalmeida.com

Email: jose.luiz.almeida@globo.com

Papa Francisco e o poder

imagesDesde que ingressei no Poder Judiciário, em 1986, que ouço falar que havia desembargadores que tinham retificado a sua certidão de nascimento para permanecer mais tempo no poder. Àquela época, e até há bem pouco tempo, desembargador podia muito, por isso todos desejavam passar mais tempo no poder. Os anos se passaram e, até hoje, não tive provas de que efetivamente algum colega tenha retificado sua idade para permanecer mais tempo no poder.

O certo é que, sendo o poder, quando não usado no sentido antropológico, algo fascinante, para os que dele se servem, muito são os que são capazes de qualquer coisa para nele permanecer. No caso do Poder Judiciário, muitos são os que não concebem passar, por pura vaidade, sem deixar um retrato na galeria dos ex-presidentes ou ex-corregedores. Essa constatação me levou a escrever uma crônica intitulada “Apenas um retrato na parede“, na qual faço algumas reflexões sobre essa obsessão, depois de, certa feita, ainda juiz de 4ª entrância (hoje entrância final), ter passado, numa manhã de um ano que não me recordo, e ter visto um ex-presidente, já aposentado, passando a mão em sua fotografia, embevecido com o retrato na parede, prova material de que tinha passado pelo poder, ainda que eu, pessoalmente, não me recorde de nenhuma grande obra dessa criatura.

Leio, agora, nos jornais, que o ministro Raimundo Carreiro, do Tribunal de Contas da União,alterou a sua idade, na comarca de São Raimundo das Mangabeiras, com o que permanecerá no TCU, até alcançar a sua presidência, o que, curial compreender, não alcançaria se não ficasse mais novo dois anos, por conta de uma decisão judicial.

Não entro no mérito da decisão, mas me permito a especular, como fez a grande imprensa, que é muito, muitíssimo estranho essa postergação de aposentadora, sobretudo porque o ínclito ministro se valeu da idade anterior para se aposentar do senado federal, sem que lhe passasse pela cabeça, imagino, retificar a sua idade, à época, para permanecer mais tempo na condição de funcionário do Senado Federal.

Pelo sim e pelo não, o certo é que o poder é fascinante, por isso muitos são capazes de tanto para não perder poder. Pelo menos é o que tenho constatado deste sempre. Acredito, todavia, que se o poder fosse exercido apenas para servir, poucos seriam os que se aventurariam ao desgaste emocional que ele acarreta.

Nessa linha de pensar, calha lembrar as palavras do Papa Francisco: “Pensar que o poder é impor o meu caminho, alinhar todo mundo, e fazê-los andar por essa trilha me parece errado. Agora, se concebo o poder de uma maneira antropológica, como um serviço à comunidade, é outra coisa”.

Pensamento, o passeio da alma

Abaixo a crônica publicada hoje no jornal Pequeno; revista e ampliada, em relação à publicação original.

“Pensamento, segundo o dicionário Michaelis, é ato do espírito ou operação da inteligência; fantasia, imaginação, sonho. Segundo o mesmo dicionário, pensar é combinar ideias, formar pensamentos, meditar, refletir. Nesse sentido, andou bem quem concluiu que o pensamento é passeio da alma. É que pensando, meditando, refletindo, podemos fantasiar, sonhar, ir a lugares onde o nosso corpo não pode ir. Podemos, até, dizer à pessoa amada da grandeza do amor que nos une e alimenta, superando, nesse inusitado passeio, que leva à revelação, a timidez que, não raro, nos impede de expor os nossos sentimentos.

A verdade é que, pensando, levamos a nossa alma aos lugares mais longínquos; pode-se, até, quando for o caso, ir ao encontro da pessoa amada, quando o destino a tiver levado para bem distante. Se não for a pessoa amada, pode ser qualquer outra pessoa que julguemos importante ser lembrada.

O relevante mesmo, que é o que importa, é a constatação de que só o pensamento rompe todas as barreiras. Não há distância que não possa ser superada pelo pensamento. Não há  timidez que resista à força do pensamento – e tudo o mais que só ele é capaz de proporcionar.

Refletindo, arrumando as ideias, dando vazão aos pensamentos, podemos, até, dizer ao desafeto do nosso verdadeiro sentimento em relação a ele ou o quanto o abominamos. E, mais importante, ele nem precisa ficar sabendo. Aliás, ele nunca saberá que o detestamos, enquanto mantivermos sob custódia o nosso sentimento.

O certo é que, pela imaginação, nos libertamos das amarras, somos livres para amar ou, se for o caso, até para odiar. E a pessoa amada – ou odiada – sequer saberá, pois que o pensamento – e consequente sentimento, claro – permanecerá aprisionado dentro de nós.

Pelo pensamento, superamos os preconceitos e avançamos, seguimos em frente, fazendo o que entendemos deva ser feito  – sem peias e sem amarras, sem censura, sem recriminações, sem a obrigação de ser politicamente correto.

É através do pensamento que nos vingamos dos inimigos, que nos libertamos dos grilhões que nos impedem de dizer o que o coração reclama.

Reafirmo, pois, o óbvio: para o pensamento, não existem barreiras. O pensamento voa, e leva consigo, nessa aventura, a nossa alma. Vamos ao passado e/ou projetamos o futuro com o nosso pensamento, conduzindo a nossa alma por lugares que só  ele, o pensamento, é capaz de fazê-lo.

Mas o pensamento que proporciona o passeio da alma, é o mesmo que pode aprisioná-la. E aquele que deixa  a alma ser aprisionada pelo pensamento, decerto que é um tolo, pois que deixa de viver  as emoções que só em liberdade o pensamento proporciona.

É preciso deixar, nos dias presentes, de tantas dificuldades, que o nosso pensamento flua, que fantasie, que nos iluda – se necessário for -, que nos faça crer que o mundo que vivemos não é esse que se descortina sob os nossos olhos, e que o homem é capaz de abrir mãos das suas ambições materiais para ser solidário com o irmão que lhe estende as mãos.

É preciso deixar a alma seguir o pensamento, pois, assim, em liberdade, ela experimentará o prazer das aventuras que a matéria não pode viver, pelas mais diversas razões.  Por isso dou asas à minha imaginação; deixo meu pensamento solto, sem amarras, sem restrições. Nesse sentido, deixo que leve a minha alma onde deseja levá-la, pois, nessa viagem, o pensamento tem proporcionado a mim as mais fortes e indescritíveis emoções.

E que bom que ninguém tenha o dom de saber o que estamos pensando. Felizmente, ninguém é dono do pensamento de ninguém; e nem ninguém pode controlar os caminhos por onde o pensamento trafega levando a nossa alma.

Pensamento, o passeio da alma

images - CópiaPensamento, segundo o dicionário Michaelis, é ato do espírito ou operação da inteligência; fantasia, imaginação, sonho. Segundo o mesmo dicionário, pensar é combinar ideias, formar pensamentos, meditar, refletir . Nesse sentido, andou bem quem concluiu que o pensamento é passeio da alma. É que pensando, meditando, refletindo, podemos fantasiar, sonhar, ir a lugares onde o nosso corpo não pode ir.

A verdade é que, pensando, levamos a nossa alma aos lugares mais longínquos; pode-se, até, quando for o caso, ir ao encontro da pessoa amada, quando o destino a tiver levado para bem distante. Se não for a pessoa amada, pode ser qualquer outra pessoa que julguemos importante ser lembrada.

Refletindo, formando ideias, dando vazão aos pensamentos, podemos, ademais, dizer ao desafeto – olha que maravilha! –  que o detestamos, que ele é um verme, um desagregador, um péssimo exemplo de cidadão. E, mais importante, ele nem precisa ficar sabendo. Mas a nós basta o desabafo.

Pela imaginação, nos libertamos das amarras, do conservadorismo, superamos os preconceitos, avançamos, seguimos em frente, fazendo o que só pensamento pode e quer, sem peias e sem amarras.

Vê-se, pois, que, para o pensamento, não existem barreiras. O pensamento voa, e leva consigo, nessa aventura, a nossa alma.Vamos ao passado e projetamos o futuro com o nosso pensamento, levando a nossa alma por lugares que só  ele é capaz de levar.

Mas o pensamento que proporciona o passeio da nossa alma, é o mesmo que também pode aprisioná-la. E aquele que deixa  a alma ser aprisionada pelo pensamento, decerto que é um tolo, pois que deixa de viver  as emoções que só em liberdade ela pode nos proporcionar.

É preciso deixar a alma seguir o pensamento, pois, assim, em liberdade, ela experimentará o prazer das aventuras que a matéria não pode viver, pelas mais diversas razões.  Eu dou asas à minha imaginação; deixo meu pensamento levar a minha alma onde ele deseja levá-la, proporcionando a mim as mais incríveis emoções que, todos sabem, só a imaginação pode proporcionar.

Felizmente, ninguém é dono do pensamento de ninguém; e nem ninguém pode controlar os caminhos por onde ele trafega levando a alma.

Loucos pelo poder

Sentir-se privado da fama e/ou do poder pode ser algo muito difícil de ser administrado  por determinadas pessoas. O poder perdido –  ainda que seja um só naco de poder –  pode destruir a vida de determinadas  pessoas, sobretudo as que sublimam a bajulação,  a badalação, as colunas sociais, os tapinhas nas costas, os elogios gratuitos  etc.

Quando Wilson Simonal  concluiu, finalmente, que sua vida de artista  famoso, rico e badalado, não tinha mais retorno, disse, desesperado, a um amigo: “Eu não existo. Sou um fantasma”. Wanderley Cardoso, “O bom rapaz” da Jovem Guarda, quando se viu sem os holofotes proporcionados pela fama, caiu em depressão e entregou-se ao vício do álcool.

Esses dois exemplos, apanhados ao acaso, são uma demonstração eloquente de como determinadas pessoas não estão preparadas para o ostracismo,  para viver sem a fama – e sem o poder dela decorrente –  que um dia alcançaram.

Essas pessoas, ao tempo da fama, não se preparam para o ocaso. Viveram intensamente o poder e a fama, esquecidos que, como tudo na vida, eles também passam.

Sabem-se de pessoas, com muito menos poder e quase nenhuma fama, que ao perderem aquele (o poder) , se desesperam,  se deprimem, perderam, até, a vontade de viver.

Essas pessoas, a meu sentir, são as que exercem o poder sem idealismo, mas em face do que ele tem fascinante. Essas têm que sofrer mesmo, pois o poder, para elas, era um fim em si mesmo. Elas se lambuzam com – e no –  o poder. Vivem das benemerências do poder, sem se darem conta que tudo na vida tem começo, meio e fim. São os tolos no poder, dos quais lhes falei em outra crônica publicada, aqui neste mesmo espaço.

Nossas crenças

Há coisas que, nas nossas relações sociais, nós revelamos, sem nenhuma dificuldade. Revelamos o  filme favorito, o carro da nossa predileção, as lojas da nossa preferência, os ambientes que gostamos de frequentar, o whisky ou a cerveja que tomamos. Tudo isso o fazemos sem o menor constrangimento, sem nenhuma restrição, tudo muito natural.

Noutras oportunidades, revelamos, ademais, as nossas crenças. Digo melhor, algumas das nossas crenças. Muitas vezes afirmamos, por exemplo, acreditar que chuvisco faz mal à saúde, que não se deve comer manga com febre ou que, depois de uma cirurgia, não devemos comer comida reimosa: pato, carne de porco, surubim, camarão, etc.

Essas são algumas das crenças que ousamos revelar: sem receio, sem constrangimento, em qualquer lugar ou circunstância. Nós cremos e não nos envergonhamos de crer, mesmo naquilo que a ciência descrê.

Fazer o quê?

São crenças e ponto, afinal, ninguém  pode viver ser crer em algo. Acredita-se até em pastor que tira o diabo do coro das pecadoras fazendo sexo elas.

É que, repito, é preciso acreditar, ter fé, caso contrário a vida se tornaria um inferno.

A nossa crença é tamanha que, muitas vezes, acreditamos até em promessas de campanha política; como se fôssemos tolos, babacas, otários. Eu mesmo já acreditei!

Essas são algumas crenças que revelamos  até com certa naturalidade, porque estão, afinal, incorporadas ao nosso dia a dia. Não há, pois, como negá-las, pois as confessamos, repito, sem pudor.

A nós não nos causa nenhum constrangimento admitir, por exemplo, que jogamos um lençol sobre o espelho para não atrair raios ou que só levantamos com o pé direito, para começar bem o dia, desde que um gato preto, numa sexta-feira, não cruze o nosso caminho.

Mas ao lado das crenças reveláveis, as ditas costumeiras, muitas deles racionais  (onde há fumaça, há fogo ou quem bebe tende a se embriagar), outras, nem tanto, há o que chamo de  falsas crenças; aquelas que, por prudência ou medo, muitas vezes não saem da nossa subjetividade mas que, iludidos, as temos como verdadeiras.

Nesse sentido, cremos, por exemplo, que a nossa vontade é livre, que mandamos em nós mesmos, que sabemos escolher entre o bem e o mal, que sabemos discernir o bom do ruim, que não cometemos deslizes graves, que os nossos pecados são apenas veniais, que apenas os pecados dos outros merece expiação ou que as doenças graves só alcançam o vizinho etc.

Nessa senda, cremos, ademais, que um dia a corrupção deixará de existir, que o homem e a mulher serão tratados com igualdade (na medidas de suas desigualdades), que o Poder Judiciário um dia será célere, que as pessoas que amamos nos amam com reciprocidade, que os filhos do vizinho levam os nossos à perdição, que erramos induzidos pelos outros, etc.

E assim vamos vivendo: enganando-nos aqui, nos iludindo acolá, pouco importando se são falsas ou verdadeiras as nossas crenças, pois, afinal, o que importa mesmo é ser feliz, ter paz de espírito, ter força para enfrentar as dificuldades do dia a dia; e, para ser feliz, para ter o mínimo de conforto espiritual, é preciso crer.

Por tudo isso, eu creio sim…

A vitória da esperteza

maradona_gol_de_mao_legoTem sido assim, desde sempre: o que importa é vencer, independentemente dos meios.

A sociedade, de tanto testemunhar a vitória da esperteza, termina por concluir que tem que ser assim mesmo.

O cidadão comum, diante de tantos exemplos negativos, fica com a clara sensação que ser correto é bobagem.

Há muitos exemplos, na história, da vitória – e comemoração – da esperteza. Os bobos que se danem, que paguem o preço por insistirem em ser corretos.

Mas os exemplos não precisam ser buscados na história. Todos os dias testemunhamos a vitória da esperteza; muitas vezes como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Faço essas afirmações, em face de várias vezes ter testemunhado a vitória da malandragem, e a vibração dos que torcem pela malandragem, dos que apoiam a malandragem,  o que, desde minha avaliação, é muito grave, pois fica-se com a impressão de que o oportunismo, no que ele tem de mais nefasto, só depende mesmo das circunstâncias.

Para recordar. Maradona fez um gol com a mão, contra a Inglaterra, em 1986, e por essa esperteza é elogiado até  os dias presentes. Dizem os torcedores argentinos,que não foi a mão de Maradona que tocou na bola; foi – pasmem! –  a mão de Deus.

Não se ouviu, vindo da nação Argentina, nenhuma crítica, muito menos condenação por essa malandragem. O toque malandro serviu, argumentam, para calar a boca dos otários, dos que, bobos, fazem e são flagrados. É como se dissessem: para tripudiar, para sobrepujar a ética, com atos de esperteza e malandragem, tem que ser vivaz e inteligente; inteligência que poucos têm comparável à de Maradona e de outros que, como ele, usam da esperteza para alcançarem as suas conquistas.

“Feio mesmo é perder”, dizem os que fazem coro à malandragem.

Na quarta-feira passada, o Corinthians foi desclassificado da Taça Libertadores, dentre outros motivos, em face de o árbitro não ter marcado um pênalti decorrente de uma jogada de mão de um jogador argentino.

Os corintianos, porque perderam, criticaram a esperteza; o torcedores do Boca, porque ganharam, enalteceram a “habilidade” do zagueiro. Para os torcedores do Boca, não há nada de mais em “roubar” o adversário, afinal, eles também fazem coro ao apotegma: feio mesmo é perder. Críticas eles mereceriam, pensam os torcedores do Boca,  é se não tivessem alcançado a classificação, ainda que pela via da malandragem.

Nesse sentido, eu já ouvi, de cronistas esportivos, incontáveis vezes, que o que importa mesmo – no futebol, pelo menos – é vencer,  ainda que seja fora do tempo normal, com um gol de mão, afinal, depois do resultado alcançado, sabe-se, nada mais pode ser feito.

Tivesse sido o Corinthians a vencer , beneficiado pelos erros da arbitragem, os argumentos dos torcedores brasileiros seriam os mesmos de que se valem hoje os torcedores do Boca: feio mesmo é perder e/ou tudo isso é choro de perdedor.

E assim vamos: acolhendo ou rejeitando a esperteza, dependendo da posição em que nos encontramos. Tudo muito espertamente, malandramente, como, afinal, tem sido, desde sempre.

Belo exemplo nos dão os que, convenientemente, aplaudem esse tipo de atitude.

São esses mesmos que não perdem uma oportunidade de condenar um político, quando, por exemplo, condiciona a aprovação de uma lei à liberação dos valores referentes às emendas parlamentares; aqueles valores que ninguém sabe – ou, pelo menos, não somos informados –  onde são empregados.

É isso.