Aqui se faz; aqui se paga

downloadMinha mãe costuma repetir o apotegma, como um bordão: “aqui se faz; aqui se paga”.

Esse aforismo traduz a esperança que ela tem, desde sempre, de que os que façam maldades paguem por elas ainda em vida, aqui na terra, para que todos testemunhemos – e para que sirva de exemplo –  que não vale a pena fazer maldades, perseguir as pessoas, roubar, matar ou qualquer outro tipo de ilícito penal ou moral.

A vida nos tem ensinado que não é bem assim.

Há muitos que fazem maldades e vivem uma vida de plena felicidade e de conquistas. Há muitos que, para ascender, vendem a alma ao diabo, e ascendem, conquistam, alcanças, posam de vencedores, esnobam, debocham dos tolos, ostentam, sorriam da nossa cara…

Há vários exemplos. Não preciso citá-los, pois.

O bom seria mesmo se assistíssemos, para o nosso deleite, os malfeitores pagando, à nossa vista, pelos seus erros.

Infelizmente, o que temos assistido é a vitória dos espertalhões, a estimular outros e outros espertalhões.

Aqui e acolá, é verdade, testemunhamos, só para não perder a fé,  a queda de um calhorda, de um malfeitor, de bandidos dos mais variados matizes.

Para ilustrar, apanho na história do Brasil um exemplo emblemático.

Durante dez anos, Mem de Sá, escolhido, cuidadosamente, pelo rei D. João III, de quem era amigo, para substituir o desastrado Duarte da Costa, exterminou milhares de indígenas, dizimou centenas de aldeias e estimulou o tráfico de escravos.

Ao mesmo tempo, amealhou uma enorme fortuna pessoal, em razão do tráfico de escravos, de suas fazendas de gado, dos seus engenhos de açúcar e da exportação do pau-brasil.

Todavia, pagou um preço alto: numa expedição enviada ao Espírito Santo, em abril de 1558, para combater os Aimoré, foi morto seu filho Fernão.

Nove anos mais tarde, vítima de uma flecha, morreria seu sobrinho Estácio de Sá, na luta contra os franceses e Tamoios pela conquista do Rio de Janeiro.

A filha Beatriz, de 12 anos, e a mulher, Guiomar, estavam mortas, também.

Em 1569, após redigir o seu testamento, enviou uma carta ao rei, lamentando: “Sou um homem só.”

O que mais ele temia, acabou acontecendo, finalmente: morreu aqui,  e aqui foi enterrado, sozinho, esquecido pela corte.

Antes, em 1568, quase aos 70 anos de idade, há mais de uma década como governador-geral, Mem de Sá escreveu uma carta ao rei de Portugal. Na carta, dentre outras coisas, implorava para que fosse mandado outro governador, pois que tinha receio de morrer em terras nas quais se julgava degredado.

De nada adiantou. Morreu só por essas bandas. Rico, sim, mas infeliz.

É isso!

Somos loucos e irracionais

leaoSegundo os estoicos, ser sábio é tomar a razão como guia; ser louco é deixar-se levar ao sabor das paixões. Nesse sentido, posso afirmar que todos somos um pouco loucos, pois, não raro, abdicamos da razão para agir movidos pela paixão, conquanto, de minha parte, tenho procurado, sempre, ser racional – e tenho conseguido, na maioria das vezes.

O homem, penso, não deveria se orgulhar de vencer uma disputa, sobretudo no campo das ideias, que não fosse pela razão e pela inteligência.

Não é a força, de qualquer viés, que deve, na minha avaliação,  preponderar numa contenda.

Não é levantando a voz ou dando murro mesa que se vence um debate, que fazemos prevalecer as nossas ideias.

Muitas vezes, é preferível sair “derrotado” que “vencer” uma refrega na base da lei do mais forte, que, na verdade, esconde atos de covardia.

É inaceitável, de mais a mais, que o homem, como ser racional, não se dê conta quando, numa disputa, deixou de agir com a razão para agir movido pela paixão; paixão que cega, que obnubila a mente, que leva à irracionalidade; irracionalidade que nos leva aos desatinos e por caminhos muitas vezes íngremes e sinuosos, do tipo que não permite que por ele mesmo retornemos depois.

Quando, na defesa de uma tese, o debatedor  alevanta  voz para tentar sobrepujar os argumentos do oponente, o faz como age os animais selvagens, com o uso força e da violência desnecessárias.

Fico sempre com a sensação de que quem mais grita é quem menos argumentos tem para o debate, é quem menos tem razão. Por isso eleva a voz, gesticula, esbugalha os olhos, aponta o dedo, ruboriza, olha para os lados em busca de um aceno, de uma manifestação que seja, na vã tentativa de se convencer a si próprio que está certo.

Uma “vitória” nesses moldes, antes de orgulhar, deve, ao revés, envergonhar o contendor.

Os leões, os ursos, os javalis,os tubarões, dentre outros, combatem com a força física, o que é muito natural; o homem, inobstante, dotado de inteligência e discernimento, não deveria sob qualquer pretexto usar da violência, nas suas mais diversas formas,  para sobrepujar aquele que elege como seu i inimigo ou algo semelhante.

Retomando a obra ficcional de Thomas Morus ( A Utopia), anoto que os utopianos lamentavam e chegavam mesmo a envergonhar-se com a informação de,  numa contenda, um dos contendores ter alcançado a vitória  de forma sangrenta, considerando mesmo uma loucura alcançá-la por esse preço.

Os mesmos utopianos se alegravam quando a vitória era  alcançada pela inteligência e pela astúcia, pela força dos argumentos.

Quando, numa discussão, me virem deixar o proscênio, não pensem que me deixei abater, que saí derrotado; eu, simplesmente, me recuso a discutir qualquer questão, que não seja em alto nível, sobretudo durantes os julgamentos dos quais participo, nos quais se exige do magistrado mais equilíbrio e sensatez.

Ambição pelo poder

poder202_0Há uma teoria segundo a qual todas as nossas motivações, todas as nossas energias, enfim,  não passam de aspirações pelo poder. Essa seria, pois, segundo a teoria, a essência da energia humana.

Hobbes, nessa linha de compreensão, entendia que o movimento primário de todo ser humana é, sim,  em direção ao poder.

É de Hobbes a conclusão: “[…]evidencio uma inclinação geral de toda humanidade, um perpétuo e incansável desejo de poder após poder, que só cessa com a morte”. Por causa disso, entendia que devia haver um poder absoluto para controlar o homem[…]” ( apud Martin Cohen, Casos Filosóficos, 2012, p.135)

Sei não…Acho que comigo não ocorre bem assim!

Em verdade, posso afirmar, eu não tenho nenhuma ambição de poder. Sinto-me, essa é a verdade, acanhado no poder.

Estranho, não!?

Não peçam para eu explicar porque não saberei fazê-lo.

Não é nada patológico, inobstante. Vou me contorcendo e vou levando.

Não chego, pois, a me angustiar.

Aliás, acho que nem mesmo na minha casa eu sei exercer o poder. Tenho dúvidas, sim, se sei exercer o poder de pai, pois eu sempre compreendi – e compreendo – que o melhor que posso fazer é dar exemplo. Mais do que isso me julgo incapaz de fazer.

Não sei repreender.

Não sei gritar.

Não sei castigar.

Não dou murro na mesa.

Não dou contraordem.

Não desmancho o que está feito.

Não falo alto e  não fomento discórdia.

Alias, digo, com a necessária ênfase: não tolero discórdia.

Quem apostar na discórdia vai perder comigo, pois, os que estão em volta de mim sabem que  só sei viver em paz; sou viciado em paz.

Qualquer desentendimento, mínimo que seja,  me agasta, me tira do sério, me faz soturno, sorumbático…

Eu gosto de seguir dando o exemplo; de preferência, claro, bom exemplo. Pelo menos, penso assim.

Mas posso estar equivocado. Aliás, para ser bem sincero, eu nem sei se dou bons exemplos, a considerar os valores morais atuais e a considerar que, como qualquer pessoa, eu também posso me deixar levar pelas tentações do mundo.

Mas retomando a teoria em comento, anoto que ela proclama que até mesmo o sexo pode se traduzir em categorias de poder, “seja porque queremos possuir o corpo de outra pessoa – e, portanto, possuímos a pessoa completamente -, seja porque achamos que, ao possuí-lo, impedimos outros de fazê-lo; ambas as situações nos permitem a satisfação do poder que exercemos sobre alguém” ( Leszek Kolakowki, in Pequenas palestras sobre grandes temas, editora UNESP, p. 12)

Apesar da teoria, reafirmo que não me dou com o exercício do poder; há muitas razões para isso.

Vou tentar elencar mais algumas que me ocorrem agora.

Sou tímido; sou acanhado.

Não sei dominar; quando julgo ter dominado, na verdade eu é que  estou quase sempre dominado.

Não sei traficar influência.

Não sei pedir – nem para mim, nem para ninguém.

Não sei influenciar.

Não gosto de deixar transparecer que eu possa estar  podendo.

Não me apraz os excessos de cortesia em face do meu cargo.

Não gosto de ser o alvo das atenções.

Tenho medo de parecer arrogante.

Piso sem firmeza quando percebo que estou chamando a atenção.

Não gosto de solenidades.

Não quero ser presidente do Tribunal de Justiça.

Não quero ser Corregedor.

Não tenho aptidão para mandar em ninguém.

Não sei fazer cobranças.

Não sei passar reprimenda nas pessoas.

Não gosto de ser deselegante.

Não gosto de parecer que sou melhor do que ninguém.

Não tenho fascínio de carro preto.

Não faço questão de andar com motorista.

Sou do tipo que se acanha quando é servido.

Não gosto de privilégios.

Não gosto de furar filas.

Não sei quando vou usar as minhas prerrogativas de idoso, pois me constrange ver pessoas saudáveis fazendo uso da prerrogativa por entender que direito é direito e ponto final.

Se entro num restaurante, piso em ovos com medo de ser reconhecido.

Não suporto quando me apresentam em algum lugar priorizando o cargo que exerço.

Fico muito mal quando constato que sou pouco importante como ser humano  e que, em certas ocasiões,  não fosse pelo cargo, não seria sequer cumprimentado.

Para mim, essa história de poder é muito complicada.

Prefiro ser apenas eu; nada mais.

Tudo o mais, para mim, parece excesso.

Gosto das coisas simples.

Gosto, até, de fazer  compras na Rua Grande.

As situações que envolvem poder sempre deixam mal.

Na verdade, me sinto fragilizado diante do poder.

O poder me assusta e me impulsiona na direção da minha casa, onde me sinto revitalizado.

Indago: uma pessoa que esse perfil pode se dar bem com o poder?

Como amar o poder  se o poder me assusta?

Tributo ao colega Stélio Muniz

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O nosso estimado colega Stélio Muniz deixará o proscênio; com a lucidez e o tirocínio inalterados,  vai, com certeza, prestar o seu labor em outra atividade – devendo fazê-lo, claro, com a sua proverbial proficiência e honradez, atributos que emolduraram a sua profícua e exemplar ação judicante ao tempo em que serviu, com desvelo e denodo, ao Poder Judiciário do nosso Estado.

José Stélio Muniz, para deleitação dos que pensam e agem como ele – e dissabor dos que agiram ou agem noutra linha de conduta -,sai como entrou: limpo, íntegro, reto, probo, digno, humano, honrado, admirado e reconhecido pela comunidade jurídica maranhense, donde não se ouve um único zumbido tendente a deslustrar a sua ação enquanto magistrado zeloso e pai de família extremado.

O Poder Judiciário do Maranhão perde, pela força inexorável do tempo, um dos seus mais ilustrados e bem-afamados integrantes; homem de boa cepa, dos mais dignos e representativos de sua geração, cuja atuação, correta e exemplar, ficará marcada, com cores vivas, em face  de sua profunda afeição e excessivo desvelo para com a res pública, numa quadra na qual somos bombardeados, todos os dias, com a veiculação de notícias dando conta da confusão que se tem estabelecido entre o público e o privado, como uma erva daninha a fragilizar as nossas instituições.

O colega Stélio Muniz é daqueles homens públicos de postura moral irrepreensível, de correção profissional admirável; espécie rara, do tipo quase em extinção, dos que dão estatura moral à instituição a que pertencem, que vergam em face das intempéries, dos contratempos e dos dissabores, mas que, duros como uma rocha, sem radicalismos e sem excessos, não quebram, não fazem concessões que não sejam legítimas, não se deixam seduzir pelo beneplácito que o poder proporciona e que a tantos fascina e leva de roldão.

De formação moral sólida, de abnegação e intrepidez inigualáveis, vai fazer falta – eu já sinto a sua falta. Todos sentiremos a sua falta!  A comunidade jurídica sentirá a sua falta, pois que sua ação judicante foi sempre uma garantia ao jurisdicionado de uma decisão bafejada pela correção e imparcialidade.

Assistimos, estupefatos e impotentes,  a passagem implacável do tempo; tempo que, em relação ao Poder Judiciário, tem nos roubado, nos últimos anos, muitos dos mais conspícuos protagonistas da moral, artífices de conduta ilibada que tanto nos fazem falta: Carlos Aires Brito, Cezar Peluso, Eros Graus, Sepúlveda Pertence, Francisco Rezek , Sidney Sanches, Paulo Brossard, dentre outros ilustrados e renomados juristas brasileiros.

Com o Poder Judiciário do Maranhão não tem sido diferente. Assim é que, nos últimos anos, temos perdido para o tempo nomes destacados da nossa corporação; destacados não só pela retidão, mas, sobretudo, pelo zelo e lucidez com que trataram as mais diversas e complexas demandas judiciais submetida à sua intelecção.

O estimado colega Stélio Muniz deixa o Poder Judiciário e entra para história como um dos mais honrados magistrados da nossa geração, do qual todos temos que nos orgulhar, mesmo aqueles que eventualmente não concordem com as suas posições.

O magistrado Stélio Muniz escreveu, na minha avaliação, algumas das páginas mais dignas que um homem público pode escrever, estando no exercício do poder, poder que nos impõe, não se há de negar, determinadas provações e mimos; mimos e provações que muitos, por fraqueza ou ambição, não são capazes de resistir.

Stélio Muniz deixa o tablado, sai de cena, verá o pano cair com a costumeira dignidade. Mas, que bom!, deixará o palco como um magistrado honrado e probo. Será, doravante, para mim e muitos outros, um paradigma, uma referência, um exemplo, uma figura destacada, que nunca deslustrou a toga, conquanto se tenha que admitir que, aqui e acolá, como ser humano que é, deve ter cometido os seus erros, incorrido em equívocos, os quais, inobstante, apenas reafirmam a sua condição de ser humano.

Pessoalmente, sentirei falta, sim, do estimado e correto colega Stélio Muniz, de quem sempre esperei, nunca embalde,  nos nossos julgamentos, a palavra sensata, equilibrada, altiva, ponderada, elegante, atenciosa, respeitosa – sempre no mesmo tom, às vezes monocórdica, sem ser monótona, mas sempre benfazeja e oportuna, a mostrar, pelo menos para mim, a direção, o caminho, o norte, o rumo a ser seguido, como se fosse uma bússola, como se fora um GPS a me conduzir a um porto seguro.

Desde que cheguei no Tribunal de Justiça, tenho observado, com a devida atenção, o comportamento de todos os colegas. Faço isso porque tenho no sangue o vírus do cronista. E como cronista devo estar sempre atento aos fatos da vida, pois de um determinado acontecimento, muitas vezes irrelevantes para muitos, nascem as crônicas que escrevo.

Como me ponho a perscrutar e analisar, sempre e sem trégua, tudo que está em meu entorno,  me impressionei, desde os primeiros dias de atuação no segundo grau, com a capacidade de discernimento, o equilibro, a sensatez e o tirocínio do colega Stélio Muniz.

Sempre me impressionou, de mais a mais, a sua capacidade de captar o sentido dos votos que proferimos, mesmo quando se imagina que ele possa não ter estado atento.

É esse egrégio magistrado, da melhor cepa, de postura moral exemplar, de conduta retilínea e ilibada que vai nos deixar em poucos dias, por conta da passagem inclemente do tempo.

No momento em que se exige mais e mais de um magistrado – de qualquer homem público, enfim – , que, além de diligente e estudioso,  seja também prudente e equilibrado, nós vamos perder para o tempo um dos nossos mais destacados quadros, que deixa o palco sem uma mácula sequer em sua vida profissional, que sai de fronte erguida, na certeza de que a história lhe fará justiça.

Quando nos tornamos inúteis

Nada é mais absoluto: em determinado momento da vida, nós não seremos mais úteis; e, nessa condição de inutilidade, somos (?) todos descartáveis.

Por isso a indagação: quando não somos mais úteis, como devem proceder em relação à nossa pessoa? Devemos, pura e simplesmente, ser descartados, como se descarta um bagaço de laranja?

franz-kafkaA verdade é que, enquanto as pessoas são úteis, elas tratados com alguma  consideração e, às vezes, até fidalguia, sobretudo pelos que dependem delas.

Mas um dia chegará que, mesmo as pessoas mais próximas, nos verão como um peso difícil de ser carregado. Nesse cenário, pode surgir a singela ideia de livrarem-se de nós.

Lembro, a propósito, de Gregor Samsa, protagonista da novela Metamorfose, de Franz Kafka.

Gregor Samsa, antes da metamorfose, não tinha vida própria: vivia para a família, trabalhando a plena carga, como caixeiro viajante, pois todos dependiam dele.

Determinado dia, transformado num inseto, dá-se conta de sua inutilidade; inutilidade que leva a sua própria família a cogitar a sua morte.

É dizer: no momento de maior dificuldade, em face de sua transformação,  Gregor, que tão útil tinha à família, descobre que não tem nenhum valor, passa a ser tratado como algo que deva ser descartado, sem mais demora.

A irmã de Gregor Samsa, diante do quadro, em determinado instante concitou os próprios pais a se livrarem do irmão metamorfoseado, o fazendo, fria e calculadamente, como entremostra o excertos abaixo transcrito, apanhado, in verbis, da novela de Kafka:

Queridos pais – disse a irmã, dando à maneira de introdução um forte soco sobre a mesa – , isto não pode continuar assim. Se vocês não compreendem, eu percebo isso. Diante desse monstro, não quero nem mesmo pronunciar o nome do meu irmão; e portanto apenas direi isto: é forçoso tentar livrar-nos dele. Fizemos o que era humanamente possível para cuidar dele e tolerá-lo e não creio que ninguém possa fazer-nos a menor censura.

– Tens mil vezes razão – disse então o pai.

Mais adiante, fascinada pela ideia de se livrar do irmão metamorfoseado, ponderou, ademais:

-É preciso que ele se vá – disse a irmã. – Este é o único meio, pai. Basta que procures desfazer a ideia de que se trata de Gregor. O tê-lo acreditado durante tanto tempo é na realidade a origem de nossa desgraça. Como pode isto ser Gregor? Se assim fosse, já há tempos teria compreendido que não é possível que alguns seres humanos vivam em comunhão com semelhante bicho. E a ele mesmo teria ocorrido partir. Teríamos perdido o irmão mas poderíamos continuar vivendo e sua memória perduraria eternamente entre nós.

A metamorfose, de Kafka, nos induz a refletir sobre o comportamento humano e a indagar, nos mesmo passo: o que nós, leitores, numa situação semelhante, seríamos capazes de fazer? O ser humano, afinal, quando deixa de ser útil, sejam quais forem as razões, deve, pura e simplesmente, ser descartado?

Pense nisso!

Reflexões sobre a vida e a obra de um otário

Ele sempre foi para os seus pares um tipo insuportável. Era do tipo contido, calado, às vezes antissocial.

Cara amarrada, de trajes despojados, mas muito engomados, daqueles que até os fios de cabelos parecem ter sido rigorosamente arrumados.

Ele era do tipo que gostava de chegar cedo ao trabalho, que não atrasava os compromissos, que honrava a hora marcada. Era, pode-se ver, um chato, do tipo intragável – pelo menos para aqueles que agiam e pensavam de forma diferente.

Ele era do tipo que parecia estar sempre apressado. Parecia que nunca tinha tempo para uma roda de bate-papo. Em face da pressa, quase sempre deixava de cumprimentar as pessoas que encontrava pelos corredores do local onde trabalhava.

A cara sisuda e a testa quase sempre franzida faziam dele um ser quase impenetrável – e quase intragável.

Era do tipo que, à primeira vista, parecia arrogante e prepotente, sobretudo para quem não lhe conhecia e para os que viam na sua retidão uma afronta.

Ele estava sempre absorto; parecia contemplativo, enlevado, extasiado. Era do tipo que parecia viver voando, desligado dos pecados da terra. Deixava transparecer que, fora do seu ambiente de trabalho, nada mais existia.

Por ser do tipo empedernido, cumpridor radical de suas obrigações, granjeava, no primeiro momento, a antipatia dos que tinham que com ele lidar, em face do seu ofício.

Muitos foram os que externaram o pavor que tinham de lidar com ele, muito embora os que se aventurassem a fazê-lo em pouco tempo percebiam que se tratava de uma pessoa cordata, atenciosa, prestativa, diligente, honesta e desejosa de, na sua profissão, fazer o melhor para ajudar o semelhante.

Algumas poucas pessoas que tinham acesso a ele sempre advertiam que ele ia morrer e o trabalho ia ficar; outras pessoas o advertiram por quase toda a vida, que ele não ia consertar o mundo. Outras tantas lhe lembravam que só trabalhar e trabalhar não lhe renderia o reconhecimento que merecia.

Mas esses conselhos não lhe impressionavam. Ele não dava importância para esse tipo de comentário.

Às pessoas que pensavam assim ele sempre dizia que pouco importava o reconhecimento dos seus pares, pouco importava que as pessoas o achassem um tipo medonho e abominável.

Para ele bastava a consciência de que cumpria o seu papel, sem enleio, sem embaraço, sem tergiversar, sem fazer concessão – obstinadamente, freneticamente, decididamente.

O tempo passou, os cabelos ficaram encanecidos, a pele foi encolhendo, o coração foi cansando, o raciocínio foi se perdendo, a memória foi se esvaindo.

Mas ele, ainda assim, estava lá, pé fincado no trabalho, sem arredar, sem se curvar, sem fazer concessões.

O andar, antes frenético, agora é trôpego, vacilante; o olhar, antes fugidio, arredio, agora já não vislumbra, com a nitidez de antanho, o horizonte.

Mas ele é duro como pedra; inflexível, não muda nunca – vai adiante com as suas fortíssimas e inabaláveis convicções. Continua na sua luta obstinada para honrar o seu mister, para cumprir as suas obrigações, para ser digno do salário que recebe dos cofres públicos. Nessa senda, não faz concessões, finca o pé – “não arredo nem para um trem”, costuma dizer.

Os mais jovens têm em relação a ele sentimentos contraditórios. Para alguns, ele é o exemplo acabado do que deve ser um homem público; para outros, um careta, démodé, boboca,do tipo que pensa que vai consertar o mundo.

E o tempo vai passando. O corpo, agora, lhe pesa, literalmente. O tempo é implacável. Não tem mais agilidade. Doem-lhe as juntas. Andar, já é um sacrifício.

Mas ele insista! Não muda! Chega cedo ao trabalho, cumpre o pactuado e quase nunca se atrasa.

É do tipo ranheta.

Continua acreditando que vale a pena ser honesto, pontual, trabalhador.

Sabe que, nos dias atuais, esses predicados são uma caretice, estão desuso.

Mas… fazer o quê?

Agora, nos dias atuais, as críticas mais acerbas vêm dos próprios netos, os quais passaram a criticar-lhe a seriedade, a babaquice – debocham, achincalham, ridicularizam, escarnecem.

Mas ele, radical e intolerante, continua apostando na honestidade, na honradez, na seriedade, pouco importando se lhes reconheçam, ou não, os méritos. Acha que vale a pena ser assim: tolo, pouco inteligente para uns; honrado, virtuoso e digno, para outros

O tempo passou, sobreveio a aposentadoria e a saída da ribalta. Agora já não é mais o “doutor” que tinha algum poder nas mãos. É apenas mais um na multidão.

Para alguns, um homem de bem, um exemplo a ser seguido; para outros, um otário, um panaca, um boboca que, tendo o poder nas mãos, dele só fez uso para servir à comunidade.

Nunca se locupletou, nunca fez acordos espúrios, nunca se curvou diante dos poderosos – um péssimo exemplo para os sequazes das aves de rapina do serviço público, dos que imaginam que o poder é feito para ser rateado entre os amigos, para enriquecer, para tirar proveito, para obter vantagem.

Ele sabe, sempre teve a mais nítida convicção, que vai morrer assim.

Pouco importa a ele se, para muitos, ele não passa de um velho otário, um ingênuo, um tolo.

Tem certeza – contudo, pouco se importa – que vai cair no esquecimento.

Seu nome não vai aparecer em nenhuma galeria, seu retrato só ornamentará a cabeceira de sua cama – e não será por muito tempo.

Mas ele será sempre lembrado pelas pessoas honradas como o homem que viveu e vai morrer com dignidade, pois, mesmo os erros que cometeu – e não foram poucos -, não os praticou de má-fé.
Essas reflexões que faço acerca de um personagem fictício são uma homenagem que presto aos homens de bem de nossa terra, os quais, por serem retos, probos, cumpridores de suas obrigações, muito provavelmente morrerão – ou já morreram – sem que se lhes reconheçam os méritos, e, ainda por cima, são tidos e havidos como otários, por não terem sido capazes de trocar a sua dignidade por um cargo ou função ou de amealhar fortuna subtraindo verbas públicas.

O louco como a Loucura

O louco, como a Loucura,  que ser escutado, quer chamar a atenção; acha que, com sua presença, dissipam-se as inquietações, tudo se transforma, a terra se embeleza, a natureza rejuvenesce.

O louco, como a Loucura, acha que o que as pessoas sóbrias, os grandes pensadores não conseguem, ele, Louco como é, é capaz de conseguir, sem maiores dificuldades.

Como a Loucura, o louco também usa vestimentas bizarras, para chamar a atenção; pensa que está dominando, que tá tudo dominado, faz questão de exibir a marca famosa das roupas que veste, como se isso o distinguisse do sensato, do ético e do equilibrado.

O louco, como a Loucura, quer ser escutado como se escuta os bufões, os pantomimeiros, os saltimbancos, os charlatões das praças públicas.

O louco, como a Loucura, gosta de exaltar seus méritos – méritos na visão dele, claro – e contar, ele próprio,  as suas aventuras (rectius: loucuras), na suposição de que, contanto-as, galvaniza a atenção e a simpatia da platéia, porque, afinal, o tipo a que me refiro é do tipo exibicionista.

Como a Loucura, o louco louva-se a si mesmo, como no provérbio que diz: “se ninguém de louva, farás bem em louvar-te a ti mesmo”.

Como a Loucura,  o louco pensa, supõe que por ele todos têm veneração; reclama, como a Loucura, quando julga que as pessoas esquecem de celebrar os seus louvores.

O louco, como a Loucura, pensa que engana, que as pessoas não se dão conta de suas bizarrices; pensa que as pessoas lhes dão atenção porque mereça e não porque têm dó do seu distúrbio mental.

Como a Loucura, o louco não pensa antes de falar; diz o que vem à mente, sem temer pelas consequências.

Como a Loucura, o louco pensa que na terra ou ainda que seja somente numa corporação, ninguém é mais digno, mais adorado, mais sapiente, mais audacioso ou mais esperto que ele.

O louco, como a Loucura, não precisa se identificar: a sua fisionomia já exibe a sua condição de louco.

PS. Esse artigo é uma brincadeira reflexiva que faço inspirado no livro Elogia da Loucura, de Erasmo de Roterdã. Mas  não nego que conheço os loucos que inspiraram a brincadeira. Você também conhece; não negue!

Detalhe: A Loucura acreditava que na terra não havia homens mais felizes que os comumente chamados de loucos, insensatos, bobos e imbecis.

A Loucura justifica a sua conclusão: “…Em primeiro lugar, eles não temem de modo nenhum a morte, o que, certamente, não é uma pequena vantagem. Não conhecem nem os remorsos devoradores de uma má consciência, nem os vãos terrores que as histórias do inferno inspiram aos outros homens, nem os pavores que os espectros e almas do outro mundo lhes causam. Jamais o temor dos males que os ameaçam,jamais a esperança dos bens que podem obter seria capaz de perturbar por um só instante a tranquilidade da alma deles. Em uma palavra, não são dilacerados pela infinidade de preocupações que assediam continuamente a vida humana. Não conhecem vergonha, nem temor, nem ambição, nem ciúme, nem ternura…”. (in Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdã)

Poder de pai

Franz_Kafka_Brief_an_den_Vater_Sem nenhuma base científica, sem nenhum estudo aprofundado sobre a questão, tudo muito pragmaticamente analisado e concluído, posso afirmar que o que vivi na minha infância e adolescência – sobretudo – marcou a minha trajetória, definiu a minha personalidade, sobretudo em face da minha (pouco ou nenhuma) relação com o meu pai, que sempre foi, para mim, um enigma, algo que eu nunca consegui decifrar, ou melhor, que somente agora, aos 82 (anos), começo a compreender.

Mesmo sem nenhum diálogo com os filhos, mesmo trancado no seu mundo (criado por ele, especialmente para ele), meu pai tinha um enorme poder sobre todos nós, sem se dar conta das consequências do mau uso desse poder, das consequências para a nossa formação do uso abusivo do poder de pai.

A verdade é que, como meu pai, os pais – o pai, sobretudo – não têm a exata dimensão do que pode decorrer de suas relações com os filhos. Acho, por isso, que todos os pais deveriam passar por uma aprendizagem, pois que, afinal, ninguém nasce sabendo ser pai, muito embora todos tenham, de rigor, nascidos para ser pai.

A falta de noção, a insensibilidade para lidar com a autoridade de pai permite que muitos  ajam sem escrúpulos, sem o necessário desvelo, sem limites, sem nenhuma preocupação com o mal que possam estar fazendo aos filhos, em face do uso arbitrário do poder, a ponto de marcá-los, profundamente, para o resto da vida.

A Carta ao Pai, de Franz Kafka, nos leva, inexoravelmente, a reviver o nosso relacionamento com os nossos próprios pais – especialmente o pai -e à conclusão, inapelável, do quanto a falta de  sensibilidade de muitos deles marcou a nossa vida.

De qualquer sorte, todos sentimos – uns mais; outros menos, repito – em face da (falta de )relação complicada que tivemos com o nosso pai, convindo anotar que, no meu caso, a minha relação foi quase sempre marcada pelo mutismo dele, ; mutismo que até hoje reverbera em mim e que, decerto, reverbera nos meus irmãos.

Os pais – o pai, sobretudo – pensam que crianças e adolescentes não têm sentimento. Eles acham que, por isso, podem dizer tudo que lhes apraz, na frente de qualquer um, sem nenhuma preocupação em face dos efeitos dessas ações na formação da personalidade da criança.

Da Carta de Kafka apanho um excerto, só para ilustrar essas reflexões, a propósito das relação dos filhos com os pais, convindo gizar que, aqui como em qualquer outro lugar do mundo, as relações dos filhos com os pais pode ser mais ou menos complicada, afinal, quando a questão é sentimento e autoridade, nós só somos diferentes das máquinas, pois que essas não foram programadas para chorar e sofrer; não são, portanto, feitas à imagem e semelhança do homem.

Eis os brevíssimos excertos:

“[…]Para mim sempre foi incompreensível tua falta de total sensibilidade em relação à dor e à vergonha que podias infligir com palavras e veredictos; era como se tu não tivesse a menor noção da tua força. Também eu por certo muitas vezes te magoei com palavras mas depois sempre o reconheci e isso me doía, porém eu não conseguia me controlar, não conseguia refrear as palavras, já me arrependia quando as pronunciava. Tu, porém, golpeavas com tuas palavras, sem mais nem menos, não tinha pena de ninguém, nem durante e nem depois; contra ti a gente estava sempre completamente indefeso[…].

Hoje, depois de 35 anos volto, volto a conviver com o meu pai, com quem não convivi durante 80 anos de sua existência, para, agora, finalmente, compreender que ele, como eu e como todos nós, também é feito de carne osso e alma, e que, ademais, como eu, como você e como qualquer uma pessoa que tenha discernimento, assume os erros que praticou e que, por esses erros, só quer mesmo ser perdoado, e nada mais.