Sempre gostei de expressar – por escrito ou verbalmente – o que sinto e penso. Agradecido à natureza pelo privilégio de poder fazê-lo, já escrevi e refleti sobre os mais variados temas, especialmente sobre o ser humano. Por isso digo, não sem certa pretensão, que, passados quase cinquenta anos de exercício profissional – como advogado, procurador, promotor e magistrado -, e tendo eleito o homem como matéria-prima das minhas inquietações, especializei-me em gente.
Nessa condição, imagino não ter dificuldades em prestar uma homenagem a alguém que conheço bem e que se destaca entre os mortais – sendo ele imortal – por qualidades que marcaram sua trajetória de homem público. Afinal, o homenageado sempre se notabilizou, como magistrado e como escritor, pela sensibilidade de ao menos tentar compreender o mundo e as pessoas que nele habitam.
A propósito desta homenagem, devo dizer que a minha percepção sobre o ser humano me faz concluir, com certa obviedade, que há pessoas que passam pelo mundo sem nada construir, ao sabor do vento, na base do “deixa a vida me levar; vida leva eu”. Há outras tantas, porém, que pertencem à categoria dos que viveram para fazer história e deixar um legado às futuras gerações. Nesse seleto grupo incluo o homenageado, por quem nutro especial admiração.
Esta reverência, importa dizer, não se deve apenas à sua aposentadoria da magistratura, após uma profícua e exemplar ação judicante, mas ao legado humano e intelectual que ele confia à sociedade. Um legado que, claro, não se encerra aqui: este momento é o marco final de apenas uma atividade funcional, pois a sua atuação mais sedutora, a literária, persistirá para reafirmar a exata dimensão de sua inteligência, sensibilidade e permanência.
Vianense de quatro costados, Lourival Serejo veio ao mundo para emprestar brilho às letras e ao Poder Judiciário do Maranhão. Como magistrado, trilhou um caminho inconcusso que o levou, por mérito, às presidências do Tribunal Regional Eleitoral e do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão. No TJ/MA, vale registrar, assumiu o comando justamente no momento mais severo da pandemia de Covid-19, cabendo-lhe, naquele cenário incerto, reinventar, quase da noite para o dia, o funcionamento da Justiça estadual. A despeito de todas as adversidades, a instituição, sob sua liderança, manteve-se ativa, servindo ao cidadão maranhense – fato de que resulta meu mais profundo reconhecimento.
Agora, após vários anos dedicados à Magistratura, Lourival Serejo despede-se da toga deixando um exemplo difícil de igualar: conseguiu reunir, na mesma caminhada, a firmeza do julgador sóbrio, equilibrado e perspicaz, e a delicadeza do escritor de obra fluente. Diante dessa constatação, cabe consignar que, se há homens públicos cuja relevância se apaga ao deixarem o cargo, há aqueles – caso do homenageado – que, por suas múltiplas facetas, jamais abandonam a cena principal; serão sempre lembrados pelo que construíram e, sobretudo, pelo muito que ainda haverão de produzir.
Como magistrado, Lourival Serejo construiu uma história pautada pelo conhecimento, pela autoridade moral e pelo compromisso com o Direito, tornando-se referência para todos nós – em especial para os que tiveram o privilégio do convívio próximo. Contudo, nunca é demais reafirmar, há nele uma dimensão que transborda o jurista respeitado: a do escritor. A literatura permitiu-lhe expor, sem as amarras do poder institucional, sua humanidade, inquietação, visão de mundo e a rara capacidade de transformar vivências em arte verbal.
Por tudo isso, presto esta homenagem ao jurista, ao escritor, ao pai, ao esposo, ao avô, ao cidadão e, acima de tudo, ao grande amigo Lourival Serejo, na certeza de que a sua aposentadoria marca tão somente o término de um ciclo público, jamais o fim de sua obra. Se o cargo fica para trás, sua autoridade intelectual permanece – agora com ainda mais tempo para fazer o que sempre fez com maestria: pensar, escrever e compartilhar.
É isso.