Um facho de luz

É de Carnelutti a afirmação de que a sociedade crava em cada um o seu passado e que o processo não termina com a condenação.

É do mesmo Carnelutti a afirmação de que Cristo perdoa, mas os homens, não.

A verdade é que condenado hoje, condenado para sempre.

A sociedade não costuma perdoar quem comete crime –  e por ele é condenado.

A sociedade suporta bem, e trata até com deferência e fidalguia, os ladrões de colarinho branco, afinal, muitos deles estão muito próximos da gente e frequentam as mais esfuziantes rodas sociais.

Os miseráveis,  no entanto, além de serem a clientela preferencial do direito penal, quando alcançados pelos órgãos de persecução, ficam marcados para resto da vida, pouco importando que tenham cumprido pena, pois o seu passado será algo sempre presente, como uma marca indelével, em sua vida.

A propósito, é sempre bom, quando se reflete sobre essas questões, revisitar a literatura. Em Os Miseráveis, de Vitor Hugo, por exemplo, o protagonista, Jean Valjean, condenado por roubar pães para sua irmã e sete sobrinhos, nunca mais conseguiu se libertar do estigma, ainda que tivesse mudado radicalmente e se tornado um empresário respeitado pela sua bondade.

Mas as coisas tedem a mudar; já estão mudando, aliás. Devagar, é verdade. O importante, todavia, é que mudem.

Vejo, agora, nessa linha de pensar, que a Empresa Brasileira de Correiros e Telégrafos, vai contratar 800 detentos para trabalhar em suas unidades administrativas de todo o país, conforme Termo de Cooperação Técnica assinado entre os presidentes do Conselho Nacional de Justiça, do Sopremo Tribunal Federal e da ECT.

Segundo noticiado, esta será a maior parceria firmada pelo Programa Começar de Novo, coordenado pelo CNJ, que visa, com essas ações, prevenir a reincidência.

É uma belíssima iniciativa. Os detentos que forem beneficiados por essa parceria poderão, diferente da quase totalidade dos egressos, ter esperança de novos dias. Todavia, ainda assim, tenho certeza, o seu passada sempre restará como uma etiqueta grudada em sua testa.

De toda sorte, já se vê um facho de  luz onde antes só se via  trevas.

 

Como a moça feia na janela

Com os  cabelos brancos vem, como regra, a prudência.

A gente vai acumulando experiência e, com ela, vai compreendendo que não é bom o sectarismo.

Confesso que, muitas vezes, fui além, sim.

Confesso, no entanto, que sempre que ultrapassei o umbral da prudência, o fiz movido pelo melhor sentimento.

Eu não sei agir de má-fé, por pura maldade, para ferir suscetibilidade; longe de mim  o agir por vingança, a ação pérfida…

A verdade, inobstante, é que, aqui e acolá, às vezes sem compreender (?), terminamos por fugir do meio-termo, o que, de rigor, não é errado; acho, até, que deve ser assim mesmo, que em determinadas ocasião é preciso assumir, ir além.

Ao refletir sobre o que creio e acredito – muitas vezes radicalizando (radicalizar aqui empregado no melhor sentido) – não o faço para  atingir quem quer que seja; eu apenas acredito e digo, porque entendo que as pessoas têm que ter coragem de se expor, de assumir posições, de sair de cima do muro.

Eu não acredito, sinceramente, em que não tem opinião, que vai levando  a vida – e as relações – ao sabor das circunstâncias, cujo discurso vai sendo instrumentalizado de acordo com as conveniências.

Num país como nosso, em que as pessoas se mostram sem convicções, sobretudo no mundo da política, parece ser pecado assumir posições; e eu as assumo, pois nunca fui do tipo que muda de cor dependendo da ocasião.

Mas o que importa mesmo é não ficar em cima do muro.

É preciso ter coragem para sair em defesa de  suas próprias ideias.

Quem não defende as suas ideias é porque, de rigor,  não as tem; se as tem, não tem convicção das ideais que tem, por isso não as defende, por isso é mais cômodo ficar como a moça feia na janela, pensando que a banda toca pra ela ( Chico Buarque).

Na defesa das minhas convicções eu vou além: eu simplesmente radicalizo. Aliás, Confúcio dizia que o meio-termo não devia ser seguido. É que, segundo ele, o homem inteligente ultrapassa-o, o imbecil fica aquém.

Posso não ser inteligente, mas imbecil sei que não sou. Por isso, não tenho medo de me expor, de expor as minhas ideias, de dizer sobre as coisas que acredito.

Mário Sérgio Cortella, em Provocações Filosóficas, adverte que “não é preciso ir ao extremo, mas é essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro”.  É que, prossegue, “muitas vezes o meio pode ficar anódino, inodoro, insípido e incolor”.

Nesse sentido, há um dito popular que serve bem às reflexões que faço agora: A radicalização é uma virtude; o vício está na superficialidade.

Sem ser sectário, eu radicalizo mesmo na defesa daquilo que acredito.

Tenho sido assim, e assim espero encerrar meu tempo de vida na terra.

Eu nunca me arrependi por defender com tanto radicalismo – sem sectarismo, repito –  as coisas que acredito.

Todos temos ciência da existência de mitos, fábulas e histórias enaltecendo a preferência pelo caminho do meio. Mas é preciso ter cuidado, pois ele pode também ser o caminho que leva à mediocridade.

A gente nunca deve ter receio de defender as coisas que acreditamos.

Da mesma forma, não devemos nos envergonhar se eventualmente decidimos mudar a direção.

Se há alguma coisa de que me arrependo é de não ter arriscado mais, de não ter amado mais, de poucas vezes ter visto o sol nascer. Compreendo, de mais a mais, que devia ter complicado menos,  trabalhado menos, ter visto o sol se pôr… (Epitáfio, Titães).

Bafejado pela elegância e cortesia

Tenho feito o que é possível – às vezes, até, o impossível – para não ser descortês com meus colegas, sobretudo no Pleno, durante os julgamentos.

Reconheço, inobstante, que a minha maneira de ser, a veemência com que defendo os meus pontos de vistas, muitas vezes, deixam transparecer, sim, que estou sendo deselegante – tudo depende, claro,  do ponto de observação de quem me julga ou das suas próprias idiossincrasias.

Faço questão de consignar, no entanto, que não sou dos tais que fazem apologia à deselegância. Gosto de ser cortês, gostaria de ser mais, muito mais cortês. Falta-me, no entanto, sensibilidade para sê-lo, daí que, algumas vezes, pode parecer que eu pretenda atacar algum colega. Nunca fiz e nem o farei. Jamais! Não é meu feitio! Não é da minha índole ser mal-educado e deselegante.

Digo mais. Não objetivo, com as minhas intervenções, quase sempre veementes, impor os meus argumentos. Não acho que se deva impor asnossas  ideias na base do grito.

Ditadura, na minha visão, nem dos amigos e nem de ideias.

É melhor construir na base do diálogo, bafejado pela elegância e cortesia.

Saber perder

Na vida  há bons e maus perdedores.

Não sei me definir nessa questão. Penso, pela minha história de vida, que sei perder e sei ganhar.

Tem sido assim a minha vida.

Todavia, tenho muito a comemorar, pois sempre ganhei muito mais que perdi. Mesmo nas derrotas me superei para, depois, sentir-me vitorioso; vitorioso, sim, por ter tido a capacidade de compreender e assimilar a derrota, como se fora alguma coisa natural.

Perdendo, sempre o fiz com a necessária altivez; nunca me apequenei ou me autoflagelei em face de uma derrota, mesmo as que dilaceraram a minha alma.

Sou sempre capaz de dar a volta por cima. A vida me ensinou – eu eu tratei de aprender.

Quando perco, admito a derrota, deixo a ribalta e vou cuidar de sarar a ferida.

Nos relacionamentos pessoais  em que   nos envolvemos –  seja profissional, seja pessoal –  é   preciso saber perder, afinal, admitir a derrota, o revés, é o mesmo que praticar a humildade.

É da sabença comum que não se vive somente de vitórias; perder ou ganhar é apenas uma consequência de viver  num mundo de extrema competitividade.

Ganha-se hoje; perde-se, amanhã. Nunca será diferente. O que precisamos é ser humildes numa e noutra situação.

O grave é quando, por pura falta de percepção, de tirocínio, perdemos para nós mesmos, para  nossa vaidade,  por não querer ver o óbvio, por não admitir que o jogo acabou, que é chegada a hora de viver das boas lembranças, de seguir adiante…, de aceitar a derrota.

O bom perdedor não foge à luta, não sucumbe e nem se apequena diante das intempéries.  Deve, ao reverso,  por-se de pé, empunhar a bandeira da dignidade e seguir noutra direção, sem perder a fé, sem se deixar  abater.

É levantar a cabeça e cuidar das feridas, ainda que delas resultem graves e permanentes cicatrizes.

Fui estimulado a essas reflexões, dentre tantas razões,  em face, também, de uma notícia que li, hoje, num matutino local, dando conta de que determinado cidadão, inconformado com a separação, que considerou uma grave derrota,  desferiu violentas facadas na ex-mulher, agindo como agem os maus perdedores, os que a vida não foi capaz de ensinar que perde-se hoje para ganhar amanhã.

Esse cidadão é, sim,  um mau perdedor.

Covarde, não teve forças para ir à luta, decerto porque não teve a percepção de  que nesta vida não se ama – e nem se é amado – apenas uma vez.

O bom perdedor tem que assimilar a derrota, deve saber partir, não se deixar abater pelo revés.

Nenhum de nós poderá se considerar um  bom ganhador se não for capaz de agir com altivez na derrota.

Perder ou ganhar faz parte da vida.

Pena que existam muitos que só sabem ganhar.

Ninguém sai de uma derrota ou de uma vitória emocionalmente equilibrado.

Mas é  preciso, repito, saber perder.

Numa e noutra situação é preciso  equilibrar as emoções,  não se deixar abater, afinal, a vida continua e somente os fracos de espírito se deixam sucumbir em face de um revés.

Enquanto isso, nas confrarias…

Tem-se tornado muito comum desentendimentos entre os membros de confrarias. Nos dias atuais, em face da transmissão das sessões dos Tribunais e das Casas Legislativas pelos veículos de comunicação, todos nós temos acesso a esses desentendimentos.

Importa refletir que se essas discordâncias frutificassem apenas no campo das idéias, nada seria mais natural. Todavia, não é o que ocorre, muitas vezes –  infelizmente. O lamentável nisso tudo é termos que admitir, porque a olhos vistos, que a muitas dessas divergências são de cunho pessoal, de ego, de pura vaidade – de arrogância,  de prepotência, muitas vezes.

Nas sessões dos Tribunais e das Casas Legislativas – todos nós sabemos, todos já assistimos, todos já testemunhamos, incontáveis vezes, iterativamente, não há o que contestar – os   desentendimentos  vão, repito, além do campo das idéias. Muitas vezes, importa redizer, são divergências pessoais mesmo, que regam e fazem vicejar inimizades hepáticas, encarniçadas, daquelas que não permitem uma reaproximação, um bom dia, um até logo –  uma convivência pacífica e cordial, enfim.

É necessário que se compreenda que, se essas divergências afloram especificamente nas casas judiciais, se alcançam o paroxismo, se chegam à intensidade de um vulcão em erupção, delas decorrem, inelutavelmente, graves e, muitas vezes, irreparáveis prejuízos aos litigantes e à própria coletividade – dependendo, claro,  do grau de interesse colocado em jogo.

Há, sim, não se pode negar, confrades que divergem por espírito de emulação e são capazes, até, de votar em desacordo com o desafeiçoado, só para não dar a ele o gostinho de estar na balada certa, ainda que terceiros sejam prejudicados em face dessa ou daquela deliberação. Isso se chama falta de espírito público, falta de humildade; insolência, coisa vã, prepotência –  também.

Na política, costuma-se ver, com certa freqüência, o poderoso de plantão desconstruir a obra do adversário. Nas corporações, não é diferente e, sejam elas quais forem, também vicejam as mesmas condutas equivocadas,  em face das idiossincrasias de alguns dos seus membros, despreparados para decidir coletivamente.

Lembro ter lido, num desses sítios que fazem menção às chamadas pérolas jurídicas, que, numa determinada Comarca, com duas varas, vários processos foram chamados à ordem, desnecessariamente, por um magistrado que substituiu o colega que estava em gozo de férias. A notícia dava conta de que os dois magistrados tinham sérias divergências pessoais; divergências, portanto, que iam muito além do campo das idéias, da interpretação dos textos legais. Por isso, sempre que um podia, tentava macular a imagem do outro, razão pela qual, nesse caso específico, o magistrado substituto danou-se a chamar os feitos do magistrado substituído à ordem, sem nenhuma mácula a contaminá-los, só para demonstrar, a quem pudesse interessar que, diferente do que parecia, o magistrado substituído não era tão esmerado assim, não era tão competente como fazia questão de apregoar nas rodas de bate-papos.

Claro que essa atitude se traduziu em perdas para a população – e para o erário – vez que foram refeitos, reproduzidos atos que, de rigor, não precisavam ser refeitos; e, depois, outra vez refeitos, com o retorno do titular. É que, ao retornar das férias, o juiz titular da vara, sem pensar duas vezes, tornou sem efeito todos os despachos esquisitos do colega que o substituiu – sem perder a oportunidade de consignar nos autos o erro do colega, objetivando, da mesma forma, menoscabar, depreciar a sua imagem.

Essas divergências, que encontram terreno fértil nas corporações, beneficiam, no caso específico do Poder Judiciário, os infratores, os malfeitores, os litigantes de má-fé, os que fazem apologia da alicantina, quase sempre em detrimento do interesse público.

Juiz que diverge de promotor por questões menores, promotores que discrepam de juízes em benefício do próprio ego, integrantes de uma Corte de Justiça que se digladiam por questões de somenos, contribuem, sem dúvidas, para o descrédito das instituições e fazem a festa dos calhordas, dos que não querem que as instituições se fortalecem, que funcionem a contento. Para esses, quanto mais as autoridades divergem, quanto mais os egos se inflamem, mais pavimentado fica o caminho para que passem à ilharga das dos órgãos persecutórios.

É sempre assim mesmo: quando os gafanhotos brigam, os corvos fazem o banquete.

Eu não faria tudo outra vez

Já ouvi de muitas pessoas a afirmação que encima estas reflexões. Para mim, quem faz esse tipo de afirmação se imagina acima do bem e do mal. É daquele tipo que acha que só os outros erram. Na concepção (equivocada) desse tipo, só os outros têm mau cheiro, só o vizinho precisa corrigir a sua direção, só o inimigo tem defeitos – e só ele é belo, e a verdade só é companheira dele.

O mundo todo está errado na concepção desse tipo; e só ele, claro, está correto. Só as suas ações são dignas de elogio. O seu espelho só reflete o super-homem que ele pensa que é; um ser superior, a quase perfeição.

Confesso que quando ouço alguém dizer que faria tudo outra vez ou que não se arrepende de nada que fez, fico achando que nasci, cresci – e vivo – num mundo muito, muito diferente e que, dos homens, estou entre os mais falíveis, entre os que mais erram, os que mais tropeçam, pois muitas das minhas ações do passado, muitas coisas que fiz, eu não as faria outra vez – nem sob tortura.

Para mim – cá com os meus botões, cá com as minhas imperfeições, com a minha assumida falibilidade – é uma arrogância, uma prepotência sem par, concluir que, diante da mesma situação – ou se pudesse voltar no tempo – faria tudo exatamente como fizera antes, ainda que tenha tropeçado, que tenha sucumbido, que tenha dado com a cara na parede. Quem pensa e age assim se imagina muito próximo da perfeição, da infalibilidade. Todavia, não passa de um tolo, de um bem acabado imbecil, pois que, tendo a oportunidade de aprender, não o fez, preferindo, ao reverso, continuar trilhando pelo mesmo caminho, navegando nas mesmas águas turvas nas quais soçobrou.

Diferente dos que pensam – e agem – assim, eu já me arrependi, incontáveis vezes, de muitas coisas que fiz e, até, das que deixei de fazer. Confesso, com humildade, que não faria tudo outra vez. Admito, hoje, mais maduro, ter cometido muitos erros que não mais cometeria, em face da experiência que acumulei ao longo dos anos.

Como eu gostaria de poder voltar no tempo! Se a mim me fossem dadas as mesmas oportunidades que tive e que perdi, trilharia noutra direção, noutro rumo, noutro sentido.

Se eu pudesse voltar no tempo, moldaria a minha personalidade para, jamais, sob qualquer pretexto, abrir mão das horas de lazer que me furtei para trabalhar. É preciso saber fazer concessões. E isso eu, aos cinqüenta e nove anos, ainda não aprendi e continuo me imolando com o trabalho.

Se pudesse voltar no tempo para traçar o meu rumo, a minha vereda, o meu norte, o caminho a seguir, jamais confiaria nalgumas pessoas em quem confiei e que – hoje sei que era inevitável – me traíram.

Se eu pudesse voltar no tempo, seria mais tolerante com quem não cumpre horário, visto que sempre desprezei – e ainda desprezo – o profissional que não cumpre horário. Muito da minha fama de arrogante decorre dessa minha intolerância com o profissional que descuida da hora aprazada, que não honra a palavra assumida, que não se esmera no trabalho.

Se pudesse voltar no tempo, seria menos responsável, investiria mais em mim e menos no trabalho. Se eu pudesse fazer retroceder o tempo, eu jamais teria me envolvido emocionalmente com algumas pessoas que, só depois, me dei conta de que não mereciam de mim nada mais que desprezo. Se pudesse voltar no tempo, eu veria um pouco mais o pôr do sol, teria chegado um pouco mais tarde em casa, determinava, com destemor, os rumos do meu coração, não sentiria tanta saudade.

Se eu pudesse voltar no tempo, não passaria as noites insones que passei enfrentando apenas a criminalidade miúda, enquanto que os colarinhos engomados seguiram saqueando os cofres públicos.

Se eu pudesse voltar no tempo, jamais me afastaria de algumas pessoas que amo e das quais me afastei, burramente, por causa do trabalho.

Definitivamente, se eu pudesse voltar no tempo, não faria tudo outra vez.

Não sei escrever

Não sei escrever. Como Rubem Alves, admito que não sei gramática, que erro a acentuação, que me enrolo na colocação de hifem, que não sei usar crase. Mas me esforço. Trabalho e escrevo com o dicionário ao meu lado. Me esforço muito! Tento escrever bem. E como tento!  Não o faço, no entanto.  Não por preguiça, mas por pura incompetência.

Escrevo mal mas escrevo o que penso e o que sinto. Escrevo com alma na ponta dos dedos, com o coração pulsando.

Inspirado em Patativa do Assaré, registro que “é melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada…”

Tenho tentado, neste espaço, puramente reflexivo, escrever a coisa certa, “vender” a minha mensagem, expor as minhas inquietações, compartilhar as minhas angústias, dizer do meu estado quase permanente de felicidade.

O que importa mesmo, para mim, é que me mostro por inteiro.  Sem receio, sem enleio, sem escamoteação.Nesse sentido, não saber escrever é apenas um detalhe.

Aqui exponho as minhas ideias, desnudo a minha alma,  confindencio os meus sonhos, digo dos meus amores, falo das minhas paixões – revelo-me por inteiro, enfim,  afinal eu sou, em grande parte, aquilo que escrevo. O que não revelo é porque não tenho convicção de sê-lo.

A vida não desacelera

Só um tolo se ilude com o poder. O que se vive e vivencia no poder é absolutamente efêmero. Tenho dito isso repetidas vezes,  a reafirmar a minha convicção de que a salvação da alma está fora do poder.

A vida acelera. O tempo passa com uma rapidez de impressionar. E nós vamos juntos – sem opção, pois não se desacelera a vida.

A vida se esvai, o tempo a leva consigo. É preciso, pois, estar preparado para deixar a ribalta para os novos atores.

Num determinado dia, quando a embriaguez do poder passar, somos surpreendidos com a constatação de que só nos restou a ressaca para ser curada; e  concluiremos, estupefatos, o óbvio:é chegada a hora de voltar – por inteiro – para casa, para os braços de quem nos ama verdadeiramente, para o conforto que só um lar proporciona nas situações extremas da vida.

O tempo, inclemente, (quase) tudo destrói; só não destrói a nossa história, o que edifcamos – de bom ou de ruim.

O que valerá mesmo, alfim e ao cabo, é aquilo que construímos, que deixamos para as gerações futuras.

A cada dia, a cada  momento, aqueles que exercem o poder com aptidão, vão construindo a sua história, sedimentando o seu legado para as gerações futuras.

A história que cada um de nós constrói pode ser uma boa ou má história. Tudo depende da maneira como exercemos o poder.

Quero, sim, ser lembrado, no futuro, como um magistrado que ousou tentar romper os paradigmas, que não se intimidou com a arrogância dos que, podendo, preferiram a acomodação, a  deixar como está, para ver como é que fica.

Tenho repetido, reiteradas vezes, que cada um constrói a sua história – e é responsável pelo legado que deixar para as gerações futuras.

Eu faço a minha história. Cada um faz a sua. Umas mais e outras menos relevantes. Mas, ainda assim, história.

Triste daquele que passa pelo poder e não constrói.

Triste do que pensa que o poder é apenas um instrumento de satisfação e realização pessoal.

O poder passa; a nossa história fica. Mesmo os ditadores um dia deixam o poder – ou pela morte ou pelo golpe.

Por tudo que acima expus é que reafirmo que o poder é a ilusão dos tolos.

Tenho dó dos que exercem o poder com os pés na cabeça, cultivando apenas o seu ego e galvanizando inimizades; tende a ficar sozinho, num ostracismo que já matou de tédio muitos daquele que, no poder, imaginavam-se super-homens, com superpoderes.