O BANQUETE DOS SEM-MODOS

“Tenham modos, meninos!” Era essa uma das expressões que eu e meus sete irmãos mais ouvíamos de nossa mãe durante a infância e a juventude. Nas mais diversas circunstâncias da vida, o comando materno significava: “não se aposse do que não lhe pertence”, “não fale de boca cheia”, “não se meta em conversa de adultos”, “não fale alto”, “respeite os mais velhos” e, principalmente, “seja honesto”.

Tudo isso sem direito a réplica. Não eram pedidos; eram comandos herdados de geração em geração. Palavras que traduziam, ao mesmo tempo, uma ordem e uma sentença. Sem contraditório. E, quando ousávamos esboçar qualquer tentativa de reação, vinha o xeque-mate definitivo: “Calado!”

Criados dessa forma, passamos, já na vida adulta, a atribuir àquela advertência um sentido ainda mais amplo. “Ter modos” passou a significar “ter honra”, “dar-se ao respeito”, “comporte-se com dignidade”, “preserve o próprio nome” e “seja um exemplo para a família”.

Era – e, para muitos que pensam e agem como eu, continua sendo – um comando sobre o qual não se tergiversava. Só havia duas alternativas: obedecer ou obedecer. Crescemos conscientes de que existiam limites bem definidos entre o nosso comportamento e o espaço alheio. Foi nessa cultura que fui forjado. Foi sob esses valores que me tornei homem, exerci cargos públicos e, principalmente, criei meus filhos.

O problema é que muitos crescem e passam a conviver com pessoas que jamais aprenderam a ter “modos”. Por fraqueza moral ou ganância, deixam-se seduzir pelo banquete oferecido pelos desavergonhados. Nesse cenário, não são poucos os que alcançam o poder, sobem os degraus da fama e são tragados por uma grave amnésia moral. Esquecem-se dos “modos” que aprenderam – ou que deveriam ter aprendido – dentro de casa. É que, no topo, convivendo com as facilidades proporcionadas pelo exercício do poder, a etiqueta muda de figura.

Os sem-modos de hoje estão por toda parte, principalmente encastelados no poder, onde se lambuzam sem qualquer constrangimento. Esquecem-se de que o nome limpo continua sendo – metaforicamente falando -, o maior legado que podem deixar para os filhos, muito mais valioso do que qualquer patrimônio material amealhado ao longo da vida.

Outrora obedientes aos pais, agora desprezam as lições que deles receberam. Não se importam se são assunto sussurrado nas rodas de conversa ou nos restaurantes que frequentam; pouco lhes importam os olhares de reprovação que despertam. Vivem sob a lógica de que, com dinheiro, tudo é possível e tudo se resolve.

De falcatrua em falcatrua, esbaldam-se em jatinhos particulares e em rega-bofes regados a vinhos e uísques, nos ambientes mais sofisticados. Deixam-se seduzir por companhias femininas que sequer dominam o idioma nativo, circunstância que lhes permite tratar, sem qualquer constrangimento, de eventuais esquemas destinados à dilapidação do patrimônio público ou ao tráfico de influência, na esperança de escapar das agências de controle. Embora saibam que, excepcionalmente, isso possa não acontecer, confiam na histórica leniência com que, tantas vezes, os tubarões da criminalidade têm sido tratados.

Para os sem-modos, a moral converteu-se em artigo de luxo e o desvio de conduta passou a ser apenas um detalhe. O pudor foi revogado pelo decreto das vantagens pessoais obtidas a qualquer custo. Afinal, acreditam que, estando no poder, a impunidade continuará sendo a regra, e a punição, uma quase quimera institucional que funciona apenas de forma pontual, destinada a disfarçar a nossa incapacidade de tratar todos os delinquentes com a igualdade proclamada pela Constituição.

Os homens públicos que se entregam às orgias frequentemente noticiadas pela imprensa – e que a todos nos envergonham – comportam-se como crianças mimadas que nunca aprenderam a ter modos. Com uma diferença fundamental: no caso das crianças, basta, muitas vezes, um grito dos pais para contê-las. Os sem-modos, porém, viciados em trapaças e vantagens ilícitas, já não recuam nem com o grito de toda uma sociedade, simplesmente porque o caráter, nesses casos, foi definitivamente engolido pela ganância.

É isso.

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