Nós somos responsáveis pelas nossas escolhas

Na próxima quarta-feira haverá promoção por merecimento para o TJ/MA, em face da aposentadoria do desembargador Raimundo Freire Cutrim. Estou analisando as informações dos concorrentes. De rigor, claro,  todos podem ser votados. Mas que fique certo que, na minha escolha, não me levarei  por questões pessoais. Comigo não vale a simpatia e a cortesia. Vale o que estiver no papel. O escolhido será aquele que, desde a minha avaliação, efetivamente mereça ser promovido. É claro que haverá, sempre, no exame dessas questões, uma pequena dose de subjetivismo. Dizer o contrário é tentar ludibriar.  É que, a rigor, não existe ninguém absolutamente neutro, quando se tem que fazer uma escolha.  O que devemos fazer, enquanto magistrados, é procurar,  com pertinácia,  valorizar o melhor, o mais trabalhador, o mais honrado, o de melhor postura, o que tenha uma vida e reputação ilibadas, alguém, enfim, que venha somar, com a sua experiência e cultura jurídica,  para valorização da Corte.  Nós somos responsáveis pelas nossas escolhas. Escolher um candidato por comiseração, porque seja o mais antigo, porque que lhe resta, por exemplo,.  pouco tempo para aposentadoria, é humanamente compreensível, mas, no mesmo passo, um rematado equívoco.

Belo exemplo

Tenho dito que a vida é a nossa melhor escola. Quando assumimos  o papel de aprendiz, a vida nos ensina a superar as nossas fraquezas e a ponderar as nossas forças, para delas não fazer mau uso.

Com a vida só não aprende quem não quer. Eu mesmo, a cada dia, a cada hora, a cada erro ou acerto vou colhendo informações que são úteis para a minha relação com as pessoas. É dizer: sou aluno dileto da escola da vida.

Complicado? Sou, sim, afinal, todos somos. Mas a culpa é minha e não da vida.

Irascível? Depende, afinal, todos nós, dependendo das circunstâncias, somos irascíveis.

Vaidoso? Menos do que imaginam e comentam, mesmo porque, de rigor,  um pouco vaidoso todos somos.

Prepotente?  Muita fama e quase nada de prepotência. Não é do meu feitio. Mas é uma fama que conquistei e que dela não  consigo me libertar. Bem que eu gostaria de ter a fama de uma pessoa dócil, fraterna e amiga.  Todavia, não a tenho.  Fazer o quê?

O certo e recerto é que, com a vida e com os exemplos que captamos no dia a dia, muito aprendem e outros, nem tanto.

Me aventurei fazer essas reflexões, que não são nenhuma novidade, em face de  um episódio que testemunhei numa emissora de rádio; a rádio Bandeirantes de São Paulo, para ser preciso.

Explico. Estava eu, por volta da meia-noite e meia, ouvindo a Rádido Bandeirantes, depois da conquista da Copa América pelo Corinthians ( não sou corintiano mas torci a favor) ,  quando o âncora, Milton Neves, cumprimentou Dudu Braga, filho de Roberto Carlos, que estava no estádio Pacaembu, assistindo ao jogo Corinthians e Boca Junior. Dizia Dudua Braga estar afônico só de tanto gritar. Nessa hora, Milton Neves indagou sobre a sua visão e como é que ele, cego, praticamente, ia ao estádio e ainda vibrava com os gols que ele não via. Ele respondeu, então, que via pelo coração e que, sendo o seu coração corintiano, restava claro que ele tinha visto os gols, mesmo porque estava envolvido pelo clima proporcionado pela fanática torcida corintiana.

É assim, a toda evidência, uma extraordinária lição de vida.  Dudu Braga bem que podia se recolher e amaldiçoar o mundo, por ter ficado cego, tendo todas as condições materiais para enfrentar o problema. Mas não. Ele, mesmo vendo apenas um clarão, como disse ao âncora, saiu de casa e foi assistir, com o coração, o jogo do seu time de futebol.

Que belo exemplo, heim?

Negando a jurisdição

É dever do estado criar mecanismos que possibilitam a todos o acesso ao Poder Judiciário. Pode passar ilusório, mas é isso mesmo que preconiza a nossa Constituição.

Possibilitado o acesso, é necessário, agora, que as instâncias funcionem a contento, para que a prestação jurisdicional seja entregue sem mais tardança, como, aliás, também preconiza a nossa Carta Política.

Os empecilhos ao acesso e a demora na entrega da pestação jurisdicional, que a Constituição diz que deva ser em tempo razoável,  equivalem, a um só tempo, a negar a própria jurisdição e a afrontar, na mesma balada a Constituição Federal, que preconiza ser direito de todos buscar a reparação de dano  ou ameaça a direito junto ao Poder Judiciário, a quem cabe a resolução dos conflitos.

Essas reflexões, que apenas reafirmam o óbvio, decorrem do que testemunhei, hoje, pela manhã, no gabinete do Dr. Alexandre Lopes, responsável, nos dias presentes, pela 7ª Vara Cível;  é que, lá,  fiquei estupefato com a quantidade de processos em curso naquela unidade, muitos dos quais – diria a maioria – sem nenhuma possibilidade de solução a médio prazo.

Em face da  quantidade de processos em curso naquela vara, reafirmo ser   humanamente impossível a solução dos conflitos neles formalizados, a tempo e hora, o que equivale, no mesmo passo, à negativa de jurisdição.

Uma das solução que entrevejo, para uma infinidade de demandas –  em curso e a serem formalizadas – é a solução amigável dos conflitos, o que será possível com os  Centros  Judiciários de Solução dos Conflitos e Cidadania, previstos na Resolução  125, do CNJ.

Nos próximos dois meses espero inauguar pelos menos mais quatro Centro de Solução de Conflitos, sendo três em São Luis e mais um em Imperatriz.

Constrangedor

É constrangedor, sim, ler nos diários notícias  que há colegas que recebem cem, duzentos, trezentos…seiscentos mil reais por mês. Isso, sím, é um descalabro. Não consigo compreender como são feitos esses cálculos. Sei, no entanto, que,  sejam quais forem os meios através dos quais se chegou a esse patamar, ainda que sejam legais, são imorais. Um magistrado não pode receber um salário de seiscentos mil reais como se fosse uma coisa normal. Normal não é! Por isso, os que recebem esses altos salários têm que vir a público se explicar; se é que é possível explicar.

Por essas e por outras é que estamos com a nossa credibilidade se esvaindo. E quando a sociedade não mais acreditar no magistrado, aí, meu amigo, chegamos ao fundo do poço.

Políticos aprontam todas e não mais supreendem. O povo parece que, em relação a eles, não mais se surpreende, conquanto devamos admitir que não são todos farinha do mesmo saco. Agora, um magistrado? Bem, aí me parece que chegamos ao fim da linha.

Agora, é apelar para Deus!

Todos podem ser votados

Todos que têm oportunidade indagam de mim em quem votarei para composição da nova lista tríplice para escolha do novo desembargador.  A todos dou a mesma resposta:  comporei a minha lsita  com os que, desde meu olhar, à luz dos dados fornecidos pela Corregedoria e de sua própria história,  sejam os melhores, os mais destacados, os mais éticos, os mais dedicados, os que fazem da judicatura um sacerdócio. Dentre estes estão, inclusive, os que não têm nenhuma relação de amizade comigo, ou os que, no meio do caminho, por uma desinteligência qualquer, romperam relações comigo. É, para mim, nessa questão, a meu sentir, não está em jogo a simpatia ou a amizade. O que importa é que o escolhido traga a sua história de credibilidade e de honradez, para a nossa  instituição.

Que fique claro, portanto, que nenhum dos concorrentes está, de plano, alijado da minha lista, pois quando voto não faço distinção entre os menos amigos e os mais amigos, entre os menos e os mais simpáticos, entre os mais belos e os mais feios.Esse tipo de discriminação não faço. Todos concorrem na mesma condição.

Importa consignar, portanto,  que todos podem ser votados. Ninguém deve termer um vendeta de minha parte, nem se preocupar em pedir voto, prática que, definitivamente, abomino, pelo que ela contém de nociva para instituição.

Constrangedor

Definitivamente, não é fácil – e nem prazeroso – punir um colega. É por isso que, nas corporações, quase nunca se pune os desvios de conduta, pois, para fazê-lo, é preciso ter coragem.

É chato, sim, é constrangedor, não se pode negar, apontar o mal-feito de um colega.  Mas é nossa obrigação fazê-lo, ainda que em detrimento de uma amizade ou correndo o risco de não ser compreendido.

Na sessão de ontem, por exemplo, na qual me manifestei, veementemente, sobre a necessidade de afastamento de um colega, confesso que, em dado momento do meu voto, senti-me constrangido com a  presença  dele na platéia. E por que senti-me constrangido? Porque, sem nenhum prazer, fui obrigado a expor determinadas peculiaridades da ação do colega, enquanto julgador; peculiaridades que, certamente, não eram do conhecimento da absoluta maoria dos presentes.

E  por isso que, repito, não é fácil punir um colega. Mas nós não podemos nos acovardar. Se necessário, temos que punir, pois, se não o fizermos, o CNJ faz.

Quando assumimos determinadas posições, dentro de uma corporção, haverá sempre quem ache que estamos querendo ser mais realistas que o rei.  É por isso que, historicamente, os Tribunais, por exemplo,  têm sido acusados de  paciomoniosos com os desvios de conduta.

Apesar de tudo, disse, no meu voto, com o necessário comedimento, mas com firmeza, aquilo que entendi pertinente, para acompanhar o voto corajoso do Desembargador Jamil, no sentido de que fosse afastado o colega de suas funções, até que se decida o PAD.

Os que eventualmente não tenham gostado da minha manifestação, só posso dizer que não decido para ser simpático, sobretudo quando está em jogo a credibilidade da instituição a que pertenço e sirvo com devoção.

Da última fornada

O Juiz Thales Ribeiro, antes do julgamento, pelo Pleno do TJ/MA, do pedido de abertura de processo administrativo disciplinar em seu desfavor, teve o cuidado de, antes, conversar com alguns desembargadores, tentando, claro, adeptos para sua tese. Até aí, nada a objetar.

Nessa perspectiva, ele  esteve no meu gabinete, onde ponderou, dentre outras coisas, não ser verdade que tivesse permitido que pessoas estranhas à magistratura tivessem realizado audiências de instrução e julgamento em seu lugar, o que, a ser verdade, é um absurdo.

Ouvi o colega com o respeito que para mim merece qualquer cidadão.

Ocorreu, entrementes, que, ao procurar o Desembargador Raimundo Melo, Thales Ribeiro, insatisfeito com as colocações do colega acerca da sua atuação, teria destratado o mesmo e promovido um razoável escândalo nos corredores do TJ/Ma.

Não vou entrar no mérito para não correr o risco de ser injusto. Agora, destratar um ser humano como o desembargador Raimundo Melo, conhecido pela sua educação e trato respeitoso para com o semelhante, afigura-me, num primeiro juízo, um rematado equívoco, digno do mais veemente reproche.

O desembargador Raimundo Melo, para quem não conhece, é desses seres humanos que, como se diz popularmente, não ofende a comida que come, daí a minha estupefação com o episódio.

O desembargador Raimundo Melo, nesse mundo de vaidade e prepotência, consegue não ser nem uma coisa e nem outra. Ele é,  simplesmente, um gentleman, pessoa da melhor estirpe, talvez da  última fornada de cavalheiros de berço  que se tem notícia.Ele é simples, sem ser simplório,  humilde sem ser pusilânime, razão pela qual amealhou, sem esforço algum,  a respeitabilidade e a consideração do mundo jurídico maranhense em geral e dos seus pares, em particular.

Por tudo isso é que repudio, com a veemência devida, as descortesias do juiz Thales  Ribeiro para com o nobre  e respeitabilíssimo colega Raimundo Melo.

Injustiça faz doer a alma

Não há nada que me agaste mais que ser injustiçado. Quando somos acusados de algo que não fizemos, é a nossa alma que sente a dor mais forte.

Hoje à tarde, ao chegar ao Tribunal de Justiça, para fazer um interrogatório e elaborar os acórdãos da sessão de ontem, lembrei-me, depois de uma troca de prosa com o advogado José Carlos Sousa e Silva, que o professor Doroteu Soares Ribeiro morreu convicto que sou desonesto.

Confesso que desde o dia que fui advertido dessa certeza que ele tinha de que eu sou desonesto, em face de acusações levianas de alguns políticos desclassificados de uma determinada comarca, passei muito anos sofrendo e me escondendo para não ter que me encontrar com ele, pois eu não sabia como provar-lhe da minha retidão.

Esperei muito pela oportunidade de pelo menos dizer-lhe que tudo que ele sabia decorria de um sentimento de vingança de um determinado grupo político, que havia perdido uma eleição municipal. Não tive tempo. Antes desse encontro tão agaurdado por mim, o professor Doroteu faleceu.

Até hoje sofro por não ter podido desmentir os calhordas.

Essa é uma das injustiças que mais dói em em mim; e doerá enquanto vida eu tiver.