NÃO TENTE CONVENCER UM FANÁTICO A MUDAR DE OPINIÃO

Principio essa crônica dizendo uma obviedade: o fanatismo político é um dos fenômenos mais intrigantes dos nossos dias. A constatação que o título encerra já vem tarde nas minhas crônicas, porque há muito senti necessidade de refletir sobre essa questão, sobretudo quando tive que sair de grupos de WhatsApp exatamente por não contemporizar com o fanatismo — que cega e que mata.

Nesse sentido, em face das diversas vezes nas quais tentei abrir os olhos de um fanático, acabei por concluir que as minhas tentativas se converteram em uma auto-humilhação, pois saí derrotado fragorosamente. Era como se eu tentasse explicar a Teoria da Relatividade a um felino. Eu terminava sempre falando sozinho, frustrado com a incapacidade do fanático de assimilar as coisas mais simples. Depois percebi que as minhas tentativas resultavam frustradas porque eu sempre acreditei que o fanático, mesmo sendo fanático, poderia, num rasgo de lucidez, operar no campo das ideias. Mas, depois vi, eles têm um grave deficit cognitivo. Eles não se importam em ouvir. Eles não querem ouvir. Eles se alimentam da intransigência. Eles operam no mundo da fé cega; acreditam, até, num salvador político.

Com um fanático, em face do seu “salvador”, se você trouxer um fato, mesmo documentado, ele diz que é armação do inimigo. Se você mostra uma fala grave do líder dele, ele diz que a tiraram de contexto. Se a prova for muito contundente, ele diz que é perseguição política — e por aí vai.

Tenho dito, fruto das experiências vividas no meio de radicais de extrema, quer de direita, quer de esquerda — e eles existem, todos sabemos —, que não é de bom tom tentar demover um fanático num almoço em família, por exemplo, e muito menos numa mesa de bar, porque corremos o risco de romper com a família e, até, sofrer uma agressão física.

O meu conselho, pois, em face de tudo que tenho vivido, é só um: não tente convencer um fanático. Deixe o lunático com os seus botões. Não perca tempo tentando fazê-lo mudar de opinião. Ensine seu gato a rugir, seu cavalo a falar, dê aula de inglês ao seu cão, pois, nesse desiderato, a possibilidade de ser bem-sucedido é maior do que tentar mudar a opinião de um fanático.

E não adianta supor que ele vai mudar sozinho, que a decepção com o ídolo dele, por exemplo, o fará mudar de opinião. Não vai. Ele não vê o mundo como uma pessoa normal enxerga. Ele poderá, até, ser traído e, ainda assim, vai manter a opinião; e, se você tentar fazê-lo ver a realidade, ele vai reagir. Com essa reação, ele passa a desqualificar quem vê como inimigo, na tentativa de defender quem ele elegeu como seu ídolo político.

A esperança que tenho é que o tempo opere um milagre, pois só o tempo pode curar um fanático. Talvez a perda de um ente querido. Talvez uma doença grave. Talvez uma grave injustiça. Talvez. Não se tem certeza porque, afinal, estamos tratando de fanatismo.

O fanático não se importa com o argumento certo. Ele tem uma força interna, uma vontade irresistível de permanecer acreditando nas coisas em que acredita. Ele pode até ouvir o argumento certo. Esse não é o problema. O problema é que já decidiu que não quer acreditar.

Creia, o fanático não aceita ser contrariado. Ele não quer discutir. Ele já chega defendendo o seu ponto de vista. Se ele discutisse, estaria aberto ao convencimento. Como ele apenas defende o ponto de vista — o que é diferente —, ele já está convencido. O debate, para ele, não é algo civilizado. É campo de batalha, por isso está sempre armado.

Nos últimos anos, acreditando no poder da razão, tentei demover alguns fanáticos. Não gostaram. Mesmo porque mudar de opinião é muito nobre, e não espere um ato de nobreza de um fanático. Diante de um fanático empedernido/entorpecido/radicalizado, só há uma solução: recuar, dar um passo atrás. E isso não é covardia. É higiene mental.

É isso.

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